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As dimensões do trabalho e a linguagem

ETIQUETA TEXTUAL

3. As dimensões do trabalho e a linguagem

Conforme já apontado, um dos objetivos maiores do programa de pesquisa do ISD consiste em compreender os processos de desenvolvimento humano com o fim último de poder apreender o processo de constituição da pessoa. Devido à sua origem heterogénea, por se tratar de um projeto em desenvolvimento de uma ciência do humano, as pesquisas realizadas (ou em realização) na linha do ISD suportam o diálogo com outras teorias, consideradas compatíveis com os estudos interacionistas- -sociodiscursivos, uma vez que lidam com questões da compreensão do ser humano enquanto sujeito de um meio social. Entre elas, pode nomear-se as Ciências do Trabalho, particularmente a Ergonomia.

Dentro do quadro da Ergonomia, a Clínica da Atividade (Faïta, 2004, Clot, 2006) e a Ergonomia da Atividade (Amigues, 2002, 2004; Saujat, 2004) destacam-se como referenciais teóricos que dialogam frequentemente com o ISD. Ambos centram-se na

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contribuição da atividade do trabalho para a construção permanente das pessoas (dos trabalhadores) a partir de contextos reais, sendo dispositivos para a transformação de situações (frequentemente disfuncionais). Mais especificamente, a Clínica da Atividade tem como propósito essencial estudar e definir a função psicológica do trabalho na vida humana enquanto a Ergonomia da Atividade trata o trabalho a partir do ponto de vista do trabalhador, fazendo uma análise centrada no trabalho efetivo.

Não iremos, contudo, tomar qualquer destas focalizações no nosso estudo pois as mesmas pressupõem métodos e técnicas de investigação42 que não estiveram nas nossas opções utilizar, além de não nos interessar os objetivos em que estas abordagens científicas se envolvem. Iremos, tão-somente, recorrer a alguns conceitos operatórios basilares na expectativa de nos ajudarem a aprofundar o nosso foco de análise.

Os pressupostos teóricos do ISD repartem-se por três grandes grupos temáticos, sendo o primeiro constituído pelo agir humano e as suas relações com a linguagem; o segundo, sobre a organização do trabalho na sociedade contemporânea e, o terceiro, sobre o papel da linguagem nas e sobre as situações de trabalho.

Pode colocar-se, desde já, uma pergunta epistemológica – porquê o interesse do ISD pelo trabalho? A resposta não é complexa pois todo o trabalho constitui-se como um agir situado, intencional, de linguagem e repleto de representações sociais e individuais que (in)diretamente favorecem o desenvolvimento humano, ou seja, a atividade do trabalho contribui para a construção permanente dos indivíduos – o que configura uma série de rubricas caras ao ISD. Por outro lado, é uma prática comum à espécie humana desde o início da organização das sociedades, um agir que ocupa uma parte considerável da vida das pessoas. Complexa é, todavia, a sua análise.

Por isso, faz sentido, nesta altura, abordar as fundações da análise do trabalho (Bronckart, 2004, 2006 e 2008b), para tentar esclarecer a morfogénese do agir43, i.e., a

42 Trata-se de processos morosos, com várias etapas, sessões de trabalho, contactos pessoais, observações in loco, registos audiovisuais e inúmeros intervenientes em contextos controlados, como a instrução ao sósia e a autoconfrontação para a Clínica da Atividade; entrevistas não estruturadas, semi- estruturadas, questionários, verbalizações provocadas e espontâneas, observação (as)sistemática, registo de comportamentos, análise de tarefas para a Ergonomia da Atividade.

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Bronckart afirma que há vários géneros textuais que constituem lugares desta morfogénese (Bronckart et al, 2004:354): “(…) ils ont la réputation de contribuer à l’orientation de certains types d’agir, et qui ont été qualifiés de textes prescriptifs, de textes injonctifs, de textes procéduraux, de textes

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origem e estruturação do agir, cujas dimensões incluem44: o trabalho real45, que designa a(s) atividade(s) realizada(s) numa situação concreta, sendo o locus onde se constrói a relação subjetiva com o trabalho. Esta dimensão não se aplica ao nosso corpus textual, pois não temos dados captados in loco.

O trabalho prescrito, ou esperado, refere-se ao conjunto de normas, textos, programas, modelos, procedimentos que orientam e determinam o agir, ou seja, documentos que fundamentam “(…) uma representação do que deve ser o trabalho, que é anterior à sua realização efetiva” (Bronckart, 2008b:208), no nosso caso, temos os textos prescritivos que enquadram os processos praxiológicos das entidades escolhidas.

