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CAPÍTULO 4: JORNALISMO LIVE STREAMING, UMA ATUALIZAÇÃO

4.1 APROPRIANDO-SE: CONSIDERAÇÕES SOBRE MODELAGEM E USOS

A escolha de estudar o vídeo jornalístico ao vivo em redes sociais a partir da ideia, tomada de empréstimo da sociologia160, de apropriações das tecnologias, demandou-nos uma série de convocações históricas e sociais para entender esse fenômeno não apenas como o uso de uma ferramenta pelo jornalismo contemporâneo, mas principalmente como um recurso que foi instrumentalizado ou moldado a partir de condições técnicas, recomendações proprietárias e de ambiências de receptividade socialmente construídas.

Esse panorama primeiro nos ajudou a localizar o jornalismo como um dos diferentes agentes apropriadores, entre tantos que surgiram ainda em uma primeira fase da tecnologia de transmissão audiovisual direta na web. Com a nova fase da tecnologia161 – associada aos sites de redes sociais e com diferentes nomenclaturas, como Mobile Streaming Video Technologies,

Video Live Streaming, Social Streaming e Social Media Live Streaming –, o cenário é de um

recurso que se tornou popular, o que representou não apenas passar a ser apropriado por um maior número de atores, como também implicou em modificação e no crescimento do número de possibilidades de apropriações.

Considerando isto, trouxemos o questionamento de como se situa o jornalismo nesse cenário e tomamos como premissa que a apropriação deste campo é distinta por conta da sua função social, das intenções de uso da ferramenta, de suas lógicas de produção, do contexto econômico vigente no setor e por operar tomando como base valores distintos e por vezes até concorrentes aos de outros agentes apropriadores, como por exemplo os da publicidade, do marketing político ou até mesmo do “cidadão comum”. Nossas considerações sobre o live

streaming, então, são específicas para as apropriações jornalísticas e não necessariamente

aplicáveis fora desse contexto.

Do ponto de vista técnico, identificamos como modeladores dessa tecnologia a progressiva melhoria das condições de conectividade com a internet e a escalabilidade do uso dos smartphones, mas principalmente a vinculação da tecnologia aos sites de redes sociais, atendendo a uma dinâmica maior, que é a da plataformização da internet, associada ao modo

160 Detalhamos o conceito em nossa seção de introdução.

161 Vale ponderar que o jornalismo usou dessa tecnologia em suas diferentes fases – Silva (2008b) lista o uso

jornalísticos do site Qik, que fazia transmissões pela web –, mas em escalas diferentes e em um contexto diferente, ao que podemos citar a centralidade e as controvérsias envolvidas na presença do jornalismo nas mídias sociais.

como as plataformas de mídias sociais têm se tornado um modelo econômico e social dominante (HELMOND, 2015; D’ANDRÉA, 2017).

Já quanto à linguagem ou ao formato das lives, uma modelagem social que nos parece imperiosa é a necessidade da informalidade ou coloquialidade – e por vezes um “amadorismo enquanto forma”162, como nos aprofundaremos à frente. O senso comum ou o discurso vigente

de que o público desse ambiente de rede social é jovem, que esses espaços se destinam ao entretenimento, à leveza das narrativas, ao gerenciamento de personas felizes, impõe que as práticas jornalísticas adotem essas premissas como necessárias para a conexão com seus seguidores. Obviamente essa não é característica massiva, mas é tida como meta. Também não se trata de uma estratégia nova de aproximação com o público, como assinalamos no Capítulo 1 ao tratar do histórico do rádio. A coloquialidade foi um fator quase sempre apresentado espontaneamente (e de modo unânime) pelos profissionais que entrevistamos.

