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4 A VARA ESPECIALIZADA DO MEIO AMBIENTE

4.2 CRIMES E FORMAS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS AMBIENTAIS

Por intermédio dos 150 processos sentenciados em 2016 pela Vara Especializada do meio ambiente, pode-se identificar quais crimes ambientais são submetidos ao judiciário estadual e como estes processos têm sido resolvidos.

Como exposto no Capítulo 4, foi realiza a consulta de 150 processos sentenciados no ano de 2016, o que foi possível após a decisão do Presidente do Tribunal de Justiça51, que deferiu o direito de vista e determinou a VEMAQA a entrega de senhas de acesso. A análise dos processos foi possível por intermédio do site do Tribunal de Justiça do Amazonas:

www.tjam.jus.br.

Identificou-se, dentre os 150 sentenciados pela Vara Especializada e selecionados para o trabalho, que a maior parte dos crimes ambientais tipificados pela Lei nº 9.605/98 são de poluição, seguidos por crimes contra à fauna, crimes contra à flora e crimes praticados contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural, respectivamente.

Tabela 1 – Processos decorrentes de crimes contra à fauna, à flora, de poluição e contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural.

Objeto Processual Número de Processos Percentual

Crimes de Poluição 48 32%

Crimes contra à fauna 43 28,66%

Crimes contra à flora 31 20,66%

Crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural

29 19,33%

Fonte: www.tjam.jus.br. Relação dos 150 Processos analisados, anexo VI.

51 Relação dos 150 Processos analisados, Anexo VI.

Os 43 processos analisados que têm por objeto processual crimes praticados contra à fauna, apresentam as figuras típicas descritas nos artigos 29, 30, 32 e 34 da Lei de Crimes Ambientais

Tabela 2 – Processos decorrentes de crimes contra a fauna segundo o objeto processual violado.

Tipo da Lei nº 9.605/98 violado Número de Processos Percentual

Art. 32. (Maus-tratos) 15 34,88%

Art. 34 (Pesca proibida) 14 32,55%

Art. 29. (Fauna Silvestre) 13 30,23%

Art. 30. (Exportar peles e couros sem autorização)

1 2,32%

Fonte: www.tjam.jus.br. Processos decorrentes de crimes contra a fauna, anexo VII.

Crimes praticados contra a flora, foram identificados em 31 processos, tendo por objeto os tipos descritos nos artigos 38, 46, 50 e 51.

Tabela 3 – Processos decorrentes de crimes contra a flora s segundo o objeto processual violado.

Tipo da Lei nº 9.605/98 violado Número de Processos Percentual

Art. 46. (receber ou adquirir produto de origem vegetal sem licença)

18 58,06%

Art. 38. (destruir, danificar ou utilizar sem licença Área de Preservação Permanente)

7 22,58%

Art. 50. (destruir ou danificar vegetação objeto de especial preservação)

1 3,22%

Art. 51 (Comercializar motosserra ou utilizar em vegetação, sem licença)

1 3,22%

Fonte: www.tjam.jus.br. Processos decorrentes de crimes contra a flora, anexo VIII.

Foram identificados 48 processos abertos em razão de crimes de poluição, resultantes da conduta tipificada nos artigos 54, 55, 60 da Lei de Crimes Ambientais.

Tabela 4 – Processos decorrentes de crimes de poluição segundo o objeto processual violado.

Tipo da Lei nº 9.605/98 violado Número de Processos Percentual

Art. 60. (exercer atividade poluidora sem licença) 40 83,33%

Art. 54. (causar poluição que possa resultar prejuízo à saúde humana ou a mortalidade de animais ou danos a flora

7 14,58%

Art. 55. (Executar pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais sem autorização, permissão, concessão ou licença)

1 2,08%

Fonte: www.tjam.jus.br. Processos decorrentes de crimes de poluição, anexo IX.

Pode-se constar, ainda, a existência de 28 processos abertos em razão de crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural, cujo objeto processual consiste em figuras típicas descritas nos artigos 64 e 65 da Lei de Crimes Ambientais.

Tabela 5 – Processos decorrentes de crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural segundo o objeto processual violado.

Tipo da Lei nº 9.605/98 violado Número de Processos Percentual

Art. 64. (promover construção em solo não edificável, ou no seu entorno, sem autorização ou em desacordo com esta)

24 85,71%

Art. 65. (Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano)

4 14,28%

Fonte: www.tjam.jus.br. Processos decorrentes de crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural, anexo X.

