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4 AS ARTES DE GOVERNO E A PRODUÇÃO DESEJANTE

4.6 SOCIEDADE GLOBAL DE CONTROLE: O IMPÉRIO, AS

híbridas, fluidas, maleáveis, fragmentadas e incapazes de conter a Diferença que prolifera sem cessar das maquinações desejantes. Com isso vemos cada vez mais [...] “multiplicarem-se as diferenças individuais, esvaziarem-se de sua substância transcendente os princípios sociais reguladores e dissolver-se a unidade das opiniões e modos de vida.” (CHARLES, 2004, p. 19).

A transcendência, a essência, as verdades absolutas, gradualmente vão cedendo lugar ao devir. Assim, a produção desejante se torna um problema político a ser gerido e tornado economicamente útil. A produção identitária, realizada pela tecnologia escolar, é uma das várias práticas de governamento desenvolvidas através dos tempos para tentar estancar os fluxos desejantes, “Mas as identidades, que não tornam o fluxo mais lento e muito menos o detêm, são mais parecidas com crostas que vez por outra endurecem sobre a lava vulcânica e que se fundem e dissolvem novamente antes de ter tempo de esfriar e fixar-se.” (BAUMAN, 2001, p. 89). A fixidez é provisória, pois a lava subjacente, essa potência criadora e imparável do desejo, sempre dissolverá as superfícies endurecidas e ilusoriamente estáveis, alterando-as. Portanto,

Se nenhuma forma é dada a priori, visto que o transcendental é pré-individual, isto é, a-formal, conclui-se que toda forma é tão-somente o agenciamento provisório de singularidades movediças e livres, e que o homem ou o acaso são também livres de juntá-las, arrumá-las, diferentemente. (LINS, 2005, p. 22).

Em suma, nas sociedades de controle entendeu-se que é inútil tentar conter a produção desejante, então investe-se em sua gestão, em seu controle, em seu governamento. Nessas sociedades, as tecnologias de governo devem acompanhar os movimentos arrítmicos dos fluxos vulcânicos do desejo. É sobre essa leitura de configuração social que desenvolverei as análises desta pesquisa. Portanto, é neste cenário, cada vez mais complexo e mutável, em que o poder é microfísico e se exerce por constantes modulações, que situo a tecnologia escolar, pois ela tem papel fundamental no recalcamento do desejo engendrado pelos currículos à medida em que produzem subjetividades que nos convertem em sujeitos governáveis. Simultaneamente, essa tecnologia nomeia a Diferença, o excedente que vaza, a inclui e reconecta à máquina social.

4.6 SOCIEDADE GLOBAL DE CONTROLE: O IMPÉRIO, AS RECONFIGURAÇÕES NAS

a qual aludem os autores, é a Diferença, os fluxos descodificados que fluem da produção desejante e alteram toda a paisagem, isto é, modificam o socius, a sociedade. Como argumentei nos capítulos anteriores, a gestão tática destes fluxos é o que caracteriza a sociedade de controle que, segundo Deleuze (2013), emergiu após a Segunda Guerra Mundial e tem por base a configuração social biopolítica que se sofisticou ainda mais.

A emergência da sociedade de controle recalibrou a forma de exercício do poder e fez surgir uma axiomática, uma mecânica do poder caracterizada por descodificar fluxos molares, isto é, torná-los moleculares, para então reacoplá-los aos fluxos molares do neoliberalismo, canalizando-os ao mesmo tempo em que os despotencializa e os torna economicamente úteis.

O que o Estado introduz, nesse sentido, é […] uma “molaridade” que ora bane todas as forças moleculares para um espaço exterior (um “fora”), ora as disciplina e hierarquiza no espaço de interioridade que o constitui. O socius, portanto, se dá sempre por uma tensão entre forças moleculares e forças molares. (GUÉRON, 2020, p. 150-151).

Esse modelo de configuração social, adaptado às modulações impostas pelos fluxos molares e moleculares, se ampliou com o desenvolvimento da globalização dos mercados, que é também a globalização das culturas das potências econômicas. Deste modo, “As quase soberanias, as divisões territoriais e a segregação de identidades promovidas e transformadas num must21 pela globalização dos mercados e da informação não refletem uma diversidade de parceiros iguais” (BAUMAN, 2021, p. 78), mas sim uma complexa teia de assimetrias entre as nações. Assimetrias determinadas pelo poderio econômico, de modo que “Testemunhamos hoje um processo de reestratificação mundial, no qual se constrói uma nova hierarquia sociocultural em escala planetária.” (BAUMAN, 2021, p. 78 ênfase do original). Em função disso, a rede de controles precisou se ampliar em nível global levando ao surgimento do que Hardt e Negri (2001) chamaram de Império. A partir de meados de 1970 a globalização começou a acelerar seus processos e um dos efeitos decorrentes disso foi que teve início uma reconfiguração da política interna dos países, mas também da política externa, de modo a atender às demandas de uma organização social globalizada, presidida pelas exigências da economia neoliberal, pautada na competitividade. No novo cenário, os países precisaram se tornar ainda mais competitivos

