3. ANÁLISE
3.2. Recorte metodológico e análise dos vídeos do Bloco X
3.2.6. As melhores Catfights do cinema neste BLOCO X!
Este vídeo é um exemplo pertinente sobre a participação ativa que o telespectador do Bloco X exerce na formulação do programa. Logo de início, Carol
Moreira fala, com o olhar direcionado à câmera, portanto, à audiência, e diz que o conteúdo a ser tratado no episódio foi recomendado por um telespectador. Além de ilustrar o diálogo entre as esferas da produção e da recepção, este vídeo evidencia que, apesar do quadro ser apresentado por mulheres, elas não levantam bandeiras ideológicas ou tentam doutrinar sobre qualquer vertente feminista. Tanto que o tema acatado pelas integrantes são “As melhores Cat Fights do cinema”: termo103 é utilizado para retratar
situações em que duas mulheres se envolvem numa briga com agressão física, e retrata um teor machista, já que, conforme será analisado pelas apresentadoras, a maioria das cenas é do “tipo besta, sensual”, segundo Bridi.
Neste contexto, Natália Bridi fala sobre a personagem interpretada pela atriz Pam Grier no filme Coffy: Em Busca da Vingança, de 1973. De acordo com Bridi, “ela dá um empurrão na mulher, abre o vestido, fica lá os ‘peitão’. Aí ela dá um empurrão, a blusa da outra abre”, o que torna evidente a forma através da qual, pelo menos durante um longo período, os conflitos femininos foram retratados na sétima arte. Por outro lado, é válida a observação de que as próprias apresentadoras costumam rir ou falar de forma irônica quando a edição inclui as imagens das brigas. Isto é, elas não se pautam em uma discussão aprofundada sobre o “machismo no cinema”, por exemplo, mas tratam o tópico de forma desinteressada. Comportamento similar é percebido quando Bridi fala do filme Pussycat Kill Kill, de 1965 – segundo ela, um longa que conta a história de “três strippers que fogem para o deserto para ter mais emoção da vida” – e, apesar de reconhecer que o corpo da mulher é explorado, afirma que a “chefona” das strippers é uma “mulher fodona, super forte”, como se isso justificasse ou atenuasse a gravidade da objetificação do corpo feminino.
Pode-se concluir, disto, que as apresentadoras pretendem não restringir seu público apenas a mulheres, e, evitando comentários críticos sobre a discriminação nas produções audiovisuais, acabam atingindo seu objetivo. Não que as integrantes do programa compactuam com o preconceito de gênero – o trejeito irônico com que falam sobre determinado filme refuta esse possível pensamento –, mas é notório que elas se “divertem” na abordagem sobre o tema e, assim, evitam críticas masculinas.
À parte disso, assim como em outros episódios do Bloco X, as apresentadoras não se limitam a temas exclusivamente do nicho nerd/geek ou da cultura pop, e citam a briga das personagens Maria do Carmo e Nazaré na telenovela brasileira Senhora do
Destino, da TV Globo, como exemplo do conteúdo abordado. Contudo, quando saem do nicho cultura pop internacional e falam sobre o embate, exibido em um canal de televisão aberto e nacional, as apresentadoras mostram que estão em “território desconhecido”, e até mesmo Aline Diniz, que é a responsável por falar de televisão, não sabe destrinchar o que aconteceu na produção
Carol Moreira: A Nazaré joga a Maria do Carmo da escada? Aline Diniz: Eu acho que sim.
Natália Bridi: Ela não joga o marido da escada?
Míriam Castro: O marido e uma mulher lá que ia denunciar ela. A abordagem da cena ressalta novamente a conexão entre os telespectadores e o programa. Isso porque Bridi conta que elas decidiram colocar a briga das personagens interpretadas por Susana Vieira e Renata Sorrah, respectivamente, devido a pedidos da audiência. “Todo mundo falou que a gente esqueceu da Nazaré no episódio das vilãs. A gente pode falar agora, neste das brigas, por causa da briga dela com Susana Vieira”, aponta Bridi. Com o fortalecimento dessa ligação, os telespectadores podem se sentir integrados ao programa e atender de forma ainda mais constante aos pedidos de participação.
As apresentadoras deixam perceptível ainda o notório entendimento quando falam sobre aquilo a que se propõe o Bloco X – produtos da cultura pop. Ao abordarem o filme O Tigre e o Dragão, Moreira informa que a protagonista, interpretada por Michelle Yeoh, operou o joelho no início das gravações, fato que retardou as cenas de luta, pois ela tinha que se recuperar. Bridi, acentuando o caráter informacional do Bloco X o qual nos fez aproximá-lo ao gênero jornalístico, fala sobre o aspecto técnico da cena da briga: “a cena é coreografada. Não só os movimentos, como a câmera que acompanha as duas”. As interjeições passam credibilidade às apresentadoras e tornam- nas, aos olhos do telespectador, fontes credíveis.
Outro aspecto novamente evidenciado no Bloco X a partir deste vídeo é o momento ‘diálogo entre amigas’ que, por vezes, faz parte do ambiente. Tanto que Carol Moreira, após a apresentação das “melhores Cat Fights”, pergunta para as outras apresentadoras: “A pergunta que não quer calar: vocês já estiveram numa catfight?”. Aline Diniz e Natália Bridi relembram momentos de brigas na infância, enquanto Míriam diz que não lembra de ter protagonizado nenhuma. Moreira, então conta a sua experiência:
Carol Moreira: Eu tenho uma história, mas na verdade a menina queria bater em mim quando ela roubou meu namorado. Roubou não, porque ele se deixou ser roubado, né? Eu tinha tipo 15 anos, por aí, e ela veio querer bater em mim. Só que ela tava muito nervosa, e a galera ficou tentando segurar ela, e eu estava solta. Aí eu fiquei rindo da cara dela, e tive a brilhante ideia de tacar um sapato na cara dela. E a minha mira é péssima, mas nesse dia a sorte estava ao meu lado! Eu peguei meu tamanco e acertei na cara dela, na testa. A galera que estava segurando ela começou a rir e eu virei e fui embora para casa. O interesse em compartilhar experiências e opiniões pessoais continua - novamente para aproximar o telespectador e garantir sua audiência e sentimento de integração - quando Moreira pergunta duas coisas, quase em sequência: “Que técnicas vocês usariam? Pelo visto eu gosto de ‘tacar’ objetos”; “Entre nós quatro quem vocês acham que iria ganhar?”. Acerca deste último questionamento, Bridi acaba por reforçar o estereótipo da mulher como “mãe por instinto”. “A Aline quebraria todo mundo. Quando ela tiver filhos, e algum deles estiver em perigo, Aline vai levantar carro”, fala, aos risos.
A maioria elege Aline Diniz como a vencedora em potencial nas supostas brigas, mas Carol Moreira, no papel de mediadora, solicita mais uma vez a audiência: “Comentem aí quem vocês acham que iria ganhar. Até semana que vem. Beijo”.