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4 AS ARTES DE GOVERNO E A PRODUÇÃO DESEJANTE

4.5 SOCIEDADE DE CONTROLE: O PODER MODULATÓRIO COMO

há também diferenças entre os fluxos populacionais, diferentes demandas sociais, econômicas, religiosas, políticas, o que faz do currículo um território em torno do qual há constantes disputas para fixar os sentidos e significados e, consequentemente, os sujeitos que buscará produzir.

Ao presidir processos de normalização a partir de normas identitárias produzidas, naturalizadas pelas populações e universalizadas, os currículos escolares seguem enfatizando as semelhanças. É importante observar que ainda há referências identitárias presidindo os processos de subjetivação na educação escolar. Porém, essas normas já não são prescritas pelo Estado. Elas emergem dos fluxos populacionais e são avalizadas, pois parecem naturais. Então é difícil problematizá-las sem que pareça que se está defendendo a existência de uma única identidade. O espectro de identidades possíveis, aceitáveis, se ampliou e agora deve incluir identidades historicamente excluídas, estigmatizadas, perseguidas. Entretanto, apesar de minoritárias, essas identidades também recalcam o desejo e reduzem a Diferença a diferença, pois essas identidades só afirmam sua diferença em relação a algum referente identitário naturalizado, mas não como Diferença em si. Isso é o mesmo que dizer que elas negam a Diferença e, apenas sobre essa negação, afirmam sua diferença. Portanto, a moral subjacente é a judaico-cristã, uma moral ressentida e reativa que nega a vida como devir. É importante destacar que “A vontade de potência negadora da vida não é privilégio do ideal cristão, mas há muito tomou a forma secularizada, dessacralizada. A ciência e o Estado investem a sua vontade de potência para o domínio da vida.” (TÓTORA, 2005, p. 85), o domínio do desejo e da Diferença. Essa moral emerge com o judaico-cristianismo, mas atualmente atravessa toda a sociedade. A moral de negação nega a Diferença em nome da identidade maior, a imagem e semelhança de Deus, representada por aquelas identidades socialmente aceitas como normais.

Essa moral nega a Diferença e a associa ao conceito de mal, aquilo que se opõe ao bem, isto é, as normas instituídas. Assim a Diferença se torna algo a ser extirpado do rebanho, pois o coloca em risco. Como não é possível manter a Diferença fora, pois ela emerge das maquinações desejantes, ela é representada pela linguagem, tornada diferença e incluída para ser gerida.

4.5 SOCIEDADE DE CONTROLE: O PODER MODULATÓRIO COMO SOFISTICAÇÃO

Diferença, também mudaram. Quando observamos o deslocamento de um dispositivo de poder a outro (soberania-disciplinar-segurança), o que altera a configuração social, nota-se que o exercício do poder vai se amplificando, tornando-se descentralizado, microfísico, até se tornar tão difuso que é impossível localizar sua proveniência em um lugar ou sujeito específicos. As transformações nos dispositivos de poder decorreram dos movimentos libidinais da produção desejante que não cessa de introduzir a Diferença, que racha os estratos sociais e transforma as paisagens. Analisando os diferentes dispositivos de poder é possível notar que as relações de poder foram gradativamente se adaptando ao frenesi desejante à medida em que entramos na configuração dos Estados governamentalizados e a representação clássica já não podia conter o desejo de forma eficaz. “Essa falência ou dissipação do mundo clássico da representação é situada por Foucault no final do século XVIII e no século XIX.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 395), o que coincide com a emergência do dispositivo de segurança. Por isso, na configuração biopolítica do dispositivo de segurança o exercício do poder se tornou muito mais sutil e sua preocupação é recalcar o desejo e manejar a diferença, isto é, a Diferença representada, esvaziada de sua potência corrosiva. Nesta nova configuração social, “O Estado já não pode se contentar em sobrecodificar elementos territoriais já codificados; ele deve inventar códigos específicos para fluxos cada vez mais desterritorializados.” (DELEUZE;

GUATTARI, 2010, p. 289). Vemos, portanto, que o modo como o Estado exerce o poder muda, conforme se reconfiguram os dispositivos de poder. Com isso, gradualmente, a forma como o Estado gere os fluxos da produção desejante muda, pois, “Como máquina, o Estado já não determina um sistema social, mas é determinado pelo sistema social ao qual se incorpora no jogo de suas funções.” (DELEUZE, GUATTARI, 2010, p. 293). O Estado agora acompanha os fluxos populacionais em vez de barrá-los, majora-os e os canaliza em vez de bloqueá-los.

