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As particularidades do intertexto gidiano

2.6. Os Antigos e os Modernos

2.6.2. As particularidades do intertexto gidiano

De acordo com P. Masson, a presença de outros textos escritos de Gide pode se dividida em duas fases. A primeira é ligada à Bíblia, várias vezes citada nos Cahiers d'André Walter, primeiro texto publicado pelo escritor. Nessa fase, a citação é usada pelo escritor como modo de legitimar suas ideias; no

essa disponibilidade total, que o escritor gostaria que fosse a sua. Títiro gosta de pescar, mas ‘por necessidade ele não pode pegar nada’. (...) Em Títiro, o narrador – em suas próprias palavras – pretende ‘concentrar’ a ‘monotonia’ do mundo e de sua existência. Dessa forma o modo de fabricação desse romance que o autor qualifica justamente em seu Diário de ‘obra voluntariamente encurtada’. Títiro leva uma vida alheia a qualquer necessidade: não tem estória e o espaço no qual mora – o pântano – é como o que nele se dissolve: não tem origem, fim ou limites. Menos que um corpo, apenas uma atitude – seu sorriso – e uma postura – deitado.” BERTRAND, “Paludes: traité de la contingence”, op. cit., p. 139.

254 “que é uma exigência mais forte que a ação no tempo, quase uma experiência de ascese.” Ibid., p. 52. 255 ECO, op cit., p. 229.

256“pois ele é inteiro composto de poesia, isto é, harmonia cósmica, semelhante à imagem de Orfeu cujo

119 caso dos Cahiers, o discurso bíblico tinha por objetivo convencer sua prima, Madeleine Rondeaux, a se casar com Gide. É notável observar que, nesse livro, o escritor se serve da literatura de um modo que seria mais tarde amplamente denunciado por ele mesmo como falso.

Aos poucos, o texto bíblico cede espaço a outras obras, com as quais Gide desenvolverá um relacionamento diferente. A citação se torna, sobretudo, a maneira irônica de exibir o modo através da qual um personagem espera enganar aos outros e a si mesmo. O uso das palavras de outrem intenta, como o fez Gide em seu primeiro texto, justificar certas ideias ou determinada visão de mundo. Entretanto, a citação termina por mostrar o engodo ao qual o personagem se submete e tenta submeter os outros. Para Masson:

Cette relativisation du référent textuel traduit donc une crise profonde, la remise en cause de certitudes morales et religieuses sur lesquelles Gide avait un moment pensé fonder son œuvre, et qu'il est amené à considérer comme des repoussoirs. A partir de 1893, c'est-à-dire de la découverte des nourritures terrestres, l'intertextualité gidienne change de cap (…), la recherche d'un contre-pouvoir va lentement s'affirmer; aux vérités reçues se substituent les vérités innées, Gide se met à l'écoute de son moi et c'est lui-même, texte méconnu, qu'il va s'efforcer de faire apparaître dans ses œuvres.257

A segunda fase da intertextualidade gidiana é constituída principalmente pela autocitação. Feita em geral por meio de alusões, essa recuperação teria por objetivo mostrar que uma determinada ideia fixa, desenvolvida ou apenas esboçada em um texto anterior, foi superada. É o caso da estória de Títiro no Prométhée mal enchaîné, que retoma e ultrapassa os temas expostos na sotie de 1895. Em Paludes, a intertextualidade interna se manifesta com relação tanto a textos anteriores como a textos que ainda seriam escritos. Gide antecipa alguns elementos a ser revisitados em suas obras posteriores, e recupera discussões e ideias de seus livros mais antigos. Conforme Diet:

Les références de Paludes sont d'ailleurs également prises dans cet

257 “Essa relativização do referente textual reflete uma crise profunda, o questionamento de certezas

morais e religiosas sobre as quais Gide pensara por algum tempo basear sua obra, e que ele passa a considerar como moldes descartáveis. A partir de 1893, isto é da descoberta dos ‘alimentos da terra’, a intertextualidade gidiana muda de direção (...), a busca de uma força contrária se afirma lentamente; as verdades inatas se substituem às verdades estabelecidas, e Gide passa a ouvir seu eu e é ele próprio, texto desconhecido, que o autor se esforçará de inserir em suas obras.” MASSON, P. “Production- Réproduction: l’intertextualité comme príncipe créateur dans l’oeuvre d’André Gide”. In THEIS, R. & SIEPE, H. Le Plaisir de l’intertexte. Frankfurt am Main : Verlag Peter Lang, 1988. p. 214.

