Sobre as referências mais utilizadas nos artigos destacam- se Jesus Martin Barbero que aparece citado 39 vezes, seguido por Cicília Peruzzo (21) e Maria Cristina Mata (20). Na sequ- ência, são citados Manuel Castells (18), Martin Becerra (18), Néstor Garcia Canclini (15), Pierre Bourdieu (14), Armand Mattelart (13), Raúl Fuentes Navarro (11), Paulo Freire (10), Guillermo Mastrini (10), Luís Ramiro Betrán (8) e Cebrián Herreros (7), além de inúmeros outros autores que constam com menos citações5.
Quadro 3
Autores mais citados Nº de citações
Jesus Martin Barbero 39
Cicilia Peruzzo 21
Maria Cristina Mata 20
Manuel Castells 18
Martin Becerra 18
Garcia Canclini 15
Fonte: elaboração própria.
Ao se analisar as referências observa-se a predominância de autores ligados aos estudos de cultura latino-americana (Bar- bero, Canclíni, Beltrán), de cidadania e comunicação comu- nitária (Freire, Peruzzo e Mata), de tecnologias (Castells), de economia política da comunicação (Mastrini, Becerra, Mat- telart), de estudos do discurso (Bourdieu), de metodologias da comunicação (Fuentes Navarro) e de rádio, propriamente, (Cebrián Herreros). Verifica-se, portanto, nos artigos analisa- dos, a preferência por autores voltados à realidade latino-ame- ricana, com foco principalmente em temas relativos às comu- nidades, mas também em questões macro como da economia política da comunicação e das tecnologias globalizantes, sem deixar de lado o discurso dos meios de comunicação, assim como as metodologias empregadas.
Sobre a questão é interessante lembrar as observações de
5. Excluiu-se da contagem aqueles artigos que se referem especificamente a um autor e, por consequência, apresentam um grande número de citações sobre a sua obra, o que distorceria o resultado final.
Conteúdos sobre rádio em oito revistas latino-americanas de Comunicação (2010-2015) Martino (2014) quando diz que “a aferição dos lugares de fala a partir das citações de outros autores permite formar um ín- dice a partir da materialidade desse discurso na escrita dos textos”. Mas ele salienta, ainda, os cuidados necessários so- bre a quantidade de vezes em que um autor aparece que “não pode ser tomada como um retrato de sua apropriação, posto que a divisão não é horizontal, isto é, pelo número de artigos em que é citado, e um autor pode ter diversas obras citadas em apenas um artigo” (MARTINO, 2014, p.163).
Na questão específica das referências utilizadas nos arti- gos sobre comunicação comunitária, publicados nas revistas de Comunicação latino-americanas, por exemplo, percebe-se uma significativa aproximação à área, tanto no que se refere às características das próprias emissoras, com autores como Peruzzo e Mata, quanto sobre a cultura latino-americana, como Martin Barbero, entre outros. No entanto, é sempre bom estar atento ao contexto em movimento, como salienta Martino (2014):
As questões específicas de discussão de conceitos e teorias, bem como de objetos e estudos de caso, lembram que os problemas epistemológicos não acontecem fora de uma história, de um contexto de transformações sociais em um sistema econômico e político específico, que ao colo- car situações novas, abre novos horizontes para as práticas sociais humanas, dentre as quais a Comunicação. À medi- da que novos objetos de reflexão aparecem, demandando teorias e conceitos que permitam sua compreensão, apare- ce igualmente uma busca pelas fundamentações, limites e possibilidades desses referenciais (MARTINO, 2014, p.173, apud HAUSSEN, 2016, p. 160).
Em relação aos artigos sobre jornalismo observa-se uma preocupação com as alterações que vem ocorrendo, seja na apresentação dos conteúdos, seja nas rotinas profissionais. Dos cinco textos sobre o tema, dois referem-se às modificações nas práticas da profissão, resultando no denominado jornalista “multitarefa”, e as novas competências exigidas para atuar no entorno digital. Também se destacam as interrelações entre notícia e entretenimento, que se acentuam, bem como a ne- cessidade de se refletir sobre novas categorias metodológicas que precisam ser adotadas nos estudos sobre o tema.
