CAPÍTULO III – Em busca de uma conceituação
3.4 As finas arestas entre o Sensível e o Sensacionalista
Verificamos até aqui a importância de não negar a subjetividade do jornalismo, sobretudo em um período histórico no qual as sensibilidades ganham novo destaque. Além disso, apontamos para as possibilidades de um emprego estratégico e consciente das subjetividades em favor da notícia. Seria possível, no entanto, que o uso menos comedido dos afetos acabe por extrapolar alguns limites e converta o que poderia ser um jornalismo sensível em um jornalismo emocionado, que se desprendesse do método e da objetividade. Este acabaria por tomar exatamente o caminho oposto, já que o uso exagerado das sensações pode distorcer a noção das realidades em seus mais diferentes níveis, afastando a racionalidade e tendendo a ser mais indutivo e comercial (a princípio para vender ideias ou emoções fortes como estratégia comercial) do que informacional ou relacional. Acreditamos que é nesse
ponto que a emoção se transforma em sensacionalismo94, através do exagero, conforme explicamos a seguir.
Sob um enfoque marxista, Aldemo Genro Filho trata o jornalismo como uma forma de conhecimento e apreensão da realidade que lida, a todo momento, com as sensações. Para ele, a arte de narrar o presente tem um papel importante na criação desse contato com o mundo. “Aliás, o que o jornalismo busca é uma forma de conhecimento que não dissolva a ‘sensação da experiência imediata’, mas que se expresse através dela” (GENRO FILHO, 2012, p. 207). Ainda assim, o pesquisador critica o sensacionalismo, que seria uma “singularização extrema” que reduz um determinado fenômeno à sua manifestação imediata, sem que haja contextualização. Nesse sentido, “a sensação assume um papel destacado na reprodução da realidade e o fundamento histórico e dialético do fenômeno ao invés de ser sugerido, é diluído na superfície do sensível” (Ibidem, p. 207). Sob esse viés, podemos pensar que o efeito contraditório de anestesia deste período histórico está intrinsecamente ligado ao sensacionalismo inerente aos poderosos estímulos sensoriais da pós-modernidade (conforme vimos anteriormente), que causam afetação sem experimentação, seguida de ação sem reflexão. Mesmo abrindo mão das extravagâncias discursivas, tratar a violência de forma puramente comercial não destacando contextos seria uma evidência de sensacionalismo.
Marialva Barbosa e Ana Lucia Silva Enne (2005) buscaram também analisar que tipo de jornalismo poderia ser classificado como sensacionalista. De acordo com as autoras, a definição é usada, a princípio, de forma abrangente para tratar das notícias que apelam para as sensações e emoções diante de uma determinada memória afetiva. Elas chamam a atenção, porém, para as diversas ressignificações do termo, passando por uma espécie de acusação de imprecisão ou distorção das informações até uma forma de caracterização para os títulos mais populares da imprensa (diz-se que determinado jornal é sensacionalista por ter uma linguagem mais coloquial, por exemplo, ou por não reafirmar as opiniões do leitor). Outros autores indicariam que “sensacionalismo” está ligado à alienação, a uma cultura de notícias de menor importância social, porém de estímulo emocional, como as “revistas de fofoca”.
Letícia Matheus explica que o sensacionalismo possui diversas apropriações. Dentre elas, seria tido como uma forma de acusação direcionada a veículos de mídia por distorcerem
94 Compreendemos esse sensacionalismo de forma simples, ou seja, como um jornalismo apelativo, que visa vender mais a partir do abuso de afetos na apuração e na divulgação de imagens ou informações, além da insistência pelo impacto afetivo como forma de comoção ou de satisfação das “necessidades instintivas do público, por meio de formas sádicas, caluniadoras, ridicularizadoras das pessoas” (MARCONDES FILHO, 1988, p. 89). Alertamos que existe a compreensão de um “jornalismo das sensações”, mas que para definirmos as pequenas arestas que diferem nosso objeto de pesquisa do sensacionalismo aqui relatado, fez-se necessário destacar ambas as formas de utilizar os afetos na produção noticiosa.
informações. Para a autora, essa colocação não está totalmente equivocada, já que o “sensacionalismo pode ser entendido como a prática de exagerar os sentidos e precisamente esse hiperbolismo levaria às distorções” (MATHEUS, 2011, p. 32).
