2.3 Teoria do Funcional Densidade (DFT)
2.3.5 Aproxima¸ c˜ oes para o Potencial de Troca e Correla¸ c˜ ao
Diante do recente sucesso dos m´etodos de aproxima¸c˜ao por funcionais, a energia de troca- correla¸c˜ao Exc[n], que ´e um funcional da densidade, ganhou um papel muito importante nos c´alculos
de sistemas de muitos corpos, pois eles tornariam os resultados o mais pr´oximo poss´ıvel da realidade f´ısica. Neste trabalho, n´os usamos a aproxima¸c˜ao GGA (Gradient-Generalized Approximation), especifi- camente a de Perdew-Burke-Ernzerhof (1996), [7], mas tamb´em, primeiramente, falaremos um pouco da aproxima¸c˜ao LDA (Local Density Approximation), um funcional relativamente mais simples. H´a tamb´em in´umeras outras classes de aproxima¸c˜oes. N˜ao trataremos delas aqui, mas a importˆancia que tem em tratar sistemas altamente n˜ao homegˆeneos como ´oxidos de metais de transi¸c˜ao e de terras raras, que s˜ao materiais fortemente correlacionados, tem feito cresce sobremaneira o n´umero de pesquisadores em busca de melhores funcionais.
Aproxima¸c˜ao de Densidade Local (LDA)
Uma das vantagens da teoria de Kohn-Sham ´e que se pode separar a energia cin´etica e a energia de intera¸c˜ao de Hartree de longo alcance da part´ıcula independente da parte que cont´em a intera¸c˜ao de curto alcance contido no funcional de troca-correla¸c˜ao Exc[n]. Desse modo, esse funcional pode ser
aproximado como um funcional da densidade local, ou quase local, pois os el´etrons em s´olidos poderiam ser consideramos como um caso limite de um g´as homogˆeneo. O caso mais geral seria com a inclus˜ao do grau de liberdade de spin (LSDA - Local Spin Density Approximation). A express˜ao mais simples tem a forma
ExcLSDA[n↑, n↓] =
Z
27 onde xc ´e a densidade de energia de troca-correla¸c˜ao e as setas indicam r´otulos de spin up e spin down,
respectivamente, e tal que n = n↑+ n↓. A densidade de energia de troca-correla¸c˜ao em cada ponto ´e dada pela densidade do g´as de el´etrons homogˆeneo com densidade em cada ponto, isto ´e
ExcLSDA[n↑, n↓] = Z d3r n(r)homxc (n↑(r), n↓(r)) = Z d3r n(r)hom x (n↑(r), n↓(r)) + hom c (n↑(r), n↓(r)). (2.44)
A densidade de energia de troca de um g´as de el´etron homogˆeneo homx ´e conhecida analiticamente da
teoria de Hartree-Fock:
homx (n, ζ) = homx (n, 0) + [homx (n, 1) − homx (n, 0)] fx(ζ), (2.45)
onde ζ = (n↑− n↓)/n ´e a polariza¸c˜ao de spin, e a fun¸c˜ao f
x(ζ) ´e dada por: fx(ζ) = 1 2 (1 + ζ)4/3+ (1 − ζ)4/3− 2 21/3− 1 , (2.46)
e a densidade de energia de troca n˜ao-polarizada (onde temos que n↑(r) = n↓(r) = n(r)/2) ´e
homx (n, 0) = −3 4 6 πn 1/3 . (2.47)
N˜ao h´a forma anal´ıtica para a densidade de energia de correla¸c˜ao, homc . Por´em, ela pode ser calculada
com boa precis˜ao atrav´es dos m´etodos estoc´asticos de Monte Carlo Quˆantico [65]. A express˜ao final para o potencial de troca-correla¸c˜ao pode ser obtida de Excpor meio da eq. (2.42).
Essa aproxima¸c˜ao ´e, curiosamente, muito ´util ao descrever sistemas que fogem da homogenei- dade tal como ´atomos, mol´eculas e s´olidos covalentes, onde a aproxima¸c˜ao baseada num g´as de el´etrons homogˆeneo n˜ao deveria funcionar bem. A aproxima¸c˜ao mais utilizada ´e a LDA-PZ [66]. Gra¸cas a esse sucesso, funcionais melhorados foram constru´ıdos, como os GGA, tratados em seguida.