Em verdade, 28 processos foram abertos com fulcro no artigo 64, porém apresenta-se somente os 24 que foram abertos com fundamento apenas neste dispositivo; os outros 4 identificados também em razão deste tipo penal foram analisados como crimes contra à flora.

A análise processual permitiu identificar quais os tipos penais que mais exigem a atuação do Poder Judiciário do Estado do Amazonas.

Tabela 6 – Relação dos crimes ambientais identificados na pesquisa divididos segundo o objeto processual violado.

Tipo da Lei nº 9.605/98 violado Número de Processos Percentual

Art. 60. (exercer atividade poluidora sem licença) 40 26,66%

Art. 64. (promover construção em solo não edificável, ou no seu entorno, sem autorização ou em desacordo com esta)

24 16%

Art. 46. (receber ou adquirir produto de origem vegetal sem licença)

18 12%

Art. 32. (Maus-tratos) 15 10%

Art. 34 (Pesca proibida) 14 9,33%

Art. 29. (Fauna Silvestre) 13 8,66%

Art. 38. (destruir, danificar ou utilizar sem licença Área de Preservação Permanente)

7 4,66%

Art. 54. (causar poluição que possa resultar prejuízo à saúde humana ou a mortalidade de animais ou danos a flora

7 4,66%

Art. 65. (Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano)

4 2,66%

Art. 30. (Exportar peles e couros sem autorização) 1 0,66%

Art. 50. (destruir ou danificar vegetação objeto de especial preservação)

1 0,66%

Art. 51 (Comercializar motosserra ou utilizar em vegetação, sem licença)

1 0,66%

Art. 55. (Executar pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais sem autorização, permissão, concessão ou licença)

1 0,66%

Fonte: www.tjam.jus.br. Processos e dados utilizados para identificar os crimes ambientais, anexo XI.

O principal crime identificado consiste, portanto, em poluição ao meio ambiente, em degradação da qualidade ambiental, principalmente urbana, decorrente de atos praticados com a finalidade de retirar vantagem econômica indevida.

Segundo Maraluce M. Custódio (2017, p. 63), a maioria dos grandes poluidores ambientais são grandes empresas, e os valores fixados em transação penal ambiental ou em condenações penais ambientais são irrisórios em decorrência do poder econômico destas, esclarecendo que:

enquanto o ganho decorrente do dano for superior à punição esperada, o tomador de decisões continuará poluindo e assim o fará se a probabilidade de ser punido for menor – devido a não fiscalização ou ineficiência dela ou valor indenizatório a ser pago seja pequeno – que o ganho que vai auferir, ele pode se sentir motivado a cometer a ilegalidade (CUSTÓDIO, 2017, p. 63).

O segundo crime ambiental mais encontrado dentre os processos ambientais consiste na figura típica do artigo 64 da Lei de Crimes Ambientais, consistente na construção civil em solo não edificável ou em seu entorno, sem autorização ou em desacordo com a autorização concedida. Ao todo, constatou-se 28 processos abertos com fundamento neste dispositivo legal, correspondente a 18,66% dos processos analisados, 24 abertos unicamente com fundamento nele, 16%.

Todos os processos abertos, em razão do artigo 64 da Lei de Crimes Ambientais, referem-se a invasões, a maioria para construção de habitação, sendo que dentre os 28 processos, 20 processos (71,42%), estavam alcançados pela prescrição antes mesmo da abertura do processo judicial.

Importante neste particular reconhecer que o direito à moradia é inerente a condição de vida humana com dignidade, sendo impossível reconhecer que um homem viva dignamente se este não tem seu direito à moradia respeitado.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, no artigo 25, item 1, já estabelecia a habitação como condição indispensável à saúde e ao bem-estar da pessoa e de sua família.

Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos deperda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.

No mesmo sentido, o artigo 11, item 1, do Pacto Internacional Sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) de 1966, ratificado pelo Brasil em 1992, prevê não apenas o direito à moradia, mas a moradia adequada, como inerente à natureza humana.

Os Estados Partes do presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível de vida adequando para si próprio e sua família, inclusive à alimentação, vestimenta e moradia adequadas, assim como a uma melhoria continua de suas condições de vida.

Os Estados Partes tomarão medidas apropriadas para assegurar a consecução desse direito, reconhecendo, nesse sentido, a importância essencial da cooperação internacional fundada no livre consentimento (DECRETO 591, 1992).

