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Talvez seja possível avistar uma resposta à pergunta quem seja Benjamin no que Baudelaire escreveu a respeito de Balzac: “Observador, errante, filósofo, chamem-no como quiserem”, diz. E um pouco adiante: “Ele é o pintor da circunstância e de tudo o que ela sugere de eterno. Cada país, para seu prazer e para sua glória, possui alguns desses homens” [...] (KIRCHNER, 2007, p. 3).

Walter Benjamin era de origem judaica, filho de Emil Benjamin e Paula Schönflies, comerciantes de produtos franceses, nasceu na cidade de Berlim no dia 15 de Julho de 1892 e veio a falecer, sob circunstâncias difíceis e trágicas, em Port-Bou (Espanha) no dia 27 de setembro de 1940, num tempo desesperador em que fugia da França para escapar da perseguição aos judeus pelo nazismo de Hitler. Löwy no prefácio de uma obra de Benjamin (2013) descreveu sobre a finitude do filósofo: “O fim da história é conhecido [...] quando era meia-noite no século, os gritos de socorro enviados por Benjamin não haviam sido ouvidos. Encontrando-se sem saída, barrado seu último caminho, não teve outra alternativa a não ser o suicídio” (p. 17), findando a sua vida, ali mesmo, onde se encontrava.

Sua obra influenciou o pensamento contemporâneo brasileiro, sendo estudado em várias áreas do conhecimento. Jeanne Marie Gagnebin (2011), uma estudiosa da

obra de Benjamin, especialmente, sua teoria da história, destacou na introdução da obra “História e Narração em Walter Benjamin” sobre a descoberta tardia desse filósofo alemão, que permaneceu desconhecido e sua obra pouco valorizada até mais ou menos quinze anos após sua morte.

Benjamin participou do Movimento da Juventude Livre Alemã ainda na adolescência, e sua (com)paixão pelos ideais socialistas o fez produzir colaborações teóricas e refinadas para a revista do movimento. Em 1915, Benjamin conheceu aquele que se tornou seu grande amigo, o filósofo e historiador Gerschom Gerhard Scholem, de quem ele partilhou o gosto pela arte e a religião cristã. Fez a sua graduação em Filosofia pela Universidade de Freiburg e tornou-se doutor com a tese “O conceito de crítica de arte no romantismo alemão”. Encontramos um perfil do filósofo, que a meu ver expressa bem o espírito e a humanidade benjaminiana na Europa do século XX em que a reflexão crítica e a militância política faziam parte do cotidiano dos intelectuais da Escola de Frankfurt:

Os traços biográficos e o perfil humano de Walter Benjamin são os mais conhecidos entre esses quatro pensadores de Frankfurt; sua morte, quando era ainda relativamente moço (48 anos) e em circunstâncias trágicas, deixou marca indelével entre os amigos, fazendo com que surgissem muitos depoimentos sobre sua vida e sobre sua personalidade. Para Adorno, Walter Benjamin era a personalidade mais enigmática do grupo, seus interesses eram freqüentemente contraditórios e sua conduta oscilava entre a intransigência quase ríspida e a polidez oriental. Essa maneira de ser aparentava mais o temperamento vibrante de um artista do que a tranqüilidade e a frieza racional, normalmente esperadas de um filósofo. Seu pensamento parecia nascer de um impulso de natureza artística, que, transformado em teoria como diz ainda Adorno “liberta-se da aparência e adquire incomparável dignidade: a promessa de felicidade” 15

Ele buscou dialogar com uma visão apocalíptica da História, com o pensamento voltado para o material, a produção artística, o que ficou marcado no trabalho “A Obra de Arte na Época da Reprodução” (1936).

15

Disponível em: <http://www.culturabrasil.pro.br/frankfurt.htm>. Acesso: 26 julho 2012.

4.3.1 A vida de Benjamin: modos do ser em ser

Walter Benjamin era considerado, no seu tempo, um intelectual com modos de ser de difícil convivência com outras pessoas, sua produção era de rara compreensão pelos colegas e amigos contemporâneos, mesmo para Scholem (2008) que era seu amigo íntimo.

As relações com Benjamin eram consideravelmente difíceis, embora, na superfície, isso parecesse insignificante, em vista de sua cortesia perfeita e de sua disposição a ouvir e replicar. Estava sempre cercado por uma barreira de taciturnidade, que se podia reconhecer intuitivamente e era visível às outras pessoas, mesmo sem os seus freqüentes esforços para evidenciá-lo (p. 33)

Sua vida sempre marcada pela incerteza, dúvida, e que como diziam os amigos, quando estava diante de uma bifurcação sentia-se paralisado, não sabia o que escolher, então, decidia por ir a ambos os lados, alternando os modos de ser e viver a vida. Parini (1999) descreveu no romance: “A vida e a morte eram a bifurcação que se expunha sem sutilezas em seu caminho, mas cada uma delas tinha inúmeras ramificações e cada bifurcação, suas próprias bifurcações” (p. 248).

Com a interrupção da sua vida, Benjamin deixou por concluir a sua obra marcante: “O Livro das Passagens”. Conforme Diniz (2012) ele tentou produzir uma 'narratividade poética do histórico', exprimindo a problematização histórica, mas usando a linguagem literária, ou a linguagem como um fenômeno poético, tomando- se assim uma metodologia do trabalho intelectual, qual seja, a de pensar poeticamente.

