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CAPÍTULO I – Da necessidade de uma comunicação mais sensível

1.4 Sensibilidade e Pós-Verdade: efeitos colaterais

Não é difícil compreender o que fala Maffesoli acerca do retorno dos afetos na pós- modernidade. Verificamos empiricamente diferentes e desordenados fenômenos nos quais a subjetividade ganha destaque no cotidiano, causando a quebra de narrativas antes firmadas. Segundo levantamento do Edelman Trust Barometer29, entre 2005 e 2019 a confiança nas instituições formais sofreu abalos significativos enquanto a relação interpessoal ganhou força. Assim, discursos antes silenciados encontraram espaço. É nessa onda que mensagens de WhatsApp enviadas por conhecidos passam a ter mais credibilidade do que a mídia tradicional e que criadores de conteúdo informal em plataformas como o YouTube começam a ser tidos como influenciadores mais importantes do que colunistas ou apresentadores de telejornais.

Além da desconfiança com as instituições, podemos citar a intensificação do revisionismo histórico30, do mito e da propaganda sobrepondo a lógica em cenários políticos e da recentemente caracterizada “pós-verdade” como produtos dessa nova era. Voltamos a pensar nas contradições deste período para relativizar a ideia de que, ao mesmo tempo em que uma realidade pensada através das emoções se torna mais plural e dilatada, o ser social imerso em uma lógica de consumo acelerado é quase sempre tomado por afetos imediatos, sem experimentação e por isso sem crítica e reflexão. Dessa forma, esse mesmo universo que se abre em possibilidades pode se tornar simples, imediatista e polarizado.

Após diversos eventos políticos inesperados em todo o mundo, o termo post-truth (pós-verdade) foi eleito pelo Dicionário Oxford como “a palavra do ano” em 201631. O adjetivo relaciona ou denota “(...) circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (POST- TRUTH, 2019, tradução nossa). Trata-se de um neologismo que representa a compreensão de que a verdade é relativa e mutável: a partir dela surgem novas formas de relacionamento com

29 A Elderman é uma empresa global de comunicação responsável por diversas pesquisas no campo. Na 19ª edição, o Edelman Trust Barometer 2019 mede pela décima oitava vez os índices de confiança de governos, empresas, ONGs e mídia. A pesquisa ouviu mais de 33 mil pessoas em 27 países, com o trabalho de campo realizado entre 19 de outubro e 16 de novembro de 2018.

Disponível em: <https://www.edelman.com/sites/g/files/aatuss191/files/2019-

03/2019_Edelman_Trust_Barometer_Brasil_Report.pdf?utm_source=download> Acesso em: 27 nov. 2019. 30 Também conhecido como “negacionismo histórico”, o termo indica a reinterpretação da história baseada em uma determinada ambiguidade ou crença de que houve manipulação do que se aceita como fato histórico. O termo é utilizado de forma bastante ampla, se referindo tanto à recuperação de histórias inviabilizadas como as de matrizes africanas quanto para suportar alegações que dizem, dentre outras coisas, que o holocausto nunca existiu.

31 O dicionário citou dois casos que teriam alavancado o uso do termo no debate político internacional em 2016: a decisão do Reino Unido em sair da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. Disponível em: < https://languages.oup.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2016> Acesso em: 12 jun. 2019.

os meios de comunicação e a opinião pública32. Não por acaso, neste mesmo ano a presidente eleita Dilma Rousseff sofreu processo de impeachment durante uma semana na qual três das cinco notícias mais compartilhadas por usuários brasileiros no Facebook eram falsas33. Tal mudança de perspectiva traz consigo rearranjos perigosos. A proliferação de notícias com conteúdo ficcional, num processo gradual, causa a banalização da mentira e relativiza a verdade para cada sujeito. Ocorre um “acredito, logo estou certo”. Dessa forma, observamos teorias sem embasamento científico ganharem cada vez mais adeptos pelo mundo, como a de que o planeta Terra teria uma estrutura física plana em vez de geoide34, e também as

campanhas contra a vacinação, que afirmam que os medicamentos desse grupo não teriam efeito prático de prevenção, em vez disso causariam danos à saúde dos usuários35.

