3.3 O CURSO NORMAL NO INSTITUTO
3.3.2 Apontamentos acerca do Curso Normal a partir do Regimento específico
Em contato com a supervisora geral do Ensino Médio do Instituto, obtive acesso ao Regimento do Curso Normal. Na pesquisa que empreendi nos arquivos, em documentos oficiais e legais, assim como em documentos de síntese e de apresentação da escola, a importância que é dada à cidadania como um diferencial de formação aos alunos é uma preocupação constante. Em várias ocasiões de minha investigação deparei-me com o empenho exemplar na questão da defesa de uma educação de qualidade e gratuita. O Instituto
11 Quadro constante no site oficial da Secretaria Estadual de Educação, acessado em 16 de setembro de 2008. 12 Conforme desenvolvido item 3.3 da Dissertação.
se inscreve nesta luta a partir da vontade de seus professores, funcionários e demais membros da Comunidade Escolar.
Podemos ler em seus documentos de apresentação o que segue:
Nosso compromisso com o ensino público e de qualidade. Diante das dificuldades que se apresentam em nossa sociedade, torna-se cada vez mais importante o papel da escola nas comunidades carentes. Nossa Escola possui uma trajetória de lutas e conquistas expressivas na área da Educação. [...] Concluímos, reafirmando nosso empenho em levar aos nossos alunos uma educação de qualidade, pautada nos valores éticos e humanos, tentando construir um espírito de cidadania e democracia em nossa comunidade escolar.
A menção a este compromisso está presente nos demais documentos que tive acesso para elaboração da Dissertação, nas falas dos professores entrevistados. A fala da Supervisora Geral do Ensino Médio ilustra este elemento:
1. Qual a Filosofia da Escola na formação dos futuros professores?
Ela seria basicamente a de formar cidadão. Cidadão consciente de sua função na sociedade. Pra sua atualização, para o seu desempenho enquanto professor, enquanto pessoa responsável pela formação do outro ser. É neste sentido a nossa Filosofia. Que seja atuante, que se engaje nas situações, que se propõe, que apareçam.
Também, no Regimento Escolar do Curso Normal13, na Filosofia, podemos ler:
Desenvolver no educando, como ser histórico, o espírito crítico e reflexivo para educar-se, através do processo de conhecimento, conscientização e auto-libertação, em todas as dimensões humanas.
Com relação às finalidades do curso, é salientado que visa qualificar profissionais para atuar em Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental, assegurando, nesta qualificação, a constituição de valores, conhecimentos, habilidades e competências.
Nos objetivos ressalta-se a intenção de ofertar uma educação geral que possibilite o exercício consciente do Magistério e permita estudos posteriores de formação, assegurando também o domínio de técnicas pedagógicas por meio de trabalhos práticos.
No que se refere à formação continuada, segundo Delors (2006), a formação inicial de professores deve privilegiar convênios com instituições de Ensino Superior, a fim de incentivar o aluno do curso secundário a realizar estudos posteriores. Os convênios foram evidenciados pelo Diretor do Instituto que ressaltou tal prática no Instituto:
Nós sabemos que temos que abrir mais espaços para estas reuniões, que a nossa questão é também de articulação com outros grupos, outras Universidades. Nós temos uma parceria com a PUC, que faz as suas práticas, o pessoal da Pedagogia faz seu trabalho aqui junto com o pessoal do magistério. Então sabemos destas questões, destas relações... Também fomos convidados estes dias por outra Faculdade, o CESUCA, para ir lá fazer um trabalho de base com as meninas. Fomos na ULBRA. Eu acho que estas articulações ainda nos faltam, temos que ampliar. Quanto mais ampliar isto, mais competente vai ser o curso.
Considerando os demais aspectos dos objetivos, eles evidenciam um dado complementar que se refere ao domínio de técnicas pedagógicas. Realmente, podemos afirmar que o curso está calcado nesta preocupação com a inovação, para que esta chegue às escolas. É uma fala corrente, que encontrei tanto nas conversas com a professora com quem trabalhei mais diretamente quanto com as alunas. Segundo a professora:
Nosso objetivo sempre foi o de levar uma aula mais divertida, mais dinâmica para as crianças, porque se é para levar a mesmice, deixa o professor que está lá há trinta anos e está fazendo sempre a mesma coisa, não muda. Nosso objetivo é que ela leve novidade para fazer o professor ver, perceber o quanto é interessante aprender brincando, usando material, recursos que irão facilitar a aprendizagem do aluno.
