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CAPÍTULO 1 FUNDAMENTOS TEÓRICOS DO ESTUDO

1.4. Argumentação e Ironia: pontos de encontro

A argumentação, neste trabalho, é entendida como uma atividade discursiva na qual um ponto de vista sobre algum tema é apresentado e justificado, e perspectivas contrárias são consideradas, com o objetivo de aumentar ou diminuir a aceitabilidade das posições assumidas (Van Eemeren, 1996).

No âmbito dos estudos da Retórica, a ironia é apresentada como uma figura de retórica, ou seja, um recurso de estilo que permite expressar-se de modo simultaneamente livre e codificado, e que desempenha papel persuasivo (Reboul, 2000). Segundo Perelman, uma figura é constituída por uma estrutura discernível cujo emprego se afasta do modo normal de expressar-se e, com isso, chama a atenção para os acontecimentos, tornando-os presentes à consciência (Perelman, 1996).

No entanto, há abordagens retóricas contemporâneas, como a de Esteves (1997) (inspirada na vertente filosófica de Michel Meyer, que faz uma abordagem da argumentação a que chama de Problematologia), que consideram que classificar a ironia apenas como uma figura de estilo é submetê-la a uma redução, minimizando o “furor argumentativo que nela se exerce, pois ironizar é sempre argumentar”. Segundo ele, o desvio de sentido proposital provocado pela ironia traria, em si, um caráter argumentativo, pois sempre haveria um posicionamento do locutor em relação ao que está sendo dito, seja para rejeitá-lo, de forma sarcástica, ou para reforçá-lo humoristicamente.

Vale salientar, porém, que Perelman faz uma distinção entre figura de estilo e figura argumentativa, ao declarar que “para ser percebida como argumentativa uma figura não deve necessariamente acarretar a adesão às conclusões do discurso, bastando que o argumento seja percebido em seu pleno valor”. No entanto, caso não seja bem sucedida, a figura cairia à posição de figura de estilo, isto é, de valor apenas estético, ornamental (Perelman, 1996).

Na realidade, o conceito tradicional das figuras retóricas como meramente ornamentais remonta à escola de Ramus, conforme explica Plantin (2009), que estabelecia dois domínios dentro da retórica, a retórica das figuras e a retórica da argumentação. De acordo com esta perspectiva, uma boa argumentação não poderia sendo reforçada pelo posicionamento de Locke a favor da “preservação e melhoramento da verdade e do conhecimento”, o que significava rejeitar totalmente o discurso figurativo. Nas palavras de Locke, “toda aplicação artificial e figurativa das palavras inventadas pela eloqüência, não são nada mais que insinuação de idéias erradas, provocação de paixões, e, portanto, desencaminhamento do julgamento” (Plantin, 2009).

Esta perspectiva associa, assim, o uso de figuras no discurso à ocorrência de falácias, pelas seguintes razões: 1) Decorações são meros entretenimentos, ou seja, distraem; 2) A figura pressupõe uma escolha entre duas maneiras de se dizer um mesmo conteúdo semântico, o que indica uma falácia por excesso verbal; 3) Ornamentos introduzem uma surpresa, que supõe uma falta de controle, uma abertura às emoções, a um conjunto completo de falácias ad passiones; 4) Figuras violam conscientemente três princípios de Grice: qualidade, quantidade e relevância, além de não respeitarem a regra lógica básica da não-contradição (Plantin, 2009).

Discorrendo sobre as técnicas argumentativas, Perelman apresenta o ridículo como “a principal arma da argumentação”, dentro do qual se encontraria a ironia, que poderia ser empregada como contra-ataque aos opositores: “O ridículo é a arma poderosa de que o orador dispõe contra os que podem, provavelmente, abalar-lhe a argumentação...”. O raciocínio gerado pelo ridículo deveria iniciar-se pela ironia, através da qual, segundo ele, “quer-se dar a entender o contrário do que se diz”. A justificativa para esse rodeio estaria no emprego de uma argumentação indireta (Perelman, 1996).

