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3. O PROGRAMA MBA – MASTER OF BUSINESS ADMINISTRATION

3.4. As críticas ao MBA

Na revisão de literatura sobre educação gerencial e MBA, foi possível identificar dois principais tipos de discurso em relação aos programas de educação gerencial.

O primeiro tipo parte da constatação de que os MBAs são amplamente reconhecidos e reforçados pelas mídias de negócios, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países, como a solução dos problemas das pessoas e das organizações.

Segundo Wood Jr e Paula (2002), essa corrente é denominada discurso da redenção e sua principal característica é apontar os MBAs como remédio para as aflições profissionais, ou um caminho seguro para o sucesso na carreira. Para Wood Jr e Paula (2004, p.120), a partir da década de 1950, os “MBAs emergem como pacotes padronizados de educação gerencial, com preços relativamente altos, que oferecem ao consumidor a promessa de melhorar suas perspectivas de carreira e de renda”.

Na segunda corrente denominada discurso da crítica, os programas de MBA são alvo de inúmeras críticas, que tiveram início em meados da década de 1980, acentuando-se na década

de 2000, em função do comportamento tido como pouco ético por parte de profissionais que tinham MBA em seus curriculum, alguns dos quais envolvidos em escândalos financeiros em grandes corporações nos Estados Unidos.

Um dos maiores críticos aos programas de MBA é o professor Henry Mintzberg, da McGill University no Canadá, autor do livro “MBA? Não, Obrigado” (tradução da versão em Inglês “Managers not MBAS”). Para esse autor, gestão é o encontro de ciência (conhecimento sistematizado por meio de pesquisas), arte (insight, visão e intuição) e ofício (experiência e aprendizagem na prática).

Em sua opinião, o MBA não desenvolve gerentes, apenas treina os alunos nas funções do negócio (Marketing, Finanças, Estratégia, Recursos Humanos, etc.). Segundo ele, um gerente não pode ser desenvolvido somente em sala de aula. Primeiramente, precisa apresentar um desempenho superior e provar que pode ser gerente e, a partir daí, desenvolver sua real capacidade de gestão. Para Mintzberg (2004), os maiores problemas associados aos programas de MBA são:

irrelevância de seu curriculum, caracterizado pela falta de alinhamento do conteúdo às necessidades práticas, além da priorização das hard skills em detrimento da necessidade de desenvolvimento das soft skills, de grande importância na prática da gestão;

• a estrutura e os métodos utilizados, incluindo os estudos de caso, demonstram uma simplificação do ponto de vista didático, pois os dados são estruturados de forma a se relacionarem às áreas funcionais;

• ensinar as pessoas erradas de forma errada. As pessoas erradas são profissionais sem experiência gerencial, jovens, ou recém-graduados de cursos superiores. Sobre isso, o autor pontua que:

“Tentar ensinar gestão a alguém que nunca gerenciou é como tentar ensinar psicologia a alguém que nunca tenha visto um ser humano. As organizações são um fenômeno complexo. Gerenciá-las é um negócio difícil e cheio de nuanças, demandando todos os tipos de entendimento tácito, que só podem ser obtidos em contexto” (p.9).

Em 1985, Cheit (apud HERRINGTON, 2010) já afirmava que os MBAs não abordavam tópicos importantes, como comércio global, ética, qualidade, liderança ou os efeitos que as organizações exerciam na sociedade como um todo.

Como relatam Monks e Walsh (2001), os programas de educação gerencial e os MBAs não são necessariamente focados no que os gestores precisam saber para desempenhar suas funções em um ambiente de negócios de alta complexidade. Além da similaridade do conteúdo oferecido por diversas escolas, há uma falta de integração entre as disciplinas. Para esses autores, os problemas enfrentados pelas organizações não são separados em áreas, ou assuntos específicos, como acontece com as disciplinas de um MBA.

Portanto, disciplinas minuciosamente desenhadas podem confundir em vez de ajudar o gestor, que precisa tomar decisões sobre problemas de grande amplitude e complexidade. Esses autores defendem a ideia de que, nos MBAs, deve haver mudanças na forma de ensinar, pois o público é composto por indivíduos adultos, que já possuem experiência profissional e devem adquirir uma abordagem crítica em relação ao conteúdo aprendido.

Assim, devem ser privilegiadas abordagens que utilizem princípios da andragogia, tanto em termos de aplicação do conteúdo na prática organizacional quanto em relação às experiências na própria sala de aula.

Os autores ainda defendem a substituição da abordagem do ensino focada no desempenho para o ensino focado no entendimento, no qual o aluno deve buscar aplicar as habilidades e o conhecimento aprendidos no curso em situações variadas, em detrimento de apenas obter boas notas. Para isso, sugerem mudanças nas formas de avaliação, que deveriam ser focadas nas reais oportunidades de aplicar o conteúdo do curso a problemas enfrentados pelas organizações.

Conforme Bennis e O’Toole (2005), os programas de MBA vêm enfrentado críticas por falharem na transmissão de habilidades úteis e normas de comportamento ético, não prepararem líderes e não garantirem que seus alunos consigam boas colocações profissionais no mercado de trabalho. Ressaltam que as escolas de negócios adotaram um modelo científico focado em pesquisas, distante da realidade e dos desafios enfrentados pelos gestores na prática organizacional. O corpo docente foca suas pesquisas nas questões de maior facilidade de investigação e não naquelas mais relevantes para as organizações.

A integração do conhecimento fornecido pelas disciplinas às demandas da prática dos negócios acaba sendo responsabilidade dos alunos. Adicionalmente, as organizações avaliam

que os alunos que fizeram MBA não possuem as habilidades necessárias para a gestão da organização. Ainda na opinião desses autores, o curriculum do MBA, como um todo, precisa ser permeado com questões multidisciplinares, éticas e práticas, que reflitam os desafios de negócios enfrentados pelos líderes atuais.

Segundo Herrington (2010), os alunos que concluem o MBA são muito focados em aspectos financeiros de curto prazo, em detrimento das questões humanas dos negócios, além de carecerem de habilidades de comunicação, relacionamento interpessoal e formação de equipes.

Fora das pesquisas acadêmicas, cabe citar a matéria “Caros, arrogantes e ineficientes”, publicada na edição de 20 de abril de 2011 da Revista Exame. Nessa matéria, foram apresentadas as reformas curriculares feitas pelas mais renomadas escolas de negócios norteamericanas (Harvard Business School, Wharton, Haas Business School) e europeias (IMD) em seus cursos de MBA, focando-se a necessidade de maior aproximação desses com o mundo real.

Com base nos resultados das pesquisas citadas, segue uma síntese das principais críticas feitas aos MBAs:

a) foco no treinamento das funções do negócio;

b) questionamento sobre a possibilidade de se desenvolver gerentes em sala de aula; c) seleção de pessoas sem experiência gerencial ou ainda experiência profissional; d) ênfase em aspectos financeiros de curto prazo;

e) ênfase excessiva nas hard skills e pouco foco nas soft skills;

f) necessidade de mudanças no curriculum para acompanhar as mudanças e os desafios do ambiente de negócios, ou seja, conteúdo relevante e aplicável.

Com base nas críticas que os MBAs vêm recebendo, foram identificadas na literatura pesquisas que avaliaram esse programa em diferentes aspectos, apresentadas no próximo item.