No cenário brasileiro, o direito à moradia emerge do direito à dignidade da pessoa humana, artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal, e aparece expressamente previsto dentre os direitos e garantias fundamentais, no artigo 6º da Carta Maior, que trata dos direitos sociais.

Destacam-se, ainda, os crimes ambientais contra a flora previstos no artigo 46 da Lei de Crimes Ambientais, decorrentes do proveito econômico de madeira, carvão e produtos de origem vegetal sem autorização ou licença válida, 12%; e contra a fauna os crimes previstos no artigo 32, consistente em maus tratos contra animais, 10%; no artigo 34, decorrente da pesca em período de defeso ou em lugares interditados, bem como ao transporte, comércio, beneficiamento ou industrialização de espécimes provenientes de coleta, apanha e pesca proibidas, 9,33%.

Desta forma, pode-se concluir que os principais crimes submetidos à vara ambiental consistem em crimes de poluição e crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural.

A análise processual permitiu ainda averiguar como a Vara Especializada do Meio Ambiente tem resolvido os processos ambientais que lhe são submetidos, por intermédio da solução concedida pelo juízo ao decidir a demanda ambiental, o que se fez com fundamento no teor da Sentença que resolveu os processos analisados.

Por solução dos conflitos ambientais, entende-se o motivo pelo qual os processos foram julgados em 2016, ou seja, a resposta concedida pelo juízo da vara especializada à lide ambiental julgada. Sendo identificado ao longo da pesquisa sentenças que homologaram e que encerraram processos em razão da Transação Penal Ambiental, sentenças que julgaram o mérito, reconhecendo a procedência ou improcedência da ação, sentenças que arquivaram os autos por ausência de provas, por ausência de interesse, por ausência de prova da continuidade do delito, por não reconhecer que a conduta que originou o processo consiste em tipo penal, por perda do objeto. Sentenças que encerraram o feito em razão do óbito, em razão da

insignificância do objeto processual. E sentenças que extinguiram o feito por reconhecer a ocorrência, a extinção da punibilidade em razão da prescrição da pretensão punitiva do Estado.

Tabela 7 – Relação das formas de solução adotadas pela Vara Especializada do Meio Ambiente do TJ/AM.

Tipo da Lei nº 9.605/98 violado Número de Processos Percentual

Prescrição 74 49,33%

Transação Penal Ambiental 50 33,33%

Arquivados por falta de provas 9 6%

Arquivados em razão do óbito 5 3,33%

Sentença de procedência 2 1,33%

Arquivado por considerar atípica a conduta 2 1,33%

Arquivado por ausência de prova da continuidade do delito 2 1,33%

Sentença de improcedência 1 0,66%

Arquivado em razão da insignificância do ato 1 0,66%

Arquivado por ausência de interesse do Ministério Público Estadual

1 0,66%

Arquivado em face da perda do objeto processual 1 0,66%

Suspensão condicional 1 0,66%

Fonte: www.tjam.jus.br. Processos utilizados para identificar a solução das lides ambientais, anexo XII.

A maioria dos processos tiveram como motivo de sua extinção a prescrição da pretensão punitiva do Estado, ao todo foram encerrados 74 processos (49,33%), em razão da prescrição, destes 31 (41,89%) já estavam prescritos antes de chegarem ao judiciário, segundo o teor da sentença. Sendo o outro fator de solução dos conflitos ambientais a Transação Penal Ambiental, constatou-se que 50 processos (33,33%) foram encerrados por este motivo.

Outras formas de solução das demandas ambientais identificadas em 20 processos (13,33%), sendo que destes, apenas três tiveram o mérito da demanda resolvido pela Vara Especializada, o que corresponde apenas a 2 por cento (2%) dos 150 processos analisados.

Constatou-se, também, dentre os 150 processos analisados, que apenas um processo (0,66%) registra a reincidência do autor, o que demonstra a efetividade das medidas educativas, em especial as aplicadas pela Vara Especializada do Meio Ambiente. Porém, necessário evidenciar que os processos encerrados em razão da prescrição não geram reincidência.

Diante deste quadro, os números permitem concluir que a repressão aos crimes ambientais que se espera diante da tipificação das condutas ambientais criminosas não é identificada, isto porque a prescrição é motivo de encerramento de quase a metade dos processos (49,33%) e as decisões de mérito correspondem a apenas dois por cento (2%).

