Bibliografia Selecionada
A. O Contexto da Língua da Palestina
2. As Possíveis Respostas
Em 1863, J. B. Lightfoot antecipou a grande descoberta de papiros contem porâneos ao texto do NT quando disse: "se nós pudéssemos descobrir ape nas correspondências habituais entre as pessoas, sem qualquer intenção de serem composições literárias, teríamos um importante auxílio no entendi mento da língua do NT em geral".29
Em 1895, trinta e dois anos mais tarde, Adolf Deissmann publicou seus
Bibelstudien (Estudos Bíblicos), uma obra puerilmente intitulada, visto que revolucionou o estudo do NT. Nessa obra (traduzida depois para o Inglês com o título Bible Studies), Deissmann mostrou que o grego do NT não era uma língua criada pelo Espírito Santo (Hermann Cremer chamou-o de "O grego do Espírito Santo", simplesmente porque 10% de seu vocabulário não possuíam exemplos paralelos em obras seculares).
Deissmann demonstrou que o grande volume do vocabulário do NT se acha va nos papiros. O efeito pragmático da obra de Deissmann tornou obsole tos praticamente todos os léxicos e comentários lexicais escrito antes da vi rada do século. (O léxico de Thayer, publicado em 1886, ficou, conseqüente mente, antiquado logo depois de ser impresso. Ironicamente, ainda é tido como confiável por parte de muitos estudantes do NT).
James Hope Moulton recebeu o bastão de Deissmann e demonstrou parale los morfossintáticos entre o NT e os papiros. Em essência, o que Deissmann
fez para a lexicografia, Moulton fez para a gramática. Este notou que algumas construções, previamente sem paralelo, no NT foram encontradas nos pa piros (e.g., kv instrumental). No entanto, o seu caso não tinha se mostrado convincente. Por essa razão, o debate ainda vigora a respeito do grau de influência semítica sobre o grego do NT.
Atualmente, existem três pontos de vista quanto ao grego do NT. Eles estendem-se do Koinê Vernacular até o grego rico em semitismos.
a. O Grego do NT = O Grego Vernacular
Essa era a visão de Deissmann e Moulton e tem sido promovida (com algumas modificações) por Robertson, Radermacher, Colwell, Silva e Rydbeck. Todos esses eruditos viam semitismos nas citações do AT e em alguns ditos de Jesus.
Os problemas com essa visão são: (1) a rica variedade de autores do NT não recebe a atenção devida. Alguns podem encaixar-se em certo estilo; outros, em uma outra forma estilística; (2) muitos papiros foram achados em tratados judaicos. Esses podem conter semitismos; e, em muitos desses, (3) os paralelos sintáticos não são tão convincentes quan to os paralelos lexicais: O NT parece, em sua abrangência, situar-se em um plano superior aos papiros.
26 Sintaxe Exegética do Novo Testamento
b. Grego do NT = Grego do NT = Grego Vernacular com Algumas Porções Ricas em Semitismos
Alguns eruditos (e.g., Dalman, Torrey, Burney, Black, R. H. Charles, M. Wilcox) vêem os Evangelhos, os primeiros quinze capítulos de Atos e o Apocalipse como uma tradução grega. Ou seja, o original desses docu mentos fora escrito em aramaico. Aquilo que encontramos em vários manuscritos não passa de uma outra tradução grega desse original. Os problemas com esse ponto de vista são: (1) Não há absolutamente nenhuma evidência textual primitiva para tal teoria (i.e., nenhum ms. aramaico primitivo foi produzido [trad.: e encontrado] que pudesse ter servido de base para o texto grego dos Evangelhos, Atos ou Apocalipse); A maioria dos semitismos alegados (e.g., trocadilhos não vertidos na tradução grega, traduções incorretas etc.), embora ingênuas, são sujei tas a sérias objeções.
c. O Grego do NT = Um Dialeto Distinto
Essa visão, similar a teoria do "Grego do Espírito Santo", tem sido for temente propagada por Nigel Turner. Este, ao refletir sobre tal língua como criada pela Terceira Pessoa da Trindade, disse: "agora temos que admitir que não somente é singular o tema das Escrituras, mas tam bém, é sem igual a língua em que eles foram escritos ou traduzidos".30 O mesmo autor, em outro trecho, declarou: "O grego bíblico é a única língua com uma unidade e caráter próprios".31 E essencial entender que a expressão "grego bíblico", para Turner, inclui a LXX. De fato, a LXX é, lingüisticamente falando, a mãe do NT.
Os problemas decorrentes dessa posição, além das contradições com o segundo ponto de vista, são: (1) Vários estudos têm mostrado que a sintaxe neotestamentária não é tão idêntica a da LXX. As duas obras possuem gêneros distintos;32 (2) Os paralelos são delineados de forma seletiva;33 e (3) Essa visão confunde estilo com sintaxe (falaremos mais sobre esse assunto adiante).
30 Turner, Syntax, 9. 31 Ibid., 4.
32 Por exemplo, o genitivo absoluto é usado freqüentemente no NT, pouco na LXX - e é uma expressão distintamente idiomática. Várias características do aspecto verbal do grego do NT não têm paralelo nas línguas semíticas. A construção artigo + substantivo + koú + substantivo é comum no NT, mas não (e não tem a mesma força semântica) na LXX. A relação do adjetivo com o substantivo nas construções anarthras neotestamentárias é mais semelhante ao grego áüco e aos papiros que à LXX.
33 Isso é especialmente o caso do artigo conforme L. Cignelli e G. C. Bottini, "UArticolo nel Greco Biblico," Studium Biblicum Franciscanum Liber Annuus 41 (1991) 159-99. Eles afirmam que o uso do artigo no NT fica em aposição comparado ao do ático (159). Sua abordagem, porém, é tomar exemplos da LXX (que é uma tradução grega) e pressupor que isso é igualmente válido no NT. Mas colocar o NT junto à LXX como se tudo fosse do mesmo gênero é um exagero.
A Língua do Novo Testamento 27
Em suma, muitos eruditos hoje deveriam adotar uma visão intermedi ária entre a primeira e a segunda visão. Há, no entanto, um número crescente de estudos promovendo a primeira. E.g., um deles declara: o grego do NT era uma língua comum que poderia ser entendida nas ruas de Atenas de maneira tão fácil quanto nos subúrbios de Jerusalém. Existem, todavia, problemas com todos esses pontos de vistas, especi almente na forma como a questão é apresentada.