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2 O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO

3 CRIMES E FORMAS DE SOLUÇÃO DOS CONFLITOS AMBIENTAIS: UMA ANÁLISE DOS PROCESSOS SENTENCIADOS PELA VARA ESPECIALIZADA DO

3.2 CRIMES CONTRA A FLORA

3.2.1 Artigo 38 da Lei de Crimes Ambientais

É considerado crime ambiental contra a flora a destruição ou danificação da floresta de preservação permanente, em qualquer estágio de desenvolvimento, sendo prevista pena de um a três anos ou multa, ou ambas as penalidades cumulativamente, sendo estabelecida a redução da pena pela metade caso o crime seja causado por culpa, a pena máxima prevista é de três anos.

Ao longo da pesquisa foram constatados sete processos abertos em razão da figura típica descrita no artigo 38, dentre os quais apenas dois foram abertos com fundamento unicamente neste tipo específico, os demais, além da figura típica do artigo 38, foram abertos também com fundamento nos artigos 64 da Lei de Crimes Ambientais, destes, três apresentam ainda como motivo o tipo do artigo 48 da mesma lei.

3.2.1.1 Processo nº 0202050-73.2013.8.04.0001

Trata-se de Procedimento Penal instaurado em 1º de fevereiro de 2013 para apurar delito previsto no art. 38, 48 e art. 64 da Lei de Crimes Ambientais.

Em 20 de março de 2013, o Ministério Público, em seu parecer, destacou que restava a apuração no caso do crime contra a flora, que é permanente, manifestando entendimento pela distribuição à promotoria especializada em proteção e defesa do meio ambiente para apurar o crime descrito no artigo 48 da Lei dos Crimes Ambientais.

Em 23 de setembro, houve novo parecer do Ministério Público, referendando o parecer anterior, destacando que apesar da extinção da punibilidade pela ocorrência da prescrição da pretensão punitiva do crime do art. 64, permanece ainda a pretensão punitiva estatal com relação ao crime do art. 38 da Lei dos Crimes Ambientais, e requereu a remessa para redistribuição para uma das promotorias de meio ambiente.

Em audiência realizada em 6 de outubro de 2014, o Juízo da VEMAQA acolheu o parecer ministerial e determinou que fosse cientificado o Procurador-Geral de Justiça para que este indicasse um Promotor de Justiça da Área do Meio Ambiente, a fim de analisar o crime contra a flora, previsto no artigo 38 da Lei de Crimes Ambientais.

Em 8 de outubro de 2014, foi proferida Sentença Extintiva da punibilidade, determinando-se o arquivamento, após o trânsito em julgado, o Ministério Publico apresentou embargos de declaração, apresentou manifestação, a juíza que respondia pela vara manteve a decisão e determinou o arquivamento.

Posteriormente, em 29 de fevereiro de 2016, o juiz titular da vara especializada determinou novamente a intimação do Procurador-Geral de Justiça para que indicasse um promotor de Justiça da Área do Meio Ambiente, pois não teria havido manifestação.

O Ministério Público Estadual, especializado em Meio Ambiente, destacou que no Relatório Circunstanciado constatou-se que a edificação de moradias em solo não edificável, eram antigas e consolidadas, contado algumas 15 anos; o Laudo de Vistoria contabilizou sete edificações em APP, registrando que não existiria remoção de vegetação recente; e manifestou-se pelo arquivamento dos autos em razão da extinção da punibilidade pela ocorrência da prescrição da pretensão punitiva, requerendo o arquivamento, em 15 de agosto de 2016.

O Juízo Especializado, em sentença anexa aos autos em 27 de setembro de 2016, deu razão ao Ministério Público, extinguiu o processo e determinou o arquivamento. Em 31 de outubro de 2016, após o trânsito em julgado, o processo foi arquivado.

3.2.1.2 Processo nº 0207905-72.2009.8.04.0001

O processo nº 0207905-72.2009.8.04.0001 foi aberto em razão da prática dos delitos previstos nos artigos 38 e 64 da Lei nº 9.605/98 em 20 de fevereiro de 2009.

O fato delituoso ocorreu no dia 10 de dezembro de 2004. Em 18 de setembro de 2012 o Ministério Público pugnou pela citação por edital do denunciado, posteriormente foi apresentada defesa prévia solicitando a extinção da punibilidade pela prescrição.