Esta ausência de entrega da tutela ambiental em sua integralidade pela Vara a Especializada do Meio Ambiente resulta a ausência do cumprindo da obrigação institucional do Poder Judiciário do Estado do Amazonas; e apresenta-se como um dos motivos que levam a continuidade de práticas criminosas contra o meio ambiente. Jamais, poderá ser considerada como fator único da continuidade de ações criminosas contra o meio ambiente, mas não pode ser ignorada.

Os números relatados pela Vara Especializada do Meio Ambiente permitem identificar que, em 2014, entraram na VEMAQA 306 processos; em 2015, 581; em 2016, 462.

No ano de 2014, foram proferidas 300 sentenças, 285 decisões interlocutórias, 1.758 despachos e 397 audiências agendadas; enquanto em 2016 foram proferidas 503 sentenças, 911 decisões interlocutórias, 2.355 despachos e 868 audiências agendadas.

Essa continuidade dos crimes ambientais pode ser identificada tanto em decorrência da evolução dos processos submetidos à Vara Ambiental quanto em face dos dados do Comando da Polícia Militar do Amazonas e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMMAS), divulgados imprensa local

Em 2017, segundo dados do Comando da Polícia Militar do Amazonas, mais de 20.864 quilos de pescado foram aprendidos, mais de 218 quilos de carne de caça, cerca de 27 metros cúbicos de carvão vegetal e 878 metros cúbicos de madeira ilegal, e 177 animais silvestres foram resgatados.

O Comando Ambiental da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) apreendeu 20.864 quilos de pescado ao longo do ano de 2017 em todo o Estado. O dado consta no balanço de produtividade de 2017, apresentado pela PMAM na última semana.

No ano passado, ainda conforme o balanço, também foram apreendidos 218 quilos de carne de caça, 1662 quelônios, 27,8 metros cúbicos de carvão vegetal e 878,6 metros cúbicos de madeira ilegal. Além disso, 177 animais silvestres foram resgatados.

O Comando também registrou 24 flagrantes e 76 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCO). Em decorrência das fiscalizações, 131 veículos e 29 embarcações foram apreendidos. (ACRITICA, 2018)

Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMMAS), em 2018 foram registrados 32 focos de invasões em Manaus, principalmente nas Zonas Norte e Leste.

Ocupações de terra em áreas públicas ou privadas são constantemente monitoras pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas). Em 2018, o Gabinete de Gestão Integrada do Município (GGIM) e o Grupo Integrado de Prevenção às Invasões em Áreas Públicas do Amazonas (Gipiap) ligaram o sinal de alerta para combater ocupações irregulares na capital, por se tratar de um ano político, onde essa problemática aumenta em várias áreas da cidade.

Conforme a Semmas, no ano passado, foram registrados 32 focos de invasões na cidade, sendo as Zonas Norte e Leste com maior índice de terrenos invadidos. A Semmas informa que o controle dessas invasões é realizado ininterruptamente, independente de ano eleitoral. (BENEVIDES, 2018)

Contata-se que os crimes ambientais identificados nos processos ambientais, julgados em 2016, foram praticados de forma expressiva também no ano de 2017, o que somado aos dados dos relatórios gerenciais da Vara Especializada demonstram que há uma continuidade dos crimes ambientais no Estado do Amazonas, na cidade de Manaus, e que a evolução da legislação ambiental, inclusive com a tipificação em uma lei específica de crimes ambientais, a existência de uma Vara Especializada em questões Ambientais se mostra insuficiente a repressão criminal ambiental, em razão da sua incapacidade de solucionar os processos judiciais antes da ocorrência da prescrição da pretensão punitiva do Estado.

Esta ausência de repressão aos crimes ambientais é preocupante, pois permite concluir que crimes, tais como, o exercício de atividade sem licença ambiental, prática que importa em poluição ao solo, poluição hídrica, continuarão sendo praticados, assim como as invasões e construções em áreas de preservação ambiental, a obtenção de proveito econômico tanto da flora quanto da fauna sem autorização, sem licença, sem respeito às normas jurídicas estabelecidas, em face à presunção de que esses crimes não serão penalizados

Esta ausência de efetividade das normas ambientais resulta numa ausência de segurança jurídica quanto à entrega do bem jurídico ambiental tutelado pelo Estado, reconhecido como direito fundamental, indispensável ao ser humano e inerente à dignidade da pessoa humana;

ameaçando, por consequência, a capacidade de entregar as futuras gerações um ambiente em estado melhor ou igual ao existente.

Note-se que a maioria dos processos foram extintos em razão da prescrição da pretensão punitiva do Estado, o que demonstra a ausência de uma entrega efetiva da tutela jurisdicional, sendo a maioria dos processos encerrados sem que seu teor seja apreciado pelo judiciário.

