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1 DOGMÁTICA: A RELAÇÃO ENTRE OS DIREITOS HUMANOS E A

1.3 A eficácia horizontal dos direitos fundamentais

1.3.1 As vertentes da eficácia horizontal

1.3.1.5 As demais vertentes propostas pela doutrina

Para além das concepções já apresentadas, existem outras interpretações possíveis formuladas pela doutrina. Entre elas, encontram-se o entendimento de Alexy e, especificamente no Brasil, a teoria civil-constitucional. Nesse diapasão, a dita “teoria integradora” de Alexy versa, em suma, que os efeitos na relação cidadão/cidadão ocorrem em função da vinculação do Estado aos direitos fundamentais como direitos públicos subjetivos. 149 O modelo de Alexy é composto de três níveis, os quais integram as três teorias básicas (a

saber, a teoria da eficácia mediata, a da imediata e a teoria da imputação de Schwabe),150 no sentido de que elas não se excluem, mas sim se complementam, de modo que, em cada uma

146 “Exemplo: o locador de imóveis que discrimina inquilinos em razão de preferências político-ideológicas”. (VALE, André Rufino do. Eficácia dos direitos fundamentais nas relações privadas. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 2004. p. 122.)

147 STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 180-181.

148 STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 180-181.

149 ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 530. 150 ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 529.

delas, existem pontos adequados que podem ser justapostos em uma construção dogmática unitária.Por esse motivo, faz-se necessário um modelo que abarque os aspectos corretos de cada teoria em uma solução completa e adequada.Entretanto, frisa-se que, do ponto de vista dos resultados, o fato de as três construções dogmáticas serem equivalentes não afasta a questão da correção.151 152

Assim, na visão de Alexy, as teorias da eficácia mediata e da eficácia imediata têm por destinatário, primeiramente, o Poder Judiciário; por outro lado, a teoria de Schwabe é endereçada ao Poder Legislativo e ao Poder Judiciário.153 Porém, na qualidade de construções dogmáticas endereçadas à atividade judicial, essas vertentes acabam acarretando resultados semelhantes, de modo que o resultado atingível com o uso de uma das correntes pode também sê-lo com as outras. 154

No modelo de três níveis proposto, são considerados: (i) o nível dos deveres do

Estado, (ii) o dos direitos ante o Estado e, por fim, (iii) o das relações jurídicas entre particulares. 155 Isso observado, Alexy conclui que, partindo-se da teoria da eficácia mediata

151 STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 181-182.

152 Nesse sentido, conforme Alexy: “O fato de as três construções serem equivalentes nos resultados não significa que a questão acerca de sua correção seja irrelevante” (ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos

Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 533). Em tempo, aduz o autor: “Nessa esteira, conforme

Alexy: “[...] nenhuma das três construções é, por si só, a correta, pois é possível afirmar que cada uma delas destaca alguns aspectos das complexas relações jurídicas que são características dos casos de efeitos perante terceiros, e que se torna inadequada apenas quando se pretende que o aspecto destacado seja tomado como a solução completa. Somente um modelo que abarque todos os aspectos pode oferecer uma solução completa e adequada” (ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 533). 153 Nesse sentido, explica o autor: “No que diz respeito ao Judiciário as três construções são equivalentes em resultado. Duas construções jurídicas são equivalentes em resultado se todo resultado que pode ser obtido no âmbito de uma puder também ser obtido no âmbito da outra. Que o criador de uma construção a tenha criado para obter resultados diversos daqueles obtidos pelas construções já existentes, ou que os defensores de uma construção tendam a outros resultados se comparados com os defensores da outra construção, ou, ainda, que uma construção seja mais próxima de determinados resultados que a outra, nada disso afeta a equivalência em relação aos resultados. O que importa é que, em todos os casos, o mesmo resultado possa ser obtido” (ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 531-532).

154 Assim, continua o autor: “As três teorias tomam em conta, (i) que na relação entre particulares ambas as partes são titulares de direitos fundamentais, (ii) que, por essa razão, a eficácia deve ser matizada (gradação da eficácia) e (iii) que a medida da eficácia deve ser definida, em última instância, pela ponderação. Em relação à ponderação, a diferença é que, para a teoria da eficácia mediata, ela deve ser realizada no marco do direito civil válido”. (STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 181.)

