CAPÍTULO 4 – RECEPÇÕES DE SYMBOLS E FOLKLORE: THURMAN
4.1 Recepção de Symbols
4.1.1 Arnold e o marxismo no debate com Harold J Laski
Entre as recepções a Symbols, fomos capazes de identificar na do pensador britânico Harold J. Laski, um debate direto com o autor. Laski não apenas era um indivíduo respeitado no meio acadêmico norte-americano, como também era do círculo intelectual de Arnold, ainda que alguém mais à esquerda no campo político. Laski era Cientista Político e nos anos 1940, líder do Partido Trabalhista Britânico e deu aulas em Harvard onde se aproximou dos intelectuais reformistas norte-americanos.358 Diante disso, um diálogo se estabeleceu entre ambos também em correspondências. Um dos principais temas surgiu a partir de um questionamento do britânico em torno do uso da perspectiva marxista – que ele via como capaz de auxiliar Arnold a pensar soluções para os problemas propostos.
Laski produziu uma resenha sobre o trabalho de Arnold e elogiou a forma como o autor denunciou crenças e convicções legais e econômicas que atrasavam o desenvolvimento de políticas reformistas. De maneira semelhante, reforçou o argumento
357 “This is a book from which political scientists can obtain much profit, as well as
entertainment”. Ibid.
358Harold J. Laski (1893-1950) foi um influente intelectual inglês da primeira metade do século
XX. Apesar de uma formação inicial na História, foi professor de Direito em Harvard durante os anos 1910 e de Economia nos anos 1920 na London School of Economics. Também se destacou como pensador de teorias políticas internacionais, além de crítico do sistema capitalista. Se tratava de um homem à esquerda, que desde seus anos de graduação demonstrou interesse em apoiar causas de trabalhadores e em favor do sufrágio feminino na Inglaterra. Foi durante anos ativo no Partido Trabalhista Britânico e na Sociedade Fabiana. Durante a Primeira Guerra Mundial, mudou-se inicialmente para o Canadá e depois para os Estados Unidos – quando assumiu como professor em Harvard – onde tornou-se amigo de Felix Frankfurter, conhecido em comum de Arnold. Laski, a despeito de sua preferência pelo socialismo e descrença em relação ao capitalismo, não era favorável a mudanças de governo impulsionadas por revoluções e se posicionava contrário a ditaduras, preferindo buscar soluções democráticas para as desigualdades de classe. Ainda que crítico à forma como os interesses dos homens de negócios eram privilegiados nos Estados Unidos – algo que percebia ratificado pela Constituição – via com bons olhos o New Deal e admirava Franklin Delano Roosevelt. Ver: LAMB, Peter. Harold Laski (1893- 1950): Political Theorist of a World in Crisis. Review of International Studies, v.25, n.2, abr. 1999, p.329-342.
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de que era necessário imprimir um caráter mais “científico” ao funcionamento das instituições norte-americanas e aos métodos legais, julgando que ainda estavam em uma fase “pré-científica”.
Apesar de avaliar positivamente o livro, Laski também tinha ressalvas a respeito do discurso irônico adotado pelo autor, acreditando que tanto acadêmicos quanto o público geral não apreciavam essa prática. Da mesma forma, se incomodava com a falta de soluções para as questões identificadas por Arnold. Faltou ao autor, segundo Laski, uma “Filosofia da História” capaz de projetar respostas para os impasses sugeridos na obra.359 Essa “filosofia” se baseava principalmente na utilização do método de “investigação” marxista:
“A única Filosofia da História, na minha opinião, que permita isso efetivamente, é aquela associada aos nomes de Marx e Engels. Assim que percebermos que as relações legais na sociedade são, em geral, a expressão das relações de classe, assim que reconheçamos o poder supremo coercitivo do Estado, mantido à disposição daqueles que possuem os instrumentos de produção, os processos da lei começarão a se clarear de uma maneira fundamental”.360
Com relação à recepção de Symbols elaborada por Laski, Arnold nos deixou duas correspondências que permitem expandir o diálogo entre esses intelectuais. A primeira delas antecede em alguns meses a publicação da crítica e a segunda trata-se de uma resposta direta de Arnold à resenha de Laski. Em ambas o autor se dirige ao pensador britânico de forma afetiva, tratando-o como alguém próximo e concebendo importância à sua opinião.
Na correspondência de 9 janeiro de 1936, Arnold se queixou a Laski de que boa parte de seus “melhores amigos” não estavam dispostos a aceitar aquilo que preconizava em seu livro, muito em função do tom irônico adotado. Em contraposição, Laski não somente teria compreendido o autor, ainda que criticasse alguns pontos de seu trabalho, como avaliado que Symbols passaria aos poucos por um processo de aceitação.361
359Ao aconselhar o uso de uma “Filosofia da História”, Laski estava pensando que Arnold deveria
se valer da observação não da interação entre indivíduos, mas do “aparato institucional” e do “governo como força, exercitando a autoridade do Estado”, o que implicava também no estudo das relações históricas entre indivíduos e os Estados. LASKI, Harold J. The Symbols of Government by Thurman W. Arnold. The Yale Law Journal, v.45, n.5, mar.1936, p.951-953.
360“The one philosophy of history, so far as I can see, which does this effectively is that associated
with the names of Marx and Engels. Once we realize that the legal relations of society are, broadly speaking, the expression of class-relations, once we recognize in the state supreme coercive power held at the disposal of those who own the instruments of production, the processes of law begin to clarify themselves in a fundamental way”. Ibid.
