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OS SISTEMAS SIMBÓLICOS COMO FERRAMENTAS DE PODER

No documento O choque das culturas da ordem (páginas 95-99)

Um considerável acervo de bens simbólicos, existente nas instituições policiais militares, integra-se, inevitavelmente, ao capital cultural dos seus integrantes, tais como: o fardamento e suas cores; as insígnias; os brevês; as patentes e graduações; as vozes de comando; as canções militares; a postura corporal e o linguajar bastante peculiar. Na Polícia Militar paraibana, as medalhas também estão previstas em lei sendo três destes itens simbólicos que servem como diferenciadores dos policiais militares, conferindo-lhes um maior status em sua Corporação e, portanto, sendo bastante almejados por esses profissionais, como a Medalha do Mérito Cel. PM Elísio Sobreira (Foto 2), recebida por relevantes serviços prestados à Corporação.

Foto 2 - Medalha do Mérito Cel. PM Elísio Sobreira

Também podem ser citadas a Medalha do Mérito Policial Militar, dada por reconhecimento do bom serviço à ordem, segurança e tranquilidade, de acordo com o tempo de serviço (Fotos 3 e 4); e a Medalha de Serviços Distintos, para o policial militar que contribuiu para aumentar o conceito da Corporação com serviço, ato de coragem ou trabalho excepcional, em favor da comunidade.

Foto 3 - Medalha do Mérito Policial Militar de 10 anos de serviço prestados

Fonte: Arquivo pessoal Ten Cel PMPB Almeida (2012)

Foto 4 - Medalha do Mérito Policial Militar de 20 anos de serviço prestados

Todos esses itens compõe um sistema simbólico que serve como base para sustentação da estrutura inerente à organização militarizada. Ou seja, para ser incluso nesse novo ambiente, o policial militar deve buscar adaptar-se, o mais rapidamente possível, a todas essas particularidades simbólicas. Conforme Bourdieu (2010, p. 9):

Os “sistemas simbólicos”, como instrumentos de conhecimento e de comunicação, só podem exercer um poder estruturante porque são estruturados. O Poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social) supõe aquilo que Durkheim chama o

conformismo lógico, quer dizer, uma concepção homogênea do tempo, do

espaço, do número, da causa, que torna possível a concordância entre as inteligências.

Acerca do que assegura Bourdieu (2010), facilmente percebe-se a relação com o ambiente de ensino militar e as pressões exercidas sobre os discentes, através da adaptação a todo o simbolismo que o permeia. Nesse aspecto, posterga- se a preocupação ou respeito pelo conhecimento como instrumento de emancipação do sujeito cognoscente, evidenciando-se a homogeneização da tropa, por intermédio da reprodução de símbolos que constituem o todo de uma reprodução cultural bem peculiar.

Guiados pela mesma simbologia, levados a aceitar os valores ideológicos que estas representam, mais facilmente, os policiais militares integram-se ao campo intelectual do qual passam a compor. Pode-se dizer que tais produções simbólicas contribuem para a construção de ideologias de dominação, se encontrando intimamente relacionadas com o que interessa aqueles que ocupam as posições de comando, sendo esta uma útil ferramenta de poder.

Como está expresso em Bourdieu (2010, p. 10):

As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e coletivamente apropriado, servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto do grupo. A cultura dominante contribui para a ascensão da classe dominante assegurando uma comunicação imediata, a todos os seus membros e distinguindo das outras classes; para a integração fictícia da sociedade, do seu conjunto, portanto, a desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação desta distinção.

Deste modo, o poder Estatal enquanto mantenedor do controle das forças policiais como seu braço armado, utiliza-se desta prerrogativa para conservar a sua posição de supremacia hierárquica no seio social. Delineando o policial militar como melhor lhe aprouver, buscando modelá-los com a criação e manutenção dos produtos simbólicos presentes nas Corporações, tanto durante o período formativo, quanto por toda sua vida profissional.

É nesse contexto que os sistemas de fatores que contribuem para a determinação das práticas e ideologias policiais militares buscam determinar a estrutura do campo intelectual responsável por sua formação, visando influir na constituição da consciência de classe destes profissionais. Em consequência, pretende-se que aconteça o que é descrito em Bourdieu (2007, p. 189), quando afirma que: “Nessa lógica, não é a condição de classe que determina o indivíduo, mas o sujeito que se autodetermina a partir da tomada de consciência, parcial ou total, da verdade objetiva de sua condição de classe”.

Por meio dessa estratégia, procura-se incutir no cerne dos policiais militares, inúmeras peças que se combinam para desenhar uma composição estereotipada, do perfil profissional destes agentes de Segurança Pública. Nos quartéis das Polícias Militares, por toda parte, observa-se a presença de símbolos diversos, estando incultidos, até mesmo, no vocabulário prórpio dos militares, no qual se mesclam gírias militarescas com expressões técnicas pertinentes à caserna.

Entre os militares, um vocabulário próprio os distingue dos cidadãos civis, fazendo com que certas palavras recebam uma conotação bastante diversa da que habitualmente se percebe fora da caserna. Durante a execução deste estudo e nas ocasiões em que esta pesquisadora pode frequentar o ambiente policial militar, como professora ou apenas visitante, puderam ser observadas certas expressões que são habitualmente utilizadas, como: desenrrolado (pessoa habilidosa ou escorregadia); peixe (policial protegido por superior); ralação (muito esforço físico ou mental); muído (problema, confusão); moita (indivíduo que tenta se esquivar do trabalho); laranjeira (policial que mora no quartel); entre tantos outros.

No documento O choque das culturas da ordem (páginas 95-99)