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entre-deux fondamental. Une séquence du roman, mettant em scène une réunion de littérateurs, est ainsi intitulé “Le banquet”, renvoie évidemment à Platon, mais présage aussi du futur banquet des Faux-

monnayeurs, autre réunion d'écrivaillons qui égratigne les symbolistes

d'alors, les surréalistes. Le narrateur de Paludes rencontre aussi un certain Walter – qu'il ne peut sentir, s'amuse le texte – certainement l'ancien double fictif de Gide, André Walter. Il rêve aussi de Biskra qui peuplera l'oeuvre future, pendant que l'Idumée d'un ancien poème de Gide passe dans Paludes. De même, l'idée du court récit “El Hadj ou Le Traité du faux prophète” est déjà contenue dans quelques vers de

Paludes; les réflexions sur l'acte libre donneront naissance à la

théorie de l'acte gratuit du Prométhée mal enchaîné et des Caves du

Vatican; et le thème de l'aveuglement tel qu'il est développé annonce

de manière troublante la rencontre avec Œdipe dans l'ultime roman de Gide, Thésée.258

Um dos textos de Gide no qual a relação intertextual surge desde o título é justamente Le Promethée mal enchaîné, no qual o hipotexto é triplo: o mito de Prometeu, a tragédia de Ésquilo, Prometeu acorrentado, e o poema de Goethe, Prometheus. O intertexto é anunciado como um apequenamento irônico das referências, por conta do advérbio de modo “mal”. Também nesse livro Títiro aparece e, tal como em Paludes, é a pessoa da qual se fala pois, durante o enterro de um dos personagens, Prometeu conta sua estória em uma espécie de subcapítulo. Títiro continua sozinho em seu pântano, mas agora ele está deveras entediado. Um certo Menalcas surge e coloca “une idée dans le cerveau de Tityre, une graine dans le marais devant lui. Et cette idée était la graine et cette graine était l'Idée”.259 A ideia de Titiro não é fruto de reflexão

pessoal e sim mera sugestão exterior, aceita sem maiores considerações. Com o tempo, a ideia cresce e se transforma em uma árvore, em função da qual Títiro passa a viver. No entanto, embora se dedique exclusivamente a ela, seus cuidados não são suficientes e Títiro contrata então uma infinidade de especialistas. A ideia/árvore, que já não lhe pertencia desde o início, passou a

258 “As referências de Paludes estão igualmente nesse intermédio fundamental. Uma sequência do

romance, que põe em cena uma reunião de literatos, é intitulada “O banquete”, remetendo evidentemente a Platão, e pressagia também o banquete futuro dos Moedeiros falsos, outra reunião de escritorezinhos criticada pelos simbolistas da época, os surrealistas. O narrador de Paludes encontra também certo Walter – que, ironiza o texto, não consegue sentir – com certeza o antigo duplo fictício de Gide, Andre Walter. O narrador também sonha com Biskra que povoará a obra futura, enquanto a Iduméia de um poema antigo de Gide aparece em Paludes. Da mesma forma, a ideia da narrativa breve ‘El Hadj ou o tratado do falso profeta’ já está em alguns versos de Paludes; as reflexões sobre o ato livre gerarão a teoria do ato gratuito do Prometeu mal encadeado e dos Subterrâneos do Vaticano; e o tema da cegueira desenvolvido no texto anuncia de modo perturbador o encontro com Édipo no ultimo romance de Gide, Teseu.” DIET, op. cit., p. 69.

259“uma ideia no cérebro de Títiro, uma semente no pântano diante dele. E essa ideia era a semente e essa

121 ser cada vez menos sua. Tendo sido “dispensado”, Títiro resolve encontrar outras atividades nas quais empregar sua energia, pois:

son ingéniosité naturelle lui proposait d'autres emplois (…) il inventa même, pour accrocher ses éponges au mur, une petite patère accrostiche, qu'au bout de quatre jours il ne trouva plus commode du tout.260

Seus afazeres não lhe dão nenhuma satisfação e, diante disso, sua amiga Angèle sugere – como em Paludes – uma viagem, dessa vez a Paris.