Em parecer, o Ministério Público Estadual reconheceu que assistiria razão a defesa, nos termos do artigo 109 do Código Penal, posto que o tempo consumiu a pretensão punitiva do Estado, que nos crimes objetos da denúncia, têm prazo prescricional de oito e três anos.

Aos 24 dias de novembro de 2016, foi proferida sentença extintiva pela prescrição, reconhecendo a extinção da punibilidade. Aos três dias do mês fevereiro de 2017, foi certificado o arquivamento dos autos.

3.2.1.3 Processo nº 0067781-15.2004.8.04.0001

O processo nº 0067781-15.2004.8.04.0001 refere-se à Ação Civil Pública apresentada em 20 de dezembro de 2004 contra o Município de Manaus e outras trinta e duas pessoas físicas, tendo por objeto a invasão de área de preservação permanente do igarapé dos Franceses, cuja margem esquerda encontra-se parcialmente ocupada por imóveis edificados em madeira, há pelo menos dez anos.

O Ministério Público postulou o deferimento de liminar para que o Município promovesse a retirada dos invasores, o que foi reiterado no mérito, sendo nesta oportunidade postulada a condenação dos requeridos a apresentar projeto técnico de recuperação da área de preservação permanente, ou a compensação em caso de impossibilidade.

Em 17 de novembro de 2011, atendendo pedido de manifestação, formulado pelo Juízo Especializado, a Promotoria de Justiça salientou que embora tivesse quase sete anos de apresentação da Ação Civil Pública, até aquele momento não teria havido a citação dos réus, com exceção do Município de Manaus, para contestar a ação, esclarecendo que os mandados permaneceram na posse do Sr. Oficial de Justiça, “por mais de três anos sem o devido cumprimento”, e diante da inércia do Sr. Oficial de Justiça, “de cumprir com suas obrigações de citar réus e especificamente pela premência da ações para preservar a faixa marginal do Igarapé dos Franceses a fim de assegurar que as funções ecológicas sejam mantida” requereu novamente a citação dos réus.

Em 11 de fevereiro de 2016, foi proferida sentença com resolução de mérito, em razão da perda do objeto.

“Ab initio a ocupação antrópica consolidada se caracteriza por determinadas intervenções realizadas em área de preservação permanente – APP, sem autorização do órgão competente, anteriormente a 2008. Se a internação se enquadrar na figura da ocupação antrópica consolidada, não pode haver autuação, seja criminal ou administrativa. Ela é uma espécie de anistia concedida pelo Poder Judiciário”, esclareceu o magistrado que “com a edição do Novo Código Florestal, o reconhecimento da ocupação antrópica consolidada somente era possível através de processo próprio de regularização. Com a Lei nº 20.922-2013, “in caso” de área urbana, com o simples enquadramento nos requisitos trazidos pela legislação, já há a configuração da ocupação antrópica consolidada, o que impossibilita a atuação criminal ou administrativa pela intervenção realizada sem autorização. Destacou o artigo 8º, §2º, do Código Florestal e o artigo 2º, inciso IV, da Lei nº 4.132/62, bem como o artigo 3º, inciso IX, alínea

“d”, do Código Florestal. E ao final, manifestou o entendimento de “que as novas normativas legais estabelecem a intervenção da APP diante do interesse social há tempos consolidados”, que houve perda do objeto nos autos, com amparo nos artigos 162, 269, inciso V, e 458, todos do Código de Processo Civil de 1973, determinando ulterior arquivamento.

Após vista ao Ministério Público, a sentença transitou em julgado e o processo foi arquivado em 17 de julho de 2017.

3.2.1.4 Processo nº 0009641-56.2002.8.04.0001

O processo nº 0009641-56.2002.8.04.0001 foi aberto em razão da Ação Civil Pública apresentada pelo Ministério Público em 22 de fevereiro de 2002, em face do Município de Manaus, em decorrência das invasões em área verde e de preservação permanente, no Conjunto Jardim Campos Elíseos, com pedido de concessão de liminar para retirar os invasores e no mérito a procedência da demanda.

