• Nenhum resultado encontrado

2 O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO

3 CRIMES E FORMAS DE SOLUÇÃO DOS CONFLITOS AMBIENTAIS: UMA ANÁLISE DOS PROCESSOS SENTENCIADOS PELA VARA ESPECIALIZADA DO

3.2 CRIMES CONTRA A FLORA

3.2.2 Artigo 46 da Lei de Crimes Ambientais

Segundo o artigo 46 da Lei n. 9.605 é considerado crime o recebimento e a aquisição de madeira, carvão e outros produtos de origem vegetação sem comprovação da idoneidade de sua origem. Sendo obrigatória a exibição de licença.

Ao crime descrito no artigo 46 da Lei n. 9.605/98 é estabelecida pena de detenção de seis meses a um ano e multa, sendo fixado ainda que incorrerá na mesma pena aquele que vender, expor à venda, tiver em depósito, transportar ou guardar, produtos de origem vegetal, madeira ou carvão, sem licença emitida pela autoridade competente.

3.2.2.1 Processo nº 0205744-84.2012.8.04.0001

O processo nº 0205744-84.2012.8.04.0001 foi distribuído em 9 de fevereiro de 2012. O Ministério Público, em seu parecer, esclareceu que os autos versam acerca de delito consistente no transporte de 40 sacos de carvão aparentemente vegetal, de 20kg aproximadamente cada um, sem licença válida ou qualquer outra outorga expedida pela autoridade competente, que o fato ocorreu em 24 de janeiro de 2012, sendo constatado no ato a autoria e a materialidade do delito tipificado no parágrafo único do art. 46 da Lei nº 9.605/98.

No caso vertente, a pena máxima prevista para a infração é de um ano, em face da possibilidade de propositura de transação penal. Por este motivo, considerando o disposto no art. 76 da Lei nº 9.099/95, o Ministério Público Estadual pugnou pela juntada da certidão de antecedentes criminais do autor e a realização de audiência preliminar.

Nestes autos, também não houve a realização de citação válida do acusado para comparecer à audiência, razão pela qual, aos dias 27 do mês de julho de 2016, o Ministério Público constatou a ocorrência da prescrição que é determinada pelo art. 109, V, do Código Penal, em razão do delito ter sido praticado em 1º de junho de 2011 e solicitou a extinção do feito em razão da prescrição, com base no art. 107, V, ambos do Código Penal.

Analisando o pleito Ministerial, foi proferida Sentença Extintiva do Feito em razão da ocorrência da prescrição da pretensão punitiva do Estado, sendo extinto o processo com fundamento no art. 109, V, combinado com o art. 107, V, ambos do Código Penal. Em 17 de outubro de 2016, foi certificado o arquivamento dos autos.

3.2.2.2 Processo nº 0200127-80.2011.8.04.0001

Ação Penal distribuída em 4 de janeiro de 2011. O fato que gerou a denúncia foi a apreensão de 30 dúzias de tábuas de azimbre sendo transportadas por dois homens em um caminhão na Estrada Torquato Tapajós, Município de Manaus. O Termo Circunstanciado de Ocorrência foi instaurado em 23 de dezembro de 2010, pela Delegacia Especializada em Crimes Contra o Meio Ambiente e Urbanismo – DEMA, caso identificado no parágrafo único do artigo 46 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605-98).

Apenas um dos indiciados foi encontrado. Em sua defesa prévia, apresentada em dezembro de 2011, o acusado sustenta que foi contratado para o transporte pelo segundo acusado, que não sabia que a madeira era ilegal.

Em 16 de maio de 2016, o ministério Público esclareceu que “desde o recebimento da denúncia (25 de outubro de 2011), causa interruptiva da prescrição nos termos do art. 117, inciso I, do Código Penal, passaram-se mais de quatro anos, o que remete o fato ao disposto no art. 109, V, do Código Penal Brasileiro, ocorrendo, portanto, o fenômeno da prescrição”.

Com fundamento no artigo 107, inciso IV, e art. 109, inciso V, ambos do Código Penal, pugnou o Ministério Público pelo reconhecimento da prescrição da pretensão punitiva do Estado e declaração da extinção da punibilidade, contra os supostos autores do crime ambiental objeto da demanda.

Aos 30 dias do mesmo mês, o Juízo julgou extinta a punibilidade de ambos pela ocorrência da prescrição da pretensão punitiva. O processo foi arquivado após a certificação do trânsito em julgado.

3.2.2.3 Processo nº 0202212-63.2016.8.04.0001

O processo penal nº 0202212-63.2016.8.04.0001 foi distribuído em 22 de janeiro de 2016 tendo por objeto suposto crime descrito no art. 46, parágrafo único, da Lei 9.605/98.