Aproxima¸c˜ao de Gradiente Generalizado (GGA)
O sucesso do L(S)DA levou ao desenvolimento dos funcionais GGAs. Nesta subse¸c˜ao descreve- remos brevemente algumas ideias f´ısicas, fundamentos da cronstru¸c˜ao dos GGAs. Como primeiro passo em dire¸c˜ao a melhoria sobre as aproxima¸c˜oes locais, a inclus˜ao em xc de uma dependˆencia sobre a mag-
nitude do gradiente da densidade, |∇nσ|, bem como o valor de n em cada ponto r, seria uma expans˜ao
de primeira ordem. Essa expans˜ao ´e conhecida por GEA (Gradient Expansion Approximation), [67]. No entanto, ela n˜ao leva a resultados consistentes quando comparados ao LDA, pois esses gradientes em materiais reias s˜ao t˜ao grandes que que a expans˜ao explode. O termo GGA denota uma gama de possi- bilidades de se propor fun¸c˜oes que modifiquem o comportamento dos gradientes mencionados. Pode-se, portanto, incluir derivadas de ordem mais alta de modo que a eq. (2.43) possa ser generalizada como
ExcGGA[n↑, n↓] = Z d3r n(r)xc(n↑(r), n↓(r), |∇n↑(r)|, |∇n↓(r)|, ...) = Z d3r n(r)homx (n(r)) Fxc n↑(r), n↓(r), |∇n↑(r)|, |∇n↓(r)|, ..., (2.48)
onde x(n) ´e a densidade de energia de um g´as de el´etrons homogˆeneo n˜ao polarizado e Fxc´e uma fun¸c˜ao
adimensional das densidades e suas derivadas. Para troca, h´a uma rela¸c˜ao de escala para Ex[n], em
que a densidade n(r) ´e n˜ao-polarizada, assim como ´e em Fx(n, |∇n|). Conforme definido em [7, 68], ´e
conveniente usarmos o gradiente de densidade reduzida, uma grandeza adimensional:
sm= |∇mn| (2kF)mn = |∇ mn| 2m(3π2)m/3(n)(1+m/3). (2.49)
onde kF = 3(2π/3)1/3r−1S ´e o momento de Fermi e rS ´e a distˆancia m´edia entre el´etrons, conhecida
como raio local de Seitz, que normaliza a m-´esima varia¸c˜ao na densidade. A express˜ao para o primeiro gradiente ´e: s1≡ s = |∇n| (2kF)n = ∇rS 2(2π/3)1/3r S . (2.50) onde n = 3/4πr3 S.
Para s1 h´a uma infinidade de express˜oes para Fx, cujas trˆes pricipais s˜ao a B88 (Becke, [69]),
PW91 (Perdew e Wang, [70]) e PBE (Perdew, Burke e Enzerhof, [7]. ´E interessante saber que para s no intervalo (0, 3), regi˜ao em que o gradiente reduzido ´e pequeno e, por isso, ´util para maioria das aplica¸c˜oes f´ısicas, diferentes Fxtem aproximadamente a mesma forma. Isso indica que diferentes GGAs
contribuem de maneira similar em sistemas convencionais. Comparado ao LDA, a energia de liga¸c˜ao ´e diminu´ıda, o que melhora a concordˆancia com dados experimentais, o que ´e um ponto altamente favor´avel da aproxima¸c˜ao GGA. No intervalo de (3, ∞) o resultado de Fxdepende da escolha das condi¸c˜oes f´ısicas.
Quanto a correla¸c˜ao, Fc ´e mais complicado de moldar em termos de um funcional, por´em sua
contribui¸c˜ao para a energia total ´e muito menor que a de troca. Para grandes valores de s, essa diminui¸c˜ao pode ser entendida qualitativamente, pois grandes gradientes s˜ao associados aos fortes potenciais de confinamento, o que aumenta os espa¸camentos e diminui os efeitos de intera¸c˜ao quando comparados aos termos de el´etrons independentes [59].
