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AS PRÁTICAS TRADICIONAIS E EQUÍVOCOS HISTÓRICOS QUE ENVOLVEM

De forma geral, a avaliação (sob um viés tradicional) é enxergada negativamente pelos alunos, que passam pelo processo, e professores, na medida em que sua realização castra ou sufoca o processo educativo. Não é à toa que é enxergada como um monstro de várias cabeças, como aduz Hoffman (1995) ou como uma etapa penosa, pois sua significação está ligada a concepções equivocadas do que é o processo educativo e dos seus objetivos. Neste sentido, pontua Saul (2010, p. 52):

A avaliação do ensino e aprendizagem, definida como uma das dimensões do papel do professor, transformou-se numa verdadeira “arma”, em um instrumento de controle que tudo pode. Através deste uso exacerbado do poder, o professor mantém o silêncio, a “disciplina” dos alunos; ganha a “atenção” da classe, faz com que os alunos executem as tarefas de casa, não esqueçam os materiais...

São várias as reações à avaliação. Do ponto de vista dos alunos, é difícil contrargumentar com o fato de que grande parte do processo avaliativo está centrado na aplicação de testes reiteramente arbitrários, que levam em consideração a visão específica do professor em relação a dado conteúdo ou temática. Neste sentido, Hoffman (1995) explica que uma avaliação tradicional, que esteja ancorada em premissas classificatórias e burocráticas, desenvolve-se sob o prisma dos princípios da descontinuidade, segmentação e parcelarização do conhecimento. Em outras palavras, a ausência de reflexão sobre o processo de ensino transforma a avaliação em um momento isolado das construções realizadas em sala de aula, apartando-se do trabalho que deveria ser desenvolvido por professores e alunos, na construção do conhecimento. Como a avaliação se resumirá a aplicação de provas, realização de atividades e trabalhos, o objetivo do processo de aprendizagem acaba por se desnaturar, tornando-se a simples aprovação na disciplina.

Dentro dos cursos jurídicos, essa forma de pensar a avaliação como uma rotina de tarefas e provas com o objetivo de atestar o conhecimento se tornou usual e foi incorporada a cultura jurídica. Isso porque (como será visto nas próximas seções) a

avaliação historicamente se traduzia no momento de identificar se os alunos dominavam a teoria e reproduziam da melhor maneira os conhecimentos que lhes tinham sido repassados. Essa lógica repartia o processo de ensino e aprendizagem em várias etapas estanques, incomunicáveis, dando à avaliação uma conotação eminentemente negativa. Por isso, uma das ideias que precisam ser superadas, dentro do âmbito do ensino, é a ideia de que a avaliação é um momento isolado dentro do desenvolvimento da aprendizagem, que se resume à aplicação de provas.

A nota ou conceito que se confere aos alunos, dentro dessa lógica tradicional da avaliação, é atribuída com o objetivo de hierarquizar os indivíduos a partir de sua capacidade de rememoração de conteúdos para selecionar os mesmos para ocupar os melhores postos no mercado de trabalho e na burocracia estatal. Isso consolida uma cultura de competitividade, dentre os alunos, que passam a estudar com o objetivo de atingir o patamar máximo nessa escala de valores. Isso deturpa a essência do ato educativo, que passa a servir ao objetivo político do Estado – classificar os indivíduos a partir das competências, habilidades e conhecimentos que têm para atuarem em seu benefício. A nota representa, uma forma de poder por parte do professor, que passa a rotular alunos com base em seu desempenho. O erro é visto apenas como uma falha do aluno, que de alguma maneira não evoluiu no processo de aprendizagem.

Professores e alunos devem se imbricar ao longo de todo o processo de aprendizagem, pois é a reflexão conjunta desses dois polos que permite que o aluno possa compreender sua realidade e produzir conhecimento. Ao invés de se criar uma hierarquia, dentro da sala de aula, ambos devem atuar conjutamente para a produção do conhecimento. Sobre isto, Saul (2010, p. 54) explica: “A relação que se estabelece entre o pesquisador e o pesquisado é de natureza passiva: o objeto deve fornecer evidências para o avaliador que as julga ou que as organiza e sintetiza, oferecendo- as ao julgamento do decisor”. O retorno do processo avaliativo, com a análise dos dados e produção de relatórios sobre as dificildades e dúvidas dos alunos, dificilmente se realiza, deixando sem resposta, muitas vezes, os maiores interessados, que são os alunos.

