5.3 APRENDER A CONVIVER PARA CONSTRUIR-SE PROFESSOR
5.3.1 O ensinar/aprender – o jogo complexo da educação
Uma das dúvidas, receio e medo até das alunas é com relação à forma de viabilizar melhor aprendizagem para seus alunos. Nas entrevistas, nas quais eu aprofundei esta questão, constou fortemente o questionamento: de que forma é possível ensinar meu aluno?
A questão do ensino/aprendizagem, este processo de construção por vezes não concebido como tal, é o cerne do trabalho do professor. Conforme meu entendimento, o enfoque do seu trabalho pedagógico será um ou outro.
Assmann (2007, p. 32) frisa que “educar é fazer emergir vivências do processo de
conhecimento”. E que toda a aprendizagem não se dá desvinculada da vida, pois os processos
vitais são, necessariamente, cognitivos. Para vivermos, precisamos estar sempre aprendendo. Neste sentido, podemos nos perguntar: E qual será o papel do ensino? Para Asmann (2007, p. 33), este deve ser entendido como experiências de aprendizagem e a escola não deve ser concebida como agência repassadora de conteúdos prontos, mas como contexto organizacional propício à iniciação em vivências personalizadas do aprender a aprender. Pergunto-me, então, quais as dimensões da educação que possam dar conta deste clima
organizacional, propício à aprendizagem? Segundo Assmann (2007, p. 33), a “educação
implica fortes doses de instrução, entendimentos e manejo de regras e reconhecimento de
saberes acumulados pela humanidade”, mas esta não consegue dar conta mais dos saberes que emergem em todas as áreas do conhecimento humano. Então, para ele, “o aspecto instrucional
deveria estar em função da emergência do aprender, ou seja da morfogênese personalizada do
conhecimento”, entendendo morfogênese como surgimento de formas, e, no caso, da
morfogênese do conhecimento, ou, de que forma surge o conhecimento.
Segundo o autor, vivemos um impasse porque enxergamos o mundo a partir de dualidades, no pensamento moderno. O ensino (instrução) e o aprender (conhecimento) são entendidos de maneiras separadas e, neste sentido, o ensino passa a ser instrução que deve ser aprendida pelo sujeito. Para ele se não construirmos uma brecha epistemológica que supere esta visão dicotômica, não estaremos superando as noções de transmissão e de assimilação de conhecimento.
Também Freire (2003, p. 68) nos alerta para a questão da assimilação do conhecimento, quando conceitua a educação bancária, diferentemente da educação problematizadora, pela qual os sujeitos cognoscentes aprendem na relação consigo e com o objeto cognoscível:
A educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar, ou de narrar, ou de transferir, ou de transmitir „conhecimentos‟ e valores aos educandos, meros pacientes, à maneira de educação „bancária‟,mas um ato cognoscente. Como situação gnosiológica, em que o objeto cognoscível, em lugar de ser o término do ato cognoscente de um sujeito, é o mediatizador de sujeitos cognoscentes, educador de um lado e educando de outro lado, a educação problematizadora coloca, desde logo, a exigência da superação da contradição educador/educandos. Sem esta, não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em torno do mesmo objeto cognoscível.
Interagi com as alunas e aprofundei as questões da transmissão de conhecimento ou construção de conhecimento, evidenciando as dúvidas referentes à metodologia de trabalho pedagógico. Por vezes, tinham clareza das dificuldades em auxiliar o aluno a construir seu próprio conhecimento, em outros momentos, tinham dúvidas se este era o papel a ser exercido por elas. Esta contradição denota, no meu entender, uma confusão de conceito, involuntário por lógico, mas que demonstra a prática emergindo em confronto com as teorias as quais
tiveram acesso. Na teoria, os professores do Instituto tendem para “a linha pedagógica eles
querem que a gente trabalhe bem é na linha construtivista. (O que significa no teu entender?) No meu entender é fazer com que as crianças elaborem seu próprio conceito sobre as coisas,
não é a gente chegar lá e dar o conceito pronto para eles”. E, segundo outra aluna:
E a linha de trabalho, a Filosofia da Escola, é que os alunos têm que aprender, quem que construir seu conhecimento, não a gente dar para eles. Eu acho que os professores deixam bem claro isto, são bem Piaget. Eles têm que construir o conhecimento deles e tudo com muita calma, nada agressivo. Eu acho que isto eles deixavam bem claro para nós.
Mas na prática as alunas nem sempre conseguem empreender este intuito e a
experiência faz emergir a contradição, revelada no próprio discurso: “o anseio que eu tenho é
de eles não conseguirem pegar o que eu estou tentando passar para eles. De não produzirem
o conhecimento deles”.
Estamos diante de condutas que sugerem concepções de educação: eu passo conteúdos e os alunos assimilam ou eu proporciono condições para os alunos produzirem seu conhecimento, auxiliando-os a autogerirem estes? No dizer de outra aluna,
muitos professores sabem, mas eu acho que a gente tem que estar tentando aprender mais, para que se consiga passar mais. Porque, ah! Eu sei o que tenho que ensinar nesta série então eu não vou estudar. Porque saber o que eu tenho que passar para eles eu sei, eu estou tentando saber mais para passar mais detalhado para eles aprenderem. (Aprender melhor, seria isto?) É, eu não quero repetir o que aconteceu comigo.
Em contrapartida a este posicionamento, Delors (2006, p. 155) sugere que:
O professor deve estabelecer uma nova relação com quem está aprendendo, passar do papel de „solista‟ ao de „acompanhante‟, tornando-se não mais alguém que transmite conhecimentos, mas aquele que ajuda os seus alunos a encontrar, organizar
e gerir o saber, guiando mas não modelando os espíritos, e demonstrando grande firmeza quanto aos valores fundamentais que devem orientar toda a vida.
O professor não deve abarcar para si toda a responsabilidade na educação dos alunos, mas é algo que deve ser realizado em conjunto com outras tantas experiências vivenciais que os alunos possam ter, para além da Escola. Guiá-los para que desenvolvam por si potencialidades que o levem a aprendizagem. Interagir para proporcionar melhores condições de conhecimento, apesar de não garantir que este se efetive, pode ser uma alternativa de efetivação da profissão do professor que trabalharia, neste caso, como um gestor de conhecimentos, em interação com seus alunos e o ambiente.