A nossa pesquisa tem origem na problemática existencial que é a vida humana, compreendida historicamente, numa dimensão em que a vida “é uma história narrada num tempo e num projeto existencial biográfico” (ROSEK, 2010, p. 98). As narrativas tocaram a nossa sensibilidade, e no processo de narrar-com revivemos aquilo que estava sendo contado, como algo que nos atravessou, balançando as nossas „estruturas‟ ou „verdades‟. Desvelamos sentidos no viver das docentes na sala de aula regular que podem nos ajudar a elaborar mais saberes no campo da educação especial, como experiências de sentido na existência singular-plural de ser sendo no mundo.
As questões que envolvem a educação especial estão ligadas a vida, aos momentos onde os sentidos são construídos na história de uma vida (DOMINICÉ, 1988). Portanto, problematizamos a partir das reminiscências narradas pelas professoras, entendendo que elas são dinâmicas e atuam na montagem dos tempos. Nesse sentido, compreendemos a memória como processo onde o presente da pesquisadora deu vazão aos sentidos produzidos pelas professoras-narradoras- pesquisadora e as aprendizagens-de-contar-escutar-histórias no processo de narrar- com elas.
O filósofo alemão Walter Benjamin (1994) nos ajudou nas análises da problemática existencial envolvendo os espaços-tempos das histórias narradas pelas professoras, e que atravessaram o ser sendo. Conforme pontuamos, para a ele a história precisa ser construída, mas não em um tempo homogêneo e vazio, e sim num processo em que o presente está cheio de “agoras” (p. 229). Nesse movimento, precisamos nos apropriar de uma reminiscência tal como ela cintila em momentos de perigo no aqui- agora do presente vivido.
Nossa compreensão, vivida-sentida nas narrativas, nos diz que as experiências narradas sobre o passado aparecem como algo novo, uma situação nova no aqui- agora acontecendo, que causa admiração em nós mesmos e de como estamos sendo no mundo junto ao outro. Polly, a professora-narradora, narrou uma reminiscência de sua experiência em sala de aula junto-com um aluno autista e, nos diversos modos dela atuar:
[...] uma coisa que eu acho lindíssima, que para mim foi um aprendizado: as crianças estão crescendo com esses alunos, todos juntos. Exemplo, eu acho que o único estranhamento do George era eu, porque na turma ninguém tinha estranhamento por ele, nenhum desrespeito ou momento de chacota, nada! Eu acho lindo eles poderem crescer juntos, nessa diferença, junto com o outro que é diferente dele. Então, para mim se tem um ponto positivo, digno de ser ressaltado é essa aprendizagem de estar com o outro que é diferente, sem preconceito.
Nessa interdinâmica da narrativa-com Polly identificamos as práticas psicopedagógicas das aprendizagens pela via das diferenças, para nós um objeto da educação nesse tempo social e histórico. Polly contou suas experiências vividas, restaurou detalhes da relação com o estudante George. Um passado não muito distante que nos provocou a pensar e sentir a educação especial como algo aberto e inacabado, fora de uma série cronológica, que interrompem a linearidade e nos impulsionou a reorganizar nossas escolhas, decisões e memórias.
Foram as expressões dos diferentes e múltiplos sentidos produzidos pelas professoras-narradoras-pesquisadora e os modos como elas ressignificaram a própria existência que nos impulsionaram a produzir novas compreensões sobre a educação especial, a partir da apropriação das reminiscências, que envolvem os
saberes sobre si mesmo no mundo, as interexperiências e aprendizagens sentidas do conhecimento.
A professora Sophia desvelou os seus modos de ser sendo enfrentativa diante de situações que estejam dificultando o trabalho em sala de aula junto ao ser- estudante-no-mundo-da-educação-escolar-singular. Nesse processo, mostrou-se cuidadosa e delicada na relação com os colegas de trabalho, desvelou a compreensão de estar sendo professora junto ao outro, uma dinâmica de trabalho que a experiência narrada mostrou ser necessária às experiências-formativas, mas também, disposição e abertura ao diferente e à convivência de modo colaborativo, uma intersubjetividade que demanda estar junto ao outro para dialogar e contribuir no desenvolvimento do trabalho.
