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2 O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO

2.2 INSTRUMENTOS PARA PROTEÇÃO DOS DIREITOS AMBIENTAIS

Os procedimentos e instrumentos voltados à proteção do bem jurídico ambiental devem ser pensados, instituídos e promovidos, com fundamento no direito à informação, à participação pública na tomada de decisões e ao acesso à justiça em sua integralidade, não se resumindo, portanto, na possibilidade de postular uma resposta ao judiciário, mas de obter do judiciário uma resposta efetiva.

A participação popular, o dever de informar e o acesso à justiça, desde a Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano de 1972, já eram apresentados como instrumentos necessários à concretização dos direitos ambientais em sua plenitude.

Neste particular, cumpre salientar a importância de informar e de possibilitar a sociedade acesso às informações relativas aos crimes ambientais que chegam ao judiciário, uma vez que, mesmo diante da legislação que reconhece o direito de aceso à informação, independentemente do processo penal ambiental submetido à tutela jurisdicional da Vara Especializada do Amazonas, todos, sem restrição, tramitam em segredo de justiça, motivo pelo qual somente foi possível a análise processual após o deferimento de acesso pelo Presidente do Tribunal de Justiça do Amazonas e insistência na Vara Especializada para obtenção das senhas de acesso aos autos.

A Constituição Federal, no artigo 225, §1º, ao atribuir proteção jurídica ao bem ambiental determinou o direito aos particulares de participação em matéria ambiental.

Essa participação exigida pela Constituição Federal de 1988 depende da criação de instrumentos participativos e da informação à sociedade quanto à sua existência e quanto à existência dos crimes e situações que requerem sua atuação, sendo assim é dever do Estado possibilitar esta participação da sociedade na solução das demandas ambientais, informando e possibilitando o direito de acesso às demandas ambientais.

São instrumentos indispensáveis à efetivação do direito ambiental: a educação ambiental, a informação e a participação popular.

Dessa maneira, a Lei de Crimes Ambientais, no art. 70, §2º e §3º, respectivamente, atribui a qualquer pessoa o direito de representar as autoridades a ocorrência de crimes ambientais e impõe a autoridade que tiver conhecimento a obrigação de promover a apuração sob pena de responsabilidade.

Outas legislações nacionais que consagram o direito à participação popular na defesa do meio ambiente são: a Lei da Ação Popular (Lei n. 4.717/65), que inclui a proteção ambiental como seu objetivo e tem previsão inserta na Constituição Federal de 1988, art. 5º, LXXIII; a

Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85); a Lei de Acesso à Informação Ambiental (Lei n.

10.650/2003) e a Lei de Acesso à Informação Pública (Lei n. 12.527/2011).

A Lei da Ação Popular (Lei 4.717/65, com a inclusão da proteção ambiental no seu objetivo levado a efeito pelo art. 5º, LXXIII, da CF/88), a Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347/85), a Lei de Acesso à Informação Ambiental (Lei 10.650/2003 – Acesso Público aos Dados e Informações Existentes nos Órgãos e Entidades Integrantes do SISNAMA) e a Lei do Acesso à Informação Pública (Lei n. 12.527/2011) são bons exemplos normativos desse paradigma participativo ecológico, pois colocam ao alcance do público interessado mecanismos de acesso à informação, controle administrativo e judicial e participação em temas afetos ao ambiente (SARLET, 2017, p. 346).

Também são instrumentos processuais que podem ser utilizados para promoção e proteção do direito ambiental: o Mandado de Segurança individual e coletivo, a Ação Direta de Inconstitucionalidade, a Ação Declaratória de Constitucionalidade, o Mandado de Injunção, a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (SARLET, 2017, p. 367).

Além dos instrumentos processuais, há no direito brasileiro uma ampliação significativa no rol de legitimados a proporem ações em defesa do meio ambiente perante o Poder Judiciário, sendo possível a qualquer cidadão, ao Ministério Público, à Defensoria Pública, apresentar ação destinada à promoção e proteção do meio ambiente, o que é feito com a finalidade de diminuir as barreiras que possam limitar o acesso dos indivíduos e da coletividade à proteção judicial do meio ambiente (SARLET, 2017).

