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O capital financeiro: um conceito teoricamente vazio

CAPÍTULO 2 OS CLÁSSICOS NA TEMÁTICA DO

3.5 O capital financeiro: um conceito teoricamente vazio

Carcanholo e Nakatani (1999), observam, na atualidade, a exis- tência de muitos autores marxistas abordando o avanço da globalização, os quais destacam a enorme influência da financeirização nos mais di- versos setores da economia. Para designar esse movimento, que traz no seu seio um alto grau de ganhos especulativos, esses diversos estudiosos estariam se utilizando do conceito de capital financeiro com o propósito de definir mais precisamente esse movimento.

Neste sentido, para Carcanholo e Nakatani (1999, p. 299), “Hil- ferding e Lênin utilizavam a expressão como um conceito mais concreto e institucional, no sentido de descrever o fato histórico da unificação do capital produtivo com o capital bancário, sob a hegemonia deste últi- mo".

Todavia, para esses mesmos autores:

Existe consenso sobre o fato de que um dos as- pectos mais significativos da globalização está constituído pela expansão e domínio do "capital financeiro". Com isso querem referir-se àquele capital cuja remuneração está basicamente constituída pelos ganhos especulativos obtidos em operações financeiras dos mais diversos ti- pos, além da que deriva dos juros... Nós o con- sideramos um "conceito" teoricamente vazio, pois refere-se a um conjunto de formas indefi- nidas de capital cujas articulações com as for- mas funcionais do capital industrial ficam inde- terminadas. (CARCANHOLO; NAKATANI, 1999, p. 298)

Dado isso, pretendem demonstrar ser o conceito de capital finan- ceiro teoricamente vazio e, além do mais, quando utilizado, não traz precisão teórica, muito menos considera adequadamente os movimentos do capital global em suas formas funcionais.

Porém, o que explica a nova fase do capitalismo? Para Carcanho- lo e Nakatani (1999), os ganhos especulativos obtidos em operações financeiras, os juros de maneira geral, com exceção daqueles referentes à cessão do capital-dinheiro de empréstimo, os quais sempre represen-

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Daí decorre a identidade: Investimento estrangei-

ro líquido = saldo do balanço em conta corrente.

Em 2000, essa variação elevou-se para US$ 410 bilhões, em benefício dos estrangeiros (um cres- cimento dos seus haveres líquidos):

Saldo do balanço em conta corrente [-410] = (exportações [1.064] + fluxo de rendas provenien- tes do exterior [353]) – (importações [1.443) + flu- xo de rendas enviados ao exterior [331] + transfe- rências unilaterais [53] )...

PNB = consumo + investimento + expor- tações – importações + rendas provenientes do res- to do mundo – rendas pagas ao resto do mundo

A poupança é a diferença renda – consu- mo:

Poupança = PNB – consumo = investimen- to + exportações – importações + rendas provenien- tes do resto do mundo – rendas pagas ao resto do mundo

Que se pode reescrever (desconsiderando- se as transferências unilaterais):

Poupança = investimento + saldo do ba- lanço em conta corrente

Em 2000, o saldo do balanço em conta corrente (igual ao investimento estrangeiro líquido, como vimos acima) foi negativo: os estrangeiros in- vestiram muito mais (financeiramente) nos Estados Unidos do que os agentes desse país no exterior; as- sim, pode-se afirmar que os estrangeiros financia- ram uma parte do investimento real nos Estados Unidos (2005, 96,97)

Desta maneira, estaria ocorrendo, em especial após o ano de 2000, o avesso das teses de Lênin e Rosa Luxemburgo, pois os EUA não só exportam mercadorias e capitais, como a partir daquele ano a tendên- cia se inverteria e, tanto a importação de mercadorias, quanto de capi- tais, passaram a financiar as despesas do país.

É elucidativo perceber como após 1980, a introdução do neolibe- ralismo com uma política fiscal expansionista e monetária restritiva, contribuiu decisivamente para a queda das taxas de investimento bem como da poupança interna estadunidense.