Consta dos autos que, em 21 de dezembro de 2015, observou-se que ao lado da Base Fluvial do Batalhão Ambiental havia uma quantidade de madeiras serradas num estaleiro flutuante, uma equipe do Batalhão Ambiental foi até o local para verificar a propriedade e a legalidade da referida madeira, quantidade aproximada, 1,5m³ de madeira serrada tipo tábua. O requerido negou ser proprietário da madeira e do estaleiro. O Ministério Público solicitou a realização de audiência, para verificar a possibilidade de oferta de transação penal ambiental.

Em audiência, em 14 de setembro de 2016, foi efetuada transação penal ambiental, comprometendo-se o requerido a participar de curso de conscientização ambiental, o qual foi devidamente homologado pelo juízo.

Posteriormente, a Defensoria Pública do Estado do Amazonas, como representante do requerido, apresentou duas petições, na primeira, em 4 de outubro de 2016, solicitou o arquivamento, em razão do cumprimento do acordo e na segunda petição; em 10 de outubro de 2016, informou que o requerido teria interesse em receber a madeira apreendida, da qual é fiel depositário, e requereu que este ficasse com madeira para reformar um flutuante onde reside com sua família.

Em face do cumprimento das condicionantes da transação, o Ministério Público requereu o arquivamento, com amparo no art. 74, §4º, da Lei 9.099/95, em 19 de janeiro de 2017. Quanto ao pedido para que o requerido ficasse com a madeira apreendida, o Ministério Público, em 24 de janeiro de 2017, salientou que a Lei de Crimes Ambientais possui dispositivos próprios e específico quanto à destinação e apreensão de bens, artigo 25, §3º42.

Mas, ao final o Ministério público, em que pese não haver previsão legal para doação da madeira à pessoa física, antes de tomar qualquer decisão, requereu, com a máxima urgência, que fosse pautada Audiência, a fim de aclarar determinadas questões que restaram dúbias.

Em 15 de fevereiro de 2017, o Juízo acolheu o requerimento do Ministério Público e marcou audiência. Em audiência, no dia 17 de agosto de 2017, o Ministério Público postulou o encaminhamento de técnicos do Núcleo de apoio do próprio MP para fiscalizar o local de armazenagem da madeira e verificar a quantidade necessária à reforma pretendida pelo indiciado. O que foi deferido pelo Juízo, sendo a ata desta audiência o último documento anexado ao processo em 14 de setembro de 2017.

3.2.2.4 Processo nº 0207297-30.2016.8.04.0001

O processo nº 0207297-30.2016.8.04.0001 foi distribuído aos 25 dias do mês de agosto de 2015 contra quatro pessoas físicas e duas pessoas jurídicas do segmento de transporte e logística, em razão do transporte irregular de madeira sem o Documento de Origem Florestal – DOF, delito previsto no art. 46, parágrafo único, da Lei nº 9.605/98.

42 Art. 25. Verificada a infração, serão apreendidos seus produtos e instrumentos, lavrando-se os respectivos autos.

§ 3º Tratando-se de produtos perecíveis ou madeiras, serão estes avaliados e doados a instituições científicas, hospitalares, penais e outras com fins beneficentes.

O fato que ensejou a abertura do processo ocorreu no dia 31 de julho de 2015, na Rodovia Vidal de Mendonça, Tarumã-Açu, em fiscalização de rotina pela Equipe de Policiamento do Batalhão Ambiental. Apesar de possuírem DOF, este estava em desacordo com a madeira apreendida. No auto de exibição de apreensão relacionam os seguintes objetos: dois tratores, dois reboques, dois molhos de chaves e dois Documentos de Origem Florestal, DOF.

Conforme laudo pericial, um caminhão totalizou aproximadamente 20,043 metros cúbicos de madeira tipo: viga, ripa, caibro e sarrafo, e possuía autorização para transportar 19,05 metros cúbicos de madeira tipo: viga, vigota e sarrafo; o outro caminhão totalizou aproximadamente 19,38 metros cúbicos de madeira tipo: viga, ripa e sarrafo, enquanto o DOF possuía autorização para transportar 18 metros cúbicos de madeira tipo: viga, vigota, caibro, ripas e sarrafo. Não sendo possível identificar as espécies por não ter condições técnicas para tanto.

