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2. A retórica antiga: sua natureza e desenvolvimento

2.1. As partes constitutivas da retórica antiga

Tradicionalmente, os teóricos da retórica antiga concordam em identificar cinco partes constitutivas da retórica: a invenção, a dis- posição, a elocução, a memória e a ação. Essas cinco partes estão propostas em função de dois elementos essenciais, que estão mais especificamente ligados ao discurso, a saber: o tema e a questão. Assim, as cinco partes referem-se à retórica em sua totalidade, en- quanto que os dois elementos referem-se propriamente ao discurso.

Em relação aos elementos essenciais de um discurso retórico, podem ser conceituados da seguinte forma: o tema é o assunto prin- cipal do texto; enquanto que a questão é o tema problematizado, ou seja, é quando o tema deixa de ser objeto de mera exposição e passa a provocar uma controvérsia. Nesse sentido, o tema está presente em qualquer texto, mas em um discurso retórico o tema precisa se transformar em uma questão, tornando-se objeto de polêmica entre duas posições divergentes. Deste modo, o discurso retórico procura persuadir seus ouvintes a aceitar determinada posição acerca de uma questão.

Quanto às partes da retórica, deve-se dizer que consistem, na verdade, em cinco operações principais da techne rhetorike: invenção (em latim inventio, em grego heuresis), disposição (em latim dispo-

sitio, em grego taxis), elocução (em latim elocutio, em grego lexis),

memória (em latim memoria, em grego mneme) e ação (em latim

actio, em grego hypocrisis) (Barthes, 1975: 182).

A invenção é o momento de descoberta dos argumentos, após ter sido posta a questão. O orador busca o que vai dizer – “quid

dicat” – bem como as provas para fundamentar o que será dito.

Aristóteles argumenta que, na retórica, tudo sobre o que não se tem provas é irrelevante. O filósofo grego também distingue as provas em intrínsecas2 (quando se comprova algo por meio de uma definição, divisão ou etimologia) e extrínsecas3 (quando se prova algo por meio de uma testemunha, fato ou objeto material). As provas intrínsecas derivam da formação e habilidade do orador enquanto orador; ao passo que as provas extrínsecas se apresentam ao orador, que toma posse delas e as reelabora, encaixando-as no discurso (Tringali, 2014: 135).

No entanto, não cabe à invenção apenas encontrar as provas e argumentos. Como atividade dialética, ela abrange duas operações: achar e julgar. Cícero destacou esse duplo papel da invenção: “in-

venire”, isto é, achar os argumentos; e “iudicare”, ou seja, avaliar a

relevância dos argumentos encontrados. Deve-se também mencionar que, na retórica, nenhuma prova é incontestável, mas todas as provas são verossímeis, sempre admitindo a contestação. Até mesmo uma prova eventualmente verdadeira, no conjunto das provas, reveste-se do caráter da verossimilhança.

A segunda parte da retórica é a disposição, que consiste na tarefa de organizar metodicamente o discurso. Após ter juntado criticamente seus argumentos na invenção, o orador precisa colocar cada coisa que vai dizer no seu devido lugar – “quo loco dicat” – a fim de que nada fique solto ou desconexo. Para isso, a disposição

2 As provas intrínsecas se dividem em lógicas e psicológicas. As provas lógicas

se dividem em dedutivas (os silogismos, enquanto expressão de um raciocínio encadeado) e indutivas (os exemplos, que são relatados mediante a narração de pequenos fatos). Já as provas psicológicas, por sua vez, dividem-se em éticas (que transmitem uma imagem moral daqueles que estão envolvidos no discurso) e pa-

téticas (que se referem às paixões e sentimentos que o orador explora e incita em

seus ouvintes). Cf. Barthes, 1975: 184-205; Tringali, 2014: 135-148.

3 As provas extrínsecas estão baseadas no testemunho, que pode ser de uma

pessoa, coisa ou evento. É entre as provas extrínsecas que se encontra a citação, a qual possibilita as relações de intertextualidade.