32 Eliane Brum utiliza o termo “autoverdade” em um texto no qual relata o aumento do registro de doenças psicossomáticas no país, como ansiedade, depressão, taquicardia e falta de ar, desde as eleições de 2018, quando Jair Bolsonaro se tornou presidente do Brasil e intensificou-se a polarização política. De acordo com relatos dos médicos, o principal fator seria social e não teria a ver com a estrutura pessoal dos indivíduos. Diz ela que “Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e, portanto, destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só.”

Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/01/opinion/1564661044_448590.html> Acesso em: 05 ago. 2019.

33 Um levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP, divulgado no dia 17 de abril de 2016 pela BBC Brasil, revelou que 3 das 5 reportagens mais compartilhadas por brasileiros no

Facebook entre 4 e 8 de abril, semana anterior à votação do impeachment na Câmara dos Deputados, eram

falsas: "Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$30 bilhões à Friboi", "Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: 'Atirar para matar'" e "Lula deixa Brasília às pressas ao saber de nova fase da Lava-Jato. Seria um mandado de prisão?"

Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/04/160417_noticias_falsas_redes_brasil_fd> Acesso em: 7 maio 2019.

34 Apesar de a ciência já ter reconhecido a estrutura circunférica da Terra desde 200 anos a.C., de acordo com uma pesquisa do Instituto Datafolha publicada pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 14 julho de 2019, 7% dos brasileiros são terraplanistas, ou seja, cerca de 11 milhões de pessoas no país seguem a crença de que a terra é plana, teoria que foi remontada pelo inglês Samuel Rowbotham ainda no século XIX com base em leituras literais da Bíblia.

35 Essa teoria indica, ainda, que haveria um grande pacto entre governos e indústrias farmacêuticas para vender vacinas, que em vez de ajudar na prevenção de doenças, seriam capazes de causar até autismo. Os grupos que se recusa a vacinar a si e ao seus filhos foi alavancado nos últimos anos por páginas das redes sociais que divulgam pesquisas sem base científica. Em uma verificação rápida no Facebook, encontramos mais de 24 mil seguidores em cinco diferentes grupos brasileiros abertos com essa temática: “O lado obscuro das vacinas” (12 mil membros), “Sou contra a Vacina HPV” (5,9 mil membros), “VACINAS: O maior CRIME da história” (5 mil membros), “Debatendo sobre as vacinas” (550 membros) e “Vacinas X Religião” (560 membros). Esses movimentos vêm sendo apontados como um dos principais fatores para o recente surto de sarampo na Europa, onde mais de 41 mil pessoas foram infectadas nos primeiros seis meses de 2018, segundo alerta emitido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O número foi um recorde na década para o período verificado. No Brasil, o movimento também preocupa. Apesar de o país contar com um dos mais reconhecidos programas públicos de vacinação do mundo, em 2018, por exemplo, a cobertura da segunda dose da vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) teve adesão de apenas 76,7% do público-alvo. Em 2019, o movimento antivacina passou a ser considerado pela OMS como uma das dez maiores ameaças à saúde mundial.

No Brasil, o caso parece ainda mais grave. De acordo com uma pesquisa encomendada pela BBC em 2017 à empresa canadense de opinião pública GlobeScan, o país é o mais preocupado do mundo com notícias falsas (BBC, 2017). Não é para menos, já que cerca de doze milhões de brasileiros difundiam conteúdo de desinformação pelas redes sociais neste mesmo ano (MARTINS, 2017).

Interpretados sobre a concepção de Maffesoli, todos os fenômenos supracitados são claramente pós-modernos, ainda que evidenciem uma perspectiva bem menos otimista do que normalmente nos traz o autor. Trata-se de um efeito colateral que potencializa a formação de espaço para ações nada naturais orquestradas em “estratégias sensíveis36”, como nos explicou

Sodré (2002).