Aos 24 dias de fevereiro de 2016, o processo foi desmembrado. Atendendo ao parecer Ministerial, o Juízo determinou o desmembramento do feito, para tramitar em apartado os processos envolvendo cada um dos acusados, com fundamento no art. 80 do Código de Processo Penal.43

No dia 21 de julho de 2016, foi realizada audiência na qual compareceu somente um dos acusados, cujo processo permaneceu com a numeração ora analisada, o qual aceitou a proposta de Transação Penal Ambiental apresentada pelo MPE, pela qual se obrigou a comparecer a Curso de Educação Ambiental e a providenciar 1000 (mil) Folder (impressão), a ser entregue no Núcleo de Fauna do IBAMA a ser utilizado no projeto Conservação do Sauim de Coleira. A Transação Penal Ambiental foi homologada por Sentença aos 27 dias do mesmo mês, e após a comprovação do cumprimento do acordo, em 21 de setembro de 2016 foi proferida Sentença de Extinção de Punibilidade com relação a este acusado.

3.2.2.5 Processo nº 0203512-02.2012.8.04.0001

Conforme Termo Circunstanciado de Ocorrência lavrado pela Delegacia Especializada em Crimes contra o Meio Ambiente, o Processo nº 0203512-02.2012.8.04.0001 decorreu da prática do fato previsto no art. 46, parágrafo único, da Lei nº 9.605/98.

43 Art. 80. Será facultativa a separação dos processos quando as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou de lugar diferentes, ou, quando pelo excessivo número de acusados e para não lhes prolongar a prisão provisória, ou por outro motivo relevante, o juiz reputar conveniente a separação.

Consta dos autos, que no dia 14.01.12, durante operação, policiais do Batalhão de Policiamento Ambiental avistaram uma embarcação e motor empurrador carregada de madeira, 185.66 m³ de madeira serrada, sem Documento de Origem Florestal – DOF.

Em audiência, foi realizada transação penal, contudo, não houve cumprimento pelo autor do fato das condutas despenalizadoras, razão pela qual foi promovida denúncia pelo Ministério Público Estadual, em 28 de novembro de 2014.

A denúncia foi recebida em 19 de novembro de 2014.

Em 22 de agosto, o Ministério Público pugnou pelo reconhecimento da prescrição quanto ao suposto autor que não foi citado para responder aos autos, e o prosseguimento quanto ao autor que teve a denúncia aceita pelo Juízo, solicitando que a defesa, em razão do não comparecimento do autor aos autos, fosse promovida pela Defensoria Pública Estadual.

Em 7 de novembro de 2016, o Juízo especializado determinou o arquivamento dos autos com relação ao primeiro réu, e que fosse expedido ofício à Defensoria Pública Estadual, conforme solicitado pelo MPE.

Em 24 de fevereiro de 2017, foi apresentada defesa preliminar pela Defensoria Pública Estadual. E em 9 de março de 2017, os autos foram conclusos ao juízo especializado, sendo esta a última informação, em 18 de novembro de 2017.

3.2.2.6 Processo nº 0204314-58.2016.8.04.0001

O processo nº 0204314-58.2016.8.04.0001 foi distribuído em 2 de fevereiro de 2016, neste caso, tendo como autor do delito pessoa física e pessoa jurídica. O fato criminoso imputado consiste no transporte irregular de madeira, tipo descrito no artigo 46 da Lei 9.605/98 cumulado com os artigos 44 e 48, incisos I e III, da Instrução Normativa do IBAMA nº 21, de 23 de dezembro de 2014.44

44 Instrução Normativa do IBAMA nº 21

Art. 44. No caso de transbordo, em que o trânsito de uma mesma carga requeira diferentes modalidades de transporte, deve ser emitido um único DOF, com o detalhamento de cada modalidade utilizada, especificação das placas ou registros de veículos ou embarcações e descrição do itinerário a ser percorrido em cada trecho integrante do percurso total da viagem.

Parágrafo único. Quando não for conhecida, no momento da emissão do DOF, a placa do veículo a ser utilizado em trecho posterior ao inicial, a mesma deverá ser informada no sistema antes de se iniciar o percurso do respectivo trecho, sem o qual o transporte passa a ser considerado irregular nos termos da legislação em vigor.

Art. 48. O Documento de Origem Florestal será considerado inválido para todos os efeitos quando forem verificadas quaisquer das situações abaixo, entre outras, durante o transporte:

I - quantidade/volume ou espécie de produto transportado diferente do autorizado/declarado, quando excedidos os limites previstos no § 2o do art. 41 e no art. 53;

II - utilização de percurso diferente do autorizado/declarado;

III - transporte realizado em veículo(s) diferente(s) do autorizado/declarado;

Para invocação da pessoa jurídica como responsável pelo delito ambiental, o Ministério Público fundamentou o pedido no art. 2º e 89 da Lei 9.605/98, que estende a culpabilidade pelo dano ambiental a todo aquele que concorrer para prática dos crimes ambientais, na medida de sua culpabilidade, e que quando a pena mínima for de até um ano poderá ser proposta pelo Ministério Público a suspensão por até dois anos da oferta da denúncia desde que preenchidas as hipóteses que autorizam a adoção desta medida, respectivamente.

