ETIQUETA TEXTUAL
IV. A ANÁLISE DO AGIR INSTITUCIONAL NOS SÍTIOS WEB
2. O contexto (sociointeracional) geral de produção
3.1. A dimensão temático-composicional
3.1.4. As sequências textuais e outras formas de planificação
Prosseguimos, ainda no plano temático-composicional, para a análise das sequências textuais – formas de planificação complexa – e para as outras formas de planificação mais simples137 que se constroem e se desenvolvem no quadro dos tipos de discurso. Passamos a sinalizar e a caracterizar as marcas linguísticas nos textos funcionais ao mesmo tempo que procuramos ver os efeitos de sentido que a partir delas se podem apreender138.
As sequências podem auxiliar na visualização do conteúdo temático e, em última instância, da estrutura composicional dos textos. Além disso, trazem representações (construídas pelo produtor do texto) sobre o(s) destinatário(s) e sobre os objetivos da sua ação de linguagem. Não menos importante é o facto de as sequências contribuírem para indiciar a priori o género acionado. É o que tentaremos provar pelo que nos interessa saber qual(ais) a(s) sequência(s) dominante(s) bem como as que fazem parte de uma composição local139.
Começamos as análises pelos despachos, concretamente pela segunda secção dos textos, por constituir o bloco central do género, que respeita ao âmago da decisão. Esta secção apresenta uma estrutura sequencial maioritariamente injuntiva, sendo que em D2, D4 e D6 também há sequências argumentativas.
Esta constatação advém do facto de a organização textual estar dependente da atividade discursiva que programa ‘qual a resolução a comunicar’. Embora o assunto e as circunstâncias de cada despacho sejam diferentes (daí a presença de diversos verbos declarativos, como já vimos: conceder, aprovar, designar, determinar, delegar e esclarecer), as planificações textuais locais organizam-se numa estrutura injuntiva, o que imprime um padrão relativamente constante em todos os despachos no que à secção decisão diz respeito.
137
Referimo-nos ao script e à esquematização.
138 Privilegiaremos, por isso, a dimensão discursiva que lhes subjaz. Recordamos que Bronckart atribui um estatuto discursivo e sócio-histórico às sequências textuais e não cognitivo, como Adam advoga. 139
Estamos a seguir a orientação do modelo que preconizamos (Machado & Bronckart, 2009) que contempla as sequências (sobretudo as principais) numa análise linguístico-textual, embora estas não tenham presença obrigatória (Cf. Machado & Bronckart, 2009:54-55).
186
Os trechos que apresentam as sequências injuntivas acomodam atos ilocutórios declarativos na medida em que através deles se dá origem a novas realidades, se efetuam mudanças imediatas no estado de coisas institucional: um professor de medicina passa a deter uma distinção académica (D1); novos ciclos de estudos são criados (D2); um docente passa a representar a sua escola num importante concurso de ideias (D3); duas procuradoras são investidas dos poderes atribuídos à PGR e são ratificados atos já praticados (D5).
A injunção é ainda mais clara em três dos textos uma vez que se difunde um conjunto de instruções inequívocas. Trata-se de acionar e orientar certos comportamentos nos envolvidos, perante um quadro de prescrições: com vista à divulgação do despacho junto do destinatário e no sítio web (D3); que enformam o ato de eleição da comissão paritária no âmbito da avaliação dos colaboradores e que se destinam a difundir o despacho pelos destinatários e no sítio web (D4); a dar conhecimento à linha hierárquica superior, à publicação no Diário da República, no sítio web da entidade e no SIMP140 (D5).
Como traços linguísticos predominantes destas sequências temos os verbos (que incitam à ação) no imperativo, ainda que em construção impessoal: comunique- -se, divulgue-se, publicite-se e os verbos que enunciam as diversas ações, no infinitivo, i.e., os verbos indicam o que os destinatários imediatos devem/têm de fazer, colocando as afirmações no eixo da obrigação: submeter a acreditação (D2), preparar o processo de eleição (D4), operacionalizar o sistema (D5), realizar o exame (D6).
Em três textos (D2, D4 e D6) é visível a presença de sequências argumentativas visto que se privilegia um determinado ponto de vista: validar a decisão anunciada, a qual, no entanto, o produtor encara como potencialmente contestável pelo destinatário.
No caso de D2 aprova-se a criação de novos cursos, mas pré-existe o cumprimento de uma condição – acreditação pela A3ES; em D4, inicia-se um processo de avaliação obrigatório no pressuposto da observância de várias etapas correlacionadas; em D6, faz-se um esclarecimento, todavia chama-se a atenção para o caráter eliminatório do incumprimento da regra de pagamento.