É verdade que as mídias e a propaganda têm mostrado como estratégias racionais não espontâneas podem instrumentalizar o sensível, manipulando os afetos. Na maioria das vezes, porém, tudo isso se passa em condições não apreensivas pela consciência. Se já nas estratégias discursivas a consciência do sujeito não reina em termos absolutos sobre sua posição de falante, muito menos comandam a consciência e racionalidade calculadora no tocante à zona obscura e contingente dos afetos, matéria da estética considerada em sentido amplo, como modo de referir-se a toda a dimensão sensível da experiência vivida (SODRÉ, 2002, p. 11).

Apesar de ser um tema recente e, por isso, ainda pouco estudado, a pós-verdade é bastante debatida por autores como Noam Chomsky (2013) e Matthew D’Ancona (2018), que realizaram estudos sobre o caso Donald Trump. Desde a campanha, o presidente estadunidense incentivou que seus apoiadores descreditassem imediatamente quaisquer informações que pudessem afetar sua imagem e seu governo, veiculadas com certa frequência na imprensa. A partir disso, a verdade fica em segundo plano. Passa a ser mais importante produzir e acreditar em argumentos que reiterem um pensamento já formado em vez de se permitir descobrir novos pontos de vista ou qualquer prova que contradiga ideias iniciais.

Trump é o beneficiário improvável de uma filosofia de que ele, provavelmente, nunca ouviu falar e, sem dúvida, menosprezaria. Sua ascensão ao cargo mais poderoso do mundo, desimpedida da preocupação com a verdade, acelerada pela força impressionante da mídia social, foi, ao seu modo, o momento pós-moderno supremo (D’ANCONA, 2018, p. 88).

36 As “estratégias sensíveis” relatadas por Muniz Sodré seriam uma aposta na comoção popular através das emoções e dos mitos, subjugando movimentações puramente objetivas. Segundo ele, essa forma de estratégia se provaria mais rápida e eficaz do que os meios racionalistas na influência de um determinado público. Esse tipo de estratégia pode ser facilmente observado em publicidades e campanhas políticas. Em seu livro “As estratégias sensíveis”, o autor analisa casos como o do discurso hitlerista na Alemanha e a eleição de Luís Inácio Lula da Silva no Brasil.

No Brasil, temos um caso parecido. A exemplo de Trump, o presidente Jair Bolsonaro (democraticamente eleito em 2018 após a divulgação de incontáveis notícias falsas37 a seu favor, ou que atacavam seu então adversário de campanha, Fernando Haddad) pareceu tirar proveito estratégico da era da pós-verdade em diversos momentos. Foram várias as tentativas de desmentir essas ideias, tanto pela grande mídia como por aqueles que tinham sua reputação afetada constantemente nas redes de desinformação ou fake news38 (personalidades normalmente ligadas à esquerda, aos direitos humanos ou a questões ambientais). Ainda assim, a divulgação e crença nesses boatos foi incontrolável e tornou-se responsável, em parte, pela eleição de Bolsonaro à presidência.

No intervalo de 20 dias entre as votações de primeiro e segundo turnos da eleição de 2018, foram verificadas 228 diferentes histórias falsas disseminadas em redes sociais da internet ou aplicativos de troca mensagens (CHAVES; BRAGA, 2019). Uma pesquisa da consultoria Atlas Político divulgada pelo jornal Valor Econômico em outubro de 201839 mostrou que 36% dos eleitores brasileiros acreditavam que os Governos do Partido dos Trabalhadores haviam distribuído o chamado “kit gay” em escolas públicas. Também segundo a consultoria, 15% dos entrevistados afirmaram acreditar que Fernando Haddad defendeu o fim do "tabu do incesto", desinformação publicada nas redes sociais pelo ideólogo de direita Olavo de Carvalho. Já a afirmação de que uma “grande revista” teria recebido R$ 600 milhões para falar mal de Jair Bolsonaro, feita pela deputada eleita do PSL de São Paulo, Joice Hasselmann, foi tida como verdadeira por 35% dos eleitores.

