CAPÍTULO 2 – A LINGUAGEM DA ARTE
2.4 ARTE, JOGO E VERDADE
Já vimos em Heidegger (1990) que a arte pode ser um salto antecipativo, na medida em que abre a clareira para o ser e erige uma verdade histórica no mundo dos homens, trazendo aspectos desocultados pela poesia e materializados na obra. Agora, inspirada em Gadamer (1999, 2004, 2010) e Palmer (1989), tematizo-a como linguagem, tendo como fonte inspiradora a noção de arte como um ser que nos apresenta um mundo ao seu modo, que apresenta uma verdade histórica e permanece entre nós aberta às interpretações; a arte é um modo de acesso à verdade, pois a obra é mundo.
Para a hermenêutica filosófica gadameriana, a verdade histórica que a arte nos apresenta é possibilitada porque acessamos compreensivamente seu ser; “[...] ela é uma espécie de instrumentalização da espiritualidade de nossos sentidos, que já determina de antemão o nosso ver e a nossa experiência da arte” (GADAMER, 2010, p. 151). O mundo da arte nos é re/conhecido, posto que ela faz parte da nossa própria configuração humana. Entendemos-nos com a arte porque ela nos pertence. Desse modo, ela é linguagem ontológica que nasceu de nossa própria experiência no mundo em nossa relação pré-reflexiva nele (o mundo).
A essência da obra vem de sua natureza poética e estética. Por isso, Gadamer (2010) explica que a natureza de uma obra é justamente sua dimensão estética, e é nessa perspectiva que a arte nos diz algo ao seu modo. O que a legitima como linguagem é justamente que ela compõe o conjunto de experiências do mundo humano, ao modo poético. Nesse sentido, lembra-nos que a experiência humana com ela tem uma base antropológica ligada ao jogo, ao símbolo e à festa; a consideração disso ajuda a entender porque a arte faz parte do mundo da vida dos homens.
Inspirado em Aristóteles, Gadamer (Idem), menciona que aquilo que vive possui o ímpeto do movimento em si mesmo, por isso o jogo é automovimento e também faz parte do ser vivente que é o homem. O jogo não aspira a metas e finalidades, mas visa o movimento enquanto movimento, ou seja, tem uma gratuidade inerente a si mesmo.59 Nessa perspectiva, a arte tem uma dimensão de jogo; ela é um ser jogado; se faz no jogo. Ela também exige que participemos do jogo, aceitando-o. Para participarmos, todavia, necessitamos pertencer, ou seja, nos reconhecermos nos elementos do jogo: “A arte é sempre mimese, isto é, ela apresenta algo” (Ibidem, p. 177). Vem daí o sentido do símbolo como aquilo sobre o qual nos reconhecemos.
Quando a arte se apresenta a nós, ela nos lembra de um pertencimento mútuo, ou seja, nós a reconhecemos como parte do nosso mundo porque ela é constituída de símbolos. Aquilo que está reapresentado na obra é a representação que reconhecemos e que nos permite entrar no seu jogo; é a mimese da ordem do mundo. Já, a festa é “comunhão e apresentação do próprio âmbito comum em sua forma plena” (Ibidem, p. 180); ela é participação; é sempre para todos. Na festa comungamos aquilo que vem ao nosso encontro. E a arte é assim! Ela também convida à participação de sua presença, colocando-se aberta ao outro em um jogo de reconhecimento e pertencimento; também de desvelamento e velamento.
Ao seu modo, a obra abre uma verdade ao mundo dos homens que vem ao modo de velamento e desvelamento do ser. Isso significa que sempre temos de trazê-la ao nosso presente histórico de sentidos para uma relação compreensiva. O que ela desvela refere-se à sua objetividade histórica e à sua própria plasticidade, ou seja, àquilo que nos mostra, que deixa entrever, que possibilita que seja interpretado. Isso que está na sua forma ao modo como se materializa e habita nosso meio. Aquilo que nos mostra, porém, também mostra de
59 Diferentemente do esporte, no qual os jogadores se submetem às regras do jogo que são definidas pela
modo pessoal e histórico, por isso algo sempre fica velado à espera do intérprete capaz de desvelar suas infinitas possibilidades de ser. Ao encontro do outro é que ela se desvela mais uma vez. Desta forma, a verdade que a arte nos possibilita é sempre relativa a sua objetividade (construto/plasticidade) e aos sentidos que carrega de sua própria tradição, que, tensionada ao horizonte do qual ela é trazida pelo intérprete, se atualiza. Ela é linguagem porque pode ser compreendida, assim como nos possibilita uma autocompreensão.