Ciro Marcondes Filho (1988) lembra que o jornal é um produto vendável que utiliza diversas estratégias para se tornar atraente ao seu público, desde recursos gráficos e estilísticos até chamadas impactantes ou furos de reportagem. Assim, o que poderia separar um jornalismo considerado como “sério” e “liberal” da “imprensa sensacionalista” seria o nível de utilização das estratégias comunicacionais sensíveis. Para o autor, “sensacionalismo é só o grau mais radical de mercantilização da informação” (MARCONDES FILHO, 1998, p. 66). Serra (1986) vai além ao dizer que a mercantilização das informações que miram o exagero para causar maior impacto e, assim, aumentar as vendas, traria ao imaginário social uma ideia mais pálida da realidade em comparação com a abundância de cores espalhadas pela mídia. Tal lógica enfatiza o caráter alienante e amortizador do jornalismo industrial no momento em que este satisfaz as necessidades imediatas e instintivas de estímulos do público enquanto empobrece sua ligação com a sociedade (MARCONDES FILHO, 1998).
Deleuze e Guattari (1997) reforçam que o sensacionalismo é uma estratégia comunicacional que tem por objetivo atrair o interesse do público para uma notícia e, ao mesmo tempo, atender aos interesses da empresa jornalística por trás dessa notícia, expandindo o seu consumo. Ao se pensar sensacionalismo se pensa em estratégia comercial, geração de interesse e fidelização de um cliente, o que torna o seu uso mais comum do que pode se aparentar em um primeiro momento. Seguindo esse mesmo rumo ao tratar da lógica das sensações, Leandro Marshall explica que é possível perceber o sensacionalismo enquanto um “estilo que, de certo modo, está radicado na própria essência ontológica da notícia” (MARSHALL, 2003, p. 76). O sensacionalismo seria, então, inerente ao jornalismo e parte fundamental do que define o valor-notícia, ainda que não se situe necessariamente pelo conteúdo, um acontecimento ou tema, mas nas possíveis abordagens sobre tal, o que, necessariamente, passa pela atratividade a determinado público alvo.
De uma maneira geral, podemos afirmar que os estudos de newsmaking concluem que os acontecimentos avaliados como importantes são obrigatoriamente selecionados para serem transformados em notícia. Por outro lado, o valor-notícia “interesse da história” está ligado à representação que os jornalistas fazem de seu público e complementa-se com o valor- notícia definido como capacidade de entretenimento do acontecimento (AGUIAR; SCHAUN, 2016, p. 228).
Através de nossa pesquisa histórica se tornou evidente que não apenas os afetos como também o sensacionalismo sempre esteve com o jornalismo, sobretudo buscando cativar o interesse do público a partir das emoções. Segundo Michael Schudson (1978, p. 5), na virada do século XIX, apesar dos avanços técnicos e tecnológicos, os principais jornais do mundo ainda davam destaque para as boas histórias em detrimento de fatos. Nesse período, as várias formas de sensacionalismo teriam sido responsáveis pelo desenvolvimento e fortalecimento dos jornais diante da sociedade. Isso porque, para se tornar comercialmente viável e efetivo, o jornalismo precisa contar histórias que sejam ao mesmo tempo importantes e interessantes.
Elizabeth Bird e Robert Dardenne (1993) fazem parte de uma corrente de autores que pensa as notícias a partir dessa totalidade, negando a dicotomia entre o que é interessante ao público e o que é importante para o público. Segundo elas, a notícia funcionaria como um sistema simbólico duradouro, complexo, que instrui e não se limita às suas partes (informar e entreter). Apesar da aparente contradição entre o que é interessante, atraente e cativante daquilo que é importante e sério (debate que revive os pensamentos de Platão e os conflitos entre Apolo e Dionísio), propomos também que existe lugar para um equilíbrio sobretudo movido pelo uso estratégico da estética, unindo subjetividade e objetividade, sem se deixar cair nos extremos do positivismo incoerente ou do sensacionalismo comercial, que se destaca pela arte do dizer, apreender e convencer.