A Convenção de Aarhus sobre Acesso à informação, Participação Pública na Tomada de Decisões e Acesso à Justiça em Matéria Ambiental (1998), sensível a tal questão limitadora do acesso à justiça em matéria ambiental, prevê que o Estado “assegurará a disponibilização ao público das informações relativas ao acessos aos processos de recursos administrativos e judiciais e considerará a possibilidade de estabelecer mecanismos de assistência adequados para eliminar ou reduzir óbices financeiros e outros ao acesso à justiça (art. 9º e 5º)”. No cenário legislativo brasileiro, a assistência jurídica às entidades ambientalistas pode ser compreendida com base no art. 4º da LC 80/94 (Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública), com redação dada pela LC 132/2009, ao dispor que se trata de função institucional da Defensoria Pública

“exercer, mediante recebimento dos autos com vista, a ampla defesa e o contraditório em favor de pessoas naturais e jurídicas, em processos administrativos e judiciais, perante todos os órgãos e em todas as instâncias, ordinárias ou extraordinárias, utilizando todas as medidas capazes de propiciar a adequada e efetiva defesa de seus interesses” (inciso V), bem como “promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar as adequada e efetiva tutela” (inciso X) (SARLET, 2017, p. 379,380).

Destaca-se, ainda, como instrumento de concretização dos direitos ambientais, o papel da valoração do bem ambiental no momento de estabelecer a sanção, determinar a reparação do

dano, sendo o prejuízo econômico contundente instrumento para promover a proteção do bem jurídico ambiental. Somente com a imposição de pagamento expressivo pelo bem jurídico ambiental, ter-se-á de fato a responsabilidade como instrumento de repressão aos crimes ambientais, considerando que a vantagem econômica ao delinquente ambiental o leva a optar pelo cometimento do delito.

A criminalização, por si só, não é suficiente à repressão da conduta ambiental perante aqueles que não são alcançados pela existência pura da norma incriminadora, assim é esta finalidade: a pena imposta deve ser expressiva, fixada em montante que de fato desestimule a prática criminosa, mostrando ao infrator em potencial que a conduta ilícita que afeta ao meio ambiente não é lucrativa, e ainda levando ao entendimento de que não seria vantagem econômica a prática do ato.

Somente a imposição de penalidade que demonstre claramente a ausência de vantagem econômica na prática da conduta ilícita poderá levar as pessoas que não são afetas unicamente pela criminalização da conduta a não praticarem o crime, por medo de receber a penalidade prevista na norma.

Assim sendo, se usada com prudência e eficiência, a valoração do dano ambiental, decorrente do princípio ambiental do poluidor-pagador, poderá ser reconhecida como instrumento efetivo a desestimular a conduta ambiental ilícita.

O princípio “poluidor-pagador” ou de “quem contamina-paga” é uma das principais normas do direito ambiental e importante instrumento de políticas governamentais. O princípio torna a organização que contamina responsável pelo pagamento do prejuízo que causou (DIAS, 2017, p. 86).

O princípio ambiental do “poluidor-pagador” foi incluído, no Brasil, pela Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), Lei nº 6.938/1981, artigo 4º; foi incorporado posteriormente pela Constituição Federal de 1988, no artigo 225, §2º, e consolidado em 1992, durante da Conferência das Nações unidas no Rio de Janeiro, como princípio, no princípio 16 do texto final, constituindo, hoje, “uma ferramenta de preservação ambiental que internaliza os custos para o agende poluidor” (DIAS, 2017, p. 88).

Reparar, segundo Édis Milaré (2015, p. 756), significa “reconstituir a integridade e a funcionalidade de um objeto”. Pode-se dizer, portanto, que em matéria ambiental, seria reconstituir a integridade e a funcionalidade ambiental, impondo um dever de reparação do bem jurídico violado, neste caso, do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Maraluce M. Custódio ao tratar da importância da valoração do dano ambiental, considerando a unidade ambiental e os efeitos de sua modificação, a necessidade de proteção ambiental como dever de todos, o poder coativo do direito, os princípios ambientais, bem como o fato de que a valoração econômica do meio ambiente busca proteger e prevenir o dano ambiental, conclui:

[...] que a valoração econômica do dano ambiental tem papel importante dentro da proteção e seu desconhecimento e/ou não aplicação nas decisões judiciais brasileiras tem causado grandes perdas não só para a comunidade atingida pelo dano quanto para a sociedade como um todo que não é ressarcida pelos danos imputados ao meio ambiente que se refletem na vida de todos através de doenças, modificações climáticas, extinções de espécies básicas para manutenção da cadeia da vida.