Nos Estados governamentalizados as diferenças já não são expulsas, supliciadas, mortas ou enclausuradas, mas geridas. A mecânica biopolítica do poder, que emergiu no dispositivo de segurança, é o sustentáculo para o surgimento do que Deleuze (2013) chamou de sociedade de controle, modelo no qual o devir, a Diferença, tornou-se objeto de interesse das artes de governamento que, em função disso, precisaram se tornar ainda mais pulverizadas na trama social e, assim, mais eficazes. Deleuze (2013) partiu do pano de fundo da mecânica dos biopoderes, pensada e desenvolvida por Foucault (2008), para argumentar que as instituições disciplinares modernas entraram em crise após a Segunda Guerra Mundial. Cabe lembrar que uma dessas instituições é a maquinaria escolar, foco desta pesquisa. Neste novo contexto, as

instituições já não devem reprimir as maquinações desejantes, não devem barrar os fluxos de devires que criam linhas de fuga alterando constantemente a formatação social, mas controlá-los, canalizando-os pelos sulcos dos espaços estriados. Daí meu interesse em pesquisar o que chamo de arte de governamento do desejo e da Diferença pela tecnologia escolar atual.

O modelo de controle, tendo por base a biopolítica, a gestão da vida, entendeu que a transformação constante, o devir, é inerente à vida. De tal modo, é inútil insistir em fixar formas, organizações, identidades, culturas, credos, etc. Assim, é economicamente mais eficaz gerir essas transformações inevitáveis de um modo que interesse ao sistema econômico vigente. Isso requer tecnologias de governo mais sutis e eficazes que permitam canalizar esses fluxos.

O deslocamento do modelo de sociedade disciplinar para a sociedade de controle (DELEUZE, 2013) decorreu da demanda crescente por liberdade para as coisas acontecerem naturalmente. Essa demanda foi instaurada pela emergência do liberalismo clássico e teve seu ápice com o surgimento dos Estados governamentalizados (FOUCAULT, 2008), nos quais o dispositivo de segurança emerge e passa a operacionalizar o poder. Liberdade sempre gera mais demanda por liberdade. Isso levou ao esgotamento do modelo disciplinar que se reatualizou, pois, na sociedade de controle as disciplinas já não são tão eficazes e nem economicamente interessantes. Na sociedade de controle as disciplinas dão lugar aos controles que operam não apenas em instituições de confinamento e recuperação, mas em espaços abertos, lisos.

Nessa configuração não está mais em causa impedir os fluxos desejantes, mas conduzi-los, geri-los. “Enquanto a sociedade disciplinar forjava moldagens fixas, distintas, a sociedade de controle funciona por redes flexíveis moduláveis.” (HARDT, 2000, p. 357). Para acompanhar os movimentos da produção desejante, que fazem proliferar a Diferença, essas redes de controles constantemente modulam, se deformam e reconfiguram para ampliar ou reduzir o alcance visando englobar e controlar tudo e todos em todo lugar e a todo momento.

Já que para funcionar as máquinas sociais devem não funcionar bem, não devem ser rígidas, mas modulatórias, […] “o capitalismo soube interpretar, por sua vez, o princípio geral segundo o qual as coisas só funcionam bem com a condição de desarranjar-se, sendo a crise ‘um meio imanente ao modo de produção capitalista’.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 306). Por isso autores como Laval (2004) e Chamayou (2020) falam em gerencialismo, algo que emergiu com o desenvolvimento do capitalismo e sua modulação em neoliberalismo globalizado.

