Alice Alvina Duarte de Bittencourt Adélia Rocha de Oliveira Stefani Valéria da Silva Barbosa Gimenes
NECA – Associação de Pesquisadores sobre a Criança e o Adolescente SP Programa Acordar, AEDHA - Campinas
Prefeitura de Franca
Resumo
O artigo reflete sobre a solidão e o medo que percorre as vidas dos adolescentes em acolhimento nos serviços de acolhimento institucional e familiar, suas con- sequências, a “des-filiação” social desses jovens e como o apadrinhamento pode contribuir para o amadurecimento e o pertencimento deles, além de trazer a sociedade para um voluntariado responsável.
Palavras-chave: Apadrinhamento afetivo, Adoção, Rede, Solidão.
Abstract
The article reflects on the loneliness and fear that runs through the lives of adoles- cents receiving care in institutional and family care services, their consequences, the social “helplessness” of these young people and how sponsorship can contribute to their maturation and belonging, in addition to bringin society to responsible volunteering.
Introdução
Em geral, ao pensarem a respeito do Apadrinhamento Afetivo, as pessoas ime- diatamente o relacionam a voluntários que passeiam com crianças e adoles- centes em acolhimento nos finais de semana e férias. Não está errado. Mas é preciso relacionar o apadrinhamento afetivo à experiência de ter um afilhado, da mesma forma que se têm afilhados na família ou de amigos que moram em um serviço de acolhimento e que serão para sempre afilhados. A lei 13.509 oficializa no ECA, em 2017, o apadrinhamento para crianças e adolescentes com remotas ou inexistentes chances de adoção. Isso significa que crianças e adolescentes que serão reintegradas as suas famílias de origem ou colocados em família substituta por guarda, tutela ou adoção, não devem estar nos pro- gramas ou serviços de apadrinhamento afetivo. Apenas aqueles que ficarão nos serviços de acolhimento, como moradores, até os 18 anos, deverão ser prepara- dos e encaminhados ao apadrinhamento.
Portanto, levando esse detalhe definidor em questão, o apadrinhamento vem para ofertar uma alternativa de referência de afeto para aqueles acolhidos que, como diz Castel (1997), são os “desfiliados” da sociedade. O conceito de “des- filiação” apresentado por Castel, em oposição ao conceito de exclusão social, pretende demonstrar a tendência ao enfraquecimento, ou a ruptura dos laços sociais que ligam o indivíduo à sociedade. Uma criança ou um adolescente, seres em condição peculiar de desenvolvimento (ECA. Art. 6) quando se veem institucionalizados, mesmo que seja em uma família acolhedora, sabem que todo o cuidado e proteção advindo desses espaços acaba ao completarem 18 anos. Este drama de solidão que amedronta e causa angústia aos adolescentes, principalmente, se manifesta no arrefecimento da rebeldia característica da fase adolescente, baixa significativa no rendimento escolar, agressividade dentro e fora do serviço de acolhimento, uso de substâncias psicoativas, engravidar a namorada e o contrário também pode acontecer, ou seja, engravidar do namo- rado. A solidão e a perspectiva de retornar para aquela família onde ele ou ela já não têm mais espaço é assustadora. O caminho desesperado para encontrar outras alternativas causa ansiedade e sofrimento.
...é preciso relacionar o apadrinhamento afetivo à experiência de ter um afilhado, da mesma forma que se têm afilhados na família ou de amigos que moram
em um serviço de acolhimento e que serão para sempre
198 | Anais do III Seminário Internacional de acolhimento familiar
Quando a proposta do apadrinhamento surge na vida desses “desfiliados” é en- carada como “mais uma coisa que inventaram”: “imagina se alguém vai gostar de mim se nem minha mãe gosta” e outras fantasias. A proposta está regula- mentada em uma lei federal, portanto, o primeiro argumento será o de que não é mais uma possibilidade para a criança ou o adolescente ter uma convivência familiar e comunitária, mas o seu direito a ter esse direito garantido. Os ado- lescentes e as crianças nesta condição devem ser preparados ludicamente para entenderem e aceitarem a conhecerem e escolherem padrinhos e madrinhas afetivos. Na perspectiva de ser um direito que deve ser efetivado, as equipes técnicas devem perseguir uma metodologia qualificada e cuidadosa que possa dar segurança de execução a todos os parceiros envolvidos: ao guardião dos acolhidos, aos afilhados, aos padrinhos e madrinhas e a Vara da Infância e Juventude como fiscalizadora do serviço.