exige basicamente dois procedimentos distintos: 1) dividir o discurso em partes preestabelecidas; 2) distribuir o material encontrado em cada uma dessas partes, e dentro de cada parte colocar cada coisa no lugar mais adequado, de modo que todas as partes estejam em harmonia entre si (Tringali, 2014: 158). Quanto a essa divisão do discurso que compõem a disposição, é possível mencionar seis partes que são aconselhadas no De Inventione, de Cícero, e na Rhetorica

ad Herenium, a saber: 1) o exórdio, enquanto parte introdutória,

que estabelece o primeiro contato entre o orador e seu público; 2) a narração, que relata fatos que contextualizam a argumentação; 3) a proposição, que consiste em uma sentença que responde à questão inicial do discurso, e que direciona toda sua produção; 4) a partição ou divisão, que é a enumeração dos principais pontos da proposição a serem desenvolvidos no discurso; 5) a argumen- tação, enquanto organização dos argumentos encontrados durante a invenção, que pode dividir-se em duas frentes, a confirmação dos próprios argumentos e a refutação dos argumentos adversários; 6) e a peroração, que é a conclusão do discurso. Em outros tratados de Cícero e de Quintiliano, e na própria Retórica de Aristóteles, são mencionadas outras partes opcionais do discurso, como a digressão, a altercação e a amplificação, que, devido ao seu ca- ráter eventual, não serão aprofundadas.

Posteriormente, segue-se a elocução, que consiste no melhor modo de dizer o que se tem a dizer – “quo modo dicat”. A elocução é quando o orador registra, de algum modo, o material pesquisado e organizado. O modo mais comum e conveniente de registrar é escrevendo o discurso: “uma vez encontrados e repartidos os argu- mentos maciçamente nas partes do discurso precisam ser ‘traduzidos em palavras’: é a função dessa terceira parte da techne rhetorike” (Barthes, 1975: 212). Ou seja, nesse terceiro momento da retórica, todo o empenho se concentra particularmente no nível da lin- guagem verbal. Aqui, nota-se que os estilos e figuras de linguagem

influenciam significativamente na argumentação do discurso e, consequentemente, na persuasão dos ouvintes.

Cícero e Quintiliano elencam quatro características fundamentais a serem desenvolvidas na elocução: a adequação da linguagem, a correção gramatical, a clareza do discurso e sua elegância. No que tange à elegância ou ornamentação, deve-se destacar que a beleza do estilo não se trata da beleza pela beleza, mas de uma beleza funcional, que tem em vista reforçar a argumentação. Essas qua- lidades estéticas da linguagem são alcançadas principalmente por meio das figuras de estilo, utilizadas prioritariamente com uma finalidade retórica:

Na elocução, ao se buscar a elegância, as figuras acabam por ocupar uma posição central. […] Na Retórica, o objetivo não é sobrecarregar um discurso com figuras desnecessárias, o que leva ao preciosismo, ao pedantismo. As “figuras de estilo” devem se converter acima de tudo em “figuras retóricas”, utilitárias na medida em que ilustram e ajudam a provar. Secundariamente, elas exalam um perfume poético. (Tringali, 2014: 176)

Conforme observa Hansen (2013: 27): “As três divisões – invenção, disposição, elocução – são propriamente verbais, dando conta da produção do enunciado”. Quando pronto, recorre-se à mneme memória, e à hypocrisis, actio ou ação, propriamente enunciativas e pragmáticas. Assim, a quarta parte da retórica, a memória, con- siste na memorização integral ou parcial do discurso, decorando-o

ipsis litteris ou retendo, no mínimo, seus pontos essenciais. Esse é

o momento em que se confia à memória aquilo que se inventou, dispôs e redigiu. Mesmo que a função principal da memória esteja ligada à enunciação, como destacou Hansen anteriormente, deve-se observar que ela também exerce influência sobre a produção do

discurso, de tal modo que os antigos diziam que ela era o tesouro da eloquência, “thesaurus eloquentiae” (Tringali, 2014: 130).

Por fim, a quinta parte da retórica é a ação, que consiste na declamação do discurso diante do auditório. A ação compreende tanto a pronunciação como também a gesticulação. Assim, a primeira se destina aos ouvidos, e a segunda, aos olhos. Evidentemente, a voz possui primazia sobre os gestos, de modo que a gesticulação serve à pronunciação.

Como já observado, essas cinco partes da retórica estão divididas em dois módulos: 1) o módulo da produção, que abarca a invenção (que se refere ao conteúdo), e a disposição e a elocução (que se referem à expressão); 2) e o módulo da comunicação, constituído pela memória e pela ação. Diante dessa divisão, a análise de- senvolvida neste trabalho enfatizará o primeiro módulo,4 visto que é o que se pode ter acesso por meio dos textos de Vieira e de D. Aquino. Isso não significa que tais pregadores não tenham utilizado o segundo módulo (a memória e a ação). Ao contrário, os relatos históricos e biográficos atestam que ambos não apenas liam, mas incorporavam suas pregações, usando-se de seu potencial mnemônico, e da gesticulação.