2. A PEDRA - O REINO DE QUADERNA
2.5. AS LEITURAS DE QUADERNA
A leitura do Romance da pedra do reino nos proporciona o envolvimento com uma construção literária em andamento. O narrador conta-nos sua aventura ao longo das páginas ao mesmo tempo em que esta toma corpo e é registrada, como ocorre, por exemplo, durante o depoimento na qual a secretária do Corregedor toma nota da fala de Quaderna. As citações de excertos longos de textos, a apropriação, as abundantes referências textuais e abertura para o diálogo com outras formas de discursos são inúmeras no decorrer da narrativa. Parte dessas referências, em nossa interpretação, embasa a formação intelectual do personagem, cuja funcionalidade dialoga com a sátira menipeia, de acordo com os apontamentos de Frye, em que a apresentação de longos diálogos opera-se no propósito de discutir questões de ordem enciclopédica demonstrando a capacidade intelectual dos personagens (FRYE, 1973, p. 305). Desse
modo, o romance pode ser dividido em dois grandes blocos: do folheto inicial ao XLVIII — em que Quaderna apresenta suas origens, processo de formação intelectual, atividades que exerce em Taperoá, visita à Pedra do Reino, etc. — e do folheto XLIX (A cadeia) até o final do romance — em que Quaderna presta um longo depoimento ao Corregedor e repete boa parte das informações apresentadas no primeiro bloco reforçando assim sua capacidade e ambição intelectual. Assim, listaremos alguns títulos mais recorrentes na narrativa do Romance da pedra do reino, indicando a tipologia de cada discurso. Nosso intuito é o de demonstrar a formação intelectual de Quaderna e como esse percurso literário acaba por incorporar-se como um “escudo protetor” diante do depoimento que Quaderna prestará, a defesa de Quaderna é sua fala e seu conhecimento.
Da cultura popular, geralmente obras anônimas, podemos citar, principalmente: a Cantiga de la Condessa (p. 51, 53), História de Carlos Magno e dos doze pares de França (p. 56-139-220-379- 446 e 449), Nau Catarineta (p. 95). Os folhetos e romances: Abecê de Jesuíno Brilhante (p.91), História de Roberto do diabo da autoria de João Martins de Athayde (p. 280), personagens como João Malazartes e Cancão (p. 72), são largamente citados por Quaderna. Há os romances de exemplo, como Exemplo dos quatro conselhos (p. 63) e os romances cangaceiros e cavalarianos, como O encontro de Antônio Silvino como valente Nicácio. Visconde de Montalvão e Carlos Dias Fernandes são autores de folhetos eróticos, como A Afilhada do Monsenhor Agnelo ou O castelo do Amor, O Homem da Rua do Fogo, A Prostituta no Céu (p. 70 ).
Ao conhecer um folheto que cantava as honras de tal Barão Afonso Durval, Quaderna pressente que é momento de criar um folheto sobre os acontecimentos da Pedra e seus antepassados: “Eu já não me sentia mais envergonhado, e sim orgulhoso, de pertencer à Casa Real da Pedra do Reino, de modo que já andava era com medo de rivais.”( p. 66).
Pede então a João Melquíades, o Cantador da Borborema, e mestre na arte dos folhetos para que escrevesse um romance sobre a Pedra do Reino. Assim, aos folhetos e autores conhecidos historicamente juntam-se o mundo fictício, obra de Quaderna e outros personagens da narrativa. Quaderna reconhece que esse tipo de literatura é de alcance bem mais rápido e popular. O seu projeto maior, no entanto, abarcará também esse tipo de literatura. A ambição de escrever uma obra grandiosa não é uma cobiça somente de Quaderna, pois seus mestres eruditos, Samuel e Clemente também o ambicionam. A obra que Samuel prepara intitula-se O rei e a coroa de esmeraldas (p. 118, 274). Tal obra, segundo Samuel é diretamente influenciada por outras de porte maior e mais
conhecido como Demanda do Santo Graal, Bosco deleitoso e Castelo perigoso (p. 137).
Também Clemente é autor de uma obra chamada Tratado Negro Comunista da Filosofia Vermelha do Penetral (p. 274). Quaderna experimenta através da leitura dos folhetos a possibilidade de superação de sua condição de sertanejo pobre: “Minha vida, cinzenta, feia e mesquinha, de menino sertanejo reduzido à pobreza e à dependência pela ruína da fazenda do Pai, enchia-se dos galopes, das cores e bandeiras das Cavalhadas, dos heroísmos e cavalarias dos folhetos.”(p. 62.)