187
A lógica que percorre estes trechos é do tipo antecedente consequente como oportunamente dissemos. A instauração de uma determinada linha argumentativa é também fruto do funcionamento social e pragmático dos textos, de modo que há que ter em mente que a argumentação não está apenas ao serviço de uma estratégia de convencimento, também pode – como é o caso – ser utilizada para carrear resultados. De resto, a sua orientação e força argumentativas buscam atingir um efeito: intervir nas atitudes e comportamentos dos destinatários imediatos, dirigindo-os, no pressuposto de que estes tomem como certo o conteúdo veiculado. Reconhece-se, portanto, em termos de disposição lógica argumentativa, uma orientação textual progressiva a qual é vazada num modelo demonstrativo141, facto que constitui uma marca frequente nestas sequências, além do recurso ao presente do indicativo – “aprovo” em D2 e “esclareço” em D6 – associado à factualidade dos argumentos.
Os textos D4 e D6 têm uma feição diferente no sentido em que não se muda um estado de coisas, mas explicita-se a autoridade e estatuto do enunciador perante o destinatário no sentido em que se relaciona explicitamente o enunciador com o valor de verdade do conteúdo proposicional – as chamadas declarações assertivas. A força ilocutória destes textos é menor (em relação aos outros) e o foco está mais centrado na expressão pública de uma posição de controlo da relação socioinstitucional com o destinatário de modo a que este reconheça a necessidade de obedecer ao cumprimento dos procedimentos descritos, o que pressupõe uma sanção caso não o faça. No texto D4 essa informação está subentendida pois o processo de avaliação na administração pública é obrigatório, sendo visados todos os trabalhadores; no caso de D6 essa advertência é mais direta e pode ser glosada da seguinte maneira ‘quem não efetuar o pagamento dos emolumentos não pode realizar o exame de aferição’.
Avançando, agora, para a primeira secção do género – contextualização –, esta aloja estruturas sequenciais descritivas. Este espaço textual evidencia a fase da aspetualização, a operação base da descrição (Adam, 1992:89), em que se enumeram
141
A forma como as macroproposições se ordenam pode corresponder a uma ordem progressiva (Dados – [inferência] Conclusão) ou a uma ordem regressiva (Conclusão [inferência] – Dados). A opção por um tipo de estruturação terá efeitos em termos de estratégia argumentativa, designadamente no plano da eficácia argumentativa; no primeiro caso, a estratégia centra-se no recetor. Numa abordagem desta questão, diz-nos Adam (2001:115):”Dans l’ordre progressif [p – DONC q], l’énoncé linguistique est parallèle au mouvement du raisonnement: «On tire ou fait s’ensuivre une conséquence de ce qui la précède à la fois textuellement et argumentativement»(Borel 1991 : 78).”
188
as partes dos processos descritos, que está alinhada com o enquadramento da decisão. Trata-se da base que se sustenta em legislação oficial diversa que é invocada e que é desencadeada pelo dever de resposta a pedidos institucionais formulados, aliás subjacentes a quase todos os textos analisados: pedido de atribuição da distinção (D1); de criação de novos cursos (D2); de seleção e nomeação de um representante da escola (D3); de pedido de esclarecimento (D6).
Passamos a explicar: D1 e D2 deixam claro que houve pedidos internos – no primeiro caso, uma proposta oriunda do CC da FMUP; no segundo, proveniente das escolas; a demanda externa em D3 e D6 foi suscitada pela coordenação nacional do concurso Poliempreende num caso e pelos advogados estagiários no outro. Como marcas predominantes deste tipo de sequência, temos a assinalar: verbos de estado (ter e ser sobretudo), verbos no presente, estruturas assindéticas (enumerações) e organizadores textuais (por exemplo: na sequência de, assim, em conformidade).
Somente em dois textos (D4 e D5) detetam-se sequências explicativas, não havendo um pedido prévio de suporte, mas, sim, uma iniciativa da parte do actante dirigente e da entidade por ele representada. De um lado, temos a diligência em desencadear o processo de avaliação dos colaboradores e, do outro, a tomada de medidas para conferir poder e representatividade a outros magistrados (no sentido de amenizar uma carga elevada de tarefas a cumprir pelo PGR ou de responsabilizar uma equipa de trabalho próxima).
