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O governamento do desejo e da Diferença é feito, portanto, a partir da formação discursiva, corroborando o argumento de Foucault (2014c) de que as verdades são usadas para governar as populações. Essa verdade, porém, não é transcendental, mas pôde emergir em certo momento histórico a partir de algumas condições de possibilidade. O período, como sinalizei, foi de 1945 aos dias de hoje e as condições de possibilidade foram descritas na seção anterior.

Assim, argumento que a formação discursiva sobre diferença na educação escolar contemporânea emana de debates realizados no âmbito dos organismos multilaterais, que são instâncias produtoras e difusoras de sentidos e significados que cristalizam verdades. Obtido o consenso sobre os rumos da educação escolar, os países que aderiram aos compromissos firmados reformam suas instituições para garantir que o pactuado se realize e essa verdade gradualmente vai reverberando nos documentos oficiais, nas políticas públicas, nas diretrizes, nos currículos e, por fim, nas escolas. Essa formação discursiva cristaliza e molariza os fluxos.

Deste modo, pode-se argumentar que os organismos multilaterais instauram uma ordem do discurso no que se refere a como gerir as diferenças no contexto escolar contemporâneo. Essa ordem do discurso pretende fixar verdades para embasar a produção de documentos normativos, políticas públicas e currículos escolares com vistas a reformar a educação escolar e calibrá-la para produzir um sujeito humano, livre, inclusivo, tolerante às diferenças, um cidadão participativo que atue em prol da democracia promovendo a igualdade de direitos a todos. A seguir compartilho uma figura que busca ilustrar o que estou dizendo.

Fonte: adaptado pelo autor a partir de imagem de autoria desconhecida encontrada no Google (2022).

Figura 19 – O desejo recalcado

Imagens possibilitam múltiplas leituras, assim, penso ser prudente ressaltar que não estou argumentando que somos receptáculos passivos para conteúdos exteriores. Utilizo a imagem acima com a intenção de ilustrar que a formação discursiva que nos subjetiva opera um recorte. Isto é, ao produzir em nós uma subjetividade, ela nos fornece uma visão de mundo.

Ao fazer isso, espera-se assegurar que não tenhamos qualquer visão de mundo, mas a visão alinhada às necessidades da sociedade na qual vivemos. Por isso, não me interessa valorar isso como bom ou mau, mas sinalizar o uso estratégico dessa produção subjetiva. É claro que nem todos saem da escola com a mesma mentalidade, no que se refere às diferenças, nesse sentido, faço minhas as palavras de Willinsky (2012, p. 95 ênfase do original), para não soar romântico e dizer que “Sei que estamos longe de perceber como enxergamos a nacionalidade por meio de lentes de raça, cultura e gênero, longe de permitir que todos tenham direito igual e inequívoco de estar aqui, em uma nação, tal como a imagino”. No Brasil atual ainda precisamos lutar por coisas básicas. Lutar por nossa recente e frágil democracia, pois o fascismo, para lembrar a célebre frase de Bertolt Brecht, é uma cadela que está sempre no cio. A título de exemplo, não posso deixar de dizer que, enquanto escrevo essas palavras, muitas pessoas, em diferentes partes do país, saem às ruas invocando um nacionalismo às avessas e fazendo saudação nazista enquanto pedem intervenção militar por não aceitarem o resultado democrático das eleições presidenciais de 2022. Ainda temos que gritar que racismo existe e que ele é estrutural e mata, que lgbtfobia é cultural e mata, que ginofobia é cultural e mata, que aporofobia mata, que capacitismo existe e impõe sofrimento e exclusão às pessoas com deficiências, que o silêncio cínico e conivente diante do genocídio dos povos originários é real. Que o machismo é estrutural e oprime inclusive a nós, homens, que dele nos beneficiamos, mesmo quando somos gays.

A educação tem papel central na transformação dessa paisagem social. Por isso, ainda que estejamos longe de uma nação na qual as diferenças não sejam diminuídas em função das normas, o fato de essa formação discursiva ter emergido neste tempo e estar positivada em documentos que normatizam e/ou orientam a educação escolar me conforta, pois isso sinaliza que estamos em movimento. Um conforto, porém, que não é ingênuo, pois não desconsidera a arte de governamento implementada por meio desta mesma formação discursiva, que deve produzir uma subjetividade que recalcará o desejo e o conformará às necessidades das democracias contemporâneas, inseridas no contexto da expansão acelerada da globalização.