Doris Fagundes Haussen
Em relação às tecnologias radiofônicas, objeto de alguns dos artigos, é oportuno lembrar o que apontam Berger e Ma- chado (2013):
É a tecnologia, com as suas possibilidades de produção, de consumo, e de repercussão na organização da vida em sociedade, que tem provocado novas perguntas e novos modos de fazer pesquisa, assim como uma reflexão sobre o lugar das teorias que nos fundaram, agora, diante deste novo cenário (BERGER; MACHADO, 2013, p. 254).
E sobre as modificações que as pesquisas sobre rádio vêm apontando, Haye (2003) lembra, ainda, que elas “guardam es- treita relação com as perspectivas de abordagem hegemônicas a partir das quais a comunicação adquiriu interesse científi- co”. Mas também salienta que é preciso atentar para “condi- cionamentos que costumam impor os contextos sociopolíticos em que os estudos se desenvolvem” (HAYE, 2003, p. 227). De qualquer forma, o que realmente se destaca, segundo o autor, é que
O rádio continua sendo uma experiência que habilita a realização de outras análises acerca da partici- pação de diferentes gêneros em sua programação. Sobre as razões que sustentam a credibilidade de uma emissora (ou de uma audição ou de um (a) comunicador (a) em particular), os usos que fazem os ouvintes com a oferta radiofônica, a capacidade atual do meio para intervir na constituição da temática de seu público, etc. [...] o rádio oferece estimulantes possibilidades de pesquisa, sobretu- do em um tempo como o atual, em que ocorrem modi- ficações tão intensas na geografia comunicativa em geral (HAYE, 2003, p. 228 -229)6
Observa-se, desta forma, que o rádio mantém a sua impor- tância como objeto de estudos, embora fazendo parte de um contexto mais amplo e complexo. As revistas científicas, por sua vez, também têm um papel significativo de apresentar as produções resultantes dessas análises.
6. Tradução do espanhol pela autora.
Conteúdos sobre rádio em oito revistas latino-americanas de Comunicação (2010-2015)
Considerações finais
Pode-se dizer, de maneira geral, que na América Latina as revistas científicas de Comunicação, “têm favorecido a difusão da produção intelectual dedicada à análise dos fenômenos co- municativos, além de introduzir e generalizar diferentes cor- rentes teóricas e metodológicas, assim como debates cruciais para o futuro da região” (JONES, 1996, p. 65)7. E é o que se
observa especificamente nos textos analisados sobre as rádios comunitárias, um dos temas que mais chamou a atenção dos pesquisadores, além dos diferentes enfoques desenvolvidos por seus autores. No entanto, embora haja variações, algo é comum a todos: a percepção de que este tipo de emissora re- almente oportuniza a participação popular, apontando para a tese defendida por Peruzzo e outros autores sobre o verdadeiro papel desses veículos de comunicação. Ou seja:
As rádios comunitárias na prática atuam como instrumen- tos de ampliação do direito à comunicação ao incluírem a noção de participação, entendida por Pasquali (2005, pg. 38) como o “exercício da capacidade de produzir e trans- mitir (gerar, codificar, fornecer um veículo para dissemi- nar, publicar ou transmitir) mensagens de qualquer natu- reza” (PERUZZO; VOLPATO, 2010, p. 42).
A respeito do interesse dos autores pelas tecnologias no que se refere ao rádio digital, é interessante observar nos textos analisados, que há, principalmente, uma ênfase na apropria- ção por setores menos favorecidos da sociedade fortalecendo a ponderação de Barbero (2006):
O que estamos precisando pensar é a hegemonia comuni- cacional do mercado na sociedade, ou melhor, a conver- são da comunicação no mais eficaz motor do deslanche e inserção das culturas – étnicas, nacionais ou locais – no espaço/tempo do mercado e das tecnologias. Mas, ao mes- mo tempo estamos precisando pensar o novo mapa que essas tensões desenham entre as mutações tecnológicas, as explosões e implosões das identidades e as reconfigurações políticas das heterogeneidades (BARBERO, 2006, p. 53).