Então, apesar do crescimento da taxa de lucro a partir de meados dos anos de 1980, a taxa de acumulação de capital – investimento bruto

entrada de cérebros do mundo todo para os países da coalizão imperia- lista, em especial para os Estados Unidos.

Considerando-se a existência nos EUA de 116 milhões de traba- lhadores ativos nas empresas privadas, estes geram um PIB de US$ 7,2 bilhões, igual a renda. Dumenil e Levy (2005) afirmam vir dessa ativi- dade os lucros de US$ 380 bilhões, ou seja, os lucros internos.

Mas, como observam os autores, os agentes econômicos dos EUA (famílias, sociedades, Fundos de Pensão e Fundos Mútuos...) pos- suíam US$ 3,488 bilhões em aplicações no resto do mundo. Estes have- res renderam US$ 381 bilhões, o equivalente a 100% dos lucros inter- nos: eis a internacionalização do capital e suas vantagens.42

Mas, analisar os efeitos da internacionalização do capital, signifi- ca comparar os haveres dos EUA no resto do mundo com os haveres do resto do mundo nos EUA.

De acordo com Dumenil e Levy,

Haveres dos Estado Unidos no resto do mundo: 3,488

Haveres do resto do mundo nos Estados Unidos: 6,446

Saldo: excedente de haveres nos Estados Unidos (=posição líquida dos Estados Unidos em relação ao resto do mundo): -2,958

A variação anual desse saldo é chamada de inves- timento financeiro líquido no exterior (ou sim- plesmente investimentos estrangeiros líquidos)... Somente dois tipos de operações podem modificar a posição líquida dos Estados Unidos: as exporta- ções e as importações e o pagamento de rendas (juros, dividendos...) de um país a outro (ao qual se devem acrescentar as transferências unilaterais de fundos, por exemplo, pelos trabalhadores imi- grantes ou a ajuda a outros países). São as únicas operações que originam fluxos monetários e fi- nanceiros líquidos, afetando o saldo dos haveres (sejam as operações à vista ou a crédito).

42 Para Dumenil & Lévy os haveres representam: liquidez, créditos e ações. As ações podem representar investimentos diretos ou em carteira.

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tam um ônus para o capital industrial, ou seja, constituem a remuneração do capital fictício.

Portanto, de acordo com Carcanholo e Nakatani (1999), identifi- car corretamente os movimentos da nova etapa de desenvolvimento capitalista – a globalização - implica levar em consideração em primeiro lugar: Marx ao se referir ao capital global, fê-lo como sendo o capital industrial; em segundo, os movimentos dialéticos desse capital – que nada mais é do que relação social – se darão no ciclo de reprodução do capital, composto pelas formas funcionais - com a divisão social do trabalho entre os próprios capitalistas - assumidas pelo capital ao longo do seu movimento de produção e reprodução, quais sejam: capital pro- dutivo, capital-mercadoria e capital dinheiro; terceiro, dado um exce- dente do capital-dinheiro transmutado em capital produtor de juros para além das necessidades da reprodução do capital industrial, sua destina- ção na aquisição de títulos da dívida pública, debêntures ou ações, con- verte-se em capital fictício, em capital sem existência fática, valorizado a partir de movimentos especulativos, contaminando, em última instân- cia, o próprio movimento do capital industrial, em especial, o capital produtivo.

Desse modo, Carcanholo e Nakatani (1999) colocam:

Nossa tese é que a globalização, com todas as suas características, distingue-se de outras épocas da história do capitalismo, pelo domínio do capital

especulativo parasitário (forma particular mais

concreta do capital portador de juros) sobre o ca- pital produtivo. Nessa fase, o capital industrial converte-se em capital especulativo e sua lógica fica totalmente subordinada à especulação e do- minação pelo parasitismo.Dessa maneira, é a ló- gica especulativa do capital sobre sua circulação e reprodução no espaço internacional que define es- ta nova etapa. Sem dúvida, esse fenômeno está as- sociado à quebra do padrão monetário internacio- nal a partir dos aos 70. (CARCANHOLO; NA- KATANI, 1999, p. 285-286)

Nesse momento, ocorre a conversão do capital industrial em capi- tal especulativo, tendo sua lógica subordinada à especulação e ao parasi- tismo.

