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As contradições entre o sistema financeiro e a sua base monetária:

CAPÍTULO 2 OS CLÁSSICOS NA TEMÁTICA DO

3.4 O capital financeiro como expressão das complexidades e múltiplas

3.4.1 As contradições entre o sistema financeiro e a sua base monetária:

Conforme Harvey (1990), Hilferding, ao considerar o capital financeiro como resultado do entrelaçamento dos grandes bancos com a grande indústria, resultando na supremacia do primeiro em função de ser o detentor do capital portador de juros - este último representado pelos depósitos efetuados em função da pletora de capital na indústria, comér- cio e mesmo alguns bancos menores, bem como os depósitos das rendas poupadas pela classe trabalhadora -, transforma o capital financeiro em um bloco de poder estável, causando a impressão de domínio sobre todas as esferas da vida econômica.

Mas, para além do domínio da esfera econômica, Hilferding teria destacado que o capital financeiro transforma o Estado em seu agente (principalmente para exportar capitais, para promover o protecionismo e o imperialismo) e opera no cenário nacional e mundial.

Nesse sentido, o equívoco de Hilferding, Para Harvey (1990), aparece quando deixa observar ser o poder do capital financeiro limita- do, pois não consegue eliminar as crises, resultado das contradições internas do sistema.

Tais contradições, por sua vez, baseiam-se no fato de o sistema financeiro ser mais amplo e estar vinculado ao dinheiro como meio de circulação, permitindo, de acordo com Harvey (1990), que o dinheiro se divorcie do "valor", pois é dinheiro de crédito.

Esse divórcio do dinheiro e do valor, não seria resultado da fun- ção do dinheiro como meio de circulação, como destaca Hilferding, mas

sim, das próprias contradições do avanço do modo de produção capita- lista.

Portanto, “las contradicciones entre el sistema financiero y su base monetária aumentan y se vuelven aún más terribles a medida que progresa el capitalismo. Éstas son las contradicciones que Hilferding no vio en lo absoluto porque interpreto erróneamente la teoria del dinero de Marx” (idem, 1990, p. 299).

A partir disso, Harvey (1990), com a intenção de analisar os mo- vimentos da teoria do dinheiro, entende primeiramente que: será a base monetária a expressão real do valor, ou seja, quando o dinheiro (ouro) representa o valor real de todas as mercadorias. Entretanto, não é possí- vel converter todo o dinheiro em ouro, exigindo a presença do Estado, através do Banco Central, manejando as taxas de juros para disciplinar o sistema de crédito e o capital fictício e acalmar a febre especulativa. É a ocorrência do século XX, em especial após os anos de 1930.

Isto ocorre devido a quantidade de dinheiro como meio de valor real (ouro) ser ultrapassada pela quantidade de dinheiro existente em circulação, e, para evitar uma desvalorização das mercadorias e do capi- tal fictício, o Estado deverá, através do Banco Central, imprimir moeda. No entanto, segundo o autor, isso provocará inflação, ou seja, desvalori- zará o próprio dinheiro39.

De toda forma, um trade off entre desvalorizar as mercadorias ou o dinheiro, ter inflação ou depressão, vai em último caso levar a uma crise.

39 Harvey ao que tudo indica, não compreende que para Marx, o valor do dinheiro, é determi- nado assim como o valor de qualquer outra mercadoria, ou seja, pela quantidade de trabalho socialmente necessário para a sua produção. Portanto, os movimentos inflacionários decorren- tes de um aumento na base monetária em circulação na economia, são apenas fenômenos aparentes, pois, dado uma base monetária que representa determinada quantidade de trabalho social necessário para a produção da mercadoria-dinheiro, uma alteração nessa mesma base monetária sem a correspondência com um aumento na quantidade de trabalho socialmente necessária, apenas terá o efeito de reduzir a expressão relativa do valor de uma unidade da mercadoria dinheiro. Portanto, não são os valores das mercadorias - em geral – que aumentam com o aumento da base monetária em circulação, pelo contrário, é a expressão relativa do valor em uma unidade monetária que diminui.