O pastor Melibeu aparece no mesmo lugar onde surge Prometeu, e tocando suas “flautas”, alusão provável à siringe, o instrumento musical dos pastores por excelência. Quando o vemos na primeira bucólica, ele deixava para trás o mundo pastoril; aqui, ele recupera seu lugar neste mesmo universo. É ele agora quem deseja ir a Roma, e está mais próximo da atmosfera bucólica enquanto Títiro, abandonado por Angèle, “se retrouva seul et complètement entouré de marais”.261 Como acontece nas Geórgicas, a última frase da estória

de Títiro remete a outro texto, o início de Paludes. Onde normalmente se encontraria um ponto final surge a referência a outro texto e a narração não acaba, mas conduz a outra leitura.

Embora Gide se sirva da inversão como um princípio intertextual, o escritor conserva com os hipotextos uma forte ligação, inclusive quanto à estrutura. Em Paludes, os capítulos I-IV (“Hubert” e “Hubert ou la chasse ao canard”) e II-VI “Angèle” e “Angèle ou le petit voyage”) apresentam certa correspondência; da mesma forma, a obra potencial anunciada ao final do livro, Polders, continuará a sotie com algumas modificações. As correspondências internas podem ser atribuídas à “poética do imobilismo” presente no texto, do qual o ventilador de Angèle, o aquário de Títiro ou o picadeiro frequentado por Hubert são símbolos evidentes. O hipotexto virgiliano também apresenta ligações internas com relação aos poemas entre si. Segundo muitos estudiosos, as bucólicas respondem umas às outras tematicamente: é o caso da primeira e da nona, como veremos no próximo capítulo. Tal como na sotie, essas correspondências não são perfeitas, mas introduzem visões

260 “sua engenhosidade natural lhe sugeria outros trabalhos (...). Chegou até a fabricar um pequeno

gancho acróstico para pendurar suas esponjas na parede, gancho esse que não mais lhe pareceu nada cômodo após quatro dias.” Ibid., p. 108.

122 semelhantes do mesmo tema.

Um exemplo da intertextualidade sob o princípio da inversão em Gide está na retomada do mito no Prométhée mal enchaîné. O poder de Zeus, a rebeldia do titã, toda a simbologia do fogo – reduzido a um reles palito de fósforo... – o castigo representado pela águia, cada um dos elementos do mito é apresentado “ao contrário”. A oposição de Prometeu à vontade divina passa da ação desafiadora à palavra. De acordo com P. Genoveva:

Dans le mythe classique, la puissance de Prométhée se manifeste dans sa capacité de défi. Il s'oppose au dieu suprême de l'Olympe pour protéger et faire progresser l'espèce humaine. Cet antagonisme entre le Titan et les dieux constitue le noyau central et permanent du mythe. Le Prométhée gidien, quant à lui, n'intervient qu'une fois auprès de Zeus, pour le bénéfice d'un seul homme.262

A inversão já se encontra, no caso do Prométhée, no hipotexto utilizado por Gide. Ao invés de buscar diretamente o mito ou a tragédia de Esquilo, Prometeu acorrentado, o escritor teria utilizado principalmente o poema de Goethe intitulado Prometheus.263 Lido durante o verão de 1892 a revolta do titã, o distanciamento com relação ao criador e a afirmação de sua liberdade presentes no poema teriam chamado a atenção de Gide, que levaria em conta em sua releitura a mudança de ponto de vista introduzida pelo poeta alemão. Referir-se a um texto que questiona a significação canônica do mito mostra a vontade de Gide de inverter os valores, e de propor novas leituras. E é exatamente o que faz o apequenamento generalizado na sotie.

