3.2 OS PRIMEIROS CURSOS SUPERIORES NO BRASIL
3.2.3 Ensino superior na Era Vargas (1930-1945)
Na década de 1930, o Estado atuou mais fortemente no sistema nacional de educação, com a criação do Ministério da Educação e Saúde Pública e com a reforma educacional Francisco Campos, levada a cabo em 1931, erigida no Decreto nº 19.851 de 11 de abril de 1931. Foi um período em que houve grande transformação no âmbito político-administrativo do país, com consequências para as mais diversas áreas da vida social, tal como no ensino superior (FÁVERO, 1980; MORHY, 2004). Essa reforma inaugurou o “Estatuto das Universidades Brasileiras”.
Como explica Saviani (2010), em 1920 já tinha sido constituída a Universidade do Rio de Janeiro a partir da junção de várias faculdades esparsas, como a Faculdade de Medicina (anteriormente Academia de Medicina e Cirurgia, fundada em 1808), da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, da Escola Politécnica e da Faculdade Nacional de Direito. Com as reformas educacionais da década de 1930, essa universidade foi reformada, a partir do Decreto nº 19.852/1931 e foi fundada a Universidade de São Paulo em 1934, além da Universidade do Distrito Federal (cuja administração pertencia à capital do país à época, ou seja, o Rio de Janeiro. Essa onda de federalizações foi o marco da atuação federal na educação superior nas décadas seguintes, aliada à criação de novas universidades. Neste sentido, o quadro que segue destaca a criação das principais universidades do período:
QUADRO 4: Cronologia dos cursos superiores no Brasil na Era Vargas (1930-1945)
Período Tipo de Instituição Iniciativa
1934 Junção das Escola de Farmácia e Química, Engenharia, Medicina, Direito com as recém- criadas Faculdades de Agronomia e Veterinária, de Filosofia, Ciências e Letras com o Instituto de Belas Artes, formando a Universidade de Porto Alegre
Iniciativa privada
1934 Universidade de São Paulo Governo
Republicano 1934 Incorporação da Faculdade de Direito do Largo
São Francisco à Universidade de São Paulo
Governo Republicano 1937 A Universidade do Rio de Janeiro passou a se
chamar Universidade do Brasil
Governo Republicano 1941 Junção dos cursos de Cirurgia, Farmácia,
Odontologia, Direito, da Academia de Belas Artes, da Escola Politécnica com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Bahia
Governo Republicano
Fonte: Adaptado Saviani (2010); Shigunov Neto e Maciel (2008).
Mas não foram apenas estas instituições que despontaram no cenário da educação brasileira naquele momento. Em termos quantitativos, inúmeras instituições
privadas foram criadas na forma de faculdades isoladas, o que foi possibilitado pela Reforma Francisco Campos, conforme o quadro abaixo:
QUADRO 5: Estabelecimentos e matrículas na educação superior – âmbito privado (1933-1945)
Ano Número Porcentual sobre o total de estabelecimentos
Número Porcentual sobre o total de matrículas
1933 265 64,4 14.737 43,7
1935 259 61,7 16.590 48,5
1940 293 62,5 12.485 45,1
1945 391 63,1 19.668 48,0
Fonte: Nupes/USP (apud BOAVENTURA, 2009, p. 99, adaptado).
Nesse contexto, a Universidade de São Paulo se torna um elemento central na expansão da educação superior no Brasil, uma vez que foi a “[...] célula mater da universidade, a partir da qual se aglutinaram escolas superiores isoladas então existentes” (LUCCHESI, 2011, p. 3). Um dos fatores preponderantes para isto foi o fato de que foi realizada a contratação de diversos professores estrangeiros, alguns dos quais bastante conhecidos no meio científico, para redefinir as bases para o desenvolvimento da pesquisa na instituição. Assim, é possível afirmar que a característica liberal-humanista do ensino superior francês influenciou fortemente as universidades brasileiras.
Entre 1932 e 1942 um forte movimento impulsionou mudanças relevantes na educação superior brasileira. Foi o chamado “Manifesto dos Pioneiros”, que foi um movimento que buscou, dentre outras coisas, defender uma reforma completa na forma como a educação era realizada no Brasil, o que incluía sua organização e métodos. Uma das bandeiras levantadas por seus protagonistas foi a substituição de uma educação do tipo estática por uma que fosse dinâmica, que acompanhasse as reais demandas da sociedade e formasse por completo o indivíduo. Buscava-se, em outras palavras, superar a verticalidade da sala de aula em que, de um lado, o professor seria o único detentor do conhecimento e o aluno um mero reprodutor daquilo que lhe era dito, estimulando-se sua capacidade de participar da produção do conhecimento. Outra bandeira levantada pelo movimento era a de melhoria das condições de trabalho na universidade, com tempo integral aos docentes. Tratou-se,
assim, de um movimento paradigmático, pois buscava a melhoria da universidade e de suas condições de existência, além de uma formação integral aos discentes, conforme explica Morhy (2004).
