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O ambiente do telejornal

No documento PORTCOM (páginas 153-161)

Entre os elementos que compõem o ambiente do telejor- nal, destaca-se como um código que comunica credibilidade a tradicional bancada, que separa os espaços do apresentador e do telespectador e sugere maior importância para aquele que se posiciona no “lugar do discurso”. A bancada é o elemento não verbal de maior importância na história dos telejornais e continua aparecendo nos formatos contemporâneos, mesmo que repaginada por materiais de fabricação – como vidros e superfícies transparentes – que a tornam mais leve e elegante (conforme exemplos da figura 1). Também é comum, neste contexto, o uso de enquadramentos que revelam o que está por trás do móvel.

Figura 1: De cima para baixo, os cenários com três ambientes do Jornal Hoje, Jornal da Globo e Bom Dia Brasil, no Rio de Janeiro e os cenários do Bom Dia Brasil em Brasília e São Paulo.

Ao contrário do sentido de credibilidade produzido a partir da bancada, outros elementos cênicos e de mobiliário promovem simpatia, cordialidade e uma aproximação entre o apresentador e seu interlocutor. É o caso das poltronas que compõem parte do cenário do Bom Dia Brasil (figura 2). Ali,

O que comunicam os códigos não verbais no telejornalismo os apresentadores se posicionam como em uma sala de estar, onde interagem em grupo. Apesar da postura reta e elegante – apontada como um código da credibilidade – o móvel e o ambiente sugerem troca de experiências e conversas menos formais do que aquelas que ocorrem na bancada. Soma-se a isso o fato de que as poltronas são vermelhas, uma cor quente que, assim como a textura aparente do móvel, é convidativa e aconchegante.

Ainda no ambiente, pode-se observar também códigos que comunicam atualidade. As cores predominantes nos ce- nários imitam as cores naturais ao período do dia em que são exibidos (tons de laranja, como os primeiros raios de sol, no telejornal do início da manhã e azul escuro no programa exi- bido no início da madrugada, por exemplo e indicam para o telespectador que aquele corpo que aparece na tela está envol- vido no mesmo clima, no mesmo ritmo e na mesma sequen- cia de rotina que o corpo de quem assiste. No telejornal Bom Dia Brasil há ainda outro código de atualidade: o fundo do cenário das sucursais tem grandes janelas que permitem ver o movimento das cidades, São Paulo e Brasília, “acordadas” para os fatos do dia.

Também se tornou comum exibir os jornalistas membros da redação trabalhando ao fundo do cenário, como um códi- go não verbal que reforça o sentido de atualidade sugerindo

Figura 2: Poltronas do Bom Dia Brasil.

Beatriz Cavenaghi

que também os corpos dos demais jornalistas – não apresen- tadores – estão envolvidos na tarefa de comunicar as notícias “naquele momento” em que o telespectador assiste.

O telão é também uma espécie de janela que permite ver aquilo que está acontecendo fora do cenário. Assim, constitui- se como um código da atualidade comunicada pelos telejor- nais, pois permite olhar para aquilo que ocorre “agora”, do lado de fora do estúdio. Em determinados momentos, o telão apresenta ícones clicáveis ou gráficos animados conforme a in- teração e o toque do apresentador. Nesses casos, fica evidente a construção de sentido de atualidade modernidade, visto que os apresentadores cumprem com total desenvoltura a função de fazer funcionar a tela touch screen. Da mesma forma, pode- mos considerar que a presença de dispositivos móveis – como o tablet que em certos casos substitui as laudas de papel na mão dos apresentadores, ou até mesmo a presenta de note- books sobre a bancada – é também um código que comunica atualidade. Isto porque ambos demonstram que o telejornal está atualizado em relação à tecnologia e que os apresentado- res dominam sua funcionalidade.

Figura 3: Posturas descontraídas de Thiago Scheuer, Cris Dias e Renata Vasconcelos.

Com relação aos gestos, observa-se que aqueles conside- rados independentes da fala4 aparecem também como códi-

gos de empatia porque suprimem a necessidade do texto que caracteriza o discurso jornalístico. A figura 4 mostra gestos independentes como um aceno de tchau ou um “V” com os dedos indicando um desejo de paz e tranquilidade são co- muns em interações informais e indicam certo grau de en- volvimento na situação comunicativa, diferente daquele que se dá, por exemplo, com o “boa noite” sem movimentos do corpo, pronunciado tradicionalmente ao final dos programas.

2. Também conhecidos como emblemas, são aqueles cuja consciência de uso “é quase a mesma da escolha das palavras” (KNAPP e HALL, 1999). Isto significa que não são usados inconscientemente. São bem codificados, e facilmente reconhecidos em determinados grupos. São exemplos os acenos com a mão em despedidas, ou movimentos com a mão para chamar alguém, assim como o sinal “joia” com o polegar levantado.

O que comunicam os códigos não verbais no telejornalismo Gestos de interação5 são também códigos da empatia na

medida em que são convidativos e, mais do que chamar a atenção, buscam criar para o interlocutor uma sensação de pertencimento, de inclusão na conversa. Já os gestos relacio- nados ao falante6 (figura 5) talvez sejam aqueles que mais ex-

põem o apresentador, deslocando-o da aparência de contro- lador da situação que caracteriza os códigos da credibilidade.