Em relação às transmissões em tempo real de eventos em curso, outra modelagem social ligada à linguagem ou formato é o modo de atuação dos coletivos independentes de jornalismo, como o Mídia Ninja e Jornalistas Livres que, em relação ao jornalismo tradicional, apropriaram-se com maior rapidez e maior dedicação desses recursos de transmissão ao vivo pela internet. Inclusive, ao que nos parece, a atuação dos jornalistas independentes serve como “denúncia” da falta de investimento em equipamentos e planos de dados por parte das empresas de jornalismo impresso e online, que só passam a usar tais recursos muito depois, e ainda em condições limitadas ou subordinados às redações, como mostramos no Capítulo 2.

Com seu discurso e prática, essas organizações independentes definiram que os modelos massivos ou os padrões televisivos não serviam para as lives (D’ANDRÉA, 2015). Certamente, esse tensionamento entre veículos de mídia alternativos e tradicionais guardava e guarda discussões políticas de outras ordens – que não cabem aqui. Porém, do ponto de visto narrativo, os alternativos defenderam e legitimaram como válido, atual e verossímil o tipo de filmagem que hoje encontramos nas lives de tempo real dos veículos: uma lógica de gravação em plano- sequência, com o repórter-narrador controlando as imagens e a descrição atrás das câmeras; em que o valor informativo estava no conteúdo das imagens, independente e sobressaindo da estética delas; em que personagens e narrador se confundem no cenário da notícia, operando como uma estratégia comunicativa de proximidade etc.

162 Não se trata, é claro, de amadorismo stricto sensu, uma vez que as lives são produzidos por profissionais, o

que constituiria uma contradição em termos. Trata-se de um resultado com características semelhantes às de um trabalho amador.

A partir da modelagem social do live streaming, que certamente é mais complexa e resultado de outras influências para além das que destacamos acima, as empresas jornalísticas se apropriaram da tecnologia de diferentes modos e para variadas finalidades, visitadas ao longo desse trabalho. Passamos a recuperar em seguida os principais pontos.

As redações identificaram no vídeo ao vivo uma possibilidade de ampliar a difusão de suas produções e principalmente de aumentar a intimidade com seus públicos em rede, especialmente em um momento em que era grande a confiança depositada pelos veículos nas plataformas de mídias sociais. As empresas apostaram nos formatos nativos dessa mídia, como é o caso das lives, como forma de distribuição de seus conteúdos ou de circulação de suas marcas, gerando e fortalecendo seus valores de mercado. Acreditamos que essa aposta – ou esse empenho em apropriar-se do recurso – é justificada pelas características dessas redes163, especialmente pela sua capacidade de replicabilidade (RECUERO, 2009).

O Facebook Live e outros serviços de live streaming, aparecem não apenas como estratégia de distribuição, mas também como elementos que conferem transparência às produções, dão rosto aos profissionais e às empresas que antes operavam apenas nos bastidores – e que, por tanto, passam a atender à lógica vigente do “selfie”. O live streaming foi apropriado pelo jornalismo especialmente para narrativas baseadas no tempo atual, ou seja, para atualização no ao vivo de acontecimentos passados (que é o que detalhamos no Capítulo 2, nos usos mais iniciais da ferramenta no jornalismo local); mas também gerou novas formas de cobertura de eventos em tempo real, estabelecendo novas dinâmicas de contato com a redação e com o público na transmissão de acontecimentos em curso (este último, um aspecto que foi aprofundado no Capítulo 3). Em alguns dos formatos, como os bastidores de redação ou os debates com participação dos usuários da rede, a própria transmissão em si funcionou como um acontecimento midiático, pensado pelas empresas para engajamento dos seguidores de suas páginas.

