4.5 Conceitos reinventados na pesquisa a partir de
4.5.2 Aprendizagens-de-contar-escutar-histórias
Os nossos estudos a partir de Walter Benjamin possibilitaram a (re)invenção desse conceito, junto-com o meu orientador, o Professor Doutor Hiran Pinel. Narramos-com as docentes as experiências em educação especial na sala de aula regular, transcriamos uma obra ou um texto que nos provocou a escutar mais: as experiências vividas, no singular, que se conectam e participam das experiências na pluralidade de ser sendo no mundo.
Trata-se de um processo que dá sentido ao vivido no cotidiano, algo que tocou a nossa pele, alma e mente dentro de um palco do aprender: ser sendo inclusivo junto-com o outro - através da linguagem, enquanto meio que busca comunicar as aprendizagens de contar-escutar as histórias apreendidas com a experiência na sala de aula regular e em outros espaços educativos. Tentamos facilitar o surgimento dessa aprendizagem tanto minha como das participantes e o leitor. Apreendemos uma dinâmica para fazer uma escuta sensível e refinada da experiência do outro nos modos de ser* sendo democrática, participativa, envolvente e engajada.
Estivemos num movimento de valorizar a experiência-narrativa, envolvendo-nos de modo engajado e político. Mas, apreendemos esse envolvimento como intersubjetividade. Isso, a nosso ver, quer dizer que “[...] a exterioridade que o homem que age encontra pode, em princípio, ser reconduzida, em medida tão elevada quanto se queira, ao seu interior, e seu interior, ao seu exterior; mais do que isso: cada um pode ser visto como o outro” (BENJAMIN, 2013d, 91).
Entendemos esse processo como sendo criativo, pois repensamos as experiências e as do outro também, traduzindo o vivido de modo a considerar o passado-presente como algo novo, que nos provoca pensar-sentir os modos de ensinar-aprender, evitando as verdades únicas. Mergulhamos nas experiências que as docentes, generosamente, nos deram; e, nos distanciamos para mais significação. Os sentidos e significados habitam o original, que é o processo vivido na experiência – a coisa mesma.
Polly cria ações de oposição ao laudo médico, encontrando os caminhos „marginais‟ para fazer acontecer a educação especial na perspectiva inclusiva. Criamos ali mesmo – no ato de narrar-com as docentes uma relação íntima e de conexão- tensão de vida “[...] que se desenrola cada vez mais movimentada em direção ao infinito e mesmo assim não se desfaz.” (BENJAMIN, 2013d, p. 76). Apreendemos as aprendizagens-de-contar-escutar-histórias como experiências vividas, não sendo somente a corporeidade orgânica, mas é a história contada que vai dar o conhecimento da vida. Narramos-com as docentes num tempo e isso possibilitou a produção de conhecimentos, sabendo que não é definitivo e carrega os limites que temos quando tentamos capturar o total do texto original – as experiências narradas. Produzimos a nossa interpretação sobre o pensamento de Walter Benjamim e, com ela trauxemos os nossos limites de ser sendo pesquisadora, porque de fato vivido, apreendemos sobre a impossibilidade de recuperar o todo produzido, ainda que tenhamos recorrido a fragmentos de sua produção teórica. Mas, sentimos o envolvimento quando estudamos e o quanto isso gerou novas produções, desdobramentos, novos dados e linguagens nos modos de dizer algo; porque muitas vezes as palavras são as mesmas, mas podem querer dizer coisas bem diferentes, causando estranheza e é, justamente, o ato sentido dessa estranheza que nos (co)moveu na produção e condução do conhecer.
No próximo capitulo, apresentaremos as narrativas das experiências vividas- sentidas narradas-com as docentes.
CAPÍTULO V
AS EXPERIÊNCIAS DE NARRAR-COM AS PROFESSORAS
18O exercício de olhar para trás, assim como o exercício de se projetar para o futuro muda o modo de se estar no mundo no presente [...] não somos mais os mesmos, e nossa viagem mal começou... (ANJOS, 2014, p. 164).
Estar com Sophia e Polly nestes tempos de pesquisa foi uma tarefa desafiadora que nos possibilitou dialogar sobre as experiências vividas na sala de aula regular e fora dela, e ao mesmo tempo, pensar nas questões que estão afetando o ser sendo docente-discente, a profissão docente e as experiências-formativas.