Quanto ao Títiro do Prométhée ele, segundo Genoveva, é o oposto do titã:

dans la mesure où la situation de ce dernier se présente comme une image inversée de celle de Prométhée (…). Tityre, comme Prométhée, est prisonnier, mais au lieu d'être attaché au sommet d'une montagne, il se trouve enlisé dans un marécage.264

262“No mito clássico, o poder de Prometeu se manifesta através de sua capacidade de desafiar. Ele se

opõe ao deus supremo do Olimpo para proteger e promover a raça humana. Este antagonismo entre os deuses e o Titã constitui o núcleo permanente do mito. Já o Prometeu gidiano intervém uma única vez junto a Zeus, e em benefício de um só homem.” GENOVEVA, P. André Gide et le labyrinthe de la

mythotextualité. Indiana: Purdue University Press, 1995. p. 74.

263 Cf REID, V. André Gide and curiosity. Amsterdam; New York: Rodopi, 2009. p. 153-4.

264 “na medida em que a situação desse último se apresenta como uma imagem invertida da de Prometeu

(...). Títiro é prisioneiro como Prometeu, mas ao invés de estar amarrado no alto de uma montanha, está afundado em um pântano.” GENOVEVA, op. cit., p. 81.

123 Enquanto Prometeu acaba por se libertar daquilo que o devorava, Títiro volta para seu pântano, tendo sido abandonado por Angèle. Mais ativa que sua homônima de Paludes, a moça introduz a mudança e parte em busca do desconhecido com Melibeu. Mas o Títiro do Prométhée também se opõe ao da sotie de 1895, pois este se contenta em sua imobilidade, diferentemente do que acontece com o personagem apresentado na conferência de Prometeu.

Para C. Debard, a presença de Virgílo na obra de Gide em geral parece funcionar sob os moldes de um conceito visto no capítulo anterior, e utilizado para definir as relações entre Manderre e Paludes, a innutrition. Assimilação profunda de modelos e temas, cujo resultado é a transformação dos mesmos em algo novo, a innutrition constitui o equilíbrio entre o plágio e a criação, é como se o escritor se alimentasse das obras de outros, das quais extrairia algumas substâncias para seus próprios textos: “Si Gide emprunte des thèmes aux Bucoliques de Virgile, c’est donc pour les réorienter savamment dans l’optique qui lui est chère et leur donner un tour éminemment personnel.”265

Pode parecer contraditório introduzir um novo conceito quando nosso objetivo é estudar a prática intertextual de Gide. Se o fazemos, temos por objetivo mostrar que, embora os nomes possam ser diferentes, tais práticas se referem às várias maneiras de interpenetração dos textos uns nos outros. Além disso, a innutrition poderia ser definida como uma das facetas da intertextualidade, especialmente ao analisarmos o texto de onde E. Faguet forjou o conceito, a “Seconde préface de L'Olive”, escrito por Joachim du Bellay:

Si, par la lecture de bons livres, je me suis imprimé quelques traits en la fantaisie, qui après, venant à exposer mes petites conceptions selon les occasions qui m’en sont données, me coulent beaucoup plus facilement en la plume qu’ils ne me reviennent en la mémoire, doit-on pour cette raison les appeler pièces rapportées?266

Na conferência intitulada “De l'influence en littérature”, Gide alude a uma

265 “Se Gide toma emprestado temas das Bucólicas de Virgílio, ele o faz para reorientá-los de modo

inteligente em uma ótica que lhe é cara e para dar a elas uma conotação totalmente pessoal.” DEBARD, C. “Les sources antiques dans Les Nourritures terrestres”. In WALKER, D.H. & BROSMAN, C.S. Retour aux Nouritures terrestres. Amsterdam : Rodopi, 1997. p. 4.

266“Se, através da leitura de bons livros, alguns traços ficaram gravados em minha imaginação quem,

expondo minhas pequenas criações de acordo com as ocasiões que se oferecem e que circulam mais

facilmente através de minha pluma que em minha memória, deve por esse motivo chamá-los de

124 forma de incorporação de outros textos muito próxima do que é dito no trecho acima, e também da definição cunhada por Faguet:

J'ai lu tel livre, et après l'avoir lu je l'ai remis sur ce rayon de ma bibliothèque – mais dans ce livre il y avait telle parole que je ne peux pas oublier. Elle est descendue en moi si avant, que je ne la distingue plus de moi-même.267

As palavras de outros se tornam suas à medida que o escritor as lê. Ele se esquece de onde vieram, mudam-no e se tornam parte integrante de sua vida e de sua obra. E, para Gide, seu alcance é profundo apenas se despertar ideias latentes, se houver uma confluência de pensamentos entre autores e leitores. Ao traduzir os versos como quer, o narrador da sotie exibe justamente a apropriação profunda feita pelo escritor e a transformação decorrente. E o princípio de inversão identificado no uso das citações virgilianas expõe exatamente o modo como o escritor trabalha com os versos das Bucólicas, isto é, como um movimento duplo: o trabalho com as citações constituem um metatexto da intertextualidade gidiana, que torce o hipotexto a fim de adaptá-lo a suas ideias e economia textual.