Nessa perspectiva, Gadamer (2010) evidencia que a experiência da arte jamais compreende apenas um sentido cognoscível; antes se abre a nossa compreensão, sendo, também, um encontro conosco mesmo; uma autocompreensão.
A obra de arte que diz algo confronta-nos com nós mesmos. [...] ela anuncia algo que, de acordo com o modo como esse algo é dito, se mostra como uma descoberta, isto é, como o descobrimento de algo encoberto. Nisso repousa aquele encantamento. Nada que conhecemos é “tão verdadeiro, tão assente”. Tudo o que conhecemos é aqui excedido (Ibidem, p. 7).
O encontro com a obra é sempre um acontecimento; é a cada vez que nos dirigimos a ela e ela a nós, por isso em cada presente algo se apresenta. A obra se coloca a cada vez para nós, e essa é uma das suas particularidades. A cada encontro com a obra o encantamento se recoloca porque a experiência com ela é uma experiência na linguagem poética. Por isso, a objetividade que a hermenêutica possibilita necessita ser considerada, mas de forma que “[...] aquilo que se revela não constitui uma projeção de subjetividade, mas algo que atua sobre nossa compreensão quando se apresenta” (PALMER, 1989, p. 214), ao modo como Gadamer a entendia, ou seja, além do esquema sujeito-objeto.
A experiência da arte é experiência em um sentido autêntico e sempre tem de dominar novamente a tarefa apresentada pela experiência: integrá-la no todo da própria orientação pelo mundo e da própria autocompreensão. Justamente isso constitui a linguagem da arte, o fato de sua fala alcançar a própria autocompreensão de cada um – e ela faz isso como uma arte respectivamente atual e por meio de sua própria atualidade (GADAMER, 2010, p. 7).
O algo que a obra diz a cada um na experiência reside no fato de sua fala alcançar a própria autocompreensão de cada um, o que significa que nós a reconhecemos. Desse modo, ela não é algo fora do nosso mundo mas, antes, aquilo que nos vem de longe, pois a especificidade da arte é ser simbólica e carregar uma dimensão ética. Vem daí sua dimensão ontológica, como é ontológica a linguagem do homem. A arte emerge no mundo dos homens na experiência – lúdica e estética – vivida no cotidiano.
Já vimos em Heidegger (1990) que a arte emerge da poesia e tem um modo próprio de ser, no entanto sua pre-sença, ao modo de uma obra, se dá plasticamente, diferente da escrita. Na plasticidade das formas materiais e imateriais, bi e tridimensionais, a obra assume uma característica específica e porque foi concebida em uma circularidade salvaguardada pela própria arte, ela não pode ser tomada pelos mesmos critérios da ciência. Não pode ser objetificada e analisada, desreferencializada de sua dimensão poética e estética. Por isso, a experiência da arte se impõe em relação às ciências pelo fato de ser ela mesma um filosofar, pois a arte transcende as intenções do artista e do contexto em que foi criada. Ela excede toda a objetificação.
Tomar a arte como linguagem é admitir que ela não seja um mundo apartado de nós, porque se fosse ela aconteceria independente de nossa vontade, ou seja, como um acontecer natural; o que ela não é. Em Heidegger e Gadamer compreendemos que a arte é uma proposição humana, um modo de ser da verdade como “desocultação”, uma forma de aparição do ser trazido à luz pelo homem. Gadamer (2010) evidencia, inclusive, que a arte coloca uma questão que é o seu próprio ser e, como linguagem e espaço mais amplo da experiência do sujeito, ela possibilita que possamos “aparecer mais”.