Contudo, como é obtida essa conversão do capital industrial em capital especulativo? Verifica-se em Carcanholo e Nakatani (1999),

inicialmente pela existência de uma pletora de capital-dinheiro que co- mo capital produtor de juros se converte em títulos, debêntures e ações, sem possuir qualquer vinculação com o capital real, efetivamente ope- rante no ciclo de reprodução do capital; em segundo, de acordo com o autor, apesar deste capital fictício não ter qualquer existência na repro- dução do capital, do ponto de vista individual ele é real, mas do ponto de vista global é totalmente fictício.

Note-se que, para esses autores, a remuneração do capital fictício é composta pelos juros auferidos e pelos ganhos de capital obtidos no mercado especulativo, e quando o capital fictício não é capital produtor de juros, o qual exerce uma função útil e indispensável ao capital indus- trial, é total e absolutamente parasitário, e a partir daí passa a representar apenas ônus para a reprodução do capital industrial.

Nas palavras dos próprios autores,

A remuneração do capital fictício está constituída pelos juros auferidos e pelos chamados ganhos de capital obtidos nos mercados especulativos. O ca-

pital fictício obtém tais remunerações através de

transferência de excedente-valor produzido por outros capitais ou por não-capitais. Isso significa que o capital fictício é um capital não produtivo, da mesma maneira que o capital a juros. No en- tanto, enquanto este cumpre uma função útil e in- dispensável à circulação do capital industrial e nessa medida, embora improdutivo, não pode ser considerado parasitário, o capital fictício (quando não é capital a juros) é total e absolutamente pa- rasitário. Não cumpre nenhuma função necessária dentro da lógica do capital industrial, sendo sua remuneração puro ônus para este.

O capital fictício, como vimos, tem um movimen- to independente do capital industrial e seu cres- cimento se explica por diferentes circunstâncias. Dentro de certos limites, o volume do capital fic-

tício não compromete substancialmente a lógica

da acumulação do capital industrial e a sua traje- tória. Ultrapassados esses limites surge a possibi- lidade de descontrole: (CARCANHOLO; NA- KATANI, 1999, p. 299)

Entretanto, na atualidade, a nova etapa de desenvolvimento capi- talista, comumente chamada de globalização, caracteriza-se pelo rom-

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3.6.1 O imperialismo estadunidense

O imperialismo estadunidense, para Dumenil e Lévy (2005), está associado aos fluxos de rendas provenientes do exterior.

É importante observar que, para os autores, o imperialismo não é constituído por um país, mas por um conjunto de países em que o Esta- do desses países representa os interesses de suas classes dominantes, os interesses da finança de cada país.

Assim sendo,

parece-nos mais justo fazer do imperialismo uma característica geral e permanente do capi- talismo.. Desde as suas origens mais recuadas e ainda embrionárias (pode-se pensar na liga han- seática), o capitalismo procura os lucros fora das suas metrópoles, com a avidez que lhe é própria...abertura de fronteiras...colonialismo puro e simples, e todos os procedimentos de pressão e extorsão. Os seus meios são a guerra e a subordinação, a aculturação, e sobretudo no passado, a evangelização; a escravatura...mas as condições impostas nos nossos dias, às popula- ções das maquiladoras ou doutros lados não são muito desejáveis. É o conjunto destas rela- ções que constitui o sistema do imperialismo, definido pela procura de lucros no exterior das metrópoles capitalistas por métodos de sujei- ção... Se o imperialismo não é uma fase do ca- pitalismo, passe ele próprio por várias fases, que respondem às transformações dos próprios países imperialistas... A relação de dominação estabelece-se então a um duplo nível: entre o país dominante e os outros membros do grupo, e entre esses países imperialistas e os outros pa- íses dominados (2005 (b), p. 4)

Os benefícios desse imperialismo apresentam-se na mais-valia apropriada do exterior, no baixo preço das matérias primas e também na

fenômeno se verifica no início do século XX, vai se aprofundar em sua segunda hegemonia.