Os almanaques merecem um certo destaque, pois formatam o lado prático do modo de vida do sertanejo. Ainda hoje, almanaques são utilizados em regiões afastadas como guias meteorológicos ou de produção agrícola: Almanaque de Campina Grande (p. 131), Lunário perpétuo (p. 184, 296, 436, 447, 585.), Almanaque do Cariri (p.
448,456,473, 485,487, 531,536). Almanaque Charadístico e Literário Luso Brasileiro (p. 30, 95-96, 131, 146, 225, 282, 283, 289, 295, 333, 342, 369, 619.) sobre o Lunário perpétuo15 informa-nos o famoso folclorista Luis da Câmara Cascudo:
Foi durante dois séculos o livro mais lido nos sertões do Nordeste, informador das ciências complicadas de astrologia, dando informações sobre horóscopos, rudimentos da física, remédios estupefacientes e velhíssimos. Não existia autoridade maior para os olhos dos fazendeiros e os prognósticos meteorológicos, mesmo sem maiores exames pela diferença dos hemisférios, eram acatados como sentença. Foi um dos livros mestres para os cantadores populares, na parte que eles denominavam “ciência” ou “cantar teoria”, gramática, história, doutrina cristã, países da Europa, capitais, mitologia. É o volume responsável por muita frase curiosa, dita pelo sertanejo, e que provém de clássicos dos sécs. XVI e XVIII. A primeira edição é de Lisboa, em 1703, na casa de Miguel Menescal. O título inteiro, depois amputado nos volumes editados na última década do séc. XIX, denuncia o plano da “ciência popular”: “O Non Plus Ultra do Lunário e Prognóstico Perpétulo, Geral e Particular para Todos os Reinos e Províncias, Composto por Jerônimo Cortez, valenciano, emendado conforme o Expurgatório da Santa Inquisição e traduzido em português”. Registra um pouco de tudo, incluindo astrologia, receitas medicas, calendários, vidas de santos, biografias de papas, conhecimentos agrícolas, ensinos gerais, processo para construir um relógio de sol, conhecer a hora pela posição das estrelas, conselhos de veterinária. (CASCUDO, 1984, p.
446)
O Chernoviz (p. 585), na verdade Formulário de guia médico e o Dicionário de medicina popular, escritos pelo Dr. Pedro Luiz Napoleão Chernoviz e publicado em
15 O múltiplo artista pernambucano Antonio Nóbrega tomou por empréstimo o título Lunário Perpétuo para montar o seu mais recente espetáculo, no qual toca, canta, representa e dança, dando mostras do seu compromisso com a cultura brasileira, na essência lúdica que encanta, sempre, as platéias do País. O artista fez do seu espetáculo um DVD, enriquecendo a apresentação com imagens, cortes temporais, colagens e outras técnicas do teatro e do cinema, que a tecnologia permite reunir, para deleite dos assistentes.
(...)
Nóbrega tem formação diversa da de Luiz Gonzaga, estudou música, aprendeu instrumentos, formou ao lado de outros no Quinteto Armorial, sob orientação estética de Ariano Suassuna, mas com certeza recebeu influência de Luiz Gonzaga e de artistas populares, das feiras nordestinas, para construir suas criações, espetáculos e o personagem Tonheta, síntese dos artistas que trocaram os nomes pelos vulgos, como os palhaços, os Mateus dos grupos folclóricos com suas máscaras. (BARRETO, 2009)
1841, representam esse caráter popular de utilizar-se de determinadas obras como guias para saúde:
Até fins do século XIX, a reduzida corporação médica brasileira se concentrava na Corte do Rio de Janeiro e em Salvador, com expressão secundária nas capitais de algumas províncias.
Havia uma completa carência de médicos nas vastas regiões rurais por onde se dispersava a maioria da população brasileira. Os manuais de medicina popular do dr. Chernoviz, muito mais que o contato regular com os médicos, foram um instrumento essencial para disseminar práticas e saberes aprovados pelas instituições médicas oficiais no cotidiano daquela população. (GUIMARÃES, 2005, p. 502)
Na narrativa de O romance da pedra do reino é Lino Pedra Verde quem discursa sobre o valor incontestável desses “manuais”: “Eu li o Lunário Perpétuo e o Chernoviz, assim como o Tarô Adivinhatício, de modo que conheço certas coisas bastante misteriosas e capacitórias, coisas que dão pr´o gasto!” (SUASSUNA, 1972, p.