As sensibilidades, singularidades e pluralidade de ser sendo professoras- narradoras-pesquisadora emergiram nos nossos encontros e nas produções das narrativas, nos referimos às nossas subjetividades na objetividade do mundo. Com elas vimos emergir caminhos „marginais‟ (ou não) que pudessem dar sentido ao ofício como docente e pedagoga na perspectiva de produzir experiências inclusivas junto ao ser-estudante-no-mundo-da-educação-escolar-singular.
Tentamos narrar-com as docentes, procurando tecer os fios da pesquisa pelo viés das narrativas das experiências, dos sentidos e aprendizagens – esse é o nosso limite: o de tentar, pois somos seres da incompletude! Peço ao leitor compreensão e uma cuidadosa crítica, pois em nossas imperfeições ou equívocos, que de certo o texto possui, tentamos narrar-com o cotidiano vivido, no miudinho ou a mesmice das rotinas de aulas, sobretudo, às vicissitudes de uma “vida docência” ou poderia dizer uma “vida Severina”, dizemos aqui-agora, junto com João Cabral de Melo Neto, como no poema intitulado “Morte e vida Severina” (in: CIAMPA, 2001).
Aprendemos muito com Severina. Ela nos ensinou coisas que anos de leitura não haviam deixado claro. Ela nos mostrou o que é um indivíduo, que na nossa sociedade vive como bicho acuado, querendo ser bicho-humano. Mostrou nossa sociedade, em que o homem vive como um Prometeu moderno que, depois de ter roubado o fogo dos céus, sofre a condenação de ser devorado diariamente pela ave da rapinagem, sem morrer;
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Neste capitulo trouxemos as narrativas das experiências das professoras, produzidas na primeira experiência-narrativa, constantes no Diário de Campo (TSYGANOK-BARBOSA, 2013). Ler-escutar, na íntegra, as experiências docentes possui o sentido de compartilhar o vivido na sala de aula regular, e nesse processo, propiciar modos singulares de captar o seu brilho.
diariamente, sua vida, sua força de trabalho é reproduzida, para alimentar a águia que o consome impiedosamente; mostrou-nos também que o segredo dessa condenação é o de não nos deixar morrer, para continuarmos sendo mastigados vivos. Morreu. Morrendo, viveu. Encontrou seu esconderijo. Morte-e-vida! (Idem, p. 236).
As docentes escolheram o que dizer, falaram detalhes do vivido nas inter-relações e práticas educativas, muitas vezes de modo tão minucioso que poderíamos pensar se realmente caberia trazer, aqui neste relatório de pesquisa, a totalidade das narrativas. Entretanto, é a pesquisadora Azevedo (2003, p. 7-8) que reflete sobre a existência dos elementos teóricos que emergem da complexa prática. Lá, diz essa autora, poderemos encontrar, “[...] como faziam nossos remotíssimos antepassados caçadores, procurando rastros agachados na lama [...]”, os saberes advindos da experiência, permitindo-nos apreender e descobrir algo mais que ainda não sabemos. Nesse caminho em que nos movimentamos, encontramos em Kramer (1993) um porto que nos fez estremecer, sentido na pele ou na carne, uma razão encarnada - o que é ser professora e professor nesse tempo social e histórico:
A professora e o professor são cidadãos, digo. Homens, mulheres, trabalhadoras, trabalhadores, pais, mães, filhos e filhas, irmãs e irmãos, negros e brancos, adultos e adolescentes, as professoras e os professores são seres humanos. Humanos porque são sujeitos sociais e históricos, presentes na história, atores da história. Cidadãos com direito a uma vida digna, merecedores de condições que lhes permitam exercer com dignidade o seu trabalho, as professoras e os professores têm direito de acesso aos conhecimentos e de serem autores de suas vozes. Vozes nascidas da prática cotidiana, feitas de contradições e recusa, de esperança e resistência, de busca (p. 10).
Para iniciar a apresentação das narrativas, recorremos aos modos de ser sendo Ciampa, psicólogo e pesquisador paulista, nos arriscando na “identidade metamorfoseante” que, por ora construímos - a de ser sendo professoras- narradoras-pesquisadora, onde também usaremos “[...] um adágio latino: feci quod potui; feciant meliore potentes (Fiz o que pude; quem puder faça melhor)” (2001, p. 16). Os subtítulos que aparecem no transcorrer das narrativas foram inspirações de sentidos elaborados pela pesquisadora, eles aparecem em itálico e com aspas, indicando a nossa presença com/con-sentido no processo de narrar-com.