O professorado gosta de mim, mas também dentro do limite tá! Não é um gostar assim porque eu vou levar algo: ah! vamos fazer um trabalho com educação especial? Não, eles falam! Eu não estudei, eu não tenho formação. Eles dizem não e deixam o menino lá na sala de aula. Eu não posso discutir muito esse assunto porque eu sei que eu vou criar muito confronto, entendeu Madalena?
Quando eu falo alguma coisa é com muita delicadeza, porque eu quero ficar nessa escola, eu quero sobreviver na escola. Eu falo as coisas com muito jeito: nós podíamos fazer um trabalho com a assessoria da Secretaria de Educação, porque ela tem proposta de trabalho; eles vêm e podem sugerir atividades para trabalhar aqui no planejamento. Os colegas professores falam: Sugerir Sophia! Eu heim! Nós queremos uma pessoa que arregaça as mangas e trabalhe junto. Eu falei: a função da secretaria de educação é realmente trabalhar junto com a escola, ver o plano de ação para estar fomentando, colaborando, contribuindo. Não! Eles falam „nós queremos que trabalhe‟. Vejo que não tem como dialogar muito. Por exemplo, a biblioteca está fechada e ninguém discute, até que esse assunto é levado para a reunião de professores.
O processo que denominamos aprendizagens-de-contar-escutar-histórias ao narrar- com, vai se desenhando no sentido de que as experiências vividas com a educação especial deixaram marcas nas docentes e pesquisadora. As narrativas, muitas vezes emocionadas, transpareceram no ser sendo pesquisadora, produzindo mais saberes-fazeres, que se construíram nas diversas inter-relações: no social, pessoal, institucional. Esse processo de apreender pela via das narrativas, nos trouxe a perspectiva de pensar-sentir o próprio trabalho, com uma escuta sensível que nos faça estar junto ao outro na humanidade de ser no mundo. Muitas vezes, como pesquisadora eu parava e refletia: a voz dessa professora ecoava em meu ser (no
momento de transcrever as gravações) parece que algo disso está em nosso interior-exterior. Esse processo de ouvir as gravações não é mecânico, muito ao contrário, trata-se de uma experiência que tocou o meu ser, a minha sensibilidade, desvelando sentimentos de angústia e o desejo de cuidar de mim mesma, do outro e do mundo. Uma aprendizagem expressa por Polly me fez sentir-pensar sobre as nossas incertezas na educação escolar e não escolar, e nos saberes-fazeres que precisamos para a prática docente.
Mas, eu penso que para mim foi um grande aprendizado. Depois que tive o George na sala eu passei a ler muito mais sobre isso. Hoje, qualquer aluno que eu tenho, com tal coisa, eu leio muito sobre aquilo. Isso é a primeira coisa que eu faço, antes de criar qualquer expectativa. Eu penso também, falei para os professores aqui, eles me perguntaram: até onde o George vai aprender? Eu falei: quem sabe até onde ele vai? Ele pode surpreender! Ele pode não aprender nada do que eu to ensinando? Pode. Ele pode aprender muito mais daquilo? Pode, porque nós não sabemos, é um universo que não tem um domínio, até onde ele vai? Não sei até onde ele vai. Ah! Eu só vou ensinar isso porque é o que ele sabe, não podemos fazer isso! Nós não sabemos!
Por ora, podemos dizer que esse processo de aprendizagem-de-contar-escutar- histórias nos envolveu num sentimento de que é preciso compromisso com a aprendizagem e desenvolvimento de discentes-docentes, pela via do afeto e diálogo sobre os diferentes modos de conhecer e de produzir sentidos nas experiências- formativas docentes.