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As argolas em forma de círculo interrompido superiormente, correspondem a um tipo particular e bem demarcado dentro do conjunto de argolas que fazem parte da colecção. As de corpo completamente liso, respeitam a um tipo sobejamente conhecido no campo da ourivesaria popular que é o das argolas "carniceiras" ou de "Barcelos" (Fig.XXII). Amadeu Costa afirma dever-se este nome ao facto de serem adquiridas pelas

mulheres dos talhantes de Barcelos, pessoas abastadas, que gostavam de ostentar estas grossas argolas91'. Desconhecendo as fontes em que se baseiam estes autores, talvez a via oral sempre importante nestes trabalhos de fundo etnográfico, podemos apenas adiantar que elas deveriam constituir um modelo muito usado em toda a região do Douro Litoral; num trabalho de Fonseca Cardoso, dedicado ao estudo antropológico dos pescadores da Póvoa de Varzim, são apresentados alguns retratos de mulheres poveiras, observando-se em três delas possantes argolas "carniceiras"98 (Fig. XXIII). Conde d'Aurora corrobora 9 6 COSTA, Amadeu; FREITAS, Manuel Rodrigues - ob. cit., p. 102.

9 7 Idem, ibidem, p. 102.

9 8 CARDOSO, Fonseca - O Poveiro - Estudo antropológico dos pescadores da Póvoa de Varzim, in "Portugália", Tomo II, fase. 1-4, 1905-1908, pp. 524, 529 e 533.

esta deia quando afirma que as limianas nunca adoptaram os grossos

argolões lisos, chamados à carniceira, tão do agrado - e que bem quadram à sua beleza rupestre! - das do Vale do Cávado " . Na

Póvoa de Lanhoso, elas são igualmente conhecidas como Argolas à

CarniceiraouMarchanta 1 0°.

Tecnicamente, as argolas "carniceiras" podem ser manufacturadas segundo dois processos claramente distintos: em canovão e por estampagem, correspondendo, o último, a estas em estudo. A observação dos pontos de ligação e de soldadura permitem destrinçar os meios de execução. Este é um dado muito importante a ter em conta quando se analisa a técnica de uma peça acabada.

Foi nestas argolas que Ricardo Severo, Rocha Peixoto e José Fortes entenderam ver relações de continuidade com as arrecadas de Estela, Laúndos e Carreço (Hg. XXIV), mais precisamente com o corpo central destas, caixa circular como todos o descreveram. Ricardo Severo referiu-se às argolas circulares do seu tempo como

arrecada peninsular, em forma de caixa, com o travessão recto para atravessar o lóbulo da orelha101 e Rocha Peixoto repete a mesma ideia quando escreve que a arrecada, circular ou em crescente, é entre

nós um dos padrões de ascendência mais remota. O schema do corpo superior das notáveis arrecadas do castro de Laundos confina com o da arrecada actual de travessão recto1®2. As argolas com este sistema de suspensão são ainda fabricadas actualmente103 embora, se utilize

preferencialmente o modelo de suspensão em gancho.

Para além destas, deformas simples em caixa, de chapa batida

lisa. Rocha Peixoto refere também as de chapa batida historiada104,

das quais podemos encontrar várias versões nas argolas em estudo. As variações detectam-se ao nível da distribuição dos motivos decorativos que podem ocupar uma parte ou a totalidade do círculo.

Fia. 24

Fia-25

Fig. 26

Fig. 27

9 9 CONDE D' AURORA - ob. cit, p. 170.

100 fiUgranas> Póvoa de Lanhoso, Câmara Municipal Póvoa de Lanhoso, 1996 (panfleto turístico). 1 0 1 SEVERO, Ricardo - As arrecadas (...), p. 411.

1 0 2 ROCHA PEIXOTO, A. - Ob. cit, p. 552. 1 ° 3 Catálogo. Raízes do ouro popular (...), p. 39. 1 0 4 Vide supra, nota 99.

Os dois modelos mais simples apresentam o corpo circular da argola liso, interrompido inferiormente e ao centro por ornamentos vegetalistas distintos mas de solução semelhante, solução que consiste numa espécie de faixa que envolve "a caixa" e de onde sai, para cada um dos lados, uma gavinha numa (Fig. 24) e um ramo de flores noutra (Figs.25 e XXV)105.

Mais próximos destes, dois outros tipos são constituídos igualmente por corpo circular liso, envolvido interior e exteriormente por um torçal. Rematam ambos na parte de fora e em baixo, por um motivo vegetalista estilizado, seccionado em cinco faces no exemplar maior (Figs. 26 e XXVI), em três no mais pequeno.

Com o aro plenamente decorado, um outro molde apresenta uma ornamentação bipartida; elementos raiados com estrias paralelas na parte de dentro do anel, proporcionando o contorno dos raios a existência de meios círculos lisos, ordenados consecutivamente na zona exterior da argola. Apenso ao corpo circular do objecto, um motivo, de composição simétrica, constituído por duas aletas ligadas a uma moldura estriada no centro e com extremidade triangular, remata inferiormente e ao centro o conjunto (Figs. 27 e XXVII). O MAPL guarda, na sua colecção de ourivesaria, um par destas argolas, trabalhadas em prata dourada. Tendo dado entrada no Museu em 1948, aquando da inauguração deste, estas peças foram produzidas em Gondomar, na já citada oficina de José Lopes da Silva, como bem confirmam as marcas de ourives nelas registadas.

Destaca-se, por último, pelos ornamentos que compõem o interior do círculo, um outro tipo de argola de corpo discoidal. Ligeiras diferenças de pormenor permitem, ainda, separar quatro variantes do mesmo modelo. O mais simples, respeita exclusivamente à "caixa" circular, decorada por motivo de encanastrado rematado por

filetes lisos (Fig. 28)106. Existem umas argolas iguais, em prata

Fig. 28

Fig. 29

Fig.30

Fig. 31

1 0 5 Os motivos decorativos serão analisados, particularmente, no capítulo correspondente. Vide capítulo 3 - Ornamentos.

106 inventário de Ourivesaria do Museu de Artes Populares de Lisboa, Lisboa, Instituto Português de Museus.

dourada, no fundo de reserva do MAPL, que deram entrada em 1948. São oriundas de Gondomar, da mesma oficina de José Lopes da Silva. Um outro cunho apresenta o corpo circular exactamente igual ao anterior, diferenciando desse apenas pelo torçal que envolve o perímetro do disco (figs. 29 e XXVIII). Os dois últimos moldes diferem do primeiro, pelas composições decorativas que rematam inferiormente e ao centro o aro: uma delas, igual à descrita na argola raiada, com duas aletas e moldura entre elas (Figs. 30 e XXIX) e a outra, com motivo vegetalista estilizado, polifacetado e disposto em decrescente (Figs. 31 e XXX). Existem na colecção, vários tamanhos para cada um destes modelos.