Chamayou (2020), em sua análise sobre o que nomeia artes de governo do liberalismo autoritário, identifica a emergência do gerencialismo e, nele, a gestão de crises. As crises

econômicas não decorrem dos fluxos naturais do livre mercado, mas são taticamente produzidas e geridas para criar cenários propícios à economia. É a lógica de mercado se sobrepondo ao Estado e o dobrando aos seus interesses. “A história monetária recente, o papel do dólar, os capitais migrantes a curto prazo, a flutuação das moedas, os novos meios de financiamento e de crédito, os direitos especiais de saque, a nova forma das crises e das especu3lações, tudo isto baliza o caminho dos fluxos descodificados.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 325).

A configuração neoliberal percebeu que é economicamente mais interessante balizar os fluxos criando táticas para canalizá-los e torná-los lucrativos em vez de barrá-los, pois, além de impossível, já que os fluxos sempre escapam, é demasiado oneroso e pouco rentável. O neoliberalismo propositalmente fluidifica os fluxos coagulados para que, ao se fluidificarem e fluírem pela superfície dos espaços lisos, possa canalizá-los pelos sulcos dos espaços estriados que instaura. É assim que o capitalismo […] “substitui os códigos por uma axiomática extremamente rigorosa que mantém a energia dos fluxos num estado ligado sobre o corpo do capital como socius desterritorializado, mas que é também mais implacável do que qualquer outro socius.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, 326). Os fluxos moleculares do desejo são liberados, mas apenas para serem imediatamente acoplados aos fluxos molares do neoliberalismo e tornados úteis ao seu objetivo. Portanto, o exercício do poder não desapareceu, percebeu-se que é economicamente mais interessante dançar nos ritmos do desejo. De tal modo,

“É ao mesmo tempo que os fluxos são descodificados e axiomatizados pelo capitalismo.”

(DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 326-327). Os fluxos são liberados, mas prontamente inscritos em uma trama de controles minuciosos que operam microfisicamente o poder reacoplando-os aos interesses neoliberais. Assim os fluxos são axiomatizados e naturalizados.

“A potência do capitalismo é realmente esta: sua axiomática nunca está saturada, é sempre capaz de acrescentar um novo axioma aos axiomas precedentes. O capitalismo define um campo de imanência e não para de preenchê-lo.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 332), pois, conforme os fluxos desejantes escapam, o capitalismo se move para recodificá-los e reacoplá-los para governá-reacoplá-los. Nessa dinâmica a Diferença é representada e reduzida a diferença. A força intensiva (Diferença) é convertida em força extensiva (diferença) e despotencializada. Essa diferença é a lava solidificada e com ela se pode compor paisagens provisoriamente fixas.

Podemos dizer, então, que em relação aos poderes soberano, disciplinar e biopoder, [...] “os controles são uma modulação, como uma moldagem auto deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a

outro.” (DELEUZE, 2013, p. 225 ênfase do original) num movimento modular constante que inclui a Diferença que jorra das crateras vulcânicas do desejo e desliza pela superfície. É pela representação que a Diferença é sobrecodificada por sentidos estruturantes e assim acoplada ao socius e incluída nas malhas de controle. Ela recebe nomes que a solidificam provisoriamente e possibilitam normalizá-la e, assim, governá-la. “Se é verdade que a função do Estado moderno é a regulação de fluxos descodificados, desterritorializados, um dos principais aspectos desta função consiste em reterritorializar, de modo a impedir que fluxos descodificados fujam por todos os cantos da axiomática social.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 342) e a ameacem.

As sociedades de controle podem ser pensadas, portanto, como uma sofisticação da biopolítica, pois, “Podemos inferir que Deleuze tomava as análises feitas por Foucault de um tipo de poder posterior ao disciplinar, o biopoder, voltado não mais para os indivíduos, mas para os grandes conjuntos populacionais.” (GALLO; ASPIS, 2010, p. 93) que precisam ter seus movimentos naturais geridos, direcionados, controlados. Por isso, foram desenvolvidas artes de governamento quase imperceptíveis para gerir a tensão contínua entre o empreendimento de controle das maquinações desejantes e os devires decorrentes dessas maquinações. O foco das sociedades de controle é gerir a tensão que surge entre a representação que fazemos para fixar verdades, identidades, e os fluxos de devires que põem esses territórios constantemente em fuga. Trata-se de gerir o agenciamento binário controle – devir, o que sugere a necessidade de representar a Diferença decorrente do processo contínuo de atualização de virtualidades.

