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5 DOCUMENTOS SÃO MONUMENTOS HISTÓRICOS

5.4 O IMPERATIVO DE TOLERAR O INTOLERÁVEL…

a democracia liberal não se sustém e sem ela a economia liberal, que começava a se desenvolver, estava ameaçada. É preciso produzir o sujeito tolerante e isso é feito recalcando o desejo sob essa subjetividade para dar-lhe uma forma útil ao arranjo social em vigor.

Voltaire (2000) ajudou a consolidar o enunciado tolerância no século XVIII com sua obra Tratado sobre a tolerância, na qual analisa o caso de Jean Calas, condenado à morte por intolerância religiosa. Entretanto, há uma distinção em relação a Locke. Para Voltaire não basta separar a Igreja do Estado. Ele “Advoga, ao contrário, uma subordinação da Igreja ao Estado.”

(POMEAU, 2000, XXIII). Em outros termos, o Estado não deve dividir o poder com a Igreja.

Em vez disso, ele deve ser laico, pois o liberalismo requer liberdade e já não fazia sentido as pessoas serem obrigadas a participarem de uma igreja específica. Com a influência de Voltaire (2000) no desenvolvimento do Estado laico, a tolerância se tornou ainda mais necessária.

O que estou tentando destacar é que tolerância é um enunciado metafísico que emergiu em função das dissidências religiosas no momento em que houve a cisão na Igreja Católica e o Estado a subjugava. Com a cisão, foi preciso passar a tolerar a diferença religiosa. O enunciado tolerância agenciou outro, diferença, mas em sua forma reduzida, compreendida como diversidade. Para Voltaire, todos são filhos do mesmo Deus e se Deus tolera a todos, não há espaço para a intolerância. Nesse sentido, o autor escreveu: “Afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. […] porventura não somos todos filhos do mesmo Pai e criaturas do mesmo Deus?” (VOLTAIRE, 2000, p. 121). Havia, naquela época, uma busca por harmonia social em função da tomada de consciência da diversidade religiosa. Apesar das diferenças o fato de serem todos filhos do mesmo Deus deveria igualá-los. Entretanto, à medida que o paradigma moderno se expandia e estabilizava, a razão assumiu o lugar de centralidade, até então ocupado pela fé religiosa. Com isso, o Humanismo aflorou e o ser humano se tornou o centro, produzindo uma mudança nesse enunciado. Se antes a tolerância era justificada pela filiação comum ao mesmo Deus, com a passagem para a Modernidade e a centralidade do humano, a tolerância deveria existir, pois, apesar das diferenças, somos todos iguais porque somos todos humanos. Há uma associação de enunciados. A condição humana nos faz iguais, mas há diferenças, como a religiosa, e isso agencia o enunciado tolerância. Sem tolerância o equilíbrio europeu estaria em risco, então a tolerância se tornou gradualmente mais abrangente.

Deste modo, tolerância é um enunciado com base metafísica, posto que se funda em categorias assumidas como verdades fundacionais, como Deus e a concepção moderna de humano.

Na atualidade não é mais uma questão de tolerar apenas as diferenças de ordem religiosa. O desafio é tolerar o intolerável. Sobretudo no cenário da globalização, no qual as fronteiras são cada vez mais maleáveis e as pessoas circulam cada vez mais, o que vem produzindo movimentos de resistência ao cosmopolitismo e resgate de fundamentalismos para afirmar o nacionalismo e reativar uma suposta identidade nacional. Isso ocorre como reação aos fluxos migratórios globais. O Brexit40 é um exemplo da recusa da globalização e seus processos. Nesse caso, “O local se opôs ao global utilizando o único instrumento disponível: a fronteira. […] a resistência à dependência dos fluxos globais e à cultura cosmopolita é o que subjaz como fundamento da sociedade do Brexit.” (CASTELLS, 2018, p. 63-65). O intolerável é o outro, aquele que difere de mim, que não pode ser como sou, pois, “Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem.” (DELEUZE: GUATTARI, 2012a, p. 51).

Diante dessa necessidade de tolerar esse outro intolerável, a estratégia é acomodar o

“odor do intolerável no culto da tolerância. (OLIVEIRA, 2005, p. 192). Tolerar é essencial e, por isso, deve-se produzir sujeitos tolerantes. Nesse sentido, a Declaração de Princípios sobre a Tolerância preceitua: “A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos.” (UNESCO, 1995, Art. 1º ênfase minha).

Tolerar foi associado à condição humana e é possível perceber a conexão entre os diferentes enunciados mapeados e como eles vão configurando uma formação discursiva que adquire estatuto de verdade e atravessa currículos escolares para produzir esses sujeitos tolerantes.