E, para aumentar a capacidade competitiva de seus países, criaram uma nova forma de Estado – o Estado-rede –, a partir da articulação institucional dos estados-nação, que não desaparecem, mas se transformam em nós de uma rede supranacional para a

21 Nesta citação esta palavra tem o sentido de dever, de obrigação.

qual transferem soberania em troca de participação na gestão da globalização. Esse é claramente o caso da União Europeia, a construção mais audaz do último meio século, como resposta política à globalização. (CASTELLS, 2018, p. 19).

Em outras palavras, para que os fluxos do mercado fluíssem conforme os interesses das potências econômicas, foi preciso reconfigurar internamente os países por meio das reformas neoliberais e também a política externa e o direito internacional, que precisou se tornar mais flexível para não obstar os fluxos. Assim, no âmbito da OCDE, os países ricos criaram seus próprios regulamentos, tornando as leis rígidas quando se trata de assegurar seus interesses, mas flexíveis quando se trata de regular suas atividades. Chamayou (2020) chamou isso de soft law, direito flexível. A estrutura interna dos países deveria favorecer o movimento, em tese, natural dos fluxos do capital financeiro internacional, o que exigiu reformar as estruturas política, administrativa, fiscal, econômica e jurídica, além de outras instituições, como a escola.

No Brasil, essas reformas começaram a ganhar força com a eleição de Fernando Collor de Mello, em 1990. Na sequência, Fernando Henrique Cardoso aprimorou e acelerou este processo, privatizando o que pôde e abrindo as portas do país para o capital financeiro internacional. Não por acaso, foi nesse período que a educação brasileira começou a passar por grandes reformas, motivadas pela Constituição Federal de 1988 e pela adesão do Brasil ao compromisso firmado na Declaração Mundial sobre Educação para Todos (UNESCO, 1990).

Em seguida, tivemos 16 anos de um governo que, em tese, seria de oposição, mas que deu sequência às reformas neoliberais, pois, não há como os países resistirem à pressão das potências econômicas sem ficarem isolados e sofrerem sanções. “É quase universalmente considerada uma conclusão definitiva que eles devem conceder liberdade a ‘forças de mercado’

notoriamente erráticas e imprevisíveis.” (BAUMAN, 2021, p. 126), sem óbice. Esses governos (Lula e Dilma) foram mais sensíveis aos economicamente mais fragilizados, no entanto, também introduziram reformas neoliberais, inclusive na educação. Esse cuidado com os mais vulneráveis ralentou o processo de reformas, demandadas pelo mercado financeiro, o que gerou insatisfação e fez ganharem força as articulações em favor do golpe de 201622, que destituiu Dilma Rousseff levando ao poder o vice, Michel Temer, aliado dos interesses do mercado.

Quando analisamos os primeiros atos de Temer como presidente da república, facilmente

22 “Não há dúvida sobre a correção da utilização da palavra ‘golpe’ para descrever os eventos de 2016. Uma presidente, eleita de forma legítima, no exercício do cargo, foi derrubada porque perdeu o apoio da elite econômica, da mídia e do Congresso, sem que tenha sido demonstrado que ela cometeu qualquer uma das ações que, pela lei, justificariam seu afastamento” (MIGUEL, 2019, p. 17). Segundo Carvalho (2021, p. 127), foi um [...] “Golpe político-econômico-sexista, casado com a fúria da classe dirigente branca contra as políticas inclusivas”.

inferimos qual foi o seu foco. As reformas neoliberais nas áreas trabalhista, previdenciária, tributária, política, fiscal e na educação entraram imediatamente na pauta daquele governo com Câmara e Senado Federal alinhados para aprovar as mudanças que o mercado demandasse.

Impulsionados pelo reformismo neoliberal e pela onda de extrema direita que ganhou força no cenário político global, incluindo potências econômicas como Estados Unidos, que elegeu Donald Trump, em grande parte pela perda de legitimidade do modelo democrático liberal (CASTELLS, 2018), o Brasil elegeu, em 2018, Jair Messias Bolsonaro, um arauto do neoliberalismo. Desde que assumiu, Paulo Guedes23, atual ministro da economia, investe ostensivamente nessas reformas, pois, no cenário do Império, cada nação é uma engrenagem da maquinaria econômica global, configurada pelas potências econômicas segundo seus interesses.