Assim, a postura do professor também é um elemento que sustenta o viés negativista que a avaliação acaba por apresentar, na medida que se transforma em um instrumento de cobrança e imposição de controle, gerando, em contrapartida, o medo generalizado do aluno em relação ao momento da avaliação. É neste sentido

que se manifesta Perrenoud (1999, p. 9), ao afirmar que “há sempre alguém para denunciar a severidade ou o laxismo, a arbitrariedade, a incoerência ou a falta de transparência dos procedimentos ou critérios de avaliação”. É dessa situação em que o professor se coloca como autoridade máxima que surgem os abismos entre professor e aluno, realidade que precisa ser superada dentro do ensino superior brasileiro.

Especialmente na esfera jurídica, observa-se esse fenômeno com bastante intensidade. Tornou-se uma prática comum, ao longo da história desses cursos, que o próprio ato de ser professor fosse reflexo, antes de mais nada, do exercício de uma função nobiliante dentro do Estado, o que vai revestir o professor de uma pseudo autoridade, em sala de aula, que surge a partir de sua função externa ao espaço educativo. A hierarquia que se percebe em sala de aula, nessa conjuntura, surge antes mesmo do contato entre professor e aluno, pois nasce no ambiente político, em repartições públicas, no próprio ambiente social onde se cria uma cultura geral de escalonamento entre indivíduos a partir de sua origem, riqueza ou formação. O aluno, por seu turno, deveria se encantar com a posição ocupada pelo professor, fora da sala de aula, devendo-lhe respeito e obediência. Deveria absorver os conteúdos que lhe eram repassados, para que, assim, pudessem alçar condições de ocupar futuramente os mesmos cargos e adquirir o mesmo préstígio social. Se torna, de fato, um produto a ser formatado e moldado, pois as faculdades de direito, ao longo da história, buscaram essencialmente produzir operadores da norma. Com a completa inversão do papel do professor e aluno, a sala de aula, em cursos jurídicos, se torna um lugar organizado com base em hierarquias e papeis, criando não um abismo, mas verdadeiramente dois mundos, em que professor e aluno não se misturam. A avaliação, assim, vai se tornar no instrumento, por excelência, de controle, seleção e classificação dos alunos, reiterando a posição de superioridade de docentes em sala de aula. Neste sentido, Hoffman (1995, p. 19) bem traduz o espírito das práticas docentes dentro da educação brasileira:

Sentenças irrevogáveis. Juízes inflexíveis. Réus, em sua maioria, culpados. O professor cumpre penosamente uma exigência burocrática e o aluno, por sua vez, sofre o processo avaliativo. Ambos perdem nesse momento e descaracterizam a avaliação de seu significado básico de investigação e dinamização do processo de conhecimento.

Do âmbito didático-pedagógico, esse viés tradicional desconsidera aspectos de fundo, buscando, essencialmente, atribuir uma nota, um conceito, classificando os indivíduos, perpetuando o contexto de desigualdade em que a própria sociedade se encontra. É preciso superar a visão da avaliação dentro dos cursos jurídicos que a reduz a um instrumento arbitrário de seleção e classificação dos indivíduos, pois se trata de uma visão reducionista do que vem a ser de fato a avaliação do ensino e aprendizagem.

Neste sentido, importante reconhecer a pluralidade de formas e instrumentos nos quais a avaliação pode se revestir, e na enorme quantidade de suas etapas. Como defende Vianna (2005, p. 29), “[...] é preciso não esquecer, contudo, que ao avaliar, implicitamente, também se está avaliando algo mais, representado por habilidades, interesses e valores”. Ela não começa e finda na aplicação de uma prova. Muito além, começa antes do início do período letivo, quando o docente pára para planejar, com base no currículo do curso e em seu projeto político pedagógico. Passa, assim, por várias fases, inclusive por um momento em que o docente procede à observação de seus alunos, do conhecimento por eles obtido/construído, mas também da realidade em que cada aluno está inserido e seu respectivo contexto. Independentemente da maneira que seja desenvolvida e do tipo de avaliação que realiza, ela precisa, de maneira necessária, levar a conjuntura no qual se realiza em consideração, a partir da ação docente de observação e acompanhamento.

2.4 A ORIGEM DA AVALIAÇÃO DENTRO DO ÂMBITO EDUCACIONAL E SUAS