3. Ocorrem quando o sujeito falante aponta para um interlocutor, por exemplo, dizendo “já vou lhe dar a palavra”. 4. 6 Indicam a disposição do falante,

por exemplo certeza ou incerteza (palmas para baixo ou palmas para cima).

Figura 4: Gestos independentes da fala no encerramento do Bom Dia Brasil.

Os gestos de ênfase podem ser considerados também có- digos da credibilidade. Eles ocorrem geralmente em conjunto com outro código: a ênfase vocal que traz um tom de serie- dade para o falante e ajuda a manter a atenção nele. A fala marcada por ênfases lembra a atuação de palestrantes ou ora- dores em quem se deve prestar a atenção. Não por acaso a valorização das ênfases é uma técnica utilizada e ensinada no treinamento de oradores que queiram atrair para si a atenção de uma audiência de modo a fazê-la confiar naquilo que é dito. Outro tipo de gesto que cumpre a função de código da credibilidade é aquele utilizado para a indicação de detalhes no telão. Seu uso coloca o apresentador em uma situação pró- xima à de um professor que explica, destaca e revela aquilo que é importante.

Beatriz Cavenaghi

Entre as expressões faciais, destacam-se o sorriso e o riso espontâneo considerados, nos telejornais, códigos de empatia porque os apresentadores não precisam conter as expressões de alegria ou divertimento, reagindo como qualquer pessoa reagiria ao se divertir com uma reportagem exibida ou a um comentário engraçado feito por um colega.

Os movimentos dos apresentadores, deslocando-se em diversos ambientes do cenário também podem ser analisa- dos. Por exemplo, quando o jornalista levanta da bancada e caminha em direção à tela para conversar com um repórter, cria-se uma encenação que sugere uma situação comum: algo “lá fora” chama a atenção de um sujeito e ele se aproxima da janela para ver o que é. Assim faz o apresentador, convidan- do o telespectador para que observe também o que ocorre no mundo a partir da “janela” posicionada no estúdio e criando, com isso, efeitos de atualidade e empatia.

Os movimentos de câmera que acompanham o andar dos apresentadores e, assim, simulam a movimentação do interlo- cutor, sugerem também a aproximação com o telespectador. Em alguns casos, a câmera se movimenta enquanto o apresen- tador permanece parado e, assim, sugere uma movimentação daquele que o observa. É como se o telespectador pudesse, ele mesmo, aproximar-se para olhar mais de perto.

Em outros momentos, a câmera se desloca para acompa- nhar uma movimentação do apresentador (como mostra a figura 6). Se considerarmos que a câmera simula a sensação do interlocutor, essa encenação sugere que ambos caminham juntos, apresentador e telespectador, enquanto o primeiro apresenta as notícias para o segundo, num movimento muito próximo àquele que poderia ocorrer em uma situação de inte- ração face a face.

Figura 5: Gestos que demonstram incerteza do falante.

O que comunicam os códigos não verbais no telejornalismo

Considerações finais

A articulação teórica e os exemplos destacados neste artigo pretenderam tornar evidente que os códigos não verbais que atuam no telejornalismo podem se constituir como um siste- ma de equivalências. O apresentador, ao invés de argumentar sobre sua credibilidade e sobre sua posição como sujeito de direito da enunciação, o faz a partir de códigos não verbais enquanto comunica, pelo código verbal, outra mensagem: a notícia.

Figura 6: Câmera acompanha os movimentos de Renata Vasconcelos (esquerda) e Dony De Nuccio (direita) para mudança de ambiente.

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A partir da compreensão desse sistema de equivalências, podemos indicar a gestão adequada para o uso dos códigos, de acordo com os objetivos de cada formato de programa. Essa gestão, porém, só se torna possível na medida em que se compreenda o conjunto – o corpo como o elemento chave, atuando em interação com outros elementos da comunicação não verbal.

Cada programa pode obter diferentes resultados na pro- dução de sentidos, mas todos eles passam pela evidência dos elementos não verbais. Isso se verifica ao considerarmos que os códigos da credibilidade, se usados isoladamente, remetem ao estilo que caracterizou o padrão tradicional de apresentação na televisão brasileira até o final dos anos 90. Neste formato, é reforçada a postura distante e impessoal do apresentador. Já os códigos da empatia marcam o padrão contemporâneo, fazendo a distinção entre um modelo e outro.

O resultado da sistematização desses códigos não verbais não se aproxima de um dicionário, de onde poderíamos ex- trair significados para cada gesto e também passa longe da rigidez normativa de uma ortografia, mas é sistemático o sufi- ciente para garantir a manutenção do contrato comunicativo estabelecido entre um telejornal e sua audiência e, em segunda instância, para facilitar os processos de ensino-aprendizagem relacionados à prática da apresentação. Por isso, podemos fa- lar em um sistema de códigos não verbais da apresentação televisiva – porque manifesta coerência na recorrência.

O que comunicam os códigos não verbais no telejornalismo

Referencias bibliográficas

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Conteúdos sobre rádio em oito

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