Por último, a dimensão do trabalho representado, subdivide-se em duas vertentes – o trabalho interpretado pelos trabalhadores e o trabalho interpretado por observadores externos. O primeiro respeita à interpretação que os trabalhadores fazem do seu agir. É nesta dimensão que aflora a consciência discursiva dos trabalhadores durante uma situação específica de reflexão; o segundo, compreende a análise da constituição de uma profissão por um pesquisador ou por outro par. Ambas as dimensões visam a verbalização de representações dos sujeitos relativamente às situações de trabalho e de múltiplos aspetos de agir vivido ou observado/avaliado. As restantes produções textuais de que dispomos não emergem de qualquer uma destas dimensões, referimo-nos aos textos funcionais e aos textos digitais.

Na relação linguagem/trabalho distinguem-se, ainda, duas modalidades muito ligadas às noções que acabamos de expor, que enfatizam o lugar que a linguagem ocupa no trabalho educacional. Trata-se de uma categorização inicialmente desenvolvida pelo Groupe Langage, Action et Formation (Groupe LAF, 2001), da

d’incitation à l’action, etc. (voir Adam 2001). Ces textes devraient par principe proposer, entre autres, des mises en forme verbale de l’agir”.

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Embora estes conceitos, no âmbito do ISD, sejam aplicados sobremaneira ao campo educativo e seus intervenientes/parâmetros (professor, alunos, sala de aula, avaliação…), com eles tentamos dar conta de diferentes perspetivas que o trabalho pode ter (independentemente dos vários domínios e profissões) e, assim, fazer um recorte direcionado para o trabalho institucional, que é o foco da nossa investigação.

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Segundo Clot (2006), a atividade de trabalho não se limita apenas ao que é realizado pelo indivíduo, mas também inclui o que ele deixa de realizar, o que poderia ter feito e não fez, o que poderia ter sido feito de outro modo e não o foi, devido a impedimentos internos ou externos que acabam por surgir, o que este autor designa como ‘atividades contrariadas’.

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Universidade de Genebra, que se apoia na perspetiva da Ergonomia da Atividade, revista emMachado & Bronckart (2005, 2009).

Assim, temos a linguagem no trabalho que aponta para textos produzidos durante a realização do trabalho e que prevêm dois subconjuntos de textos – textos (auto)descritivos e textos (auto)avaliativos e, por fim, a linguagem sobre trabalho que incide sobre os textos de instâncias externas que prescrevem e planificam o trabalho. Será apenas nesta última modalidade que alguns das nossos textos (os textos prescritivos) claramente se situam, os outros, já mencionados, não se enquadram neste sistema classificativo.

Assim, de acordo com os pressupostos que realçámos, prevê-se, desde, já, que os conceitos operatórios que explicitámos não são instrumentos que possamos utilizar nas análises que temos de realizar.

Convém notar que para caracterizar o agir institucional temos de identificar todas as representações do agir que se detetam nos textos/géneros. Estamos a lidar com um agir construído, pois é na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui nas diversas áreas em que se movimenta e atua. Deste modo, para compreender melhor a atividade institucional, os objetos de análise não são as condutas diretamente visíveis, mas os textos que as exteriorizam e que se desenvolvem nas situações de trabalho.

Concretizando, temos, de um lado, os textos funcionais produzidos em situações “naturais” da atividade, logo, mais próximos do seu funcionamento efetivo e real, que por essa razão são objeto de uma análise mais aprofundada. Do outro lado, temos os textos digitais e os textos prescritivos46, que para nós servem de eixo comparativo, de contraponto, ou melhor, são a outra face da moeda do agir verbal institucional, que serão alvo de uma análise menos pormenorizada.

Em face da insuficiência apontada, equacionámos um conjunto de categorias teóricas – os modos de agir – que permitem perceber diferentes focalizações do agir, as quais cremos que captam, de forma mais global e completa, as diferentes facetas

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Ainda que sejam elementos muito importantes para caracterizar a intervenção das instituições pois são constitutivos da sua atividade não vemos a necessidade de os analisar com a mesma profundidade.

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(representações) do agir institucional na web47, ainda que os conceitos que revimos nos tenham, de alguma maneira, servido de inspiração.

Interessa-nos averiguar quais as visões que ressaltam desse conjunto de textos acerca da atividade institucional específica de cada órgão, dos papéis dos actantes envolvidos, do movimento tensional – real ou potencial – entre a dimensão coletiva e individual do agir, da interação instituição-destinatários, da identidade institucional que neles é construída, entre outros aspetos.

Para desenvolver a análise do corpus aplicaremos um modelo de análise partindo do patrocínio do dispositivo analítico do ISD (Bronckart, 1997/1999, 2008a; Bronckart & Machado, 2004), renovado em Machado & Bronckart (2009),convocando outros autores compatíveis com este quadro teórico para a descrição de género.

Propomos um modelo de análise que não é estático, mas que se adapta ao conjunto de dados a analisar e ao dinamismo do ambiente em que surgiram.

A exposição deste modelo é, justamente, o objeto da próxima parte.

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