Na década de 1940, um novo elemento impulsiona a criação de faculdades voltadas ao magistério: a expansão da rede de ensino médio e a inserção da mulher no mercado de trabalho. Oliven (2002) explica, sobre o assunto, que com a aceitação do trabalho da mulher na sociedade brasileira para funções como o magistério, foi necessária a criação de novos cursos no âmbito das universidades recém-instauradas para formar as mesmas. Isso levou à ampliação das faculdades de filosofia, que se tornaram centros de formação das mulheres que desejavam ingressar no magistério. Nesse panorama, faculdades diversas se multiplicaram em todo o país sem a adequada estrutura e sem de investimento em pesquisa, já que a natureza desses cursos estava centrada essencialmente na formação de professores para as outras modalidades de ensino. A formação para o magistério tinha como objetivo preparar profissionais para trabalhar na educação em seus diversos níveis, em grande escala. Para isso, era preciso espalhar as escolas de formação para o magistério e faculdades isoladas com os cursos necessários à formação das escolas do período. Esses cursos tinham um perfil sexista, ao motivar a profissionalização feminina para o exercício dessa função. Prevalecia a ideia de que a função do magistério se enquadrava perfeitamente ao perfil das mulheres que, de um lado, tinham um papel bem delimitado na estrutura familiar (via de regra, como donas de casa). Entendia-se como explicam Mafelli, Rodrigues e Brandão (2017, p. 986) que “[...] a inclinação para o magistério encontraria terreno fértil, sobretudo entre moças de formação tradicional que, devido ao baixo capital cultural [...], careciam de motivação ou inclinação para o trabalho intelectual”.
Isso não significava a completa exclusão das mulheres de tentarem outros cursos superiores. Paulatinamente, as mulheres ingressavam em cursos como Direito e Medicina, como é o caso de Maria Augusta Saraiva, considerada a primeira bacharela em Direito do Largo São Francisco, em 1902. Mas, de fato, sempre houve um afastamento das mulheres desse e de outros cursos, e, um exemplo disso é que até 1998, houve 36 dirigentes homens para a mencionada faculdade e uma única mulher (ALCÂNTARA, 2002). Alguns dados interessantes podem ser dados, nesse sentido, em relação à Universidade de São Paulo (USP):
Dentro da nossa Universidade é possível verificar a evolução da presença das mulheres ao longo dos anos, principalmente na Faculdade de Direito, na de Medicina e na Escola Politécnica. Nesta, criada em 1894, apenas 1,3% dos formandos, até a década de 50, eram mulheres. Os homens correspondiam a 98,7%.
A Faculdade de Medicina, criada em 1912 e regulamentada em 1913, teve sua primeira turma, em 1918, 26 homens e apenas duas mulheres. Até 1969, o número de homens formados era de 3.281 (91,26%), enquanto o de mulheres era de 314 (8,74%).
Nesta Academia de Direito, 99,1% dos bacharéis formados na década de 20 eram homens, e 0,9%, mulheres. Na década de 40, a percentagem aumentou para 3,3%, contra 96,7%. Na década de 60, as mulheres já representavam um quinto de bacharéis, ou seja, 20,6%, e os homens, 79,4% (ALCÂNTARA, 2002, p. 747).
A expansão da rede de ensino médio e a inserção da mulher no mercado de trabalho, com o aumento das matrículas na educação superior não foram suficientes para modificar o sistema de educação baseado na exclusão por classe social, de forma a superar as deficiências históricas que restringiam essa modalidade de educação às elites, pois elas comandavam a produção normativa e o próprio sistema de ensino. Sobre isso, traz-se a reflexão oportunizada por Bourdieu (2017a, p. 65),
Seria, pois, ingênuo esperar que, do funcionamento de um sistema que define ele próprio seu recrutamento (impondo exigências tanto mais eficazes talvez quanto mais implícitas), surgissem as contradições capazes de determinar uma transformação profunda na lógica segundo a qual funciona esse sistema, e de impedir a instituição encarregada da conservação e de transmissão da cultura legítima de exercer suas funções de conservação social.
Assim, o monopólio das carreiras de maior prestígio social, como era o caso da carreira jurídica, permanecia restrito às classes sociais mais abastadas, enquanto que as carreiras consideradas “menos prestigiosas” eram reservadas ao restante da população, em prol da própria manutenção do sistema. E as mulheres, ao longo da história da educação superior brasileira, tiveram o acesso reduzido aos cursos e profissões liberais, atuando de forma majoritária no magistério. As universidades eram dominadas por homens, assim como o mercado de trabalho, o que reflete o conjunto de valores sociais que prevalecia à época.
A avaliação se revestia do papel de instrumento de manutenção desse sistema, servindo como forma de dar continuidade ao processo de exclusão dos indivíduos ao longo do percurso universitário. Em outras palavras, os indivíduos de diferentes classes sociais continuavam a ter diferentes oportunidades de acesso, dentro de uma ordem social rígida em que as classes sociais mais favorecidas acessavam a maior parte das vagas dos cursos mais concorridos nas universidades, ou as acessavam
com uma facilidade maior do que os indivíduos oriundos das classes pobres. Sem falar do fato de que grande parte da população sequer tinha acesso a educação superior, o que revela um contexto de profundas desigualdades sociais dentro do sistema de educação brasileiro.