De forma geral, a GGA fornece resultados melhores em termos de energias de liga¸c˜ao quando comparado ao LDA. Nesta tese usamos o funcional GGA-PBE [7], que melhora a descri¸c˜ao de ´atomos, mol´eculas e s´olidos quando comparados aos resultados do LDA, mesmo propondo manter suas caracter´ıs- ticas, combinando-as com a n˜ao-localidade da corre¸c˜ao de gradiente. Portanto, baseando-nos no apˆendice B de [59], o funcional para troca ´e escolhido de modo que a aproxima¸c˜ao local ´e recuperada (Fx(0) = 1
e Fx→ const., quando s → ∞. Portanto, podemos escrever
Fx(s) = 1 + κ −
κ
29 onde κ = 0, 804 para satisfazer o limite de Lieb-Oxford.6 Al´em disso, escolhe-se µ = 0, 21951 para
recuperar a forma de resposta linear da aproxima¸c˜ao local. A energia de correla¸c˜ao, EGGA−P BE
c , ´e a
soma de um termo de correla¸c˜ao local com um termo que depende dos gradientes e da polariza¸c˜ao de spins do sistema: EcGGA−P BE[n↑, n↓] = Z dr nhhomc (rS, ζ) + H(rS, ζ, t) i , (2.52)
onde ζ foi definido na equa¸c˜ao (2.45) e t = |∇n|/(2φkT Fn) ´e o gradiente admensional definido em [7],
mas semelhante `a equa¸c˜ao (2.49). Ainda temos que φ =(1 + ζ)2/3+ (1 − ζ)2/3/2 ´e um fator de escala de spin (SSF - Spin-Scaling Factor ).7 t ´e escalado pelo vetor de onda de Thomas-Fermi kT F, ao inv´es de
kF. Portanto, a forma final ´e:
H = γφ3ln 1 +β γt 2 1 + At2 1 + At2+ A2t4 , (2.53)
onde a fun¸c˜ao A ´e dada por:
A = β γ " exp − hom c γφ3 ! − 1 #−1 . (2.54)
Outras Aproxima¸c˜oes
Outras aproxima¸c˜oes s˜ao feitas quando estamos diante de sistemas altamente n˜ao-homogˆeneos (para os quais as aproxima¸c˜oes LDA e GGA n˜ao funcionam bem), tais como ´oxidos met´alicos de trasi¸c˜ao e terras raras. Uma outra aproxima¸c˜ao muito simples s˜ao os funcionais de troca exata (da sigla em inglˆes, EXX), que vem da teoria de Hartree-Fock, uma teoria geral, n˜ao a do caso do g´as de el´etron. Mais um exemplo ´e o funcional LDA+U (o “U” vem do termo de intera¸c˜ao do modelo de Hubbard). Outra classe de funcionais bastante conhecida ´e a dos funcionais h´ıbridos, nos quais incluem uma fra¸c˜ao da troca exata (o funcional EXX de Hartree-Fock) e fra¸c˜oes da troca e/ou correla¸c˜ao de funcionais locais (LDA ou GGA) no funcional de troca-correla¸c˜ao final. Esses funcionais s˜ao constru´ıdos para funcionar para determinados sistemas de interesse, que inclusive resolvem alguns problemas DFT exata, tal como os problemas de energia de gap, fornecendo resultados mais precisos.
6A desigualdade de Lieb-Oxford tem importante papel na DFT, em especial quanto `a estabilidade da mat´eria. Ela diz
que a diferen¸ca entre a energia eletrost´atica coulombiana repulsiva do sistema (parte indireta), e a energia eletrost´atica associada com a densidade de carga em sua aproxima¸c˜ao semi-cl´assica (parte direta), estima um limite inferior para a parte indireta. Detalhes podem ser encontrados em [71, 72].
7Wang, et. al [73], descobriram que φ ´e o fator de escala de spin para o termo |∇n|2/n4/3da expans˜ao em termo de
gradiente da densidade de spin da energia de troca. E ainda perceberam que ´e uma boa aproxima¸c˜ao para o fator de escala de spin para a energia de correla¸c˜ao.