• Nenhum resultado encontrado

AS CODIFICAÇÕES DO ESPAÇO E AS SIMBOLOGIAS DE PODER

No documento O choque das culturas da ordem (páginas 112-115)

Apesar de muitas vezes as simbologias serem facilmente visualisados, nem sempre a força dos símbolos está claramente perceptível para os que são exteriores às Coporações militares. Como exemplo disso pode ser citado uma prática comum aos centros de formação militares no Brasil, quando ocorre o que Foucault (2007) denomina como o estabelecimento de regras de localização funcionais, que servem para codificar os espaços nas isntituições disciplinares, como no caso dos quarteis, sendo tais códigos conhecidos e interpretados apenas pelos militares.

Essa prática constitui-se em uma herança do século XVIII, quando o crescimento acelerado da industrialização fez surgir a necessidade de criarem-se regras que delineassem formas de controle e de fiscalizam da mobilidade de todos que participam do processo produtivo. De acordo com Foucault (2007, p. 124) tais regras de localização implicam em: “[...] distribuir os indivíduos num espaço onde se possa isolá-los e localizá-los; mas também articula essa distribuição sobre um aparelho de produção que tem suas exigências próprias”.

Uma rápida observação na organização espacial de um quartel de Polícia Militar, neste inclusos os centros de formação militares, e observa-se como existem as mais variadas distribuições de espaço, as quais também fazem parte da cultura da ordem vigente no campo policial militar. Geralmente, além das subdivisões naturais em setores organizacionais, existem as subdivisões dos ambientes físicos de acordo com a hierarquia, nas quais oficiais e praças se alimentam ou mantêm seus alojamentos separadamente.

Não muito raramente, as instalaçãoes de melhor conforto são reservadas àqueles que ocupam os postos mais elevados na escala hierárquica das

Corporações. Portanto, a mudança do policial entre um espaço e outro implica, necessariamente, em ascensão profissional, simbolizando a conquista de um degrau acima na Corporação.

Mas não é apenas nas instalações físicas que a localização funcional apresenta-se como simbologia dos sistemas de poder interno dos quarteis. Esse é um reflexo de uma época em que a ordenação imposta às indústrias extendeu-se às escolas, trazendo para elas a organização em fileiras, que até hoje se observa nas salas de aula, nos sistemas de ensino de organizações como as militares.

Para Foucault (2007, p. 126):

[...] nesse conjunto de alinhamentos obrigatórios cada aluno segundo a sua idade, seus desempenhos, seu comportamento, ora ocupa uma fila, ora outra; ele se desloca o tempo todo numa série de casas; umas ideais, que marcam uma hierarquia do saber ou das capacidades, outras devendo traduzir materialmente no espaço da classe ou do colégio essa partição dos valores ou dos métodos. [...] Fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar de recompensar.

Pode-se tomar como exemplo dessa organização do espaço escolar o que acontece no Centro de Educação da Polícia Militar paraibana

.

Mesmo não havendo documento escrito, que assegure, oficialmente, que o policial militar que detiver as maiores notas, entre os demais de sua própria turma, tenha a prerrogativa de ocupar a cadeira mais próxima à porta de saída das salas de aula, a concesão desse privilégio ainda hoje está presente nos cursos de formação policiais militares na Paraíba. Através dos costumes, esse habitus se fortalecendo no ambiente policial militar, ano após ano, sendo repassada não apenas na Polícia Militar paraibana, como em várias Corporações coirmãs.

Por uma escolha baseada na meritocracia das notas obtidas durante o curso, essa prática visa favoreer o militar mais antigo com a maior possibilidade de salvaguardar sua vida, caso haja alguma intercorrência no ambiente de ensino. Percebe-se, claramente que a simples disposição dos alunos no ambiente escolar militar implica em uma simbologia classificatória, na qual o valor de suas vidas é associado ao seu desempenho escolar, acarretando a premiação ou a segregação do aluno policial militar em conformidade com a colocação obitida.

Outra mostra importante da expressão do sistema de poder, baseada na localização espacial, neste caso, prevista em regras escritas, está explícita no

Decreto nº 2.243, de 3 de junho de 1997, que dispõe sobre o Regulamento de Contingências, Honras, Sinais de Respeito e Cerimonial Militar das Forças Armadas, que também é seguido pela maioria das Polícias Militares e Corpos de Bombeiro Militares brasileiros. De acordo com esse Decreto, até mesmo o simples fato de militares caminharem, lado a lado, implica na tomada de certas precauções, como explicita o Capítulo II, referente aos sinais de respeito. Conforme Brasil(1997, p. 2):

Art. 4º Quando dois militares se deslocam juntos, o de menor antigüidade dá a direita ao superior.

Parágrafo único. Se o deslocamento se fizer em via que tenha lado interno e lado externo, o de menor antigüidade dá o lado interno ao superior.

Art. 5º Quando os militares se deslocam em grupo, o mais antigo fica no centro, distribuindo-se os demais, segundo suas precedências,

alternadamente à direita e à esquerda do mais antigo.

Art. 6º Quando encontrar um superior num local de circulação, o militar saúda-o e cede-lhe o melhor lugar.

Para um leigo, não haveria distinção entre qualquer posição, contudo, um militar que observasse a situação logo saberia distinguir tais simbologias e as implicações hierárquicas que representam. Peculiaridades como essas denotam que muitos dos símbolos militares trazem consigo uma grande importância para garantia da disciplina no ambiente militar, intencionando disceminar uma cultura de ordem que isntitui como imprescindível o pleno controle de corpos obedientes. Tal prerrogativa encontra-se nitidamente explicitada no Capítulo I, que reza sobre as Generalidades, no Decreto nº 2.243, o qual segundo Brasil (2013, p. 2) prescreve:

Art. 3º O militar manifesta respeito e apreço aos seus superiores, pares e subordinados:

I - pela continência;

II - dirigindo-se a eles ou atendendo-os, de modo disciplinado; III - observando a precedência hierárquica;

IV - por outras demonstrações de deferência.

§ 1º Os sinais regulamentares de respeito e de apreço entre os militares constituem reflexos adquiridos mediante cuidadosa instrução e continuada exigência.

§ 2º A espontaneidade e a correção dos sinais de respeito são índices seguros do grau de disciplina das corporações militares e da educação moral e

profissional dos seus componentes.

§ 3º Os sinais de respeito e apreço são obrigatórios em todas as situações, inclusive nos exercícios no terreno e em campanha.

Esse artigo deixa nítido o valor que os militares atribuem aos sinais, postos ao serviço da conservação da disciplina, bem como à utilização do processo educacional para perpetuá-la no ambiente militar. Deste modo, busca-se a

construção de um arsenal simbólico que torne os militares mais dóceis, perfeitamente alinhados a toda legislação militar, que presta um tributo subserviente a rígida autoridade hieráquica da caserna.

No documento O choque das culturas da ordem (páginas 112-115)