Mesmo depois de eleito, o presidente continuou aproveitando o que foi estabelecido na pós-verdade para a manutenção de sua imagem. Podemos exemplificar a afirmação com uma publicação do dia dez de março de 2019, pelo Twitter presidencial, na qual Bolsonaro

37 Notícias falsas como as do kit gay e da mamadeira erótica, por exemplo, foram duas das mais replicadas durante o ano. Na primeira, dizia-se que os partidos de esquerda (oposição à Bolsonaro) distribuiriam kits nas escolas primárias para ensinar as crianças de até seis anos a serem homossexuais com a desculpa do combate à homofobia. Na segunda, dizia-se que uma mamadeira com o bico em formato do órgão sexual masculino iria ser distribuída nas escolas públicas caso o candidato do PT, Fernando Haddad, fosse eleito. No segundo turno das eleições de 2018, a agência de checagem Lupa, em um trabalho envolvendo os professores Pablo Ortellado (USP) e Fabríco Benevenuto (UFMG), mapeou as imagens mais compartilhadas em uma amostra de 347 grupos de WhatsApp e concluiu que apenas 8% delas continham informação verdadeira.

38 Termo em inglês para a divulgação de notícias falsas, publicadas, inicialmente, por plataformas que imitavam padrões de redes oficiais de jornalismo e que são produzidas com o intuito de confundir a percepção do público. Com o tempo, porém, o termo foi ressignificado diversas vezes ao bel prazer do usuário. A técnica já foi utilizada em favor de campanhas políticas em vários locais do mundo, incluindo Estados Unidos e Brasil. A distorção semântica foi tanta que Donald Trump já acusou um jornalista de ser fake news, por exemplo, com a marcante frase “you are fake news”.

39 Disponível em: https://valor.globo.com/politica/coluna/fake-news-anti-pt-alcancam-um-terco-do- eleitorado.ghtml Acesso em: 09 dez. 2019.

compartilhou uma notícia falsa do site “Terça Livre” com acusações à jornalista Constança Rezende, sobre a qual escreveu o seguinte:

Constança Rezende, do “O Estado de SP” diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otávio, profissional do “O Globo”. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos (sic).

De acordo com o que é descrito na publicação compartilhada, Constança teria dito em uma gravação que, através do seu trabalho jornalístico investigativo, “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”. A frase, no entanto, não está nos áudios divulgados pelo próprio site. Assim, a publicação de Bolsonaro parece ter a finalidade apenas de atacar diretamente dois grandes jornais do país, O Globo e o Estado de S. Paulo. Apesar de diversas provas de que se tratava de uma informação falsa, o presidente eleito não voltou atrás, não apagou a postagem, nem fez qualquer tipo de retratação até a publicação dessa pesquisa. Um dia depois (11 de março), Bolsonaro voltou a postar acusações através da sua conta do Twitter, dessa vez insinuando que uma publicação do site do jornal Folha de S. Paulo40 sobre uma mudança na coordenadoria das redes sociais do governo seria “fake news”. A informação, porém, havia sido publicada no Diário Oficial da União. Já em 12 de abril, seis dias após uma patrulha do exército brasileiro alvejar um carro de uma família no Rio de Janeiro com mais de 200 tiros, assassinando o músico Evaldo Rosa dos Santos e o catador de papel Luciano Macedo por supostamente ter confundido o veículo com o de bandidos, o presidente se pronunciou dizendo que “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente” (informação verbal)41. O comentário tardio foi feito apesar de, nestes seis dias, vídeos amadores da execução terem circulado por todo o país através da internet e da TV. Nos três casos, fica clara a tentativa consciente de relativizar o real.

O projeto de descrédito dos veículos de imprensa parece ter sido arquitetado para servir de ferramenta durante todo o governo já que, logo após a eleição, Bolsonaro divulgou em suas redes sociais cinco canais amadores online de apoiadores explícitos pelos quais as pessoas deveriam se informar, negando mais uma vez a mídia tradicional como fonte legítima

40 O jornal virtual de A Folha de S. Paulo publicou no dia onze de março de 2019 a seguinte manchete: “Após polêmicas, governo Bolsonaro escala militar para coordenar redes sociais”. As polêmicas referidas tratam do caso em que Bolsonaro usou a conta presidencial do Twitter para divulgar vídeos com nudez e atos sexuais explícitos para seus mais de 3,5 milhões de seguidores durante o carnaval de 2019. De acordo com o político, o vídeo seria exemplo do que estariam se tornado “muitos blocos de rua”.