155 Complementa o autor: “[...] (i) A teoria da eficácia mediata situa-se no nível dos deveres do Estado. Os direitos fundamentais como princípios objetivos os âmbitos do direito obrigam o Estado jurisdição. (ii) Os direitos ante o Estado (a teoria de Schwabe) situam-se no segundo nível. O particular, em conflito com outro particular, tem o direito fundamental juiz e os tribunais, em suas decisões, tomem em consideração os princípios jusfundamentais (princípios objetivos) que apoiam a sua (do particular) posição ou pretensão. Este direito fundamental é um direito fundamental ante (contra) a jurisdição. Se o juiz ou o tribunal, na decisão proferida, não tomar em consideração esse direito fundamental, estará lesando esse direito fundamental como direito de defesa. (iii) No terceiro nível, situa-se a eficácia de direitos fundamentais nas relações jurídicas entre particulares (teoria da eficácia imediata)”. (STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 182.)

e da eficácia por meio da mediação estatal (teoria de Schwabe) resulta uma eficácia imediata. Desse modo, em seu entendimento, as três construções chegariam a um mesmo resultado: todas elas acarretariam, em última instância, uma eficácia imediata (nesse sentido, exemplifica essa situação com o caso Blinkfüer).156 157

Por sua vez, quanto à chamada perspectiva civil-constitucional, no Brasil, destaca-se que o tratamento dado pela dogmática jurídica à Drittwirkung ainda se encontra incipiente, em que pese já existam estudos realizados sobre o tema. Nesse sentido, a referida doutrina (também conhecida pela alcunha de “metodologia civil-constitucional”, “direito civil constitucional” ou “movimento do direito civil constitucional”),158 trata da proposta de que as disposições infraconstitucionais de direito civil devem ser interpretadas conforme a Constituição (princípios, regras, valores).

Além disso, consiste na tese de que é tarefa do magistrado aplicar diretamente, nas relações concretas entre particulares, a cláusula constitucional da tutela dos direitos da personalidade e os princípios constitucionais relevantes para o direito privado.159 Por fim, cumpre dizer que, se posição expressa houvesse sobre o tema, é muito provável que os teóricos brasileiros dessa vertente argumentassem em favor da eficácia imediata de direitos fundamentais nas relações entre os particulares. 160 Nesse sentido, parece-nos que, tanto a partir da visão de Alexy, como da visão da metodologia-civil constitucional, a corrente aplicável seria a da eficácia imediata (a qual, observa-se, foi efetivamente aplicada no caso União Brasileira de Compositores, julgamento paradigma deste trabalho).

156 STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 182.

157 Sobre o tema, versa Alexy: “As três teorias permitem levar em conta o fato de que, na relação cidadão/cidadão, ambos os lados são titulares de direitos fundamentais. Assim, em todas elas aceita-se uma modulação da força de seus efeitos; para todas elas, a medida do efeito dos direitos fundamentais na relação cidadão/cidadão é, no final das contas, uma questão de sopesamento, no qual determinados direitos fundamentais podem ceder totalmente ou em grande medida. Portanto, se a análise for feita a partir do seu resultado, o decisivo não é a construção, mas a “valoração” que a preenche”. (ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2011, p. 532).

158 Conforme o autor, acerca da origem dessa doutrina: “Trata-se de uma tendência, de uma concepção, desenvolvida por teóricos e dogmatas do direito civil - que gravitam, sobretudo, embora não exclusivamente, em torno do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná – a partir de meados da década de 80 do século XX, sob a influência de autores europeus, sobretudo italianos, como Pietro Perlingieri”. (STEINMETZ, Wilson.

A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 184.)

159 O autor elenca exemplos: “[...] como, e.g., o princípio da solidariedade (CF, art. 3,§ lº), o princípio da igualdade substancial (CF, art. 5º, caput combinado com o art. 3º, III e IV) e o princípio da função social da propriedade (CF, arts. 5º, XXIII, e 170, III)”. (STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos

fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 185).

160 STEINMETZ, Wilson. A vinculação dos particulares a direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 185.