O que se tem visto, entretanto, são decisões desarrazoadas e morosas, onde não se tem levado em consideração o valor do meio ambiente em si, ou mesmo o valor de sua reparação (CUSTÓDIO, 2017, p. 147-148).

Ou seja, reparando, ressarcindo, indenizando, respondendo pelo crime ambiental praticado, de forma efetiva, mostrando que o ato ilícito praticado importa em responsabilização, e que esta responsabilização não é lucrativa ao infrator, ter-se-á a consequente repressão ao ato praticado e a preservação do bem ambiental.

A imposição da norma impondo responsabilidade efetiva diante da ocorrência de um ato que a viola, fazendo valer a força do Estado na proteção do bem jurídico ambiental, é o que se espera do Poder Judiciário, quando invocado. Isto porque, como salientou-se, cabe ao Poder Judiciário o dever de reprimir o ato lesivo ao meio ambiente quando a atuação dos Poderes Executivos e Legislativos são insuficientes à repressão aos crimes ambientais e às demandas são submetidas ao Judiciário para decisão.

Nesse aspecto, cumpre-se reconhecer que a criação de Varas Especializadas é outra forma de melhorar a entrega da tutela jurisdicional, mas para tanto, há necessidade de conceder a esta meios de efetivamente promover a entrega da tutela jurisdicional em tempo razoável.

A criação de varas especializadas no primeiro grau de jurisdição, tanto na justiça estadual quanto federal (e, em alguns casos, até mesmo com juizados itinerantes), e também nos Tribunais em matéria de tutela ambiental, contando com uma estrutura organizacional e técnica adequada e em condições efetivas de dar conta de forma qualificada da crescente demanda na temática, representa um grande passo para a efetivação da legislação ambiental (SARLET, 2017, p. 382).

Verifica-se, portanto, que hoje há instrumentos suficientes à tutela do bem jurídico ambiental, sendo possível a exigência de seu cumprimento quando violado, bem como a responsabilização do infrator. Destacando-se, ainda, que para conceder melhor efetividade e qualidade na prestação jurisdicional podem ser criadas Varas Especializadas, sendo, em matéria

ambiental, a criação de varas especializadas outro instrumento de efetivação do direito ambiental.

Ademais, além dos instrumentos judiciais apresentados, o Estado brasileiro possui órgãos administrativos voltados a tornar efetivo o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, dentre os quais merece destaque no Estado do Amazonas o Batalhão de Policiamento Ambiental, inclusive com base fluvial, a Delegacia Especializada em Crimes contra o Meio Ambiente e Urbanismo (DEMA), o Ministério Público Estadual (MPE/AM), o Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM); a Defensoria Pública Estadual do Amazonas (DPE/AM), a qual foi fortalecida com o aumento significativo de seus membros, a Defensoria Pública da União no Amazonas (DPU/AM), a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Amazonas (SEMA), a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Manaus (SEMMAS), o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (IPAAM), a Superintendência do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente no Amazonas (IBAMA/AM), órgão executivo do Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA), órgãos administrativos, constituídos pelo Poder Público, voltados à pesquisa, regularização, fiscalização e promoção e proteção do meio ambiente.

Portanto, o Estado Brasileiro dispõe de um ordenamento jurídico voltado à proteção do meio ambiente, ou seja, está estruturado com órgãos de pesquisa, de repressão, fiscalização e direção destinados a proteção do bem jurídico ambiental, disponibiliza recursos para que estes órgãos possam exercer suas funções respectivas, tudo com a finalidade de cumprir o dever imposto pela Constituição Federal e exigido de um Estado Democrático de Direito, que tem como princípio a dignidade da pessoa humana, como objetivo o bem de todos e que consagra o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental.

3 CRIMES E FORMAS DE SOLUÇÃO DOS CONFLITOS AMBIENTAIS: UMA