585.)
Destaca-se ainda o Compêndio narrativo do peregrino da América, de Nuno Marques Pereira (p. 4, 148), obra da qual Quaderna busca inspiração para a escrita do Compêndio peregrino do sertão, uma de suas ambições literárias. A obra de Nuno Marques Pereira mereceu atenção no estudo de Flora Sussekind ao comentar que esse diário de viagem, juntamente com outras obras: “[...] mantêm-se numa região ambígua em que misturam, de um lado, o relato puro e simples de viagem, e, [...] no outro a alegoria e o “diálogo filosófico”, movidos pela tentativa de construção dessa utopia negativa que seria o Brasil da “cobiça”, da “luxúria” e das minas de ouro no ...
peregrino da América.” (SUSSEKIND, 1990, p. 133).
Especificamente sobre os acontecimentos na Pedra do Reino, Quaderna retoma discursos históricos como Memória sobre a Pedra Bonita, ou Reino Encantado, na comarca de Vila-Bela, província de Pernambuco, da autoria de Antônio Attico de Souza Leite (p. 33 a 35, 47 a 47), a Carta-relatório de Francisco Barbosa Nogueira Paes, prefeito de Flores à época dos acontecimentos, e ainda textos de Francisco Benício Chagas e Pereira da Costa (p. 30). Nas longas citações utilizadas por Quaderna de textos historiográficos, é que encontramos a utilização mais representativa da paródia, de acordo com os apontamentos de Hutcheon: “A paródia é, pois, repetição que inclui diferença; é imitação com distância crítica, cuja ironia pode beneficiar e prejudicar ao mesmo tempo.”(HUTCHEON, 1985, p. 54). A obra de Antonio Attico de Souza Leite é a que sofre mais recontextualização, pois além de apropriar-se de trechos completos sobre os acontecimentos, citando-os no corpo do texto, Quaderna altera informações,
omite trechos, substitui frases, destaca com iniciais maiúsculas alguns vocábulos intencionando modificar o olhar preconceituoso e incomodativo que tais acontecimentos ainda provocam. Sobre essas alterações, claramente conscientes por parte do narrador, Sônia Lucia Ramalho de Farias destaca em seu estudo, já citado anteriormente, como o discurso oficial posiciona-se sobre o acontecimento messiânico e como Quaderna, pela via ficcional, tenta modificá-la:
As alterações são muitas e não podem ser vistas apenas no seu aspecto formal. Elas acarretam sobretudo uma mudança de sentido de um texto para outro. Assim, o conhecimento que o leitor vai adquirindo da narrativa do cronista pernambucano já se acha carregado de uma significação suplementar. Os suplementos introduzidos pela leitura de Quaderna, recriam a partir dessa matriz textual, um outro texto em que se amalgamam dados históricos e dados fictícios e onde os eventos do fenômeno messiânico da Pedra do Reino, romanescamente reinterpretados, dão margem a reverberações do imaginário da cavalaria.
(FARIAS, 2006, p. 361)
Quaderna aproveita seu largo conhecimento literário para divulgar opiniões sobre escritores canônicos. José de Alencar figura entre os mais citados, assim como suas obras, deixando transparecer a influência que exerce sobre a concepção crítica de Quaderna acerca da literatura. O sertanejo (p. 131, 212, 287 e 618), Lucíola (p. 131 e 286), O Guarani (p. 287) e As minas de prata (p. 322) são as mais citadas pelo narrador.
Contrapondo-se a isso, trata de maneira jocosa o respeitado autor Ruy Barbosa, citando-o ccitando-omcitando-o exclusivcitando-o autcitando-or da façanha de saber vinte e citando-oitcitando-o sinônimcitando-os de “prcitando-ostituta”, façanha que Quaderna procura superar, como já foi tratado nesse trabalho. Desse modo, opera-se um processo de inversão associado à carnavalização sobre escrita e escritor. É nessa vertente que Quaderna propõe a teoria sobre os diascevatas, para autopromover-se como erudito e para defender-se diante do Corregedor, lembrando que os diascevatas seriam os compiladores ou responsáveis pela reunião dos poemas clássicos atribuídos a Homero, a Odisséia e a Ilíada (p. 269) propondo, portanto, que Homero é uma invenção. Outra tentativa quadernesca de aproximar literatura erudita e popular é novamente a partir da citação de Homero e sua obra ao classificar os guerreiros gregos como “Cangaceiros gregos”( p. 364, 501). O mote sobre apropriação alarga-se quanto ao tema da tradução, apresentado pelo personagem Samuel, de que o autor que traduz uma determinada obra torna-se o autor nacional dessa obra. Novamente cita-se Homero, traduzido por Odorico Mendes, Virgílio e ainda Cervantes e Dante (p. 501), assim como outros autores clássicos como Camões (p. 504 e 507) e Milton (p. 504). Poetas nacionais como Raymundo Correia (p. 472) e Olavo Bilac (p. 500) também são
lembrados, assim como Augusto dos Anjos (p. 498), retomando nomes representativos do parnasianismo e simbolismo.