Importante salientar que outro grande fator de encerramento dos processos ambientais é a Transação Penal Ambiental. Neste caso em específico, há que se compreender as especificidades dos sujeitos que são submetidos ao judiciário por práticas criminosas ambientais, os quais muitas das vezes não têm condições de arcar sequer com a recomposição do dano ambiental causado, havendo casos em que a transação ambiental se resume a comparecimento em curso de conscientização ambiental.

Celso Antônio Pacheco Fiorillo e Christiany Pegorari Conte (2017, p. 109) lembram que:

a transação penal deve ser utilizada com cautela nos crimes ambientais, já que o direito ao meio ambiente é direito fundamental, relacionado à dignidade humana. Assim, não se pode perder de vista que a aplicação desmedida do instituto leva à inadequada e ineficaz compensação da degradação ambiental por uma pena irrisória que poderá servir de estímulo para novas práticas infracionais ambientais (2017, p. 109).

Oportuno destacar, também, a efetividade do curso, da educação (reeducação) ambiental do autor do delito, demonstrada pela quase inexistência de casos de reincidência, uma vez que apenas em um único processo constatou-se a reincidência ambiental. Porém, é alarmante que quase metade dos processos sejam extintos em razão da prescrição da pretensão punitiva, ressaltando-se que a extinção, em razão da prescrição, não gera reincidência.

Note-se que a ausência de responsabilização gera uma ausência de temor em relação à norma penal e os efeitos da ausência de efetividade da norma podem sim servir de estímulo, levando outros a praticarem a mesma conduta, pois já terão conhecimento quanto às formas de solução dos conflitos ambientais.

Com relação à prescrição, urge salientar que os relatórios gerenciais da Vara Especializada do Meio Ambiente permitem identificar uma evolução do tempo médio de tramitação dos processos, que passa a ser de mais de 4 anos em 2016, o que resulta na prescrição de muitos processos penais, uma vez que a maioria dos ilícitos ambientais prescritos pela Lei de Crimes Ambientais tem pena máxima de um ano, o resulta na prescrição para punição penal do infrator.

Outro fato que merece destaque é o crescimento do volume de decisões, em 2014 houve 300 sentenças, 285 decisões interlocutórias e 1758 despachos; em 2016 esse número saltou para 503 sentenças, 911 decisões interlocutórias e 2355 despachos; mesmo diante da tentativa de tentar-se dar andamento ao processos, com a atuação do Juiz Titular da Vara Especializada, que permaneceu respondendo por alguns processos mesmo após ser convocado para atuar na corregedoria do tribunal de Justiça do Estado, e de juízes vinculados diretamente a outras varas, da comarca e do interior, habilitados para responderem no ano de 2016 cumulativamente pela Vara Especializada do Meio Ambiente.

Assim sendo, oportuno reconhecer que o tempo de tramitação dos processos ultrapassa o prazo para que Estado imponha a punibilidade ao autor do crime, em razão da maior parte dos crimes prescrever em quatro anos, enquanto o tempo médio de tramitação dos processos em 2016 salta para mais de 4 anos, o que permite afirmar que se não fossem as transações penais ambientais mais processos terminariam em virtude da prescrição da pretensão punitiva do Estado, gerando ainda mais impunidade e ausência de efetividade da norma penal ambiental, uma vez que mesmo com a participação de magistrados estranhos a VEMA, de fato só houve três sentenças que apreciaram o mérito da demanda ambiental, uma vez que os outros 147 processos analisados não tiveram o mérito da demanda solucionado pela Vara Especializada.

No que tange à prescrição criminal, cumpre também salientar que a prescrição nos processos analisados é aplicada de forma geral, sendo reconhecido o início de sua contagem com o início do delito. Não se atentando para necessidade de conceder tratamento diverso aos processos que têm por objeto crimes continuados, os quais se prolongam ao longo do tempo, como a invasão de áreas verdes, que por consequência, têm o início do prazo prescricional condicionado à cessão do ato criminoso. Logo, entende-se que o reconhecimento da prescrição em alguns casos deu-se de forma indevida.

Neste sentido, salienta-se que nos casos de crime permanente, em que pese o início do ato criminoso tenha ocorrido em data pretérita, o ato não se resume a um fato isolado, ele se

Neste sentido, salienta-se que nos casos de crime permanente, em que pese o início do ato criminoso tenha ocorrido em data pretérita, o ato não se resume a um fato isolado, ele se