A tolerância, como difundida nos documentos, só existe dentro de fronteiras pré-determinadas e produzidas pela linguagem e “A linguagem não é nem progressista nem reacionária, ela é simplesmente fascista, nos lembra Barthes, ela nos obriga a dizer certas coisas, ocupar certos lugares, posições – homem-mulher, mestre-aluno, branco-negro, direita-esquerda, etc.” (PÁL PELBART, 2005, p. 11). A partir desses lugares que ocupamos temos que tolerar aqueles que habitam outros lugares, que pensam e dizem outras coisas. A tolerância, no entanto, tolera sempre com ressalvas. Tolera desde que não haja ameaça aos seus limites, desde que todos conheçam e fiquem em seus lugares. […] “isto é, os diferentes podem ser diferentes, desde que sejam iguais.” (GALLO, 2017, p. 1515). A expressão: “tudo bem serem gays, mas que sejam monogâmicos”, transmite bem essa ideia. Há uma linha muito tênue entre o tolerável

40 O termo foi cunhado a partir da fusão de duas palavras: Britain (Grã-Bretanha) e exit (saída). Refere-se à saída do Reino Unido da União Europeia, iniciada em 2017.

e o intolerável na tolerância. De tal maneira, o sujeito a ser produzido pelos currículos escolares atuais deve ser tolerante e tolerado, mas saber seu lugar e respeitar as fronteiras deste lugar.

Tal indivíduo, cada vez mais individualista tem no outro alguém que necessita tolerar, ajudar e fazer caridade, ou alguém com quem compete constantemente, ou alguém com quem se aliar e se fortalecer em questões pontuais, ou, ainda, alguém que está aí, mas que não o afeta e não o interessa. (LOPES; FABRIS, 2020, p. 39-40).

Em outros termos, trata-se de um outro, alguém a quem não agredirei por sua diferença em relação a mim, mas a quem serei indiferente e com quem não nutrirei quaisquer relações.

Nesse sentido, “O outro é aquele que não importa, como o estrangeiro ‘clássico’ que ou é estranho, e não se tem com ele nenhum vínculo de proximidade, ou é inimigo, e interessa sua eliminação.” (JASMIN, 2019, p. 156 ênfases do original). O problema da tolerância é que ela é arborescente. Escamoteia uma hierarquia, pois, tolerar pressupõe sempre alguém que tolera e alguém que é tolerado e, naturalmente, são as normas quem toleram. Por esta perspectiva, a tolerância é um eufemismo, pois estamos […] “numa sociedade em que serão otimizadas as diferenças: o campo estará livre para os processos oscilatórios, serão tolerados indivíduos e práticas minoritárias num sistema de geometria variável.” (BAZZICALUPO, 2017, p. 82). Isto é, serão toleradas as minorias, desde que dispostas estrategicamente no espaço estriado, que é a sociedade global de controle. Tolerar é um imperativo para garantir harmonia social, o correlato do equilíbrio europeu, agora em escala global. Essa harmonia é fundamental para a economia neoliberal e, para consegui-la, precisamos ser tolerantes e tolerados. A escola é uma das várias instituições estatais responsáveis por configurar nossas subjetividades para esse fim.

Naturalmente, ao fazer essa problematização, não pretendo fazer apologia às práticas intolerantes, o que seria um raciocínio dualista simplório. O que pretendo é tensionar este enunciado naturalizado que atravessa os currículos escolares contemporâneos nos constituindo, nos modelando, pois, se o desejo é modelado ele foi canalizado para ser governado. Meu interesse, portanto, não é classificar isso moralmente como bom ou mau, mas destacar a função tática que o enunciado tolerância desempenha na formação discursiva vigente sobre diferença na educação e na configuração de uma arte de governamento do desejo e da Diferença. As diferenças das normas instituídas devem ser incluídas e toleradas. Assim, a educação deste tempo é convocada a produzir subjetividades tolerantes às diferenças. Em função disso, “No âmbito da política e da sociedade educa-se para a tolerância. A tolerância como valor moral a ser incorporado pela alma.” (OLIVEIRA, 2005, p. 198). É preciso domar a fera e isso é feito

formatando a subjetividade, do contrário, a sociedade não é possível, pois […] “é a fraqueza dos homens e da razão que torna necessária a tolerância; por sermos fracos e sujeitos ao erro é que devemos nos tolerar mutuamente.” (OLIVEIRA, 2005, p. 198). A tolerância introjetada nas subjetividades faz reprimir instintos, impulsos contra aqueles que não nos fazem espelho.

Ela nos faz tolerar o intolerável, aquele que se recusa ou não pode ser igual a mim. A tolerância está na base de um dos quatro pilares da educação para o Século XXI: aprender a viver juntos.

Deste modo, “A única liberdade possível diante da tolerância é obedecer. Sujeitar-se.”

(OLIVEIRA, 2005, p. 201) e isso opera como parte de uma arte de governamento do desejo e da Diferença via currículos. Currículos tolerantes incluem as diferenças para dispô-las nos espaços estriados e produzir nelas algo comum. Exemplo disso é que, independentemente das singularidades, há habilidades e competências que todos devem desenvolver na escola deste tempo. “Pode-se dizer que a tendência a subjugar a disparidade com a ajuda de categorias legalmente definidas e a consequente segregação espacial da diferença devem se tornar um must.41” (BAUMAN, 2021, p. 115) na configuração atual da sociedade global de controle. E a educação deve ser reconfigurada para produzir sujeitos dóceis, úteis, participativos e tolerantes.

A tolerância é fundamental para que haja harmonia social e possamos fazer viver as diferenças.

No mapa a seguir compartilho excertos de alguns documentos internacionais e nacionais selecionados e analisados para ilustrar como o enunciado tolerância aparece neles.

41 Nesta citação esta palavra tem o sentido de dever, de obrigação.

Figura 8 – Enunciado Tolerância

Fonte: elaborado pelo autor.