Reformar as instituições é abrir sulcos no espaço liso, é estriá-lo estrategicamente para canalizar e conduzir os fluxos tornando-os úteis aos interesses mercadológicos.

Em função dessa reconfiguração em escala global, a soberania dos Estados-nação diminuiu ao passo que um Império global ganhou corpo, segundo Hardt e Negri (2001). Os autores partem do conceito de sociedade de controle, de Deleuze (2013), para argumentar que esse Império emergiu da ampliação da biopolítica em escala global. Assim, inicialmente os controles transcenderam os muros das instituições disciplinares, alterando a mecânica de funcionamento do poder e tornando-a muito mais eficaz, pois os controles operam em espaços abertos, lisos. Isso permitiu que o poder se amplificasse e se tornasse onipresente na sociedade.

Com a globalização, esse processo foi ainda mais amplificado e os controles transcenderam as fronteiras dos Estados-nação e se alastraram globalmente, fazendo emergir uma intricada teia planetária de relações de poder, o Império. [...] “o poder exercido pelo Império não tem limites.

Antes e acima de tudo, portanto, o conceito de Império postula um regime que efetivamente abrange a totalidade do espaço, ou que de fato governa todo o mundo ‘civilizado’.” (HARDT;

NEGRI, 2001, p. 14). Tudo é incluído para que tudo possa ser controlado, de modo que não há mais o fora e o Brasil passa por reformas neoliberais como parte de sua adaptação ao Império.

Os controles vão se ampliando mais e mais à medida que a economia se globaliza e vai ganhando corpo o Império que é uma sociedade global de controle presidida pela economia neoliberal, que visa expandir-se sempre mais. Em função de ser uma demanda do neoliberalismo, a circulação de pessoas e produtos se maximizou. Com isso, o intercâmbio entre

23 Foi Ministro da Economia na gestão de Jair Messias Bolsonaro, entre 2018 e 2022.

as diferenças foi inevitável e produziu (e ainda produz) grandes mudanças, desterritorializações e reterritorializações culturais constantes e em velocidades jamais vistas até então.

Sob a força do CMI24, o comando estatal e os Estados nacionais são, ao mesmo tempo, desterritorializados de suas funções tradicionais e territorializados em redes multicêntricas segundo espaços descontínuos a partir de uma nova lógica consoante aos novos fluxos de capitais e as demandas da segurança visando a produção, a logística e os fluxos de capitais. (MARINO; VIEL, 2017, p. XVI).

Esse rearranjo dos Estados nacionais no cenário global, bem como, o desenvolvimento acelerado das novas tecnologias, que facilitaram o transporte pelo globo e implementaram outras formas de comunicação, como as efetuadas por artefatos tecnológicos e a internet, fomentou e potencializou a circulação das pessoas e, consequentemente, as trocas culturais.

Entretanto, é importante considerar que há uma assimetria entre as diferentes culturas, de modo que, se [...] “o mundo é hoje multicultural não quer dizer que há espaço para que todas as culturas se manifestem.” (LOPES; MACEDO, 2011, p. 187). É preciso considerar o lugar que cada nação ocupa nesse cenário. No que se refere ao Brasil, o lugar de uma nação considerada em desenvolvimento. Significa que o país tem pouco poder de decisão no âmbito dos organismos multinacionais, inclusive no que tange à educação escolar. Além disso, no cenário da globalização não estão todos autorizados a circular livremente. Há os que são indesejáveis, como os imigrantes, que vagueiam peregrinando em busca de melhores condições de vida.

Os náufragos da globalização peregrinam inventando caminhos, querendo casa, batendo portas: as portas que se abrem, magicamente, à passagem do dinheiro, se fecham em seus narizes. Alguns conseguem passar. Outros são cadáveres que o mar carrega para praias proibidas ou corpos sem nome que jazem debaixo da terra no outro mundo onde queriam chegar. (GALEANO, 2004, p. 77 tradução minha).

A livre circulação é um privilégio de classe e aqueles cujas condições não permitem circular sofrem os efeitos de uma localização forçada, fazendo emergir movimentos de resistência que culminam na dicotomia local-global. “Amplamente notada e cada vez mais preocupante, a polarização do mundo e de sua população não é uma interferência externa, estranha, perturbadora, um entrave ao processo de globalização – é efeito dele.” (BAUMAN, 2021, p. 102). Nesse cenário do Império, é preciso deixar que as coisas aconteçam naturalmente

24 Sigla para Capitalismo Mundial Integrado, […] “conceito que já vinha sendo trabalhado por Guattari em textos anteriores e que sem dúvida será o ponto de partida para a posterior construção do conceito de Império por Negri”

(MARINO; VIEL, 2017, p. XIV). Era como Guattari chamava o fenômeno da globalização dos mercados.