Por outro lado, com relação às revistas e à sua importância
7. Tradução do espanhol pela autora.
Doris Fagundes Haussen
na divulgação científica desses conteúdos (e outros), é preciso levar em consideração a reflexão de Orozco (2000):
Este esforço (de publicar) é totalmente insuficiente para motivar o interesse dos leitores do novo milênio, acostu- mados já a ter acesso a múltiplas informações e conheci- mentos especialmente via internet. O que está em jogo nas revistas latino-americanas de pesquisa em Comunicação é a transcendência do que publicam, tanto para captar a atenção dos leitores como para estimular um certo tipo de difusão e, sobretudo, de geração de conhecimentos sobre o comunicativo. Não se trataria apenas de expor ou re- criar conhecimentos, senão de propor, analisar, criticar e discutir a partir de reflexões bem informadas ou de dados empíricos” (OROZCO, 2000, p. 65).
Sobre esta questão, considerando-se a análise dos artigos efetuada neste trabalho, pode-se dizer que há uma sensibi- lidade na abordagem dos autores, justamente no sentido de refletir criticamente e propor caminhos para uma comunica- ção mais democrática e próxima da comunidade local. E a justificativa para a abordagem deste conteúdo nas revistas de Comunicação encontra eco nas palavras de Gonzalez (2016), ao constatar que
No decorrer da primeira década do século XXI muitas das condições concretas que conformam nosso continente se mantiveram e muitas outras se tornaram prementes, vale a pena insistir na pesquisa profissional e rigorosa, porém ao mesmo tempo aberta e sensível, da cultura e a suas dinâ- micas nas sociedades da América Latina (GONZALEZ, 2016, p. 19).
Neste sentido, os periódicos científicos têm tido um im- portante papel ao disponibilizar os resultados dessas pesqui- sas, apresentados sob a forma de artigos. Conforme Menezes e Couzinet (1999), essas publicações têm expressivo valor para essa produção porque são “uma fonte essencial de informação para a ciência em curso de formação, um indicador da ativi- dade científica de grupos de pesquisadores e um indicador da evolução de uma ciência” (MENEZES e COUZINET, 1999, p. 280).
Observando-se a produção sobre o rádio nesses periódicos
Conteúdos sobre rádio em oito revistas latino-americanas de Comunicação (2010-2015) conclui-se que o espaço destinado especificamente ao veículo nas revistas latino-americanas de Comunicação no período analisado não é grande, mas tem recebido um tratamento adequado por parte dos pesquisadores e constitui-se num re- ferencial importante para os estudiosos da área, em determi- nado período. Além disso, destaca-se o papel desses periódicos no que se refere à memória da produção científica da área da Comunicação/Radiodifusão na América Latina. Por fim, sa- lienta-se a importância de estudar o veículo rádio que hoje se encontra em diversos suportes tecnológicos de comunicação, além das ondas eletromagnéticas. Estas possibilidades fazem com que o veículo enfrente também novos desafios chamando a atenção dos pesquisadores para o estudo dessa realidade.
Doris Fagundes Haussen
Referências bibliográficas
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3. HAUSSEN, D. F. “Revistas de Comunicação brasileiras registram a pesquisa sobre rádio (2002-2012)”. Revista Intercom Online. Vol. 39, série 3. São Paulo, Intercom, 2016, p. 155-165. www.portcom.intercom.org
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8. OROZCO GOMEZ, G. “Desafios de la investigación en comunicación para el nuevo milenio: un análisis a partir de diez revistas latino-americanas”.
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9. PERUZZO, C. M.K. Rádio comunitária, educomunicação e desenvolvimen- to local. In PAIVA, Raquel (org.). O retorno da comunidade: os novos caminhos
do social. Rio de Janeiro, Mauad, 2007, p. 69-94.
10. PERUZZO, C. M. K.; VOLPATO, M. de O. “Rádio comunitária e liberdade de expressão no Brasil”. Revista Chasqui n. 109. Quito, CIESPAL, 2010, p. 38-42.
Sites das revistas
1. ALAIC: www.alaic.org/revistaalaic 2. CHASQUI: www.revistachasqui.org 3. E-COMPÓS: www.compos.org4. DIALOGOS de la COMUNICACIÓN: www.felafacs.net 5. INTERCOM: www.portcom.inyercom.org.br/revistas 6. QUESTIÓN/CUESTIÓN: www.perio.unlp.edu.ar 7. RAZÓN Y PALABRA: www.razonypalabra.org.mx 8. SIGNO Y PENSAMIENTO: www.revistas.javeriana.edu.co