361 É possível supormos que ambos estivessem pensando principalmente na aceitação dos
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O documento também nos indica que Laski já havia sugerido diretamente ao autor que fizesse uso de uma “teoria política” que explicasse as relações de classe nos Estados Unidos. Também verificamos um Arnold queixoso a respeito do processo de publicação, alegando que o rascunho de Symbols estaria mais próximo de suas ideias do que o “produto final”, assunto que trataremos melhor no próximo tópico.
Na segunda carta enviada a Laski, datada de 28 de fevereiro de 1936, Arnold se prestou a agradecer seu correspondente pela “generosidade” com que ele havia feito elogios e críticas que pudessem ajuda-lo a seguir pensando seus questionamentos.362 Porém, se viu compelido a justificar suas escolhas em não fornecer soluções específicas e defender sua opção de não empregar o marxismo:
“A dificuldade do último capítulo, é que eu ainda não fui capaz de achar palavras para expressar propriamente uma ciência sobre a lei e o governo. Eu faço uma distinção em minha própria mente de uma ciência da lei e uma ciência sobre a lei. Eu concordo com você que podemos entender melhor a história da Suprema Corte dos Estados Unidos ou o código napoleônico através de uma apreciação do governo como expressão da relação entre classes do que através dos olhos de qualquer teoria governamental convencional. E ainda assim, eu não confio nessa explicação da sociedade [marxismo]. Me parece uma ferramenta admirável para reforma, mas não uma plataforma para observação. Como profeta, eu vejo políticos sempre tomando conta do governo. Eu estou, portanto, procurando símbolos para colocar uma diferente classe de políticos no poder. Não um conjunto de políticos mais inteligentes ou intelectuais, porque eu duvido da eficácia da razão na ação política, mas um conjunto de pessoas com um tipo diferente de objetivo. Para colocar essas pessoas no poder, eu preciso trabalhar uma filosofia não- intelectual para eles, já que eles são oportunistas e uma filosofia deve justificar o oportunismo de uma forma um pouco diferente. O problema de um slogan de ampla visão para tais pessoas, é que permite que rejeitem objetos humanitários práticos direcionados a resolver o problema dos americanos.”363
preocupasse com a aprovação de seu livro por um público mais amplo.GRESSLEY, Gene M. op. cit., 1977, p.217-218.
362Ibid. p.224-225.
363“The trouble with the last chapter is the fact that I have as yet been unable to find words to
properly express a science about law and government. I make a distinction in my own mind of a science of law and a science about law. I will agree with you that we can understand the history of the Supreme Court of the United States or the Napoleonic code better through an appreciation of government as an expression of class relation than we can through the eyes of any conventional government theory. And yet I distrust this explanation of society. It seems to be an admirable tool for reform but not quite a platform for observation. As a prophet, I see politicians always running the government. I am therefore looking for symbols to put a different class of politicians in power. Not a set of brighter or more intellectual politicians, because I doubt the efficacy of reason in political action, but a set of people with a different kind of objective. In order to put that crowd in power I must work out a non-intellectual philosophy for them since they are opportunists and philosophy must justify opportunism of a little different sort. The trouble with long range view as slogan for such people is that it enables them to dismiss practical humanitarian objects directed at meeting the problem of the American.” Ibid. p.224.
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Idealista e nada modesto, Arnold concebeu para si próprio enorme tarefa: “colocar nova classe política no poder” a que fosse capaz de compreender o funcionamento dos símbolos da sociedade e atuar em prol das reformas. É possível inferirmos por esse trecho que se por um lado o autor promovia a ideia de que o conhecimento técnico e intelectual era capaz de resolver os problemas de distribuição da nação, ele não abria mão de uma postura pragmática e cujo alicerce estava na “ação política”. Portanto, ele refutava a utilização do marxismo como ferramenta para verificação das relações sociais – ainda que possamos presumir a partir dos posicionamentos de Arnold, se tratar de uma resposta igualmente fundamentada por convicções pessoais.
O autor era intelectual moderado e não via com bons olhos ideologias por ele percebidas como “radicais” e que tivessem como objetivo a reestruturação nas relações de poder da sociedade. Assim, considerou que uma perspectiva marxista de análise, que salientasse as diferenças de classe nos Estados Unidos, não auxiliaria em seu projeto:
“Para a sua frase ‘dada uma perspectiva marxista aos problemas confrontando a lei americana dos dias de hoje, uma frutífera análise de seu resultado pode ser feita com base no firme prognóstico’. Eu somente posso responder que eu espero de verdade que você esteja certo e eu errado. Entretanto, meu julgamento puramente político é que nesse país nós vamos gradualmente alcançar uma melhor distribuição de governo sob um conjunto menos fundamentado de símbolos”.364 Podemos supor que o “conjunto menos fundamentado de símbolos” argumentado pelo autor se referia à quebra das concepções arraigadas, abrindo a possibilidade para o reformismo que defendia. Mas, também nos ajuda a perceber as incertezas do momento a respeito da resolução da crise que afetava os Estados Unidos: ainda não era possível verificar um meio estruturado de saída. Portanto, era um processo em que políticos e intelectuais seguiam atrás de um caminho ideal. Isso nos permite concluir que Arnold estava aqui defendendo o caráter de “experimentação” do New Deal e reiterando o empreendimento dos liberais como sua resposta para a depressão econômica.
4.2 Arnold entre Symbols e Folklore: a busca por um cargo no governo e as