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2. Análise Descritiva das Constituições Estaduais

2.3. Perfil e extensão constitucional

2.3.1. Artigos

A forma mais direta de medir o tamanho de uma Constituição é pela contagem do número de artigos. Segundo Montenegro (1995), o número de artigos indica a diversidade de matérias e sub-tópicos abordados bem como o grau de detalhamento almejado pelos constituintes. Ademais é uma variável de instrumentalização objetiva, que, segundo o autor, não possui influência significativa da tradição linguística/cultural, o que a torna propícia a comparações entre países. No caso dos estados brasileiros a diferença linguística não é relevante, mesmo que existam variantes linguísticas entre as regiões. O Gráfico 2.1 mostra o tamanho total das Constituições estaduais, ordenadas de forma crescente, quando promulgadas e a quantidade de artigos na CF com o objetivo de comparação.

Do gráfico podemos notar que algumas Constituições se destacam por tamanho elevado ou reduzido, embora haja certa concentração em torno da média. Do número de artigos vemos que, em média, as constituições estaduais são

ligeiramente maiores do que a Constituição Federal. Apenas 8 dos 2615 (30,76%)

estados possuem Constituição menor que a Federal. Quando o texto é desagregado em principal e ADCT, a maioria das Constituições Estaduais possui corpo principal mais extenso, por outro lado poucos são os estados com ADCT maior que o da CF.16

Com isso, caso a soma de artigos seja utilizada como medida de tamanho, temos que as Constituições Estaduais brasileiras são, em sua maioria, maiores do que a Constituição de 1988.

A menor Constituição é a de Tocantins, com 181 artigos, e a maior é a do Rio de Janeiro, com 461 artigos. Em um primeiro momento esses valores indicam variabilidade considerável no tamanho nas Constituições. Mas, quando medidas de dispersão e de tendência central são avaliadas17, a dispersão, embora existente e

significativa, não se mostra tão intensa. Os estados possuem em média 326 artigos e um coeficiente de variação de 22,2%.

A mediana, de 334, encontra-se entre Alagoas e Rio Grande do Sul. Metade dos estados possui entre 297 e 371 artigos (no gráfico, de MS a PB, inclusive) e a outra metade encontra-se fora deste intervalo. Ou seja, 50% dos estados encontram- se em um intervalo de 74 artigos ao redor da mediana, o que indica que mesmo que haja estados com constituições muito extensas ou muito reduzidas, metade dos estados possui diferença máxima de 74 artigos.

Os cinco menores estados se destacam no gráfico, mas apenas Tocantins e Rio Grande do Norte são considerados valores discrepantes (outlier). Quando o texto é desagregado e consideramos os tamanhos do ADCT e do corpo principal, Tocantins e Rio Grande do Norte também possuem os menores corpos principais, com 162 artigos (também são valores discrepantes), e entre os 5 menores ADCT. Avaliamos também a possibilidade de associação entre a extensão desses trechos, o que sugeriria que a extensão, em artigos, é afetada por alguma variável que influencia tanto extensão do corpo principal quanto do ADCT. Há correlação significativa entre

15 Removemos o Acre da análise já que não conseguimos o texto da Constituição original nem do

emendamento deste estado.

16O texto principal de 21 das 26 (80,8%) Constituições Estaduais é mais extenso que o da CF. Já o

ADCT de apenas 3 das 26 (11,5%) Constituições Estaduais é mais extenso que o ADCT Federal.

as variáveis. O que significa que o tamanho do corpo principal e o tamanho do ADCT possuem certa associação positiva18.

Segundo o Manual de Redação da Presidência da República19 “Artigo é a

unidade básica para apresentação, divisão ou agrupamento de assuntos num texto normativo. [...] Os artigos podem desdobrar-se, por sua vez, em parágrafos e incisos; e estes, em alíneas.” (BRASIL, 2002). Sendo assim um Artigo, por mais que possua uma definição formal estabelecida em Lei Complementar, e explicado em manuais de redação legislativa, não possui uma definição fechada. O que faz com que um conjunto de provisões seja caracterizado, ou agrupado, em um mesmo artigo, é a compreensão dos constituintes de que aquelas provisões tratam de tema único. Ou seja, está sujeito à discricionariedade do constituinte. Como consequência, parece- nos problemático medir o tamanho de uma Constituição pelo total de artigos. Como não há critério sistemático, restritivo, acerca do que caracteriza um artigo ou não, este fica a critério da subjetividade do constituinte. Assim a objetividade da variável, tal como proposta por Montenegro (1995), não pode ser assegurada por este método.

Ademais, Tsebelis e Nardi (2014) argumentam que não se sabe as razões pelas quais os constituintes dividem tópicos em artigos distintos, de forma que tal separação, se não arbitrária, segue princípios não conhecidos, de cada constituinte. Desse modo, ao utilizar a quantidade de artigos como unidade de medida da extensão Constitucional, o que é medido de fato não é a extensão em si da Constituição, mas a quantidade de divisões em tópicos que os constituintes julgaram tratar de tema semelhante o suficiente para que fossem agregados. Isto é, ao contar artigos não contamos a quantidade de normas constitucionais, mas sim a quantidade de agrupamento que os constituintes identificaram segundo um tema. Então se o objetivo é avaliar a quantidade de normas constitucionais, a contagem de artigos acaba distorcendo essa informação. Uma vez que um artigo pode conter uma série de normas e é segundo a decisão discricionária do constituinte que determinadas normas são semelhantes o suficiente para que sejam agregadas em um único artigo, ou se distintas o suficiente para que sejam divididas em dois ou mais. Esta característica de

18 Não há qualquer inferência de causalidade. A correlação pode levantar a possibilidade de variáveis

afetando a extensão constitucional, o que seria transmitido para ambos trechos, fazendo com que o tamanho do corpo principal e do ADCT apresente certa semelhança.

19 Lei Complementar Nº 95, de 26 de Fevereiro de 1988, estabelece normas para redação de matéria

cada constituinte, e portanto de cada AEC, pode ser um dos fatores que explica a existência de associação entre a extensão, em artigos, do corpo principal e do ADCT, já que as preferências por mais síntese e compilação dos tópicos, ou mais fragmentações, pode ser pessoal.