A arte quer colocar a sua questão! Como uma dimensão deliberada do mundo humano ela também habita o lógos, o que lhe confere, da mesma forma, uma dimensão linguística. Na sua especificidade, ela acontece entre nós, e isso significa que tem uma particular existência. Como linguagem própria, tem uma característica inerente, porém não resulta de uma dimensão totalmente independente do mundo da vida, como observa Palmer (1989, p. 172):
Uma obra de arte não é um mundo divorciado de nós. Se fosse não poderia iluminar a nossa própria autocompreensão tal como o faz. Num encontro com a obra de arte não penetramos num universo estranho, não saímos do tempo e da história, não nos separamos de nós mesmos ou do não estético. Antes nos fazemos mais presentes.
A arte evidencia a nossa humanidade e não o contrário. Nesse sentido, pensemos na arte como linguagem e como espaço mais amplo da experiência do sujeito e a da estética, como o âmbito onde nós, humanos, podemos aparecer mais, uma vez que a arte não está constrangida pelas leis e pelo cognitivo instrumental.
Gadamer (1999) toma a arte como inspiração para pensar a linguagem na perspectiva da hermenêutica,60 afirmando que a arte situa-se, exige um lugar e cria para si mesma um lugar aberto. Para ele, “[...] a obra de arte tem, antes, o seu verdadeiro ser em se tornar uma experiência que irá transformar aquele que experimenta. O ‘sujeito’ da experiência da arte, o que fica e persevera, não é a subjetividade de quem a experimenta, mas a própria obra de arte” (Ibidem, p. 175), pois o encontro com a obra nos põe uma questão: a questão que provocou o seu ser.
Nesse horizonte entramos em um jogo que “[...] é o próprio modo de ser da obra de arte” (Ibidem, p. 174- 175). A abertura que a arte possibilita é, “[...] para aquele que a apreende, toda obra deixa como que um espaço de jogo que ele precisa preencher” (GADAMER, 2010, p. 167). É nessa dimensão que jogamos com ela.
A “arte” somente começa realmente quando podemos, também, agir de outra forma. Com essa ideia Gadamer dá um lugar distinto a ela, uma vez que a entende como algo feito, mas que “[...] nega precisamente todo uso. Ela não é pensada assim. Ela tem algo do caráter de ‘como se’ que reconhecemos como traço fundamental da essência do jogar” (Ibidem, p. 52); um jogo próprio que está longe de ser um brincar, embora lúdico; é um jogo que tem suas próprias regras comprometidas com a circularidade da criação poética.
Desse modo, qual é o mundo que a arte apresenta que nos possibilita entendê-la como linguagem? Primeiramente que a arte tem uma configuração que permite que algo seja compreendido; tudo o que acede ao mundo da linguagem pode ser compreendido: “toda interpretação de algo compreensível, que auxilie outros a alcançarem a compreensão, tem com certeza caráter linguístico” (Ibidem, p. 4). Assim, “[...] a obra de arte parece de fato pertencer a uma tal tradição não linguística. E, no entanto, a experiência e a compreensão de uma obra de arte significam algo diverso do que, por exemplo, a compreensão de instrumentos ou usos que nos são legados a partir do passado” (Ibidem, p. 5).
Gadamer se pergunta “a que lugar pertence então, [...], uma imagem arcaica dos deuses?” (Idem), se ela não é um documento histórico? Observando que não há uma garantia da sua duração, ele afirma que “[...] a obra de arte depende do gosto afirmativo ou do sentido
60 Gadamer toma o conceito de hermenêutica não no sentido de uma doutrina de método, mas como uma teoria
da experiência real, que é o pensamento. [...] Mostrar a partir da experiência da arte e da tradição, o fenômeno da hermenêutica em toda a sua envergadura (1999, p. 25 e 35). A hermenêutica supera a filosofia da subjetividade na medida em que tematiza o contexto da tradição, no qual o sujeito emerge como sujeito. A tradição, contudo, não pode ser absolutizada e o reconhecimento de sua influência não pode ser feito sem críticas.
qualitativo de gerações futuras para a sua manutenção” (Idem), ou depende de quem a salvaguarda; depende de um sentimento preservador. O filósofo afirma que “[...] a obra de arte é legada no mesmo sentido em que se realiza o legado de nossas fontes literárias” (Idem), mas, no entanto, esclarece que a arte
[...] não “fala” apenas como resíduos do passado falam ao pesquisador da história, nem tampouco apenas como o fazem os documentos históricos que fixam algo. Pois aquilo que denominamos a linguagem da obra de arte, a linguagem em função da qual a obra de arte é conservada e legada, é a linguagem que a própria obra de arte conduz, quer ela possua uma natureza linguística ou não. A obra de arte diz algo a alguém, e isso não apenas como documento histórico diz algo ao historiador – ela diz algo a cada um como se isso fosse dito expressamente a ele, enquanto algo atual e simultâneo. Desse modo, vem à tona a tarefa de compreender o sentido daquilo que ela diz e de torná-lo compreensível – para si para os outros (Ibidem, p. 5-6).
