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ETIQUETA TEXTUAL

II. Os procedimentos de análise dos textos

4. O valor da identidade online

5.2. O sítio web como paragénero

Um primeiro dado óbvio é que o género sítio web, como instrumento plurissemiótico materializado no contexto digital, constitui-se como um objeto de estudo fértil nas práticas linguístico-discursivas atuais.

Marcuschi é inequívoco ao afirmar que é o quadro sociotécnico e cultural, indutor de novas formas de interação social que, em última instância, galvaniza a transformação de géneros mais antigos e o aparecimento de novos, dificilmente criados do nada: “Seguramente, esses novos gêneros não são inovações absolutas, quais criações ab ovo, sem uma ancoragem em outros géneros já existentes” (Marcuschi, 2003:20).

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Este conceito já foi explicado na página 54. 100

Tal como preconizado por Askehave & Nielsen (2004:10) “The other genre elements, which homepages seem to imitate, are those of newspaper front pages. (…) the similarity between the front page and the homepage concerns elements, such as content, form, and lay-out.”.

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Já Giltrow & Stein (2009:2), numa postura mais ambígua, questionam se há novos géneros na internet ou velhos géneros com novas vestimentas, o que nos alerta para um facto, quanto a nós indiscutível, de que o sítio web é um género com um certo grau de hibridização com propósitos comunicativos que se cruzam e complementam.

Igualmente, Beaudoin (2014:159) toca neste aspeto, assinalando que:

“Les sites Web, comme espaces de publication globale et intégrée peuvent être considérés comme (…) un espace hybride d’un genre nouveau qui accueille l’historique des productions, les travaux en cours, les annonces et qui agrège des genres différents. Autrement dit, c’est un espace hetérogène qui intègre des formats autrefois séparés.”

Por outro lado, parece aparentemente viável associar o sítio web, na sua génese, ao que Bezerra (2006, 2007) denomina de géneros introdutórios: “(…) que introduzem ou apresentam outros gêneros” (Bezerra, 2007: s/p), os quais são definidos como uma “(…) proposta de leitura prévia, em termos de orientação, síntese ou convite à leitura” (Bezerra, 2006:80)101. Pese embora a ligação inicial que este pesquisador faz com géneros impressos que se encontram em livros, revistas e trabalhos académicos (tais como sinopses ou prefácios) não é descartada a hipótese de se estabelecer uma continuidade com as finalidades comunicativas da página inicial dos sítios web:

“(…) partimos dos conceitos originalmente aplicados à análise convencional de textos escritos impressos para enfocar de maneira especial os géneros textuais mediados pela web e que se apresentam associados ao propósito comunicativo geral de “introduzir” ou apresentar outros géneros” (Bezerra, 2007:1).

Porém, nesta perspetiva, os géneros introdutórios não têm autonomia para circular isoladamente do suporte e dos géneros ‘principais’, mantendo essencialmente uma relação de subordinação destes.

Ao fazermos esta pesquisa bibliográfica para nos ajudar a compreender a essência da condição genérica do sítio web, deparámo-nos com o subsídio de outros estudiosos, como Rastier (2001) que identifica, entre outras, uma classe de géneros no

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Uma discussão preliminar a respeito dos géneros introdutórios encontra-se em Bhatia (1997, 2004), mas como não tivemos acesso atempado aos textos não desenvolvemos a proposta deste autor.

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âmbito da atividade literária, mas que a nosso ver é passível a priori de ser extrapolada e aplicada à web: “(…) on peut dire rhapsodiques les genres qui incluent des répliques de genres autonomes, et dont le roman reste le parangon”102 (Rastier, 2001:267). Achamos a ideia interessante uma vez que toca num ponto importante que é o da ligação entre os géneros. Todavia, como apresentada, a teorização do autor não fornece elementos de desenvolvimento suficientes, pelo que ficamos sem saber quais os pressupostos da denominação (que aliás achamos pouco feliz por que semanticamente pouco evocativa da efetiva relação que se estabelece entre os géneros no sítio web).

Um outro teórico que chamou a nossa atenção foi Bonini (2003, 2011) que avança com a noção de hipergénero – a qual já atende à configuração dos géneros presentes na internet – consistindo num género que abriga e aceita outros; vejamos como ele especifica este conceito: “(…) Entendo por hipergênero os suportes de gêneros que são, ao mesmo tempo, gêneros que se compõem a partir de outros gêneros, como é o caso dos jornais, da revista, de vários tipos de home-pages”103 (Bonini, 2003:210) daí o facto de o apresentar como um “elemento híbrido” (Bonini, 2011:682). Os motivos em que se baseia têm fundamento, pois como ele realça “Um gênero não existe no vácuo, mas na relação com outros gêneros” (idem:681) e faz questão de se demarcar do conceito (com o mesmo nome) cunhado por Maingueneau (2004):

“Minha explicação de hipergênero difere da de Maingueneau (…). Segundo esse autor (Maingueneau, 2004:116), hipergêneros são: “categorizações como ‘diálogo’, ‘carta’, ‘ensaio’, ‘jornal’, etc., que permitem formatar o texto. Não se trata de um dispositivo de comunicação historicamente definido, mas de um modo de organização textual com restrições fracas, que encontramos em épocas e em lugares diversos” (Bonini, 2011:691).