Euclides da Cunha (p. 333, 604 e 642) é, ao lado de José de Alencar, o precursor de Quaderna, segundo sua própria análise e pretensão. A obra de Euclides de Cunha está totalmente associada ao projeto literário de Quaderna:
Euclydes da Cunha é, também, meu Precursor, como José de Alencar: é recusado, ao mesmo tempo, pela Direita e pela Esquerda, e ainda foi membro da Academia Brasileira de Letras.
Com essa autoridade que o torna indiscutível, ele demonstra no seu tratado Os Sertões que o nosso Sertão tem uma face de Inferno e Paraíso. Acontece, porém, que Euclydes da Cunha, por mais genial que fosse, era apenas um precursor meu: não era Astrólogo e Decifrador, nem era o Gênio da Raça Brasileira, de modo que não sabia que, na verdade, a face do Sertão é tripla, e não dupla! É o Inferno, o Purgatório e o Paraíso; uma parte macha, uma outra macha-e-fêmea, e outra somente fêmea — a Saturnal, a Solar e a Lunar.
(SUASSUNA, 1972, p. 333. itálicos do autor.)
Nesse trecho podemos observar como Quaderna reinterpreta o espaço do Sertão elevando-o a uma dimensão de hiperrealismo, como já foi qualificada a obra de Suassuna. O projeto literário de Quaderna reorganiza o espaço sertanejo já registrado em obras anteriores que são, no entanto, incompletas: “Todo escritor, portanto, que queira escrever sobre o Reino sagrado do Sertão — único assunto digno do gênio, como provou Fagundes Varela — tem que beber desse Vinho, nem que seja na fórmula incompleta de Alencar, Euclydes da Cunha e Antônio Attico de Souza Leite.”
(SUASSUNA, 1972, p. 604)
Após deixar a cadeia Quaderna descreve um sonho em que finalmente ocorre o seu reconhecimento como escritor consagrado. Novamente os três escritores são citados como os responsáveis pelo coroamento do autor e obra definitiva:
Então, acolitado por Dom José de Alencar — Fidalgo sertanejo da Direita — e por Dom Euclydes da Cunha — Fidalgo sertanejo da Esquerda — o Arcebispo da Paraíba me coroava finalmente com Rei da Távola Redonda da Literatura do Brasil, ante a alegria delirante do Povo Brasileiro e ao som de uma Música sertaneja de tambores, pífanos, triângulos, violas e rabecas. (SUASSUNA, 1972, p. 642).
A tríade dos autores que revelaram o sertão está finalmente formada no sonho de Quaderna. Legitima-se novamente a “ideologia da conciliação” (FARIAS, 2006, p. 503) embasadora do projeto de Quaderna e exemplificado em outros motes como a da religiosidade a partir da criação do “catolicismo sertanejo” idealizada em movimentos de cunho religioso-popular como foi o da Pedra do Reino. Essa conciliação, no entanto, não é o ponto final de uma busca, mas um entremeio que embasa a realização de sua grande obra literária e pessoal. O objetivo de Quaderna é a
escritura da obra definitiva sobre o sertão. O exercício de intertextualidade que promove durante toda a narrativa, destacando, afinal o trabalho do historiador, do romancista e do ensaísta (se é que podemos enumerar dessa forma) deixa-nos entrever a proposta de Quaderna ao almejar superar os mestres, busca natural do poeta, como lembra Horácio na Arte poética: “o flautista que toca no concurso pítico estudou antes e temeu o mestre.”( 1992. p. 67).
Ao revestir-se com a força da palavra, Quaderna protege-se com uma espécie de escudo metaforicamente associado a seu conhecimento de mundo (sátira menipéia) e à esperteza própria de sua personalidade. É provido dessas forças que enfrentará o Corregedor.