O vetor da explicação incide sobre a descrição do funcionamento de procedimentos (num caso no que toca à avaliação de desempenho [D4] e no outro no que respeita ao rapto de menores [D5]), dando conta também das causas que estiveram na génese da decisão apresentada e que a corroboram.
Como se sabe, o raciocínio explicativo tem na sua origem a constatação de ocorrências incompletas que requerem desenvolvimentos com vista a responder às dúvidas que coloca ou às contradições que poderá suscitar, mostrando como o produtor textual isola partes do tema tratado e tenta apresentá-lo de um modo que seja adaptado às condições e perfil presumido para os destinatários (atitudes, conhecimentos prévios, sistemas de valores). Em ambas as situações, torna-se clara a perceção de que o que está em causa pode ser de difícil compreensão para os destinatários, logo a necessidade de uma ‘descrição especializada’ para esbater
189
qualquer dificuldade ou problema que possa advir de aspetos do conteúdo referencial especializado, tal como diz Coutinho sobre a atitude explicativa (Coutinho, 2003:272- 273) “[as razões] apresentam-se como causas identificadas nas coisas ou nos acontecimentos, constituindo, portanto razões de ser (ou de mudar, ou de acontecer)”. Como características à superfície textual, temos a presença de léxico especializado; de um fluxo de procedimentos em que se utiliza o futuro do indicativo, por exemplo: “os vogais serão eleitos”, “o ato eleitoral realizar-se-á no dia…”, os resultados deverão ser comunicados…”; no outro texto temos o presente do indicativo a demonstrar e a conferir validade à conduta do PGR, em exemplos como estes: “o artigo 2º do protocolo atribui ao PGR…”, “tais competências (…) são exercidas em colaboração”, “o artigo 17º (…) prevê a possibilidade de o PGR” e o recurso a conectores que assinalam sequencialização como: “Na sequência de”, “Em conformidade com”, “ Assim”. As competências do PGR são ilustradas por nominalizações: “Elaboração de”, “Decisão sobre” assim como as exigências do sistema de rapto de menores: “agilidade, celeridade, articulação e coordenação”.
Em suma, ao género textual despacho podemos afirmar que está associado um objetivo pragmático claro – fazer agir, daí que os textos sejam predominantemente estruturados em sequências injuntivas com uma forte incidência na transmissão da informação neles contida quer em cadeias hierárquicas quer em canais externos (como os sítios web ou o Diário da República).
As suas finalidades comunicativas podem ser já vislumbradas na própria denominação do documento; com efeito, tomando este componente como unidade de análise, ‘despacho’ significa “Ação ou resultado de despachar, de apor (a autoridade pública) sua decisão ao final dos requerimentos que lhe são encaminhados” (verbete no dicionário Aulete), “Resolução de autoridade pública sobre requerimento; desenvoltura, desembaraço” (dicionário de Português online Michaelis). Na sua forma verbal ‘despachar’ tem as seguintes aceções: “Expedir, enviar, remeter; Deliberar, decidir, resolver; Incumbir de missão ou serviço; Proceder rápida ou prontamente” (verbete no dicionário Aulete), “Resolver a pretensão de, atender; acelerar” (dicionário de Português online Michaelis).
O plano praxiológico (das diferentes práticas sociais a que os textos se associam) reflete-se no mundo textual-discursivo no sentido em que o intuito
190
pragmático dos despachos é sempre do tipo normativo, tomando, não obstante, a forma de modalidades ilocutórias diversas, que geram um espetro de diferentes efeitos e com um grau de intensidade diferenciado: da ordem da prescrição (designar, determinar, delegar), passando pela ordem do consentimento (conceder, aprovar, designar) até à ordem da explicação (esclarecer), que, por sua vez, nos faz deparar com níveis variáveis de participação do enunciador – de um envolvimento mais enérgico e operante (por exemplo D3) até um menos reativo e vigoroso (por exemplo D6).
Em síntese, o esquema dasformas de planificação nos despachos apresenta-se do seguinte modo:
Figura 9 – Distribuição das formas de planificação nos despachos
Relativamente aos comunicados, onde pontua um propósito informativo, encontramos o script142 e as sequências descritivas, por esta ordem de importância e pelo domínio de tecido textual.
142
Recordamos que se trata de uma forma de planificação possível dos tipos de discurso (tal como a esquematização), mas de natureza elementar (ao contrário das sequências, que são complexas), demonstrando como o conteúdo temático se encontra linearmente estruturado nos textos.
Título Subtítulo Corpo dos textos Local e data Assinatura Contextualização Sequência descritiva Decisão Sequência injuntiva