No caso vertente, a autoria e materialidade do crime foram comprovados pelo Termo de Declaração, pela confissão do denunciado e pelo auto de exibição e apreensão, acostados aos autos.

Porém, o Ministério Público esclareceu quanto ao impedimento de transação penal ou da suspensão dos autos, pelo fato do denunciado responder a processo em trâmite na VEMAQA, pela conduta típica descrita no artigo 46 da Lei de Crimes Ambientais, processo nº 0232425-86.2015.8.04.0001, em face da determinação constante no art. 76, parágrafo 2º, inciso III, e do art. 89, da Lei 9.099/95, respectivamente.

Esclareceu o Ministério Público que o mesmo entendimento é extraído do art. 77, inciso II do Código Penal, que condiciona a suspensão da pena, de dois a quatro anos, considerando na aplicação da pena as circunstâncias e os motivos que autorizam sua concessão, bem como a conduta, personalidade e culpa do agente.

Por não ser possível a concessão do benefício previsto na legislação, conforme esclarecido pelo Ministério Público Estadual, em 2 de junho de 2016 foi oferecida Denúncia, sendo esta recebida pelo Juízo, que determinou de imediato a citação do primeiro denunciado para responder à acusação, no prazo de dez dias, nos moldes do artigo 396-A do Código de Processo Penal.

Com relação aos demais acusados, determinou que fosse pautada audiência preliminar, nos termos dos artigos 67 e 68 da Lei 9.099/95, em face da possibilidade de transação penal.

No dia 22 de setembro de 2016, em audiência preliminar, foi realizada transação penal, pela qual o acusado (pessoa jurídica), por intermédio de seu representante, comprometeu-se a

“doar” certa quantidade de bonés equivalentes a R$ 2.640,00 (dois mil seiscentos e quarenta

IV - cancelado ou fora do prazo de validade;

V - apresentação do produto diferente do autorizado/declarado, observadas as definições do Anexo III desta Instrução Normativa;

VI - rasura, omissão ou inconsistência em quaisquer de seus campos.

VII - origem do produto diferente do endereço informado no documento de transporte.

Incorre nas mesmas penas quem vende, expõe à venda, tem em depósito, transporta ou guarda madeira, lenha, carvão e outros produtos de origem vegetal, sem licença válida para todo o tempo da viagem ou do armazenamento, outorgada pela autoridade competente.

reais) para o projeto SAUIM DE COLEIRA – UMA ESPÉCIE QUE PEDE SOCORRO, a ser entregue no Núcleo de Fauna do IBAMA, para ser utilizado no projeto Conservação do Sauim de Coleira, no prazo de 30 (trinta) dias, bem como participar de Curso de Educação Ambiental.

O outro investigado, pessoa física, foi denunciado, por ter constatado o juízo a existência de processo penal em trâmite.

Posteriormente, em manifestação, o ministério Público solicitou o arquivamento com relação a um dos acusados, pelo cumprimento regular da transação penal ambiental. Sendo proferida em seguida Sentença, em face do cumprimento das condutas despenalizadoras, extinguindo o processo com relação à pessoa jurídica, com fundamento no parágrafo único do artigo 84 da Lei 9.099/95, que estabelece “Efetuado o pagamento, o Juiz declarará extinta a punibilidade, determinando que a condenação não fique constando dos registros criminais, exceto para fins de requisição judicial”.

O processo segue com relação ao acusado que possui outro processo em andamento, neste caso específico, foram apresentadas alegações finais pela acusação e pela defesa. Aos oito dias do mês de maio de 2017, o processo foi concluso para julgamento, sendo esta a última informação constante nos autos, em 10 de outubro de 2017.

Além dos processos relatados foram identificados mais 12 processos abertos com fundamento no artigo 46 da Lei n. 9.605/98, sendo eles os processos de números: 0217764-10.2012.8.04.0001, 0268496-29.2011.8.04.0001, 0228462-75.2012.8.04.0001, 0259579-21.2011.8.04.0001, 0220404-49.2013.8.04.0001, 0220347-60.2015.8.04.0001, 0227952-57.2015.8.04.0001, 0254808-97.2011.8.04.0001, 0255074-21.2010.8.04.0001, 0256549-75.2011.8.04.0001, 0632918-32.2014.8.04.0001, 0220339-83.2015.8.04.0001.

Ao todo foram identificados, dentre os 150 processos analisados, 18 processos abertos com fundamento no artigo 46. Constatou-se que metade deles foram encerrados em razão da prescrição intercorrente e a outra metade em razão do êxito na Transação Penal Ambiental.