O mundo globalizado é um mundo em rede, no qual as partes são interdependentes, constituindo uma rede de intercâmbios, empréstimos e acordos de cooperação; no qual

se adotam padrões de comportamento, modelos culturais de outros ou algumas de suas características; no qual se tecem projetos e destinos (agora podemos comprovar que nossa segurança também está na rede). (SACRISTÁN, 2012, p. 56).

Viver no cenário da globalização é uma novidade e precisa ser aprendido. Devemos cada vez mais aprender a conviver com as diferenças. Assim, para poder gerir as diferenças é preciso, antes, recalcar o desejo e subjetivar a Diferença, isto é, dar-lhe um nome. O que ele/ela é? Se não sabemos, como incluir? Se não incluímos, como governar? É preciso riscar um crivo no caos para produzir uma paisagem e os personagens que a comporão. E isso só é possível à medida que recalcamos o desejo e subjetivamos a Diferença que escapa. O recalcamento do desejo é como o resfriamento do vulcão e, se ele resfria, a lava que escapa solidifica. Ainda que esse resfriamento seja provisório, ele possibilita criar paisagens. É nesse processo que as diferenças, aqueles que não ornam com a paisagem, aparecem, como visitas inconvenientes que batem à porta e a quem devemos, por dever de educação, fazer sala. As diferenças obrigam a alterar a paisagem, de modo que a escola não pode permanecer indiferente a elas. Quer queira, quer não, ela é invadida e povoada por diferenças que fazem os currículos dançarem. Por isso, os currículos escolares contemporâneos precisam, mais que aprenderem a dançar, adiantarem-se e definirem as músicas que dançaremos. Dance como quiadiantarem-ser, mas dance minhas músicas.

No que se refere à relação educação escolar e diferenças no Brasil, quando analisamos os documentos cronologicamente, percebe-se que há uma ampliação das discussões em torno desse tema a partir da redemocratização e da instauração da educação escolar como um direito social de todos e como dever do Estado e das famílias. É importante destacar que o Brasil assumiu, em 1990, na Conferência Mundial Sobre Educação para Todos, o compromisso de reconfigurar seu sistema educacional a partir dos quatro pilares da educação para o Século XXI.

Se a educação é para todos, isso coloca para a educação o desafio incontornável de gerir as diferenças. Os documentos elaborados nestas reuniões são, deste modo, monumentos, pois expressam uma racionalidade, um modo de pensar a educação e, dentro dela, a diferença.

Os enunciados que emergem nos/dos debates globais acerca da educação reverberam em documentos internacionais e são replicados em documentos nacionais. Há continuidade entre as políticas educacionais globais e locais visando à homogeneização. O que quero destacar é que […] “as políticas públicas educacionais globais são decorrentes de múltiplas realidades, diretrizes e processos de gestão que são prioridade em nível mundial e que interferem na articulação e no funcionamento dos sistemas educacionais em nível local.” (DALLA CORTE;

SARTURI; MOROSINI, 2018, p. 15). De tal maneira, se é verdade que as potências

econômicas não podem determinar absolutamente tudo o que ocorre dentro das salas de aula de cada uma das escolas, de cada um dos sistemas educacionais brasileiros (municipais, estaduais, distrital, federal e privado), também é verdade que não podemos ignorar os efeitos de suas determinações, pois, “Mesmo quando resistimos às tendências sociais e às diretrizes políticas, estamos nos reconstruindo em termos daquelas tendências e debates, e de nossa resistência a eles” (PINAR, 2012, p. 162). As pressões internacionais sobre como os países devem organizar seus sistemas educacionais, quais metas devem buscar, o que é qualidade, que sujeitos devem formar, bem como, os debates globais sobre educação, levam às mudanças nas estruturas dos países, às reformas em suas instituições, para adequá-las aos interesses econômicos ou para resistir a eles. De modo que não há como negar a influência das decisões tomadas nos organismos multilaterais sobre o Brasil. Os documentos elaborados nos organismos multilaterais expressam a forma de pensar a educação e, nela, a diferença. Essa racionalidade foi tomada como referência para embasar e nortear a reconfiguração da tecnologia escolar e dos currículos contemporâneos. Isso é importante, pois, é a partir dessas definições que a educação deve se reestruturar para formar sujeitos com habilidades e competências alinhadas às necessidades da sociedade e do mundo do trabalho e isso implica em recalcar o desejo.