O objetivo de inovar é a base do curso. As alunas se sentem inovando, fazendo a diferença, superando o que algumas chamam de modo tradicional de dar aula. No dizer de uma aluna:
No dia-a-dia eu tinha uma visão bem diferente até dos planos de aula. Porque tem aquela coisa, que tu recebe os conteúdos e tens que passar aquilo ali. Mas tudo tem uma forma tradicional, que é como todo mundo faz. E até eu estava fazendo isto no magistério e depois a professora começou a falar que não é assim, que há uma forma diferente e eu pensei: - Mas como eu vou ensinar pronome, como eu vou ensinar outras coisas assim para as crianças de uma forma mais lúdica, não entendia sabe. [...] Mas agora eu estou aprendendo mais a trabalhar porque eu vejo que assim, além de eles aprenderem, eles aprendem muito outras coisas. Geralmente, quando eu trago uma coisa ou outra, dou uma introdução antes, música, deixo eles falarem, eu gosto de trabalho para apresentar, isto tem sido tem maravilhoso. Eu vejo que eles têm aprendido outras coisas, tanto é que falarem em grupo eles aprenderam bastante, eles têm aprendido conversar com os colegas, trabalho em grupo, eles fazem pesquisa, este tipo de coisa. Tudo isto é diferente
para eles. É mais globalizado, porque as professoras que estão a tempo na área, na Escola, mais tradicional, elas não costumam fazer isto. (O tradicional tu descreves como?) Não sei, mas, a criança aprende no tradicional, não tem como não aprender. Tu aprendes mesmo. Só que aprende aquilo ali. É aquilo ali e deu. Já nesta forma globalizada, mais diferente, mais infantil para as crianças, além daquilo ali, eles aprendem muitas coisas [...].
No entanto, por vezes, trabalhar com recursos inovadores é intenção da aluna, mas esta se depara com a realidade da sala de aula que encerra dificuldades de diversas ordens. Neste caso, o que fazer?
O anseio que eu tenho é de eles não conseguirem pegar o que eu estou tentando passar para eles. De não produzirem o conhecimento deles. E o anseio assim dos pais de não estarem contentes com o tipo de [...] que é novo, recurso, não estão acostumados. Na verdade, os alunos não estão acostumados com o recurso porque o método é bem tradicional mesmo. E eu noto que quando eu levo um recurso, alguma coisa diferente, eles ficam bem agitados. Não viram, é uma coisa diferente. Ficam agitados e também, eu acho que é isto, o receio de eles não aprenderem. De não pegarem o que eu quero transmitir.
Nas minhas observações, em alguns momentos encontrava as alunas perdidas nestas tentativas de inovações e realizando as técnicas, seja por exigência própria do curso, seja para preencher o espaço de sala de aula. A inovação acabava, nestes casos, por ter um fim em si mesma, sem realmente apresentar uma novidade transformadora no contexto. Por isto muitas vezes, a aluna no seu estágio enfrentava momentos de incerteza, beirando à crise:
Que nem estes dias eu fui explicar as dezenas, só que é uma coisa muito simples para ti que é grande, para nós. Nós conseguimos entender. Eu fui explicar com o Quadro de Pregas para as crianças, colocar o palitinho nas preguinhas e elas não entendiam. Era um recurso, estava ali na frente dos olhos, e elas não entendiam, eu perguntava, elas não entendiam. A professora regente me chamou e disse: - XXXX, quer que eu explique? Eu disse: - Deixa eu tentar mais um pouquinho, se eu não conseguir eu peço para ti me ajudar. Aí eu fui e as crianças não entendiam, não entendiam, não entendiam, e aí eu olhei a regente e disse: - Tá, não estou conseguindo colocar nada na cabeça das crianças. Aí uma coisa, eu estava com o recurso para eles verem, tocarem, ela simplesmente foi lá e escreveu no quadro e as crianças entenderam. Sabe? Então eu fiquei assim, eu com o recurso! Legal, bacana, pensado, tudo planejado com uma semana de antecedência não consegui. E ela chegou e escreveu no quadro estas coisas assim que a gente sempre faz, o tradicional e conseguiu. Então assim, este temor, será que eu vou conseguir com o recurso, será que eu não vou.
Então, nestes casos, poderiam ser interessantes discussões acerca destas situações na intenção de clarificar o entendimento das alunas no uso das técnicas para empreender de maneira satisfatória os objetivos do curso. Contextualizar o seu uso e entender que elas não se
traduzem por si, mas são recursos que devem ser alicerçados nos momentos de aprendizagem a serem propostos na aula. É uma forma de atender o objetivo específico do curso com relação à formação, inserido-o, efetivamente, na prática pedagógica das alunas.