2.1 Localização: definição
2.1.2 As ferramentas informáticas ao serviço do localizador
Após esta breve caracterização das especificidades do texto alvo de um projecto de localização, toma-se claro que, para que um processo tradutológico funcione, o localizador terá de fazer um uso racional e adequado das ferramentas informáticas que lhe permitam executar um serviço apropriado. Quando um tradutor técnico especializado traduz um manual sobre Química
21 Na versão inglesa, o P remete de forma clara para a acção Print, cujo equivalente na versão portuguesa é
Imprimir. A combinação Ctrl + I é utilizada nas aplicações do Windows 98 para activar a opção Itálico.
Orgânica ou um documento jurídico, empenha-se de imediato no cumprimento do seu dever: verter para a língua portuguesa, quando se trata disso, um texto bem delimitado, fazendo uso das ferramentas com que está suficientemente familiarizado. Essas poderão ser apenas o papel e o lápis, a máquina de escrever ou o processador de texto e os dicionários e textos paralelos julgados necessários, recorrendo igualmente a glossários específicos ou a bases de dados terminológicos. Tal tradutor dificilmente fará uso de ferramentas de tradução demasiado complexas, quando comparadas com o material de apoio à tradução a que está habituado. No entanto, essas ferramentas ditas complexas são muito úteis e rentáveis quando se trabalha com grandes volumes de tradução de texto técnico especializado e, por vezes, repetitivo .
Nos últimos anos tem-se assistido a uma procura cada vez maior de ferramentas informáticas que acelerem o trabalho do tradutor de texto técnico e científico. Essa procura intensificou-se com o surgimento de projectos de localização que envolviam competências que estavam muito para além das normalmente exigidas a um tradutor. Uren et alii. (1993: 34) descrevem as dificuldades iniciais postas por estes projectos:
The first point we want to make about translation is that it is still mostly a manual process. While what we are discussing involves translation of computer software and its acompanying documentation, you cannot expect much computer software assistance in the actual translation - yet. (Uren et alii : 1993: 34)
O que se pode deduzir desta afirmação é que, no início dos anos 90, todo o trabalho relativo à tradução técnica dentro da área da localização era feito manualmente, visto não existirem na altura ferramentas que optimizassem esse trabalho. Estes autores constatam que, apesar de a tradução do software ser o objecto do discurso e análise do localizador, na altura não se podia esperar muita ajuda do computador em relação ao acto de tradução propriamente dito, mesmo no que dizia respeito aos textos directamente relacionados com o software. A mão humana era
23 Repetição visível, por exemplo, na recorrência das frases «If you are...» ou «When you click...» ou num
caso mais concreto: «(Windows logo)+PRINT SCREEN - Copy the screen to the Clipboard, including the mouse cursor.; (Windows logo) + SCROLL LOCK - Copy the screen to the Clipboard, without the mouse cursor.» («Shortcut keys for Microsoft Magnifie», Windows Help).
imprescindível para levar a cabo a localização dos enunciados a apresentar na interface gráfica do Windows, por exemplo.
Actualmente, as editoras de software esperam que os localizadores tenham acesso e saibam manejar eficientemente essas ferramentas24, cumprindo as suas obrigações profissionais sem colocar em perigo o projecto informático. A localização é feita dentro de prazos normalmente apertados e, para que tais prazos possam ser cumpridos25, é necessária a planificação pormenorizada de todas as tarefas a realizar nos diferentes momentos da localização (Esselink 1998: pp. 252-272). No exercício da sua missão, os localizadores poderão utilizar algumas das ferramentas que Esselink enumera. Entre outras, o autor faz referências aos sistemas de memória de tradução26 Translator's Workbench da Trados, ao Translation Manager da IBM, ao Déjà Vu da Atril, ao Amptran, ao Transit da Star; às aplicações de edição de caixas de diálogo, como o Developer Studio da Microsoft27, ou o Passolo da PASS Engineering GmbH, necessárias para que se possa ter acesso a determinados textos incluídos em caixas de diálogo. Também a ferramenta App Studio da Microsoft ou a Borland Resource Workshop ou a Catalyst da Corel, ou AppLocali^e ou a Accent Global Development Kit, ou a Espresso da Microsoft, e a RC-Win Trans assumem essa função. Existem igualmente ferramentas de localização dinâmica, isto é, que permitem localizar as interfaces, menus e caixas de diálogo com o programa em funcionamento e verificar e visualizar de imediato as alterações e traduções já executadas. Entre vários exemplos de ferramentas
24 Melby refere em «The translator workstation» que: «Today, however, most translators or their secretaries
are using software, and, in addition, some translators have even added other translator workstation functions to their word processors. The 1990s promise widespread use of translator workstations on new, more powerful, yet affordable microcomputers.» (Melby 1992: 147) Já podemos verificar isto hoje com os sistemas de tradução automática e de memórias de tradução a preços razoáveis postos à disposição, por exemplo, dos gabinetes de tradução que pretendem oferecer serviços profissionais. Em relação à evolução dos preços dos computadores pessoais e à sua consequente «democratização», veja-se, por exemplo, Rumo ao Futuro (Gates 1995: 4).
25 Acerca dos prazos em projectos de localização, vide Hoft (1995: pp. 48-51) ou Esselink (1998: pp. 261-
264).
26 Budin (1999: 3) sugere a seguinte definição de memórias de tradução: «Translation memory systems
record every sentence being translated. Both the source and target sentences are recorded. Language engineering is now best-suited to the sentence-by-sentence approach for a translation memory system. If a sentence is repeated, the same corresponding sentence is suggested, and the final decision rests with the translator.».
27 Ferramentas que permitem que o tradutor proponha a sua tradução e esta surja imediatamente na caixa de
diálogo ou na interface (Esselink 1998: 267). Uma questão a não pôr de parte é o facto de poderem surgir problemas se se usarem diferentes editores de base de dados de recursos ou até mesmo diferentes versões da mesma ferramenta. O resultado final poderá ser uma alteração na estrutura da base de dados, o que pode representar um risco {idem. 14).
dinâmicas de localização salientam-se o Jargon, de Alda Technologies, e o SuperLinguist, da KT International (Esselink 1998: pp. 33-51). Também se pode fazer uso do hoc Studio ou do Rapid Translation.
É através do uso de algumas destas ferramentas informáticas que o localizador pode aceder ao texto a localizar e, assim, acelerar o seu trabalho . Para além disso, convém que o tradutor especializado em localização se mantenha actualizado relativamente à terminologia mais recente desse domínio, que se adapte rapidamente às novas ferramentas informáticas de apoio à tradução29 e que mantenha os seus conhecimentos actualizados em relação aos vários sistemas operativos e a tudo o que se passa no mundo dos computadores. A importância das novas ferramentas é sumariada de forma precisa por Budin ao sugerir que as novas ferramentas desenvolvidas e disponibilizadas pela indústria informática deverão ser usadas pelo tradutor, não exclusivamente as concebidas para apoio à tradução (por exemplo, sistemas que permitem a gestão de bases de dados terminológicos, de textos multilingues ou de processamento de texto), mas todo o tipo de produtos: serviços de informação disponibilizados via Internet que funcionam como apoio às bases de dados, o correio electrónico, os BBS M ou os sistemas multimédia (Budin
1995: pp. 247-248).