A Constituição Federal de 1988 assimilou a formação discursiva e desencadeou reformas institucionais e a criação de políticas públicas para atender ao novo paradigma de educação para todos, o que nos levou à educação na diversidade. As análises permitem sustentar que essa formação discursiva embasa a criação e difusão de verdades sobre a diferença na educação e estas configuram uma arte de governamento do desejo e da Diferença via processos de subjetivação curriculares. O que essa arte de governamento pretende é recalcar o desejo sob subjetividades específicas e nomear todo o excedente, a Diferença radical, para que se possa dispô-la taticamente nos espaços estriados. Assim canalizados, desejo e Diferença se tornam inofensivos aos objetivos econômicos em vigor e que regem as formas de exercício do poder.

O que se busca, em última instância, é [...] “aprisionar a diferença - enquanto voz polifônica e portadora da multiplicidade na estrutura, tenta-se compensar seu crescimento. A multiplicidade entra no universo do logos, transforma-se no sujeito da Pedagogia (assim com P maiúsculo) e tem um destino: ser individuada” (RÍOS, 2002, p. 117), pois assim poderá ser nomeada, paralisada, governada e tornada economicamente útil. Esse duplo jogo de recalcamento do desejo e subjetivação da Diferença, engendrado por uma governamentalidade democrática neoliberal, possibilita governar, concomitantemente, a todos e a cada um.

O que perseguimos, em última análise, é o igual, aquele que legitima nossa forma de existência, pois nossa moral judaico-cristã nos subjetivou a negar a diferença do outro para só então, sobre essa negação, afirmar a nossa (NIETZSCHE, 2017b). Pensar uma comunidade de Diferença exige ir além e entender que somos irrepetíveis. As conexões entre as singularidades têm a potência de alterar constantemente as paisagens sociais que se formam, o que inviabilizaria a existência de um Estado nos moldes atuais. Daí a necessidade de uma arte de governamento do desejo e da Diferença. Se não canalizado e controlado, o desejo pode implodir projetos sociais inteiros. É preciso suplantar qualquer ameaça aos desejos despóticos do Estado.

Como sociedade, priorizamos a identidade ao ponto de inventarmos tecnologias de poder que tentam produzir algumas delas em larga escala e fixá-las, como é o caso da maquinaria escolar. O que subjaz esse empreendimento é o que Nietzsche (2017b) chamou de vontade de duração. O pensador não se opõe à necessidade de construir significados para representar o mundo, afinal, sem isso a sociedade não poderia existir. A grande crítica do filósofo alemão é dirigida ao valor de verdade que atribuímos às interpretações que nós mesmos fazemos, fixamos e naturalizamos. Precisamos fixar o mundo, pois assim temos ao menos a ilusão de dominar as forças molares e moleculares. Entretanto, esses fluxos jamais podem ser totalmente dominados, então é preciso canalizá-los e torná-los úteis à configuração social que criamos e pretendemos fixar. Por isso inventamos a escola e investimos na produção subjetiva via currículos escolares. O que está em nosso horizonte é um projeto de sociedade que é constantemente ameaçado, pois o projetamos e construímos sobre bases moventes, de modo que estamos constantemente dançando sobre vulcões que erupcionam e diluem o que fixamos.

Tudo é movimento e a racionalidade metafísica que herdamos nos faz querer controlar, paralisar esse movimento. Vontade de ilusão, pois o melhor que podemos conseguir é aprender a dançar no ritmo, o que nos dá uma ilusão de controle. Nós acompanhamos os fluxos, não o oposto. Diante disso, considerando que o princípio do mundo é a Diferença e não a identidade,

“Afirmo que só podemos vir ao mundo se outros também podem vir ao mundo, o que significa que nossa vinda ao mundo depende da existência da pluralidade e da diferença” (BIESTA, 2017, p. 27-28). Sem isso seremos, como na dialética platônica, que subjaz o Humanismo, cópias imperfeitas de identidades essencializadas. Cópias de decalques naturalizados, diferença, não presença. Nesse cenário, a base humanista da escola pode ser questionada, pois, na perspectiva da Diferença, podemos pensar formas outras de fazer escolas. Escolas que não sejam homogeneizantes, mas que, em vez disso majorem nossa potência de agir.