(laissez-faire) e os controles são muito eficazes neste sentido, pois permitem gerir os fluxos humanos sem interferir, mas prevenindo, conduzindo, governando. Esse deixar as coisas acontecerem naturalmente precisa, porém, ser problematizado, pois há que se considerar as assimetrias estabelecidas entre as culturas das potências econômicas e as dos países periféricos.

Essa assimetria favorece a gradual mundialização das culturas dos países ricos e a localização da cultura dos países pobres. De tal modo, as culturas dos primeiros são amplificadas pelo globo e se tornam decalques para processos de subjetivação em escala global.

Esse movimento decorrente da globalização demandou novas práticas de governamento do desejo e da Diferença e isso reflete em nível macro e micro. Assim, a relação que a educação escolar atualmente mantém com a Diferença deve ser analisada a partir do cenário da sociedade global de controle, pois “Não se pode pensar a sociedade de controle sem se pensar o mercado mundial. [...] Como o mercado mundial, ela é uma forma que não tem fora, fronteiras, ou então possui limites fluidos e móveis.” (HARDT, 2000, p. 372). Isso acarreta um intercâmbio de diferenças sobre as quais emergem acontecimentos discursivos que produzem verdades que servem de base para a construção de práticas para governá-las. Práticas que corporificam uma arte de governamento do desejo e da Diferença mobilizada, também, pela escola. A tecnologia escolar não pode, portanto, ser pensada como algo descolado do cenário global, pois a forma como ela se organiza atualmente e como os currículos são configurados têm íntima relação com o cenário global, que demanda outras relações com as diferenças.

Deleuze (2013) já argumentava que as sociedades de controle precisam ser pensadas no contexto das transformações atuais do capitalismo. A economia neoliberal transpõe as fronteiras territoriais e se alastra pelo globo presidindo a reconfiguração interna dos países. Ao impor o modo de funcionamento dos mercados atuais, o neoliberalismo reconfigura e tenta igualar os países no que se refere à economia, de modo similar ao que ocorreu com o aparecimento dos Estados nacionais. Essa atualização no capitalismo demanda abertura das fronteiras para a circulação de pessoas e produtos pelo globo. Pode-se afirmar que a

A transição para o Império surge do crepúsculo da soberania moderna. Em contraste com o imperialismo, o Império não estabelece um centro territorial de poder, nem se baseia em fronteiras ou barreiras fixas. É um aparelho de descentralização e desterritorialização do geral que incorpora gradualmente o mundo inteiro dentro de suas fronteiras abertas e em expansão. O Império administra entidades híbridas, hierarquias flexíveis e permutas plurais por meio de estruturas de comando reguladoras. (HARDT; NEGRI, 2001, p. 12 ênfase do original).

O arranjo social imperial se dá em espaço aberto com fronteiras cada vez menos fixas, de modo que o Império se expande e gradualmente engloba tudo. Neste contexto, ganha força a configuração social baseada no modelo da democracia participativa liberal, pois, ao participar, as pessoas são conduzidas, haja vista que esta participação é orquestrada e conduz aos anseios do capital financeiro internacional. Assim, a democracia liberal é outro nó da intricada tessitura do Império e precisa também ser considerada para que se possa compreender como a educação democrática atual desenvolve sutilmente uma arte de governamento do desejo e da Diferença.

De tal maneira, argumento que a emergência do Império e a reabertura democrática no Brasil, decorrente desses movimentos na economia global, são condições de possibilidade de emergência de novos enunciados sobre diferença na educação. Os intercâmbios entre as nações e as trocas culturais decorrentes disso, bem como, a implementação de um ethos democrático no Brasil, fundado no princípio da isonomia (todos são iguais perante a lei), o que coloca a necessidade de considerar as diferenças, fez emergirem enunciados que vêm configurando uma formação discursiva que atravessa currículos e opera sutilmente o recalcamento do desejo por meio da produção de subjetividades específicas. Deste processo há sempre um excedente que escapa, a Diferença. Ela precisa ser gerida e isso é feito pela sobrecodificação deste excedente em identidades em correlação biunívoca às subjetividades demandadas pelo mercado. Assim a Diferença é provisoriamente paralisada ao ser significada numa relação de oposição às normas.

4.7 DESDOBRAMENTOS DA SOCIEDADE GLOBAL DE CONTROLE NA EDUCAÇÃO