O desafio de compreender o sentido daquilo que a arte diz na sua especificidade é uma das tarefas da hermenêutica, pois, como interpretar e compreender aquilo que se mostra em forma de pintura, de som, de gesto, de movimento? A hermenêutica se coloca como espaço de interpretação da arte, uma vez que ela “[...] vence a distância entre os espíritos e abre a estrangeiridade do espírito alheio” (Ibidem, p. 6); essa abertura “[...] visa à apreensão daquilo que nos é dito”, na medida em que “[...] à tarefa própria ao compreender é dada uma dupla estrangeiridade que é, em verdade, uma e a mesma” (Idem), posto que não apenas se diz algo, mas se diz algo a alguém. O sentido abrangente da hermenêutica que acolhe a obra de arte não linguística lhe possibilita incluir a estética (GADAMER, 2010).
Aquilo que vale para todo discurso vale, de maneira eminente, para a experiência da arte, ou seja, “[...] não se pode compreender sem querer compreender, isto é, sem se dispor a dar ouvidos ao que foi dito” (Idem). Ao dizer específico da arte há uma expectativa pelo sentido de seu encantamento.
A experiência da arte jamais compreende apenas um sentido cognoscível, tal como acontece na questão da hermenêutica histórica e em sua lida com os textos. A obra de arte que diz algo confronta-nos com nós mesmos. Isso quer dizer: ela anuncia algo que, de acordo com o modo como esse algo é dito, se mostra como uma descoberta, isto é, como descobrimento de algo encoberto. Nisso repousa aquele encantamento. Nada que conhecemos é “tão verdadeiro, tão assente”. Tudo o que conhecemos é aqui excedido (Idem).
Temos, então, que a tarefa da hermenêutica é a integração (mundo da obra e do intérprete) e não a reconstituição de “mundos”, por isso destaca-se a fusão de horizontes como modo pelo qual a compreensão acontece. Quando o mundo da obra se encontra com o mundo do intérprete, sentidos se encontram e se ressignificam, dando-se a compreensão. Ela,
de certo modo, também é uma autocompreensão, portanto, “[...] compreender o que a obra de arte diz a alguém é certamente um encontro consigo mesmo” (Ibidem, p. 7).
Assim, a cada vez que a obra acende ao nosso mundo, ela ganha atualidade e sua atualidade deixa a obra ganhar voz; nessa afirmação, Gadamer (2010) destaca que o encontro entre obra e intérprete, que é o encontro consigo mesmo, constitui-se uma experiência, isso porque a cada vez se dá o acontecimento com a obra, a cada vez ela precisa ser integrada à autocompreensão de cada um. Nisso reside a abertura ao que a obra tem a dizer, pois, para compreender é preciso estar aberto ao que o outro diz, uma vez que “[...] o compreender não se dá quando alguém pretende deter já de antemão aquilo que alguém quer lhe dizer, na medida em que afirma já o saber” (Idem), mas, sim, quando estamos abertos ao que o outro nos diz, como já referido.
Palmer (1989, p. 19) menciona que “[...] temos a necessidade de encarar a obra não como objeto, mas como obra”, na medida em que afirma que “[...] a experiência com a obra de arte abre-nos um mundo”, enfatizando que “[...] logo que deixamos de considerar uma obra como objeto e a vemos como um mundo, quando vemos o mundo através dela, então percebemos que a arte não é percepção sensível mas conhecimento” (Ibidem, p. 172). Desse modo, Palmer reafirma o entendimento de Gadamer em relação a “ouvir a obra”, ao considerá-la como linguagem porque quem fala é a obra e não o artista, embora “[...] aquilo que o artista tem a dizer para além do que é dito em uma obra e aquilo que ele diz em outras obras, também podem despertar um interesse possível. A linguagem da arte, porém, tem em vista o excesso de sentido que reside na própria obra” (GADAMER, 2010, p. 7-8), e
Sobre esse excesso repousa na sua inesgotabilidade, que a distingue de toda transposição conceitual. Segue-se daí que, junto à compreensão de uma obra de arte, não podemos nos contentar com a regra hermenêutica comprovada em sua eficácia de que a “mens auctoris” limita a tarefa de compreensão apresentada por um texto. Justamente a partir da extensão do ponto de vista hermenêutico à linguagem da arte fica claro quão pouco a subjetividade do opinar é suficiente para designar o objeto do compreender. Isso em uma significação principal, e, nessa medida, a estética é um elemento importante da hermenêutica geral (Ibidem, p. 8).