Em função disso, as artes de governamento desenvolvidas nas sociedades de controle, descritas por Deleuze (2013), são ainda mais sofisticadas, sutis e eficazes, pois, enquanto as disciplinas operam diretamente sobre os corpos dos indivíduos, com vistas a moldá-los, os controles estão em toda parte e formatam nossas subjetividades a todo momento.

Consequentemente, nas sociedades de controle temos um [...] “governo inencontrável que determina as margens ínfimas de redistribuição local cuja gestão ótima requer o consenso.”

(RANCIÈRE, 1996, p. 380). Foi em busca desse consenso entre os governados que as artes de governamento se aperfeiçoaram na sociedade de controle. Por isso as normas identitárias, utilizadas como decalques em processos de normalização, já não são prescritas pela razão de Estado, como eram nas sociedades disciplinares. As normas são agora extraídas das curvas de normalidade e anormalidade próprias dos fluxos interacionais da população. Essa inversão faz com que a normalização se confunda com representatividade, pois a população se reconhece nessas normas, as corrobora e afirma, de modo que “Existe uma dobra do poder ou da influência

normalizante sofrida que, assujeitando, suscita a receptividade ativa do governado: esse movimento produz a subjetivação, o desvio da subjetividade em relação ao factual.”

(BAZZICALUPO, 2017, p. 64 ênfase do original). Mesmo legitimadas pela população, ainda são normas e representam a Diferença, submetem-na à identidade e a reduzem a diferença.

Nos diferentes dispositivos de poder (soberania-disciplinar-segurança) o que se busca é governar a produção desejante produtora da Diferença, que sempre se impõe e ameaça a configuração social. Entretanto, em cada dispositivo isso é feito de modo distinto. O desenvolvimento do liberalismo levou à crise do dispositivo disciplinar, no qual a escola como instituição de escolarização de massas foi inventada (VARELA; ALVAREZ-URIA, 1991).

Essa crise produziu um deslocamento de um dispositivo a outro e o confinamento institucional deixou de ser a regra para a produção de subjetividades com vistas ao recalcamento do desejo.

Isso porque, sendo a escola uma das instituições disciplinares que efetua a produção subjetiva por meio do confinamento, a passagem das sociedades disciplinares às sociedades de controle, trouxe a necessidade de reconfigurar a tecnologia escolar. Afinal, as sociedades de controle [...]

“não funcionam mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea.” (DELEUZE, 2013, p. 220). O controle contínuo é a estratégia na qual se investe e esse controle se faz em todo lugar e a todo momento. “O ‘espaço estriado’ das instituições da sociedade disciplinar dá lugar ao ‘espaço liso’ da sociedade de controle.” (HARDT, 2000, p.

357) e a população não é mais apenas encerrada em instituições como a família, a escola, o exército, a fábrica, a igreja, o hospital, o manicômio, mas manejada em espaços abertos, lisos, que vão sendo estratégica e continuamente estriados e alisados e reestriados e…e…e...e...

É claro que as instituições de confinamento e recuperação continuaram existindo e funcionando, mas nas sociedades de controle, elas já não são as principais ferramentas e estratégias de investimento sobre o desejo por meio da produção subjetiva. Já não passamos de um confinamento institucional a outro. Da família à escola. Da escola à fábrica. No caso de cometer um crime, à prisão. No caso de doença, ao hospital. Isso porque “Os muros das instituições estão desmoronando de tal maneira que suas lógicas disciplinares não se tornam ineficazes, mas se encontram, antes, generalizadas como formas fluidas através de todo o campo social.” (HARDT, 2000, p. 357). Hoje, por exemplo, há pesquisas sobre a produção de subjetividades pelas redes sociais. Então, não se trata do fim das disciplinas, mas de sua modulação e sofisticação pelos controles que operam em espaços lisos e, por isso, são muito sutis, quase imperceptíveis, muito mais abrangentes e, por conseguinte, muito mais eficazes.

O panóptico se atualizou em sinóptico. Se antes a vigilância era imposta, agora deliberadamente nos expomos nas redes sociais e diversas mídias. “O panóptico forçava as pessoas à posição em que podiam ser vigiadas. O sinóptico não precisa de coerção – ele seduz as pessoas à vigilância. E os poucos que os vigilantes vigiam são estritamente selecionados.”