O jogo ao qual o leitor é convidado em Paludes pode ser verificado igualmente no modo como Gide trabalha com seus hipotextos. Se o texto-base é facilmente identificável, sua significação dentro do hipertexto é geralmente problemática, ou melhor, não se dá a conhecer somente com o achado da “fonte”. Este é o caso da epígrafe de Paludes, “Dic cur hic (L'autre école)”.268

Interessa-nos aqui a frase em latim, cujo sentido é ambíguo, podendo ser traduzida como “Diga-me por que neste lugar” ou “Diga-me por que este aqui”. Essa frase pode ser comparada à epígrafe de Voyage d'Urien, “Dic quibus in terris” (“Dize onde”), parte de um verso repetido duas vezes na terceira bucólica de Virgílio, na qual os pastores Menalcas e Damoetas cantam sob a apreciação de Palemon, que declara a disputa empatada por conta do talento dos competidores. Segundo Fillaudeau, essa referência constitui uma alusão ao aspecto lúdico do canto bucólico, por conta do conteúdo dos versos citados

267 “Li certo livro, e após tê-lo lido eu o recoloquei na prateleira de minha biblioteca – mas neste livro

havia certa palavra que não posso esquecer. Ela penetrou tão fundo em mim que já não a diferencio de mim mesmo.” GIDE, A. “De l'influence en littérature”. In ____. Prétextes suivi de Nouveaux Prétextes. Paris: Mercure de France, 1990. p. 12.

125 abaixo:

DAMOETAS

Dize onde, e para mim serás o grande Apolo o céu não se abre mais além do que três braças?

MENALCAS

Dize onde nasce flor que tem nome de reis em pétalas grafado, e Fílis será tua. (III, v. 104-106)

Como os versos apresentam um conteúdo deveras enigmático, Fillaudeau conclui que seu caráter de “adivinhação” pode ser comparado às potencialidades presentes na estória de Títiro em Paludes, que por sua vez está presente nessa mesma bucólica, sendo citado duas vezes. Em outras palavras, a obscuridade dos versos acima, que conduziria o leitor a se indagar sobre seu sentido, teria sido transposta, através de outros elementos, à sotie, e se manifestaria na pluralidade de definições.

A terceira bucólica constitui um ótimo exemplo de poesia pastoral, transpondo quase literalmente o idílio 8 de Teócrito, o principal hipotexto das Bucólicas. Além disso, nessa bucólica a marca da reescritura realizada por Virgílio é bastante evidente, através de elementos como a introdução do real pela menção de um dos amigos do poeta, Asinio Polião. Ou seja, a terceira bucólica seria um metatexto, na qual é apresentado o modo a partir do qual o poema foi composto, levando em conta e ultrapassando o texto-base ao mesmo tempo. Esse duplo movimento aparece, por exemplo, em um verso como o citado a seguir:

Lança-me uma maça, Galatéia lasciva,

e, querendo ser vista, até os salgueiros vai. (III, v. 64-65)

É fácil pensar na Galatéia da primeira bucólica, mas é importante também se lembrar da ninfa de mesmo nome, a amada do gigante Polifemo, personagens do idílio 6 de Teócrito, por conta da referência a maçãs, presente nesse poema.269

Se nossa hipótese for plausível, pode-se pensar que Gide tenha feito, na epígrafe de Paludes, uma alusão à terceira bucólica que pode ser lida em

126 vários níveis. Antes mesmo do início do texto o leitor é confrontado ao caráter metatextual e intertextual do livro, que exibe seu processo de criação, reivindica seus hipotextos e a releitura dos mesmos. Esse poderia ser o sentido