Brait também admite que a ironia pode ser encarada como um discurso que, através de mecanismos dialógicos, se apresenta como “argumentação direta e indiretamente estruturada, como um paradoxo argumentativo, como afrontamento de idéias e de normas institucionais, como instauração da polêmica ou mesmo como estratégia defensiva” (Brait, 2008). Assim, a ironia não se enquadraria simplesmente como uma figura,

mas como uma forma de discurso, no qual participariam mecanismos estruturadores tais como o humor, a intertextualidade e o interdiscurso.

Baseada no trabalho de Obretchs-Tyteca sobre o aspecto cômico do discurso, Brait explica que há três elementos centrais estruturadores da ironia: a analogia, a argumentação indireta e os “sinais” emitidos pelo enunciador. Segundo explica, o “rodeio” irônico evidencia as incompatibilidades, dando uma dimensão de posicionamento à ironia, argumentando de modo indireto a fim de informar ou até educar (Brait, 2008).

De fato, optar por apresentar ou defender um ponto de vista através de ironia pode ser uma tentativa de suavizar o ataque ou mesmo expor o absurdo de uma tese. Dizer este tipo de pensamento de forma indireta corresponderia ao que Colston (1997) denominou de “salgar a ferida”, referindo-se à intensificação de uma crítica ou de uma condenação, e “dourar a pílula”, que corresponderia à amenização de um comentário negativo. Esta última forma também foi trabalhada por Dews & Winner, a qual denominaram de Tinge Hypothesis, na qual a crítica irônica serviria à função pragmática geral de reduzir ou de algum modo diluir o grau de condenação do comentário crítico (Dews & Winner, 1995). Neste estudo, as autoras afirmam ter encontrado evidências que dão suporte a esta hipótese de que a crítica irônica é interpretada de modo menos negativo do que a crítica literal, o que fornece, portanto, uma das razões por que se pode empregar uma argumentação indireta por meio de ironia.

Ao optar por utilizar um procedimento irônico numa argumentação é imprescindível que haja conhecimentos complementares acerca dos fatos, das normas; ou seja, o ponto de vista de quem fala precisa estar bem definido aos olhos do interlocutor. A ironia pode ser bastante útil na argumentação, mas para que seja bem-sucedida, faz-se necessário que se compartilhem minimamente alguns conhecimentos a fim de que ela possa ser percebida. Logo, a ironia não pode ser usada quando pairam dúvidas acerca da opinião de quem fala. Isto dá à ironia um caráter paradoxal: se a empregam, é porque há utilidade em argumentar; mas, para empregá-la, é preciso um mínimo de acordo (Perelman, 1996).

De acordo com a proposta de Leitão (2000), a unidade básica de análise da argumentação seria triádica, formada por argumento (constituído pelo ponto de vista defendido e sua justificativa), contra-argumento (qualquer contraposição ao ponto de vista

argumentado, seja produzido pelo falante ou por outra pessoa) e resposta (reação ao contra-argumento). A presença destes três elementos caracteriza uma argumentação, sendo possível a utilização da ironia em qualquer destas posições. Esta será a configuração fundamental de argumentação adotada nesta investigação.

Não existe um momento específico da argumentação que comporte melhor a ironia: seu emprego é possível em qualquer situação argumentativa. No entanto, na maior parte das vezes, a ironia costuma ser um procedimento de defesa, já que, para ser entendida, ela requer um conhecimento prévio das opiniões do orador, as quais são evidenciadas na etapa inicial ataque (Perelman, 1996).

É preciso que se tenha bem claro o objeto a quem a ironia é direcionada, visto ser esta uma condição para o sucesso de seu emprego. Perelman assevera que “a ironia fica ainda mais eficaz quando é dirigida a um grupo bem delimitado. Apenas a concepção que se faz das convicções de certos meios pode fazer-nos adivinhar se determinados textos são ou não irônicos” (Perelman, 1996).

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