(BAUMAN, 2021, p. 60 ênfases do original), as celebridades de internet são um bom exemplo desses poucos selecionados. Elas Servem para difundir padrões de vida que, apesar de inalcançáveis, servem para manter as pessoas em movimento, perseguindo esses padrões que interessam ao neoliberalismo. A instauração da lógica disciplinar em espaços abertos borra as fronteiras fixas entre dentro e fora e “Nenhuma identidade é designada como Outro, ninguém é excluído do campo, não há fora.” (HARDT, 2000, p. 365), pois o interior se expandiu e o englobou […] “não existindo um lado de fora, mas apenas uma dobra que, no conjunto, reforça a relação de poder.” (BAZZICALUPO, 2017, p. 63). Aqui reside a engenhosidade da captura.

A sociedade de controle opera segundo a lógica biopolítica, por isso pode ser pensada como o desenvolvimento dessas tecnologias e práticas de governamento. Entretanto, criou táticas muito mais sofisticadas e sutis que respondem às mudanças sociais e [...] “impõe a normatividade não mais pela disciplina, mas pela escolha e pela espetacularidade.”

(CHARLES, 2004, p. 19). Em função disso, espetacularizam-se padrões de vida, modos de ser/estar produzidos e difundidos pelo marketing19. Esses padrões têm a função de enviesar nossas escolhas. Por isso, Deleuze (2013) escreve que o marketing é uma ferramenta poderosa nas sociedades de controle. Ele produz o desejo como falta. Porém, “Nada falta ao desejo, não lhe falta o seu objeto. É o sujeito, sobretudo, que falta ao desejo, ou é ao desejo que falta sujeito fixo; só há sujeito fixo pela repressão.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 43). Por isso investimos na repressão do desejo por meio de tecnologias de poder, como a educação escolar, para produzir esse sujeito fixo sem o qual os objetivos da configuração social, atualmente o neoliberalismo, são inalcançáveis. Na psicanálise essa repressão é feita submetendo o desejo ao jugo da forma Édipo. “Édipo se assentou sobre a produção desejante, apropriou-se dela como se todas as forças produtivas do desejo emanassem dele.” (DELEUZE: GUATTARI, 2010, p.

80). É recalcando o desejo na forma Édipo que ele deixa de ser compreendido como produção do inconsciente maquínico, passa a ser entendido como falta a ser suprida e é despotencializado, tornado inofensivo, dócil. O inconsciente maquínico foi assim reduzido a […] “um inconsciente

19 Os influencers ostentadores são um bom exemplo de como padrões de vida e comportamento são criados e difundidos pelo marketing na atualidade. Padrões atrelados ao consumismo, o que interessa ao neoliberalismo.

que não mais produz, mas que se limita a acreditar. O inconsciente acredita no Édipo, ele crê na castração, na sua lei.” (DELEUZE: GUATTARI, 2010, p. 390 ênfase do original).

Ao mesmo tempo em que se reprime o desejo, define-se as subjetividades que deveremos nos esforçar para criar em nós mesmos. Atuar sobre nós para que nossas subjetividades reflitam os modelos interessantes para o neoliberalismo torna possível o governo simultâneo dos outros e de si (FOUCAULT, 2011). Ainda somos nós que criamos nossas subjetividades e essa liberdade é fundamental, pois dá uma aparência de escolha livre e consciente. Porém, o que o neoliberalismo faz é criar e difundir modelos de subjetividades, normalizá-los para então propagá-los como ideais e desejáveis para todos, independentemente de nossas singularidades. De tal maneira, […] “nossa liberdade é exercida exclusivamente para escolher dentre possíveis que outros instituíram e conceberam. Ficamos sem o direito de participar da construção dos mundos, de formular problemas e de inventar soluções, a não ser no interior de alternativas já estabelecidas.” (LAZZARATO, 2006, p. 101-102). Esse controle minucioso é feito por meio das mídias, da religião, da universidade, da empresa, da escola, etc.