É nesse sentido que podemos compreender o uso da poética em textos como os que foram aqui analisados (em especial o repertório de Eliane Brum). Tratam-se de exemplos de formas de jornalismo ligadas ao prazer e ao entretenimento e que raramente são vinculados à ideia de sensacionalismo. Há, entretanto, diferenças importantes entre essas produções e o que verificamos em autores como Nelson Rodrigues ou nas publicações da Folha de S. Paulo na década de 1940, que transpunham as sensibilidades do universo real para utilizar ficções puramente inventivas. Para além desses exemplos, é possível observar outros diversos na atualidade que são tanto panfletários quando melodramáticos, e que parecem remontar o tempo dos pasquins. Sobre estes, antes de julgar, é interessante retomar o pensamento da conexão popular sobre a qual nos fala Martin-Barbero:
Somente correndo riscos se pode descobrir a conexão cultural entre a estética melodramática e os dispositivos de sobrevivência e de revanche da matriz que irriga as culturas populares. Uma estética melodramática que se atreve a violar a separação racionalista entre assuntos ‘sérios’ e os temas destituídos de valor, a tratar os fatos políticos como fatos dramáticos e a romper com a ‘objetividade’ observando as situações a partir daquele outro ponto de vista que interpela a subjetividade dos leitores (MARTIN- BARBERO, 2006, p. 250).
O autor nos traz uma dualidade em embate: a produção racionalista e a melodramática. Mas é importante ressaltar que existem formas menos drásticas de se separar o que seria um “jornal referência” e uma imprensa meramente popularesca sensacionalista, fugindo ao binarismo apontado por Martin-Barbero. Compreendemos a existência, por exemplo, de um “jornal popular de qualidade” (AGUIAR; SCHAUN, 2016) e lembramos que produções jornalísticas mais caras (e por isso menos populares, como a Piauí) e análises especializadas mais complexas (de acesso limitado, como as feitas por Brum) se destacam no uso das subjetividades sem que se perca a qualidade. Em todos estes casos, podemos verificar o uso das emoções de forma equilibrada.
É também importante ressaltar que olhar para o diferente de forma impactante, causar choques, não é exclusividade do jornalismo sensacionalista. Relembramos aqui as noções de “choque do real” e de “estranhamento” na construção de um jornalismo das sensações que não ultrapassa os limites éticos que envolvem sua função social e seu público.
É preciso pensar também que o uso de sensações fortes não apenas é necessário como usual, mesmo no jornalismo que se propõe isento e industrial. Muitas vezes, o próprio “jornalismo de referência” abre mão de seus critérios de parcialidade e objetividade para tratar de assuntos em relação aos quais se pressupõe uma unanimidade moral, sobretudo na TV. Assim, temos narrativas chocantes com a morte de celebridades e desastres naturais, ou eufóricas em vitórias esportivas e descobertas tecnológicas, por exemplo. Existe um direcionamento para o bom ou para o ruim. Mudanças da economia também pressupõem tonalidades, por mais que possam significar algo complexo, favorável a uma classe social e desfavorável a outra. Não é comum que tenhamos espectadores revoltados com esse tipo de uso evidente das sensações em comoção, que acusem os jornais de faltarem com a isenção ou de serem sensacionalistas. Parece-nos que uma unanimidade bem constituída blinda determinados assuntos desse tipo de reação.
Podemos compreender que a questão se torna polêmica de acordo não só com o nível de emoção empregado como também do tema tratado, sobretudo com relação aos preceitos já firmados pelo senso comum. Para Letícia Matheus, o sensacionalismo é uma forma de linguagem, e “mesmo os veículos que zelam por uma imagem de seriedade podem se fazer valer rotineiramente dele em momentos estratégicos” (MATHEUS, 2011, p. 35). Márcia Franz Amaral (2011) cita Charaudeau em uma análise à cobertura feita sobre o resgate do grupo de 33 mineiros que ficou soterrado no Chile à 688 metros de profundidade 2010 para sustentar que é comum ocorrer um desvio ao sensacionalismo em casos de comoção
generalizada, como tragédias ou catástrofes, e que dificilmente surgem atores sociais que confrontem esse desvio. Para ela, a emoção é constitutiva do enquadramento desses acontecimentos e por isso a frequência do uso de uma matriz dramática.