A liminar não foi concedida inicialmente, preferindo o Juízo a realização de audiência para ulterior decisão, com amparo no artigo 2º da Lei 8.437/92. Em 19 de novembro de 2002, foi concedida a liminar, com fundamento no artigo 12 da Lei 7347 de 1985, artigo 225 da Constituição Federal, artigo 2º, alínea “a” da Lei 4.771/1965 (Código Florestal), artigo 14, parágrafo 1º, da Lei 6.938/81 e artigo 165 do Código de Processo Civil de 1973 (fls. 89-94).

Não houve cumprimento da liminar, pelo que dos autos consta, sendo reiterados pedidos pelo Município para que a liminar fosse revista.

O Ministério Público, por duas vezes, postulou para que fosse julgado o mérito do processo, de forma antecipada, com fundamento no artigo 330 do código de processo civil anterior. A primeira vez, em 18 de novembro de 2011; a segunda, após a determinação de abertura de vista ao Ministério Público pela Corregedoria-Geral de Justiça do Poder Judiciário do Estado do Amazonas, em 29 de agosto de 2012.

A ação foi julgada procedente, em 11 de fevereiro de 2016. Foram apresentados Embargos de Declaração, e contrarrazões aos Embargos, restando pendente decisão. O pedido do Ministério Público concedido em decisão primária pelo juízo de primeiro grau condenou o Município a remover os invasores, apresentar plano de recuperação da área de preservação permanente e indenizar pessoas ocupantes que apresentarem comprovantes de pagamento de IPTU, além de condenação ao pagamento de custas e despesas processuais.

3.2.1.5 Processo nº 0028450-94.2002.8.04.0001

O processo nº 0028450-94.2002.8.04.0001 refere-se à edificação em igarapé. Consiste em Ação Penal inaugurada em razão de crime ambiental consistente na construção de um muro dentro de um igarapé, na área urbana de Manaus. Trata-se de crime praticado contra a flora, ação proposta pelo Ministério Público do Estado do Amazonas contra pessoa jurídica de direito privado. A denúncia ministerial de 20 de maio de 2002 imputou ao réu a conduta típica do

artigo 38 da Lei 9.605-98, decorrente da construção de um muro de arrimo localizado às margens do igarapé.

Em 3 de março de 2007, a ação foi julgada procedente, artigo 38, parágrafo 2º, V, c/c os artigos 3º, 15, incisos I e II, “p”, artigos 23 e 21, todos da Lei nº 9.605-98.

Foi imposta à ré pena de prestação de serviços à comunidade, consistente numa contribuição de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) a entendida ambientalmente credenciada e assinado prazo de trinta dias para retirada do mudo da área de preservação permanente, sob pena de violação aos artigos 330 e 331 do Código Penal.

A decisão foi objeto de recurso de apelação. A decisão monocrática foi mantida pela Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Amazonas. Foram interpostos Embargos de Declaração, Recurso Especial, Agravo Regimental, Embargos de Declaração com efeitos modificativos.

Em 20 de agosto de 2013, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, ao apreciar os Embargos de Declaração com efeitos modificativos, por unanimidade, rejeitou os embargos, e, de ofício, declarou a extinção da punibilidade estatal, em face da prescrição da pretensão punitiva.

Com o retorno dos autos à origem, o Juízo concedeu vista ao Ministério Público do Estado, o qual se manifestou favoravelmente à extinção da punibilidade em favor do réu.

Em 23 de fevereiro de 2016, o Juízo decretou a extinção da punibilidade, com fundamento no artigo 107, cumulativamente com o artigo 109, ambos do Código Penal, e determinou o arquivamento.

Além dos processos relatados, tem por objeto crime previsto no artigo 38 da Lei de Crimes Ambientais os processos de nº 0229884-46.2016.8.04.0001 e 0368581-62.2007.8.04.0001. O primeiro decorre de construção em solo não edificado, tendo por objeto fato típico descrito nos artigos 38 e 64 da Lei de Crimes Ambientais, tendo sido encerrado por reconhecer que o processo estava prescrito antes mesmo de sua abertura em 2016, enquanto o segundo tem por objeto apenas o crime tipificado no artigo 38, decorrente da autuação do acusado em decorrência da terraplanagem promovida em área florestal de preservação ambiental, o processo foi aberto em 2007 e arquivado em 2016 em razão do óbito o autor.