Passado as duas Grandes Guerras, já sob a hegemonia estaduni- dense, estabeleceu-se o compromisso Keynesiano. Neste período, o objetivo dos administradores é privilegiar o investimento, o pleno em- prego, os salários e a estabilidade, e com isso, a retenção de boa parte dos lucros passa a significar uma repressão da hegemonia da finança.

Nos anos de 1970, com a crise do modelo keynesiano, as taxas de inflação sobem, aumentam os níveis de desemprego e uma forte desace- leração no crescimento.

Para Dumenil e Levy (2005), observa-se nesse interstício a ocor- rência de uma queda na produtividade do capital41 e uma diminuição dos lucros, dado a taxa de crescimento da produtividade do trabalho ser inferior ao custo salarial. Dumenil e Lévy (2003) apontam a taxa de lucro, a qual fora nos anos 1960, de 20%, haver diminuido para 12%, em 1983.

Com a nova hegemonia da finança, o neoliberalismo, essa ten- dência se inverte. Para os autores acima, a nova forma de gestão - siste- matizada pela OCDE – imposta pelo poder da finança, conduziu a uma incrementação de novas tecnologias nos processos produtivos, em espe- cial após 1985, elevando com isso a produtividade do capital e aumen- tando a produtividade do trabalho.Isto se refletiu num aumento das taxas de lucro nos EUA e na Europa, e os gestores foram instruídos pela fi- nança a diminuir o percentual do lucro retido e a aumentar os dividen- dos distribuídos aos acionistas – os quais ao final dos anos 90 passaram para 80% dos lucros.

Não se deve esquecer, como as novas configurações do modo de produção capitalista ao longo do século XX, tendo a oposição entre a propriedade e gestão, desempenharam um papel central. Para Dumenil e Lévy “na expressão “separação da propriedade e gestão”, a propriedade assume um sentido estreito (jurídico), e a gestão compreende as funções capitalistas delegadas” (2003, p. 33).

Os proprietários desincumbiram-se da gestão e progressivamente de agentes da mobilidade do capital. Ficaram apenas com a possibilida- de de impor regras de funcionamento do capitalismo, como por exem- plo, a transformação dos lucros das empresas em dividendos para os acionistas.

41 Relação entre a produção e o estoque de capital fixo.

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pimento dos limites por parte do capital fictício, influenciando, decisi- vamente, a acumulação do capital industrial através da busca desenfrea- da pela mais-valia, sem, no entanto, contribuir com o processo de pro- dução desta. Para Carcanholo e Nakatani (1999), é nesse momento que o capital fictício transmuta-se em capital especulativo parasitário. A parte do capital, a qual opera, especulativa e parasitariamente, contamina todo o capital industrial e suas formas funcionais, e o subsume, transforman- do-o em capital especulativo.

Assim,

O que antes era capital industrial, síntese das formas autonomizadas de capital produtivo, capi-

tal comercial e capital a juros e hegemonizado

pelo primeiro (o capital produtivo), converte-se em capital especulativo, síntese de várias formas de capital, uma das quais, a hegemônica, o capital

especulativo parasitário, já descrito. O capital in- dustrial, cuja lógica era a apropriação baseada na

produção de mais-valia, converte-se, não em capi- tal parasitário, mas em capital especulativo. Na

verdade, enquanto este é síntese, o capital especu- lativo parasitário, dentro dele, é a dimensão da-

quele que se remunera parasitariamente; é, por tanto, seu aspecto parasitário e domina toda a sua lógica (a lógica do capital especulativo, como sín- tese). (CARCANHOLO; NAKATANI, 1999, p. 301-302)

Por último, o capital especulativo parasitário, para Carcanholo e Nakatani (1999), do ponto de vista individual é real, mas do ponto de vista global (na essência) apresenta-se como fictício e real. Todavia, para esses mesmos autores (1999, p. 302), quando o capital especulativo parasitário, que representa riqueza fictícia, assume proporções incontro- láveis, surgem as crises, e “[...] freiam o crescimento desse capital, des- truindo parte dele, mas aceleram o da miséria. O capitalismo especulati- vo e parasitário é a tragédia do nosso tempo”.

3.6 A hegemonia da finança como expressão da separação entre a