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4. Determinantes do Emendamento Estadual

4.1. Hipóteses Contextuais

A associação do contexto econômico, ou variáveis estruturais, com a alteração constitucional é frequentemente encontrada na literatura (ELKINS; GINSBURG; MELTON, 2009; MONTENEGRO, 1995; NEGRETTO, 2012; TSEBELIS; NARDI, 2014). No entanto, a forma como essa relação é abordada apresenta significativa diferença. O contexto econômico pode ocupar a posição de variável dependente, independente ou de controle em relação ao emendamento constitucional. Não há consenso quanto à causalidade entre essas variáveis, tanto a economia pode causar alteração constitucional - já que esta, por exemplo, pode se alterar para se adequar às novas realidades econômicas - como a economia pode ser incentivada (ou desincentivada) mediante alteração das normas constitucionais, como as tributárias, as relativas a investimentos, recursos naturais ou segurança jurídica, dentre muitos outros.

Ao avaliar a relação entre o contexto econômico e o emendamento constitucional não é necessário assumir causalidade expressa, já que nossa pergunta é meramente se há relação observável, e não como se dá ou qual seria a intensidade de tal associação. Todavia adotamos o emendamento constitucional como variável dependente, isso porque não só nosso estudo se foca sobre o emendamento, mas também porque essa configuração é mais comumente encontrada na literatura, o que nos permite certa comunicação com modelos já estabelecidos.

Como uma primeira abordagem à pergunta proposta, qual seja, se há relação entre contexto econômico ou social e emendamento constitucional, temos as seguintes hipóteses:

H1: Emendamento Constitucional e desenvolvimento econômico variam em conjunto.

H2: Emendamento Constitucional é mais intenso em sociedades mais heterogêneas.

A relação entre o Emendamento Constitucional e o desenvolvimento econômico pode não só tomar diferentes direções causais, mas também efeitos opostos. Mas esperamos efeitos marginais decrescentes, o que permite a existência de um limiar máximo do emendamento como função da economia. A argumentação causal não é trivial, ainda mais quando consideramos a falta de consenso na literatura acerca dos efeitos e relações dessas variáveis. Portanto, como primeiro passo nos limitamos a observar a existência de alguma relação estatística entre as variáveis, mesmo que com isso haja viés por omissão e possivelmente correlação espúria. Esperamos relação positiva entre fragmentação social e emendamento constitucional; neste caso, o argumento subjacente é que em sociedades mais social, econômica ou religiosamente heterogêneas espera-se não só maior Constituição, mas também maior alteração constitucional a fim de adaptar as diferentes demandas e solucionar possíveis conflitos (BJØRNSKOV; VOIGT, 2013).

Operacionalizamos o contexto econômico e social por meio de quatro variáveis. O PIB, PIB per capita, IDH e coeficiente de GINI. As duas primeiras, frequentemente encontradas na literatura, são unidades de medida amplamente utilizadas para medir a riqueza de uma região e em nosso modelo são indicadores do desenvolvimento. Já as últimas tem por objetivo captar elementos além da riqueza monetária. O IDH opera como um indicador de desenvolvimento social e o coeficiente de GINI opera como nosso único indicador de fragmentação.

Do Gráfico 4.1 vemos que quando consideramos as variáveis aos pares dificilmente surge algum padrão de associação observável. Quando formalizamos a associação entre as variáveis, os coeficientes de correlação98, embora pouco

confiáveis, também não apresentam evidências de associação linear ou mesmo monotônica. Assim, não nos parece que a variação no contexto econômico de 198999

é suficiente para explicar a heterogeneidade do emendamento.

98 Ver Apêndice A.7

99 Utilizamos um ano específico como fonte dos dados contextuais para manter a simplicidade do

modelo, com dados agregados por estado em vez de séries temporais ou painéis. Em específico o ano Gráfico 4.1 – Gráficos de Dispersão entre Dispositivos de Emenda e

Esse resultado não implica que não exista alguma relação entre essas variáveis, especialmente em termos mais gerais, mas sim que não foi possível observá-la estatisticamente para o caso do emendamento estadual brasileiro. O que pode ser consequência não só de nossas simplificações, mas também das variáveis utilizadas e a forma como foram instrumentalizadas. Quando comparamos com os resultados encontrados na literatura vemos que Negretto (2012) e Bjørnskov e Voigt (2013) também não encontram evidências de associação entre as variáveis, mas devemos considerar também que os modelos utilizados são consideravelmente distintos, não só em termos de instrumentalização das variáveis, mas também de formalização da estrutura.

Sendo assim, no caso das Constituições Estaduais brasileiras não encontramos evidências de associação entre o emendamento constitucional e o

de 1989, ano de promulgação da maioria das Constituições Estaduais, a fim de manter a coerência com nosso pressuposto de que o emendamento é variável dependente. Contabilizamos o emendamento de 1989 a 2014, portanto as variáveis causais devem preceder as explicadas. Por fim, dada a falta de teoria geral ou consenso na literatura, o ano utilizado como base é frequentemente subjetivo e em diversos casos a escolha não é justificada ou mesmo não informada (MONTENEGRO, 1995; ELKINS ET. AL. 2009; GINSBURG, 2010). Quando optamos pelo ano de 1989 também permitimos o diálogo com parte da literatura que utiliza o ano de promulgação das Constituições (BJØRNSKOV E VOIGT, 2013; NEGRETTO, 2012).

contexto econômico dentro do modelo proposto. Ainda que nossa abordagem seja limitada para o desenvolvimento de teorias gerais acerca do emendamento, acreditamos que representam um primeiro passo na compreensão do fenômeno no cenário estadual brasileiro. Guardadas as limitações apontadas, os indicadores utilizados na elaboração do Gráfico 4.1 permitem afastar – ou pelo menos não confirmar – as hipóteses de que o Emendamento Constitucional nos estados esteja associado ao grau de desenvolvimento econômico das unidades federativas ou que seja mais intenso em contextos mais heterogêneas.

Vale ressaltar que em para além das simplificações adotadas haveria diversas formas de refinar e estender a pesquisa. Desde uma abordagem teórica mais fundamentada, escassa na literatura, até a utilização de modelos mais complexos que definem o emendamento como fenômeno dinâmico, como séries temporais multivariadas e maior controle sobre possíveis variáveis omitidas correlatas, as hipóteses H1 e H2 aqui aventadas podem e devem ensejar novos e futuros testes.