É como se fizéssemos de nós, decalques das obras originais. Assim se produzem as subjetividades necessárias à legitimação da ordem mental e social. Na superfície, as singularidades florescem e camuflam que os caules continuam sendo os mesmos para todos.

Ainda é arvore, não rizoma, pois a imprevisibilidade rizomática inviabilizaria o neoliberalismo.

O objetivo desta produção é fazer convergir a potência criativa desejante individual ao desejo das populações, o desejo produzido como falta, de modo que […] “o desejo é determinado a desejar a sua própria repressão.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 493). Esse, por sua vez, deve coincidir com os objetivos perseguidos pelas artes de governamento vigentes.

“Esses fluxos, insistimos, só podem seguir existindo na máquina social capitalista se puderem ser conjugados ao capital.” (GUÉRON, 2020, p. 216). Isto é, se forem domados e tornados economicamente interessantes ao capitalismo que se reatualiza nos moldes neoliberais. Não se trata de submeter as maquinações desejantes aos interesses das artes de governamento. Trata-se, efetivamente, de reconfigurar essa produção desejante produzindo-a como falta para que os indivíduos possam ser controlados. A dominação do desejo, feita por meio da representação, que o produz como falta, é importante, pois nos leva a fazer o que as artes de governamento planejam que façamos. É assim que […] “a produção desejante se espalha pelo espaço de uma representação que só a deixa subsistir como ausência e falta de si mesma. É que se impõe às máquinas desejantes uma unidade estrutural que as reúne num conjunto molar.” (DELEUZE;

GUATTARI, 2010, p. 404). Essa orquestração dos fluxos desejantes é como o caos sonoro nomeado e preso à partitura. A orquestração do desejo possibilita orquestrar os fluxos populacionais, mas a Diferença sempre irá emergir e então ela deverá ser nomeada e incluída.

Sempre haverá fugas, mas, como na biopolítica, a sociedade de controle opera por estimativas, probabilidades, e as fugas já estão contabilizadas neste cálculo. Como a válvula de uma panela de pressão que não visa impedir que o vapor vaze, mas condicionar sua vazão. A crença de que fazemos nossas escolhas dá uma sensação de liberdade, de ausência de governamento ao mesmo tempo em que somos constantemente reinseridos nos rebanhos governáveis e isso é parte de um jogo estratégico que busca […] “estruturar o campo de atuação de outrem.” (LEMKE, 2017, p. 26). Em outros termos, estriar os espaços lisos. A liberdade nos é dada apenas na medida necessária para que façamos as escolhas disponibilizadas no catálogo de escolhas permitidas e que, desde o início, as artes de governamento neoliberais planejaram que fizéssemos. De tal maneira, […] “o que é apresentado e exaltado como sendo as escolhas que o indivíduo poderia fazer não ultrapassaria os lugares sociais, as funções na cadeia produtiva e as relações alienadas com a sua própria ‘natureza de produtor’ (como diria Marx) em uma sociedade capitalista.” (GUÉRON, 2020, p. 43). Dito de outra forma, o que se observa é um uso estratégico da liberdade como tecnologia para operar a condução das condutas dos indivíduos que se tornam produtos de uma determinação social que conforma o desejo à lógica de mercado e o esvazia de sua potência explosiva. O investimento é sobre a produção desejante e, por isso, nesta configuração social, “O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente de nossos senhores.” (DELEUZE, 2013, p. 228). O marketing canaliza e conforma o desejo para aplacá-lo e, ao mesmo tempo, torná-lo rentável para o neoliberalismo.

O consumismo, que está na base da ostentação e atualmente dá o tom dos comportamentos nas redes sociais, ilustra bem essa mecânica. “É a ideologia do consumo como valor e do dinheiro como medida do sucesso que acompanha o modelo neoliberal triunfante, centrado no indivíduo e em sua satisfação imediata monetizada.” (CASTELLS, 2018, p. 25).

Essa mecânica instaura modelos de subjetividades que se tornam decalques para processos de subjetivação que recalcam o desejo, esvaziam-no, produzem-no como falta, associam-no ao consumo e o inscrevem estrategicamente nas lógicas predatórias do mercado.