A professora Sonia Kramer o descreveu nos modos de ser sendo pensador marxista, com uma intensa marca humanista, anti-dogmática e não ortodoxa. No seu viver, expressava os modos de ser colecionador, e com isso juntava muitas coisas, que eram objetos importantes para ele:

Colecionador de miniaturas, de livros e brinquedos infantis, amante do cinema e da fotografia, estudioso da estética (e defensor de uma politização da estética capaz de fazer frente à estetização da política então engendrada pelo nazismo), pensador crítico da cultura do seu tempo, filósofo marxista que preferia estudar Kant e Hegel), Benjamin até o fim negou-se a sair da França por não querer interromper seu trabalho de passagens – uma pesquisa sobre história e modernidade (KRAMER, 1999, p. 246)

Leandro Konder (1999) destaca-o nos modos de ser sendo perturbador. Ele expressava nos seus modos de escrever, atitudes e caminhos percorridos, que despertam a curiosidade e perplexidade, sendo capaz de impactar e desafiar as pessoas lançando ao desafio de rever as convicções cristalizadas. “Muita gente que entra em contato com a grande aventura espiritual do nosso ensaísta se pergunta: como pode um melancólico ser marxista? Que tipo de marxismo é este que a melancolia é capaz de assimilar?” (p. 7).

Em sua vida, Benjamin navegava ente o sionismo e o comunismo, formas de rebelião para os judeus da sua geração, mantendo aberto para si esses caminhos, algo que o acompanhava mesmo que seus amigos judeus (Gershon Scholem o mais íntimo) e os de referência marxista (Adorno e Horkheimer) tentassem convencê-lo a assumir uma posição.

Isso mostra claramente quão pouco lhe interessava o aspecto “positivo” dessas ideologias, e que o que lhe importava em ambos os casos era o fator “negativo” de crítica às condições existentes, um caminho para fora da hipocrisia e das ilusões burguesas, uma posição fora da instituição literária e também acadêmica. Ele era muito jovem quando adotou essa atitude radicalmente crítica, provavelmente sem suspeitar a que isolamento e solidão ela ao final o conduziria (ARENDT, 2008, p. 203).

A complicação nos relacionamentos pessoais era algo presente no viver de Benjamin. Em suas cartas à Scholem confidenciou: “Conheci na minha vida três mulheres diferentes e três homens diferentes em mim. Escrever a história da minha vida significaria apresentar a ascensão e a queda destes três homens e o compromisso entre eles” (SCHOLEM, 2008, p. 178).

Benjamin viveu as suas experiências amorosas: casou-se com Dora Pollak, a mãe do filho Stefan; ele acompanhava o desenvolvimento dele com muito interesse. Apaixonou-se por Jula Cohn, que era irmã de um amigo de infância, Alfred Cohn. Um fato ocorrido nessa época foi que na crise do casamento com Dora, ambos se apaixonaram por outras pessoas, vivendo os romances de modo intenso, parecendo que haviam encontrado grandes amores. Mas, ambas as relações não se concretizaram como casamentos, e essa situação aumentou a crise na relação com Dora, que teve como desfecho o divórcio. Em uma de suas cartas a Scholen (2008), escreveu:

Não se podia prever que minha separação de Dora assumisse formas tão cruéis, como de fato aconteceu. Estou envolvido num processo de divórcio, que é imprevisível e... Você não espera ouvir de mim, por escrito, mais do que esse pouco, a informação que adiei por tanto tempo. Não é outra coisa: por ora tenho de coordenar todas as disposições de minha vida com vistas exclusivamente às necessidades desta situação (p. 160).

Benjamin se apaixonou e viveu com Asja Lacis, uma intelectual e militante do partido comunista da Rússia (União Soviética), com quem desejou e buscou formas para se casar com ela. Na juventude foi noivo de Grete Radt, que era sua amiga íntima. Ela mesma reconhece mais tarde para Scholem que o noivado adveio de um equívoco, fruto da relação de Benjamin com o pai, pois ele entendeu que deveria se casar por ordem do pai.

Falei mais tarde com várias outras mulheres que conheciam Benjamin pessoalmente muito bem, inclusive uma a quem ele havia proposto casamento em 1932. Todas frisaram que Benjamin não tinha qualquer atração para elas como homem, por maiores que fossem a impressão e o encantamento que sentiam por seu intelecto e sua conversação. Uma das suas conhecidas mais próximas me disse que, para ela e suas amigas, ele não existia como homem, que nem lhes ocorreu que ele tivesse também essa dimensão. “Walter era, por assim dizer, incorpóreo.” A razão disso seria alguma falta de vitalidade, como parecia às vezes, ou seria um cruzamento de sua vitalidade, que naquele tempo irrompia frequentemente, com a sua tendência totalmente metafísica que lhe rendeu a fama de ser um retraído? (SCHOLEN, 2008, p. 101-102).

Nessas descrições do vivido por Benjamin, capturamos pelas leituras-com-sentido, os modos de ser Benjamin: era ele estudioso, intelectual que (pré)ocupava-se com o processo histórico e com a produção de uma filosofia da história; amante, radical, depressivo, melancólico, colecionador de objetos e de citações de livros, sensível nas relações de amizade, opositor ao mundo burguês e a todas as formas de enquadramento social; tinha mania de segredos, um ouvinte muito bom mas que gostava de falar por longo tempo, lia romances policiais, gostava de viajar para outros países; sentia-se muito atraído por Paris, passeava pelas suas passagens, e foi lá que emergiu o seu projeto de estudo sobre as Passagens de Paris. Penso- sinto que ele foi forte diante das adversidades e fracassos sofridos, resistindo o quanto pode.

A seguir, tentaremos registrar os movimentos conceituais de Benjamin que produziram sentidos e significados ao presente estudo.