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e mesmo os menores, Holanda e Portugual, eram pelo menos tão grandes e tão fortes quan- to Veneza, a nação mercantil maior e mais forte do período anterior. Isto dava ao mercador na- vegante, nas empresas aventuradas dos séculos XVI e XVII, um apoio que tornava a corpora- ção que protegia os associados, inclusive com armas, cada vez mais supérflua, e os custos de- la, nitidamente importunos. Então passou a de- senvolver muito mais rapidamente a riqueza pessoal, e logo apareceram comerciantes isola- dos que podiam empregar num emprendimento tantos fundos quanto uma sociedade inteira. (ENGELS in MARX, 2008, p. 1182, L.3, V.6)

Nesse ínterim, o comércio interno ainda se efetua em grande medida através do contato dos produtores diretos, proprietários privados dos meios de produção e do produto de seus trabalhos; as trocas se reali- zam em média pelos valores das mercadorias, sem proporcionar mais- valia.

Assim, o lucro do comerciante corporativo e, em seguida, do mercador navegante, transformado em comerciante individual, advém, em geral, da compra de mercadorias no estrangeiro e a sua venda no interior do Estado-nação de origem, bem como, da compra de mercado- rias em seu próprio Estado e a posterior comercialização em outro Esta- do-nação ou mesmo alguma colônia.

Veja-se aqui, a importância do comércio a longa distância no lucro do capitalista comercial, pois quando da venda de mercadorias em regiões distantes, ficava difícil ter uma noção aproximada do tempo de trabalho necessário para a produção da mercadoria vendida, ou seja, do seu valor, porque na maioria das vezes eram mercadorias nunca produ- zidas pelos compradores.

Para Marx:

O movimento do capital mercantil é D-M-D`. Por isso, o lucro do comerciante provém, primeiro, de atos que ocorrem no processo de circulação, os atos de comprar e de vender, e, segundo, realiza- se no último ato, o de venda. É, portanto, lucro de venda, profit upon alienation.

Mas, tão logo essas corporações prosperam nas Cidades-Estado, como Gênova e Veneza, e posteriormente nos primeiros Estados- nações45, floresce com elas o comércio ultramarino, e as corporações passam a ser expressão do comércio próprio de uma nação no além mar. O próprio Estado passa a ser promotor da segurança necessária ao bom andamento dos negócios corporativos, que por vezes encontravam difi- culdades frente ao ataque de piratas, violações de contratos ou privilé- gios monopólicos por parte de reis ou príncipes estrangeiros. Para isso, cria embarcações e marinheiros, sempre preparados do ponto de vista bélico, quando da colonização de um novo espaço geográfico.

De acordo com Engels (2008), se a taxa de lucro é igual para todos os participantes ou associados da corporação, o comércio ultrama- rino é baseado no seu princípio em lucros de monopólio, devido em especial aos enormes riscos envolvidos nas operações do capital mer- cantil.

Porém, à medida que se descobre novos mercados, vai ocorrendo um nivelamento das taxas de lucro para a nação e suas corporações entre esses diferentes mercados. Também a concorrência de outras nações em determinado mercado, será fator de novo nivelamento das taxas de lu- cro, agora entre Estados-Nação.

É importante perceber que, se as corporações mercantis tiveram o apoio dos seus respectivos Estados, com o aprofundamento do comércio ultramarino, surge um importante ator nesse cenário: o mercador nave- gante, que logo começa a praticar o comércio individualmente e a fazer fortuna individual, superando inclusive os ganhos de muitas corpora- ções.

Para Engels:

No começo, as corporações de comerciantes ainda predominavam no tráfico com a índia e a Amércia. Mas, primeira observação a fazer, atrás dessas corporações estavam nações maio- res. No lugar dos catalães que negociavam com o levante, surgiu a Espanha inteira, grande e unificada, comerciando com a América; ao lado dela apareceram dois grandes países, a Inglater- ra e a França;

45 Os primeiros Estados-nação foram Portugal e Espanha no século XV. 146