O Apadrinhamento Afetivo vem sendo previsto desde o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (2006), passando pelas Orientações Técnicas para os Serviços de Acolhimento de Crianças e Adolescentes (2009), mas apenas foi efetivado em 2017 no ECA. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo inovou em 2015 lançando um Provimento de número 40 que detalhava e dava parâmetros para este programa ou serviço acontecer em todo o estado.
Sempre que se fala em apadrinhamento afetivo, os adolescentes são lembrados. Há alguns municípios onde o Juiz da Infância e Juventude baixa uma portaria que especifica a idade inicial para entrar no programa, em geral a partir dos 7 anos. A lei federal não coloca, sabiamente, nenhum apontamento quanto a isso, pois se sabe que mesmo crianças com menos de 7 anos de idade podem ter dificuldades para adoção por serem afrodescendentes, positivas para HIV ou outras doenças crônicas, deficiências físicas ou intelectuais ou por fazerem parte de um grupo de irmãos.
Podem ser padrinhos e madrinhas todas as pessoas acima de 18 anos e que não estejam inscritas ou habilitadas para a adoção. Estar em processo de habilitação para adoção ou já habilitado significa que a pessoa quer um filho e não um afilhado. Será que a pessoa não poderia apadrinhar enquanto seu filho não chega, já que se sabe que a criança até dois anos pode demorar até sete anos para chegar? Hipótese: se a pessoa é habilitada para adoção de um bebê de dois anos e espera há seis anos por esse filho, mas está apadrinhando uma criança
...não é mais uma possibilidade para
a criança ou o adolescente ter uma
convivência familiar e comunitária, mas o
seu direito a ter esse direito garantido.
Apadrinhamento afetivo: A solidão e o nosso tema | 199
cuja relação é excelente e que, a essas alturas já e um adolescente e, inesperada- mente, chega o filho de um ano. O que muda na relação com o afilhado? Pode aparentemente não mudar nada. Mas é possível garantir que o adolescente não olhará para aquela nova criança pensando “por que ele pode ser chamado de filho e eu não? ” O risco de que essa relação que era muito boa tornar-se ruim paulatinamente será bem grande. Não se deve arriscar uma decepção dessa amplitude para adolescentes que não têm referências de afeto outras que não sejam os padrinhos ou madrinhas.
A centralidade do apadrinhamento é sempre colocar a criança e o adolescente no centro de todas as ações e intenções. A concepção do cuidado e da proteção baseia-se nisso. É preciso insistir e não perder esse foco.
Outro dado que deve ser lembrado sempre é que o adolescente, que sairá em breve do serviço de acolhimento, é um ser solitário, desconfiado, que passou por muitas situações de violência e conflitos e tem muitas razões para não con- fiar nos adultos. Por isso, não se pode errar.
A seguir, serão apresentadas duas experiências de Apadrinhamento afeti- vo. A primeira, aconteceu no município de Franca, onde a Secretaria de Desenvolvimento Social em parceria com a rede socioassistencial e os serviços de acolhimento debateram e elaboraram em conjunto um serviço de apadri- nhamento que privilegiou a escuta e a participação dos afilhados. A outra ex- periência é a de Campinas onde a proposta da Secretaria também foi debatida pela rede, mas foi levada para o CMDCA que assumiu o financiamento dos três primeiros anos de execução por meio de uma parceria com uma ONG e depois como um serviço complementar da Proteção Social de Alta Complexidade no orçamento municipal.