Essa “audiência” – que, inclusive, pode ela mesma se apropriar de modo distinto dessa ferramenta em seu perfil pessoal – merece aqui uma atenção sobre como, de fato, tem se apropriado dos espaços de comentários e dos botões de reações. Em muitos dos casos, os usuários ignoram o conteúdo ou a proposta da transmissão ao vivo, veem nela uma espécie de

163 Além da replicabilidade, que diz respeito a possibilidade quase irrestrita de compartilhamento, Recuero

(2009) lista outras três características dos sites de redes sociais, baseadas também nos estudos de Danah Boyd (Data & Society Research Institute): persistência: aquilo que vai para as redes, permanece nelas, é possível se aplicar isso as lives, que mesmo encerradas permanecem para consumo; searchability: capacidade de busca e rastreamento que no casos das lives, entre outras opções, é visível no Live Map; e audiências invisíveis: públicos que nem sempre estão visíveis através de participação.

“praça pública” em que há atenção numerosa e diversa, e usam esse espaço para propagar conteúdos de ordem pessoal, mas principalmente de cunho político, refletindo o clima de polarização que vive o país. O contexto sócio-político é um importante elemento para pensar a modelagem social da tecnologia (MACKAY; GILLESPIE, 1992; WILLIAMS; EDGE, 1996). As bandeiras que levantam, em geral, nada têm a ver com o conteúdo da live. Nas entrevistas que fizemos, os repórteres sugerem que, em muitos dos casos, ignoram o que é inserido pelos usuários nos comentários, justamente por esse aspecto. Sugerimos haver aí uma forte relação de causa-efeito e uma demonstração de apropriação disruptiva ou que não atende às expectativas de quem produz. Essa característica não é própria da live, como é sabido, está presente em outros formatos da rede social, como nas postagens, e nas seções de comentários dos sites das empresas jornalísticas, porém com diferentes condições de mediação e visibilidade. Além disso, como vimos no mapeamento da produção brasileira, as lives registram um maior número de comentário em relação aos vídeos gravados. Como apontamos no primeiro capítulo, acreditamos que as apropriações do Facebook Live pelos jornalistas se dão em um ambiente de complexa relação com formatos, mídias e tipos de produção que as precederam.

De um modo geral, não acreditamos que as apropriações desviantes da expectativa proprietária do Facebook Live pelas organizações jornalísticas sejam expressivas, mas antes pontuais. Podemos listar nessa categoria os usos transpositivos, verificados especialmente em veículos que têm como base do negócio a TV. É um tipo de apropriação frequente na história social da mídia. A televisão, em seus anos iniciais, foi considerada um rádio com imagem, na medida em que fortemente reproduzia o modus operandi do meio anterior; os primeiros websites jornalísticos transpunham o conteúdo do jornal impresso, sem alterações. Nas lives, algumas emissoras apenas replicam o conteúdo veiculado na TV tradicional ou algumas emissoras de rádio abrem um sinal de vídeo nos estúdios através das lives, que em alguns casos mais parecem câmeras de segurança, que são ignoradas na maior parte do tempo pelos produtores.

Outros dois usos improvisados da ferramenta, considerados inicialmente desviantes pelo próprio Facebook, acabaram sendo incorporados ou, em nossa perspectiva, ‘modelados’ mais recentemente. O primeiro deles foi o uso da API para transmissão de vídeos gravados como se fossem ao vivo. A plataforma aderiu a esse tipo de transmissão, atualmente designada de

Estreia. Funciona de modo similar à live, mas reproduz um vídeo anteriormente gravado e

ganha um selo diferente (no lugar de “live”, aparece no topo do vídeo a palavra “première”), também ficando disponível posteriormente na fanpage. No mesmo período em que anunciou as

Estreias, o Facebook também passou a oferecer a opção de realizar enquetes nas lives, o que

antes era uma “gambiarra”, como na imagem abaixo, em que as páginas incluíam (geralmente) um pano de fundo estático com uma pergunta para que quem assistisse escolhesse uma opção a partir do tipo de reação pré-definida pela plataforma (Curtir, Amei, Haha, Uau, Triste, Grr). Um exemplo de uma boa utilização dessa estratégia, mas ainda mais raro, é o modo como O

Povo Online (CE)164 incorporou a enquete aos programas de comentários de temas gerais, direcionada às reações ao tema e não à live em si e substituiu a imagem estática pela participação dos jornalistas, que interagiam com as respostas das enquetes. Ambos os usos “desviantes”, como citado, não são numericamente expressivos nas páginas das empresas jornalísticas, mas temos conhecimento que são frequentes em fanpages com foco em entretenimento.