“Afirmar que o desejo depende de uma falta que lhe seria interna é esvaziar sua dimensão produtiva e despejá-lo todo na aquisição: uma alienação do desejo no consumo, estrutura típica do capitalismo, talvez a melhor forma de compreender o que muitos chamam de

‘consumismo.’” (GUÉRON, 2020, p. 93). Essa produção do desejo como falta, associada ao consumismo, nos faz jogar o jogo sem questionar as regras postas de antemão. Isso é crucial na sociedade de controle, pois se busca controlar a potência que o desejo tem de instaurar a Diferença, que conflita com a necessidade de identidades fixas e governáveis. Assim, busca-se [...] “codificar os fluxos do desejo, inscrevê-los, registrá-los, fazer com que nenhum fluxo corra sem ser tamponado, canalizado, regulado.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 45). Produzindo o desejo como falta, sua potência criadora é representada e, assim, canalizada em subjetividades e domesticada. A Diferença que emerge da sujeição a essas normas é produzida como desvio.

Essa redução do desejo se maximiza quando ele é associado ao consumo. Por isso buscamos desesperadamente suprir o que identificamos como falta. Desejamos um iphone e faremos o que for necessário para obter um. Fazer o necessário implica dançar no compasso estabelecido pelo mercado, que é o maestro do Estado na contemporaneidade. Contudo, quando tiver conseguido o iphone desejaremos outra coisa e outra e outra e outra e... Isso porque “A maneira como a sociedade atual molda seus membros é ditada primeiro e acima de tudo pelo dever de desempenhar o papel de consumidor. A norma que nossa sociedade coloca para seus membros é a da capacidade de desempenhar esse papel.” (BAUMAN, 2021, p. 88). Esse ímpeto consumista faz com que nos endividemos, o endividamento constante nos mantém no jogo e isso contribui para que sejamos conduzidos, governados. O endividamento20 é também uma importante ferramenta de governamento das condutas na sociedade de controle. Por isso, nesse modelo de sociedade, [...] “O homem não é mais o homem do confinamento, mas o homem endividado” (DELEUZE, 2013, p. 228). A mudança no sujeito produzido neste tempo não é acaso. A sociedade de controle produz sujeitos consumistas, pois o capitalismo mudou e “Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado.” (DELEUZE, 2013, p. 228). O foco do mercado na venda instaura a necessidade de produzir consumidores, daí a tática de atrelar o desejo ao consumo, produzindo-o como falta.

Para atender aos nossos desejos consumistas adquirimos dívidas que nos mantêm no jogo.

Assim, “É no nível dos fluxos, e dos fluxos monetários, não no nível da ideologia, que se faz a integração do desejo.” (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 318) aos fluxos molares neoliberais.

O endividamento funciona como canais condutores que atravessam os espaços lisos da sociedade de controle e canalizam os fluxos desejantes fazendo-os convergir às necessidades

20 Sobre o endividamento como estratégia de governo, recomendo a obra O governo do homem endividado, de Lazzarato (2017).

de governamento e nos convertendo em sujeitos governáveis. O neoliberalismo entendeu que deveria investir sobre o desejo e tudo ocorre com a maior aparência de liberdade e naturalidade possível, o que faz com que as estratégias de governamento sejam muito eficazes. “É como se a fábrica, e depois toda a sociedade, fosse um submundo de fluxos condicionados, como uma paradoxal masmorra de devires.” (GUÉRON, 2020, p. 216). Em outros termos, é como se a máquina social repousasse sobre vulcões que podem erupcionar a qualquer momento. Por isso, fazer da liberdade uma tecnologia de governo (FOUCAULT, 2008) foi uma das estratégias mais argutas e eficazes da configuração biopolítica, pois, tendo entendido a impossibilidade de impedir o desejo, o que se busca é conduzir seus fluxos. Essa condução é feita de modo que os indivíduos pensem escolher conduzir a si mesmos e, ao mesmo tempo, aceitem ser conduzidos.

Retomando a metáfora inicial da música, assim como a máquina sonora ocidental se conectou aos ouvidos e os territorializou, a máquina social foi conectada às máquinas desejantes e as territorializou pela representação. O desejo deveio Édipo, a Diferença se tornou identidade.