Seja pela presença de fontes testemunhais ou de outros recursos narrativos, o apelo à emoção pode ser justificado pela dramaticidade do acontecimento, pode ser utilizado para humanizar o relato, ou ainda para produzir apenas espetáculo e sensação. Assim, o relato da emoção pode tanto sobrepor-se à gravidade social do acontecimento, quanto minimizá-la (AMARAL, 2011, p. 77).
Em tempos de pós-verdade e divisão binária das ideologias no Brasil, é possível viver uma comoção geral com a morte de um artista, por exemplo, mas também presenciar cobranças por mais objetividade dos programas jornalísticos quando o assunto é o assassinato de uma criança moradora de favela pela polícia ou a prisão de um ativista político. Essa observação deixa claro o caráter ideológico e pessoal do que é considerado aceitável ou não como limite das sensações em um noticiário, o que imprime um conflito entre discursos hegemônicos e contra hegemônicos. De modo geral, segundo Amaral, o maior problema nessas situações é a percepção de um determinado exagero, esse sim constituidor do sensacionalismo, por um determinado público. A questão não estaria locada no uso das emoções dentro do texto noticioso, mas em um silenciamento de pontos de vista e contexto muitas vezes provocado por essa euforia direcionadora de uma experiência imediata.
Toda manifestação que revela inconformidade ou tensão é habilmente controlada para não tirar o foco do espetáculo principal. (...) Certos discursos não emergem, são interditados para que somente a singularidade tenha vez. As posições de sujeito disponibilizadas para os testemunhos restringem-se a interpelar a experiência no calor da emoção (AMARAL, 2011, p. 76).
Sabendo que o próprio sensacionalismo, ou seja, o uso exacerbado das emoções com metas mercadológicas, é utilizado de modo estratégico pelas mais diversas mídias, deve-se pensar que a forma de combater esse tipo previsível de distorção é apostar em um estímulo crítico da mídia a partir de seu público, um letramento.
O fazer jornalismo é uma atividade necessariamente humana. É preciso ter, para além de uma visão sensível da realidade, consciência social e moral para ponderar os níveis desse uso da emoção. Compreendemos que o limite, ainda que tênue, se dá a partir da ética e do bom senso de cada grupo de profissionais responsável pela mídia em questão. A fronteira está vinculada à necessidade ou não de causar choques e comoções, no nível dessas afetações e no motivo dessa necessidade, além da avaliação dos seus efeitos. É preciso que os jornalistas
estejam psicologicamente e moralmente preparados para saber pesar o interesse público, o comercial e o impacto de suas matérias. A sensibilidade no jornalismo, aliais, ultrapassa a ideia das "emoções" e deve ser vista de modo mais abrangente e complexo, abarcando inclusive a noção do uso ideológico nos discursos, a percepção e o contato com o mundo. Tudo isso pode ser honestamente exposto e dosado por um profissional competente.
Mais uma vez, alertamos para a importância da humanidade e empatia na produção do Jornalismo Sensível. Nesse momento, tal critério se faz fundamental e borra as arestas das distintas formas de utilizar os afetos na produção noticiosa. Para nosso estudo, estabelecer claramente essa comparação é fundamental na medida em que pretendemos definir e tratar de uma coisa, e não de outra, principalmente em um período histórico marcado por fenômenos que distorcem a percepção social, dentre os quais podemos citar a pós-verdade, o revisionismo histórico, negacionismo, os imperativos de opinião, a amortização da vida, dentre outros. A empatia, que se revela crucial tanto como qualidade do jornalista quanto como objetivo a ser estimulado no leitor, receberá maior atenção no próximo capítulo deste trabalho.