41 Fala proferida por Bolsonaro à imprensa no dia 12 de abril de 2019, em Macapá, onde estava para inauguração de um aeroporto.

de informação. Ao desmerecer a imprensa em uma longa construção de sentidos, Bolsonaro desenvolve um terreno político reativo a quaisquer tipos de denúncias, blindando suas ações através da pós-verdade diante de um público cada vez mais fechado em bolhas de informação, que aprende a não confiar em nada além do que confirme suas próprias crenças pré- produzidas.

Podemos verificar que a estratégia sensível do poder instituído parte normalmente de uma base real – a de que a imprensa nem sempre mostra a verdade ou toda a verdade – e aproveita a inconsistência do pretencioso discurso de imparcialidade e objetividade jornalísticos para generalizar e desqualificar qualquer produção que possa se converter em crítica ao governo. Por tomar como ponto de partida uma realidade e uma contradição verificadas no cotidiano, essa estratégia ganha força e seus detentores se veem credenciados a produzir invenções, conforme destrincha Moretzsohn:

Essa tática combina dois elementos fundamentais. Um deles é a exploração de medos arcaicos que afetam a sensação de estabilidade, real ou imaginária, das pessoas – daí a ressurreição do fantasma do comunismo mesmo tantos anos depois da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, a disseminação da ideia do perigo representado pelo imigrante pobre ou pelo refugiado e de tudo o que abala os valores tradicionais da família. O outro é a estratégia discursiva, que sempre parte de alguma verdade para depois distorcê-la. Assim ocorre quando se acusa a imprensa de mentir ou deturpar informações: isso de fato acontece, como tantos estudos acadêmicos já comprovaram – por maiores que sejam as diferenças entre a imprensa norte- americana e a brasileira –, mas a conclusão é diametralmente oposta à desses estudos e leva a rejeitar tudo o que se origina dessa fonte. No Brasil, chega- se ao cúmulo de acusar a Globo e outros grandes meios de “comunistas”, o que pode ser visto como resultado da campanha ideológica direcionada para a base que começou a se consolidar durante as mobilizações populares de contestação ao governo de Dilma Rousseff, já nas manifestações de 2013, mas, sobretudo, após a reeleição da presidenta (MORETZSOHN, 2019, p. 579).

Através dos estudos de Efeito de Mídia Hostil42 (VALLONE; ROSS; LEPER, 1985) e

de Receptividade Comportamental43 (BROCK; BALLOUN, 1967) podemos entender que é

natural que um público dê mais atenção a conteúdos que reiteram suas próprias convicções e que trate aqueles contrários a elas como enviesados, o que reforça a amplitude de fenômenos como negacionismo e desinformação. Neste contexto, a mídia tem o papel fundamental de recosturar as coisas, estimular um pensamento reflexivo e empático, abrir caminhos para

42 Que mostram que diferentes grupos com uma opinião já formada tendem a fazer leituras da mídia de forma distintas, quase sempre compreendendo que a narrativa era tendenciosa e contra seus posicionamentos iniciais. 43 Que mostra que as pessoas tendem a dar mais atenção às informações que confirmam suas vontades e crenças em detrimento daquelas que as questionam.

novas percepções e combater uma polarização das ideias que coloca as pessoas enquadradas em padrões ideológicos preestabelecidos.

Voltamos a Bondía (2002) para lembrar que, além da avalanche de informações, o excesso de opinião é um dos fatores que nos afasta da experimentação da vida. Podemos compreender que esse “excesso” descrito pelo autor se converte em imperativos de opinião baseados em indícios do senso comum. Através deles, qualquer coisa pode ser justificada. Na era da pós-verdade, informações incorretas, distorções, negacionismo, desconhecimento, insultos, difamações, mentiras e até mesmo crimes passam a ser legitimados através da égide da opinião, sem sequer haver a necessidade de argumentos. De acordo com o autor, trata-se de uma arrogância que limita o sujeito. Há uma produção própria de sentidos sobre o real em um