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5.3 APRENDER A CONVIVER PARA CONSTRUIR-SE PROFESSOR

5.3.4 Os pais dos alunos

Uma das grandes dificuldades das alunas e fonte de receios e medos é a relação que elas precisam manter com os pais dos alunos. No geral, os pais relutam em ter estagiária atendendo seus filhos e esta posição se reflete na relação que estabelecem com as estagiárias.

Nesta situação, o papel da regente é importante porque ela se torna o elo de contato entre os pais e a aluna, e não raro, a mesma precisa defender o trabalho realizado por esta, ilustrado neste diálogo da mãe com uma estagiária da pesquisa:

- É tu a professora dela? Eu disse: - Boa tarde, eu sou a XXXX, estagiária da professora XXX. – Não gosto de estagiárias. Foi, falou com a regente e disse para a regente que não gostava de estagiária. A regente disse: - Se tu tivesse uma profissão, tu terias que ser estagiária de alguém, algum dia. A mãe: - Não gosto destas coisas porque elas não sabem nada. A regente: - Não, elas sabem sim, elas estão aqui para aprender mais ainda.

Então se forma uma relação de desconfiança do trabalho, que a aluna precisa compreender, saber conviver e aprender:

Tive receio com relação aos pais, como eles iriam me receber e alguns são meio..., não são receptivos comigo mas a maioria já está gostando do meu trabalho. Só alguns que eu tenho problema assim. (Mas tu já iniciaste o ano letivo? Não foi a regente?) Sim, desde o primeiro dia de aula, fiz três dias de observação. Eles ficam preocupados se a professora regente está ali, converso com eles, digo que está, que não precisam se preocupar, que não é eu só. Eles dizem: - Dá o conteúdo. Porque eles ficam com medo se eu estou ensinando direito, ensinando os filhos deles ou não. É esta a dúvida deles. De eu ensinar. Eu entendo que esta é a dúvida deles. Talvez por eu estar estagiando, eu não sei tudo, ficam com medo disso. (E isto te deixa insegura?) Às vezes me deixa insegura, preocupada e desmotivada. Eu tento pensar que aquilo ali é normal. Normal. (Estão contribuindo?) Estão contribuindo.

Há também as situações em que a forma como a aluna trabalha os conteúdos não vem

ao encontro do que os pais “pensam” ser a forma mais adequada, principalmente no que se

refere aos recursos que, não raras vezes, demandam gastos financeiros:

No outro dia veio um bilhete bem desaforado da mãe dizendo assim: - Qual é o objetivo deste trabalho que vocês fizeram, ou é só para gastar dinheiro. (E aí?) E aí eu falei: - Fulana, diz para a tua mãe que o objetivo deste recurso é fazer com que vocês se prendam mais a matéria, mais atenção à matéria, para vocês aprenderem

mais e tal. E eu cheguei e perguntei para a turma: - Pessoal, que os pais acharam do recurso, o material que a gente usou. – Ah, eles gostaram, adoraram. Às vezes isto desmotiva bastante a gente.

Pode-se dizer que há movimentos do sistema educacional para termos mais a participação dos pais, mas aos pais é importante proporcionar a participação e não ingerência das questões referentes ao espaço pedagógico. Segundo Delors (2006, p. 160), os pais podem se associar de diversas formas ao processo pedagógico, mas o intuito deve ser o de melhorar as relações escola/família e não estabelecer o conflito.

Para Contreras (2002) a abertura para a Comunidade pode ser uma maneira de incremento da autonomia do professor ou não. Neste sentido, o professor depara-se com conflitos de responsabilidade decorrentes de sua atuação e que podem ser do âmbito administrativo, da necessidade dos alunos ou, também, dos interesses da Comunidade. Junta- se a isto as reformas do ensino, no século XX que introduziram novas formas de pensar a organização escolar. Estas podem levar a um campo de construção e negociação, de abertura a capacidade cooperativa com a comunidade, em uma maneira de arranjo inédito de organização escolar local.

No âmbito da pesquisa, ressalto, a presença e/ou ausência dos pais, em um caso ou outro, foi fator importante na formação das alunas em seus estágios. O diálogo, de caráter formador, interno e/ou externo, ocorrido no desenrolar do período de estágio, também se deu na relação que necessitavam manter com os pais de seus alunos.

6 O SUJEITO EM FORMAÇÃO: COMPLEXA DIALÓGICA FORMATIVA

A pesquisa levou-me a um campo interpretativo de análise, tanto a partir do vivenciado nas observações quanto nas entrevistas e conversas realizadas ao longo do processo. Também a convivência com os dramas pessoais, com os desafios, com as preocupações de seus sujeitos da pesquisa foram instigadores e formadores deste campo subjetivo de interpretação.

A investigação dos pressupostos teórico/práticos que formam o professor, e a ação destes sobre a totalidade da formação, foram para mim uma procura que me possibilitou encontrar o sujeito em formação. O sujeito que, mediante uma formação inicial, proposta a partir da instituição, atua em processo dialógico, deparando-se com a construção do seu próprio ser, para além desta efetiva formação31. A condição de seu próprio ser no mundo.

No encontro deste sujeito, descubro-me nas nuances de seus discursos, de seus anseios, de suas dúvidas, de seus desejos e de suas inquietudes. Revisito as minhas experiências iniciais de professora e tomo a consciência de que este movimento, longe de ser somente externo, é uma troca formativa entre o exterior/interior do ser.

A condição de existencialidade delineou-se como um intricado processo dialógico, entendido na proposição de Morin. O externo/interno se estabeleceu formador na fala das alunas entendido na dimensão auto-eco-organizadora. Conforme Morin (1999, p. 76), o conhecimento dá-se nas dimensões auto-eco-organizadora e, portanto, devemos “conceber a aprendizagem a partir de uma dialógica não somente do inato/adquirido, mas também do

inato/adquirido/construído”.

Encontrei evidências destes movimentos, do inato/adquirido/construído, nos depoimentos da alunas que, considerando a formação adquirida, construíam um diálogo entre esta e o inato para lançar-se em desafio à construção. Segundo a fala de uma aluna:

Estou aprendendo a lidar um pouquinho com isto de tu pegares alunos bem diferentes. Eu aprendi mais no ano passado, eu tive uma orientação maior da Professora XXXX e aí sim, eu posso dizer que mudei. Saber como planejar, como ter um início.

31 Remeto o leitor à Apêndice E, na qual as alunas traduzem, em palavras soltas, o momento vivido da experiência formadora.

A construção subjetiva se apresenta de forma que expresse a autenticidade da aluna, mediante o desafio de exercer a profissão. Nesta, a auto-eco-organização se apresenta como maneira viável de suportar os movimentos intensos das transformações operadas:

Eu falava para a minha mãe: - Mãe, eu vou sair do magistério. Eu não agüentava mais. Eu já estava assim, chegava em casa e chorava, chorava, no ano passado. Imagina! Eu no terceiro ano, no final do terceiro ano desistir do magistério! [...] Agora eu estou descobrindo a minha personalidade dentro da sala de aula na forma de passar o conteúdo, na minha relação com os alunos, o domínio que não tinha na escolinha estou tendo agora com a turma [...]

Interessante assinalar que a formação do Ser Professor não se estabelece por arranjos metodológicos ou racionalidade técnica tão somente, mas em redes intersubjetivas. É possível que a educação, para além do processo de escolarização, seja um lugar privilegiado da formação destas redes.