Figura 23 - Exemplos de enquetes com uso da live. À esquerda, TV Tambaú (afiliada do SBT em João Pessoa)

com uso de imagem estática com a pergunta e vídeo gravado; no exemplo à direita, O Povo (CE) incorporou a enquete a um programa de comentários de filmes do ano.

Fonte: montagem com base em reproduções.

Acreditamos que os diagnósticos das apropriações sociais da tecnologia devem levantar aspectos favoráveis e desfavoráveis desse processo. Por conta disso, listamos como as

apropriações jornalísticas se situam nessa balança em relação ao live streaming. Com o uso da ferramenta, as empresas ganharam maior circulação de suas produções e passaram a diversificar seus produtos, mas também perderam a autonomia sobre eles, especialmente por passarem a depender das lógicas algorítmicas do Facebook para distribuir o que produzem. O Facebook ganha conteúdo de qualidade, de marcas com tradição na narrativa do tempo presente e com isso fortalece um formato nativo e, nessa relação, não nos parece perder nada.

Por fim, considerações que julgamos importante sobre as apropriações das lives, o Facebook e seus usos pelo jornalismo são: 1) é indispensável pensar essas produções levando-se em conta o contexto de uma empresa (o Facebook) que, após acusação de que circula conteúdos falsos e com capacidade de influenciar negativamente a esfera pública, tem se afastado de conteúdos noticiosos, prestigiando o entretenimento na rede e, inclusive, como mostramos no primeiro capítulo, recomendando a live para essa finalidade. Esse movimento coloca as apropriações jornalísticas em uma posição de clara negociação, que ora segue essas expectativas recreativas, ora utiliza a ferramenta para conteúdos hard news. 2) Importa ressaltar que o Facebook é uma organização que nega sua posição de mídia, colocando-se apenas como uma empresa de tecnologia, conforme largamente atestado pela bibliografia sobre o assunto, mas que, ainda assim, detém o poder de circulação, de escolha de como essa circulação se dá. 3) Vale entender a complexidade do tema pela observação dos usuários “comuns” dessa rede, que se apropriam de modo distinto da ferramenta live, entre outras finalidades para praticar o que Cooper (2019) denomina como “atos de jornalismo”165, o que produz tensão no campo e coloca em questão o

próprio fazer jornalístico. Ou seja, a apropriação por outros agentes também impacta no campo. Em resumo, a apropriação jornalística do Facebook Live é uma entre diversas apropriações possíveis, condição que foi ampliada por diferentes melhorias de condições técnicas. Trata-se de um movimento que se utiliza e ao mesmo tempo se sujeita a uma série de características dos sites de rede social, de um modo geral, e do Facebook, em particular. É uma apropriação de uma tecnologia que foi socialmente moldada por valores do nosso tempo e que preserva características dos primeiros usos desse recurso pelo jornalismo independente. Além disso, não se pode falar de modo singular sobre a incorporação da ferramenta no repertório cultural e profissional do jornalismo, mas em apropriações, diversas, que operam desde a apuração (aspecto que aprofundaremos mais à frente), formato, distribuição e consumo. Parte dessa complexidade da apropriação jornalística pode ser entendida ao voltarmos o olhar para o

funcionamento e as prioridades do Facebook para os usuários da rede e para o modo como interagem com as produções do jornalismo no Facebook Live, mas também como eles próprios se apropriam da ferramenta. Outras considerações sobre as apropriações desse formato serão detalhadas ao longo do próximo tópico, que é dedicado a apresentar, ponto a ponto, os resultados das nossas questões específicas de pesquisa.