Quem é parente? Quem é considerado da família? As respostas para essas per- guntas podem variar amplamente de acordo com a cultura e o momento his- tórico considerado. De modo geral, parentes são pessoas unidas por laços de consanguinidade ou de afinidade. Na primeira situação, os indivíduos estão vinculados a um mesmo ancestral comum, enquanto na segunda, sua conexão foi criada a partir do casamento ou da adoção, seguindo as leis e costumes vi- gentes, podendo também serem chamados de parentesco por aliança. Portanto, a “natureza” e tudo o que sabemos sobre reprodução humana, assim como a “cultura” e as normas sociais que regulam quem pode se unir a quem, e sob quais condições, são dois domínios distintos que juntos definem o parentesco. Nas sociedades ocidentais, o parentesco é determinado tomando como prin- cipal critério a reprodução biológica (Schneider, 1968 e 1984). Logo, não é à toa a relevância que os exames de paternidade assumem em nossos dias; ou o porquê muitos decidem investir tempo e dinheiro na esperança de obter êxito em uma reprodução assistida; ou ainda, que a adoção seja considerada uma solução excepcional para dar família a uma criança. Na base dessas práticas está a visão de que “o sangue é mais denso do que a água”, como diz um anti- go provérbio usado em países de tradição germânica e anglo-saxã (Schneider, 1984). Os laços biológicos são fatos da vida que não podem ser mudados. Essa imutabilidade alimenta a convicção na estabilidade da relação entre essas pes- soas unidas pela natureza. Assume-se que a partir desse dado concreto é pos- sível estabelecer solidariedade duradoura, fixar direitos e deveres considerados inatos e, por conseguinte, automáticos.
É certo que essas expectativas geradas desde a concepção de um novo ser podem ser frustradas. Afinal, o vínculo de sangue prescreve uma performance, mas não garante que ela se cumpra de maneira satisfatória. Contudo, a frustração dessas expectativas não acontece sem que haja profunda censura moral sobre aqueles que rompem com essa teia de lealdades mais básicas. Comparando-se o parentesco consanguíneo com aquele construído por aliança matrimonial, um
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marido pode vir a ser um ex-marido, e uma esposa, uma ex-esposa. Mas a ideia de uma ex-mãe, um ex-pai ou ex-irmãos soa bastante estranha e inconcebível, ao ponto dessas palavras sequer existirem no nosso vocabulário. Esses últimos são vínculos idealizados como eternos.
O reconhecimento da maior densidade do sangue, expressa que tais laços são considerados prioritários e mais sólidos quando comparados a outros vínculos interpessoais como os laços de amizade. Enquanto a amizade é voluntária, mutável e às vezes de curta duração, caracterizada por grande intimidade e pela gratuidade, o parentesco independe da vontade dos envolvidos e pode, ou não, envolver intimidade. Por vezes, as relações de parentesco pressupõem justamente a evitação e o distanciamento como expressão de respeito, especial- mente em contextos mais tradicionais nos quais gênero e geração funcionam como marcadores de hierarquias. Outro traço distintivo é que, enquanto a amizade precisa ser construída segundo uma lógica diádica, de indivíduo para indivíduo, aos pares, o parentesco segue uma lógica poliádica. Ou seja, o sujei- to já nasce integrado a uma rede de parentes. Essa rede precede sua existência individual e continuará existindo após a sua morte.
A percepção social é de que afeição e proteção entre pessoas aparentadas devem ser praticamente compulsórias e instintivas. O valor dado ao parentesco tam- bém nos auxilia a contornar o medo humano em relação à morte, à finitude e à mutabilidade da vida. A ideologia do sangue como substância que une concreta e definitivamente as pessoas têm a dupla função de fazer crer que parte de nós sobreviverá a nós mesmos, e que algumas relações são indissolúveis, pois estão acima dos acontecimentos que abalariam qualquer outra relação interpessoal. Embora a expressão “o sangue é mais denso do que a água” não seja muito usual em países latinos, também temos nossas próprias formas de reificação dos vínculos biogenéticos, como a crença na “voz no sangue”, mencionada sempre que pessoas de uma mesma família apresentam certa característica física ou comportamental em comum. Subsiste a convicção de que relações de sangue são relações de identidade, de que é possível transmitir traços de personalidade e índole de uma geração a outra. A noção de que “o sangue fala mais alto”, também reitera a crença de que essa relação de identidade é capaz de fazer com que aparentados se reconheçam na multidão, mesmo que cresçam separados. Outra figura de linguagem que ajuda a entender o simbolismo do sangue no Brasil, é o binômio “sangue bom” versus “sangue ruim”. Por vezes, diz-se que
Família e parentesco na sociedade brasileira: considerações sobre sangue, nome e solidariedades | 53
um grupo ou família é “sangue bom” quando seus membros são dotados de boa índole. Mas, mesmo entre os bons, pode haver exceções, as chamadas “ove- lhas negras” da família. O contrário, o reconhecimento da possibilidade de existir pessoas boas em famílias e grupos considerados “sangue ruim”, é menos comum ao ponto de não termos uma expressão positiva que faça frente e se contraponha à “ovelha negra” ou ao “patinho feio” da família.
O simbolismo do sangue também é ativado para cobrar lealdade e comprome- timento em expressões como “sangue do meu sangue”. Quando utilizada em momentos de crise e divergência, soa como um chamado à unidade.
Se o idioma do sangue fala alto aos que são aparentados, o nome de família expressa uma marca que emite uma mensagem aos de fora, à comunidade ex- terna ao círculo de parentes. O nome de família carrega consigo (des)prestígio, honra e tradição, especialmente no interior do país. Sangue e nome, juntos, prescrevem certa performance social, sobretudo, em círculos mais conservado- res. Certa vez, Abreu Filho (1982, p. 99) perguntou a um morador de Araxá (MG) qual era a importância do nome de família. A resposta obtida sintetiza em grande medida o imaginário social que ainda marca a realidade brasileira:
Uma vez que você sabe de que família é uma pessoa, você fica saben- do a situação social, a situação moral e muitas vezes a vida íntima de uma pessoa. [...] o nome de família protege o indivíduo contra o meio, contra as más influências. Como? Eu sou de tal família, não devo fazer isso!
O nome tem, portanto, o poder de conferir ao indivíduo uma identidade so- cial. Tal como o sangue, está carregado de um sentido de pertencimento. Não por acaso, muitas vezes filhos que demandam o reconhecimento paterno não desejam nada além de um sobrenome, reclamando em última instância uma identidade social. Na próxima seção, discutimos as implicações desse imaginá- rio social para a circulação de crianças e adolescentes.
O nome tem, portanto, o poder
de conferir ao indivíduo uma identidade social. Tal como o sangue,
está carregado de um sentido de
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