A nossa posição relativamente a esta proposta é crítica visto que não acompanhamos a visão deste autor quanto à natureza hipergenérica (logo hierárquica) da relação entre géneros no sítio web: o hipergénero na sua perspetiva é uma

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O exemplo dado refere-se a um romance que integra um sumário, um postal, menus de restauração, uma árvore genealógica, entre outros. É o que acontece num artigo científico que requer notas de rodapé, referências bibliográficas, resumo – exemplo nosso.

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“unidade maior” (Bonini, 2011:681) composta por um agrupamento de géneros. Não vemos o sítio web como uma categoria genológica superordenada e hiperonímica, equivalente a um supergénero que admite outros ‘menores’104, pois a sua organização é ramificada, além de que a ideia deste autor de que é, simultaneamente, um suporte parece-nos confusa e bastante suscetível de questionamento – vemos como estranha a associação linear destes dois elementos105.

Desta feita, e na ausência de um termo que seja plenamente satisfatório, propomos a forma paragénero para focalizar a modalidade de relação entre diferentes géneros textuais cuja convivência se faz no espaço de um outro (único) género. O emprego do prefixo ‘para-‘ exprime a ideia de proximidade dos géneros, sugerindo um efeito de co-presença de vários géneros que ocorrem colaborativamente, portanto sem um caráter de dominância ou de grandeza.

De resto, é nossa convicção que esta categoria é própria dos géneros textuais digitais onde a miscigenação dos géneros é maximizada por causa da volatilidade e fluidez do meio. Sobre este aspeto em particular, realçamos as afirmações convergentes de autores diferentes às quais subjaz o conceito de intertextualização que poderá constituir uma explicação a considerar (aqui apenas aludida) quanto à natureza da relação – cremos, de cruzamento – que se estabelece entre os géneros e que transpomos para o que se passa no sítio web. Miranda diz que:

“(…) a intertextualização constitutiva é a relação necessária entre dois ou mais géneros textuais no interior de um texto. Neste âmbito localizam-se todos aqueles géneros que se instituem a partir da convocação de outros géneros (ou dos seus traços ou parâmetros).” (Miranda, 2007:157)

Giltrow & Stein (2009:8), por seu turno, afirmam: “(…) genres migrate through intertextual routes, colonising situations and producing ‘hybrids’”. Fazemos, no entanto, uma ressalva pois esta correlação na dimensão genérica não se realiza no seio de um texto singular, mas de um género. Trata-se, assim, de dar conta do conjunto de

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Como é também a posição de Miranda (2007) quando propõe a relação hipergénero e hipogénero. 105

De toda a forma, não queremos minimizar a relação entre os géneros e os respetivos suportes que constitui uma questão complexa.

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relações que um ou vários géneros estabelece(m) com outro(s) género(s).

Antes de terminar esta discussão, cremos ser de interesse trazer à liça outra vertente e que se refere ao estádio de desenvolvimento do género. Apontamos para o apanhado que Gonçalves efetuou sobre as fases de um género (cf. Gonçalves, 2011:5), recordando que esta investigadora afirmara que o sítio web estava “em fase de consolidação” (idem:2). Contudo, volvidos quatro anos106, e contando com a velocidade com que tudo se dá na internet, ousamos afirmar que, neste momento, o sítio web é um género em estabilização acelerada (apesar de recente) dado que é uma forma semiótico-textual cada vez mais estabilizada pelo uso, identificada pelas suas características próprias socialmente dominadas e plenamente autossuficiente do ponto de vista comunicativo. Também por estas razões achamos que o sítio web é um fenómeno de grande interesse e atratividade para as formações sociais, designadamente as instituições, dado que catapulta os processos praxiológicos que nelas têm origem ou nos quais são chamadas a intervir. É inegável que a arquitetura dos sítios web, a sua estrutura de navegação e a sua interface gráfica influem no modo como as instituições se dão a conhecer.

Em síntese, a página inicial e o sítio web são géneros textuais digitais que, basicamente, podem ser entendidos como géneros constitutivamente complexos107 e plásticos, em que a sua estrutura composicional ramificada comporta outros géneros que se interrelacionam e cooperam tanto para a construção da identidade discursiva do enunciador (institucional, no nosso caso) quanto para a projeção do agir institucional no mundo, numa dimensão intergenérica.

Assim, na falta de um termo ilustrativo deste estado de coisas, arriscámos uma formulação, que expusemos, ainda que embrionária – a de paragénero – que necessita de uma maior elucubração e de análises mais refinadas, a fim de ganhar mais consistência.

Além do mais, não sendo este tema (géneros textuais digitais) o cerne das nossas preocupações neste trabalho, não alongaremos mais o debate de ideias, o que exigiria mais leituras para enriquecer o nosso lastro argumentativo. Achamos, de

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A própria autora menciona o facto de ser necessário o transcurso do tempo para que este objeto possa estabilizar (op.cit.).

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qualquer modo, que conseguimos firmar uma visão que tem potencial para ser objeto de ulteriores desenvolvimentos.

No próximo capítulo, aplicaremos os procedimentos de análise, expostos na parte II, ao nosso corpus textual.

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