Admitir que a arte seja linguagem é reconhecer seu pertencimento a um universo próprio, que tem uma estrutura compositiva; uma objetividade caracterizada pelo modo como a obra é realizada e o que ela mostra, ou seja, a obra de Van Gogh, anteriormente citada, é a pintura de um par de sapatos, mas que não se limita a isso, pois é um par de sapatos trazido ao olhar poético do artista. Por isso, o modo como ela se materializa, como se mostra ou se apresenta é, também, elemento significativo para a compreensão.
O universo ao qual a obra pertence compõe o conjunto de tradições do mundo dos homens; ela é um patrimônio da humanidade e também uma experiência no cotidiano das pessoas, por isso ela se atualiza em sua poética na medida em que flerta com o passado e dialoga como seu tempo em uma mirada futura.
Como elemento da tradição, a arte está encharcada de mundo; nela percebemos uma humanidade em seus aspectos mais sutis, reveladora da complexidade da condição humana na medida em que trata de um particular em um universal. Desse modo, a arte nos fala inclusive como tradição.
Tudo aquilo que, no sentido mais amplo possível, nos fala enquanto tradição coloca a tarefa própria ao compreender, sem que o compreender signifique em geral atualizar em si novamente as ideias de um outro. Não é apenas a experiência da arte, [...], que nos ensina isso com uma clareza convincente, mas também do mesmo modo a compreensão da história. Pois a tarefa propriamente histórica não consiste de maneira alguma na compreensão das opiniões, dos planos e das experiências subjetivas dos homens que sofrem os efeitos da história. O que quer ser compreendido é a grande conexão de sentido da história para a qual se volta o esforço interpretativo do historiador (Idem).
Na afirmação gadameriana de que o ser que pode ser compreendido é linguagem, está subjacente que “[...] a universalidade do ponto de vista hermenêutico é uma universalidade abrangente” (Idem). Por isso, linguagem e hermenêutica são como âmbitos universais que se imbricam, uma vez que a linguagem se potencializa na abertura à compreensão.
Se formulei as coisas certa vez da seguinte forma: ser que pode ser compreendido é linguagem, então essa não é certamente nenhuma tese metafísica. Ao contrário, ela descreve a partir do centro do compreender a amplitude ilimitada de sua visão de conjunto. O fato de, tanto quanto a experiência da natureza, toda experiência histórica satisfazer esse princípio é fácil de ser demonstrado. Por fim, a locução genérica de Goethe “tudo é símbolo” – e ela significa certamente: todas as coisas apontam para uma outra – contém a mais abrangente formulação do pensamento hermenêutico. O “tudo” de Goethe não é um enunciado sobre todo e qualquer ente que é, mas sobre o modo como o ente vem ao encontro do compreender humano. Nada pode ser que não consiga significar algo para ele. Mas há ainda outra coisa aí: nada vem à tona na significação una que ele oferece precisamente a alguém. No conceito goethiano do simbólico reside tanto o caráter inabarcável de todas as relações quanto a função representacional do particular para a representação do todo. Pois somente na medida em que a omnirreferencialidade do ser é velada para o olhar humano carece-se da descoberta. Por mais universal que seja o pensamento hermenêutico correspondente à sentença de Goethe, em um sentido eminente ele só é concretizado pela experiência da arte. Pois a linguagem da obra de arte distingue- se pelo fato de a obra de arte singular reunir em si e trazer à aparência o caráter simbólico que, visto em termos hermenêuticos, advém a todo ente. Em comparação com todas as outras tradições linguísticas ou não, vale dizer sobre a obra de arte que