Para esse Estado gestionário o que está em causa não é proibir ou reprimir, mas gerir o desejo e suas maquinações. “Em todo caso, trata-se de compreender como no capitalismo contemporâneo se torna ainda mais evidente que ele é um negócio de intensificação do desejo, ao mesmo tempo em que precisa ser de gestão, redução e contenção do mesmo desejo.”

(GUÉRON, 2020, p. 216). Isso requer um recalibramento nas formas pelas quais o poder se efetua e produz. Por extensão, há a necessidade de um recalibramento das instituições, pois são instrumentos operadores do poder e precisam se reconfigurar, conforme se reconfiguram os arranjos sociais. A escola é uma destas instituições e me interessa em especial nesta pesquisa, por isso é fundamental compreender a mecânica do poder para compreender a escola deste tempo e a arte de governo que desenvolve e põe em prática para governar o desejo e a Diferença.

O que está em curso na atualidade é uma tentativa das artes de governamento de acompanhar esses fluxos desejantes, conduzi-los, manejá-los, monetizá-los, por isso tentamos insistentemente fixar identidades. “A busca da identidade é a busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o fluido, de dar forma ao disforme.” (BAUMAN, 2001, p. 89).

O que perseguimos, destarte, é controlar o incontrolável. Nas sociedades de controle, todavia, já não basta sobrecodificar esses fluxos com identidades construídas e naturalizadas que os neutralizam ao indexá-los em agenciamentos binários do tipo normal-anormal, como branco-negro, hetero-homo, adulto-criança, homem-mulher, etc. Essa lógica já não é suficientemente eficaz, nem economicamente interessante, pois as próprias identidades se fluidificam, se tornam

híbridas, fluidas, maleáveis, fragmentadas e incapazes de conter a Diferença que prolifera sem cessar das maquinações desejantes. Com isso vemos cada vez mais [...] “multiplicarem-se as diferenças individuais, esvaziarem-se de sua substância transcendente os princípios sociais reguladores e dissolver-se a unidade das opiniões e modos de vida.” (CHARLES, 2004, p. 19).

A transcendência, a essência, as verdades absolutas, gradualmente vão cedendo lugar ao devir. Assim, a produção desejante se torna um problema político a ser gerido e tornado economicamente útil. A produção identitária, realizada pela tecnologia escolar, é uma das várias práticas de governamento desenvolvidas através dos tempos para tentar estancar os fluxos desejantes, “Mas as identidades, que não tornam o fluxo mais lento e muito menos o detêm, são mais parecidas com crostas que vez por outra endurecem sobre a lava vulcânica e que se fundem e dissolvem novamente antes de ter tempo de esfriar e fixar-se.” (BAUMAN, 2001, p. 89). A fixidez é provisória, pois a lava subjacente, essa potência criadora e imparável do desejo, sempre dissolverá as superfícies endurecidas e ilusoriamente estáveis, alterando-as. Portanto,

Se nenhuma forma é dada a priori, visto que o transcendental é pré-individual, isto é, a-formal, conclui-se que toda forma é tão-somente o agenciamento provisório de singularidades movediças e livres, e que o homem ou o acaso são também livres de juntá-las, arrumá-las, diferentemente. (LINS, 2005, p. 22).

Em suma, nas sociedades de controle entendeu-se que é inútil tentar conter a produção desejante, então investe-se em sua gestão, em seu controle, em seu governamento. Nessas sociedades, as tecnologias de governo devem acompanhar os movimentos arrítmicos dos fluxos vulcânicos do desejo. É sobre essa leitura de configuração social que desenvolverei as análises desta pesquisa. Portanto, é neste cenário, cada vez mais complexo e mutável, em que o poder é microfísico e se exerce por constantes modulações, que situo a tecnologia escolar, pois ela tem papel fundamental no recalcamento do desejo engendrado pelos currículos à medida em que produzem subjetividades que nos convertem em sujeitos governáveis. Simultaneamente, essa tecnologia nomeia a Diferença, o excedente que vaza, a inclui e reconecta à máquina social.

4.6 SOCIEDADE GLOBAL DE CONTROLE: O IMPÉRIO, AS RECONFIGURAÇÕES NAS