7 SUBJETIVIDADE E PRODUÇÃO DE SENTIDOS SUBJETIVOS
8.4 As relações afetivas dentro e fora do movimento antimanicomial
Nesta categoria, abordamos as relações afetivas que permeiam o processo de participação política, demonstrando como contraponto, as experiências de desrespeito e estigmatização vivenciadas em espaços sociais fora do espaço do movimento antimanicomial. Trazemos ainda, nesse ponto, a discussão sobre como os entrevistados atribuem significação a tais experiências, tanto em suas vidas particulares, quanto em relação às pessoas com sofrimento mental como grupo.
As emoções, ou os afetos, para Honneth (2009) e para González Rey (2005a), constituem- -se como registros extremamente importantes da subjetividade humana. “As emoções representam estados de ativação psíquica e fisiológica, resultantes de complexos registros do
cultural das emoções é salientado, de forma que a emoção não pode ser compreendida apenas em seu aspecto biológico, mas também subjetivo, estando em estreita relação com as ações práticas, as quais caracterizam o sujeito em seu espaço de relações sociais.
Trazemos o depoimento de Aline, que demonstra como as relações afetivas desenvolvidas com as pessoas do movimento antimanicomial produzem sentidos subjetivos em sua experiência, e buscamos demonstrar que há uma contradição nas relações dentro e fora do movimento:
Então, já é duas pessoas que me mal tratam, menina. Eu não quero ser mal tratada! Porque a gente fica muito vulnerável. Quando a gente é tratada no movimento, a gente é bem tratada no movimento. Mas quando você sai aqui fora tem cada pessoa ruim, você tem que tomar muito cuidado. O tratamento no Centro de Convivência é bom, lá todo mundo vai te respeitar, vai te dar direito a, se você quer chorar, você chora, se você quer ficar alegre você pode ficar, todo mundo te trata com palavras carinhosas, até.... Eu falei pra ela [uma colega de Aline] que meu diagnóstico é esquizofrenia e às vezes eu sou muito deprimida, eu deito na cama, fico só na cama. Ela não se ligou nisso, sabe. Falou que eu usava droga, que cigarro é droga, então eu era igual uma pessoa drogada, com cigarro.
Observa-se que espaços públicos de compartilhamento de ideias, como no caso o espaço do movimento social da luta antimanicomial, podem permitir a construção de novos laços afetivos de amor, mesmo para aquelas pessoas que não encontraram relações afetivas em outros espaços (Mendonça, 2009b). A vivência de estigmatização da pessoa com um diagnóstico de sofrimento mental, como ela nos mostra, ainda está presente de forma contundente nas relações sociais. Aline nos mostra a importância das relações afetivas que se desenvolvem tanto no movimento antimanicomial, quanto nos serviços substitutivos antimanicomiais como fatores importantes de aceitação e de construção de identidade, poder ser quem se é, e, consequentemente, de autoconfiança. Mais uma vez, a entrevistada aborda “movimento” e “Centro de Convivência” como espaços similares, ou contínuos, o que já discutimos anteriormente.
Ao ser questionada se ela observava alguma mudança na forma como as demais pessoas da sociedade tratam ou se relacionam com as pessoas com sofrimento mental, Aline nos responde:
Ah, acho que não. Não, mudou não, sabe por quê? As pessoas nem sabem o que é esquizofrenia direito, só sabem que é uma coisa grave. “Nossa isso é grave, eu vou ficar andando com essa pessoa doida não”. Odeio isso, sabe? Então, mas as pessoas da sociedade tão nem aí. Algumas têm mais sensibilidade.
Nesse trecho, o preconceito que ela experimenta ao ser rejeitada no convívio social por ser
à dimensão da estima social, em que as pessoas poderiam se sentir não estimadas por
características particulares, está também ligado à dimensão afetiva. “... ele [o preconceito]
afeta profundamente a experiência dos vínculos afetivos fortes e, consequentemente a capacidade dos sujeitos de confiar em si mesmos e no mundo que os circunda.” (Mendonça, 2009b, p. 253). Assim, na experiência de Aline, o mundo ainda parece um lugar pouco acolhedor às diferenças, e o espaço do movimento social seria um espaço mais aberto a acolher sua subjetividade de forma mais integral.
Essa percepção subjetiva, de que a sociedade ainda discrimina a pessoa com sofrimento mental não é compartilhada por todos os membros do grupo. Anastácia, por exemplo, tem uma opinião diferente. Ao ser questionada se ela observa alguma mudança no tratamento das pessoas com sofrimento mental pela sociedade, ela nos responde:
Isso é total, total. Eu tava no ônibus outro dia.... Eu tava sentada junto com uma menina, comecei a falar com ela sobre o movimento. Ela falou assim: “Engraçado, antigamente tinha tanto louco na rua e não tem mais. Onde eles estão?”.... Eu falei: “Estão na rede”. “Onde estão os loucos que ficavam nas ruas?”. “Os Centros de Convivência estão cheios, os CERSAMS estão cheios”, falei pra ela. Eles ficam lá pintando, fazendo cerâmica, fazendo literatura, que é o que eu chamo de estar jogando o seu excesso ali, né. Ele sai menos louco cada vez que vai ali....
Observamos que, para Anastácia, a sociedade tem se mostrado um espaço mais aberto a acolher a pessoa com sofrimento mental de forma diferente de como era antigamente, com redução da estigmatização. Temos a impressão, em sua fala, que “antigamente” os loucos
estavam nas ruas, o que parece apontar para uma falta de dignidade, e “atualmente”, após o
movimento da reforma psiquiátrica, eles estão nos serviços substitutivos, produzindo arte, podendo exercer sua dignidade.
Em outra ocasião, em um evento realizado na UFMG, em que Anastácia foi convidada a falar aos estudantes, ela salientou a postura afetiva da rede de saúde mental, citando uma frase, a qual ela nos permitiu copiar, e que foi copiada literalmente:
existe a gentileza. Se você fô gentil, tudo, o sê com o qual você foi gentil vai sê gentil com você. O louco também. Existe então, na rede, a psicologia amorosa, ela não parte de Freud, parte de você.
A frase apresentada por Anastácia remete ao aspecto intersubjetivo das relações afetivas. A condição intersubjetiva em cada dimensão do reconhecimento é o alicerce da proposta de Honneth (Mendonça, 2009a). Dessa forma, Anastácia nos demonstra que a gentileza é uma via de mão dupla e que essa forma afetiva de relacionamento é característica da “rede”. Obviamente essa é uma concepção subjetiva da entrevista, baseada em suas experiências
pessoais e que não podemos trazer como análise ampla das relações estabelecidas na rede de saúde mental, nem no movimento social. Anastácia também denuncia aí a importância do aspecto afetivo se sobrepondo ao aspecto técnico nas relações entre profissionais de saúde mental e usuários. Ao afirmar que “a psicologia amorosa não parte de Freud, parte de você”, ela nos chama a atenção para o fato de que não basta o saber técnico e teórico sobre a psique humana, mas as interações afetivas entre pessoas que constituem aspecto fundamental nos processos de tratamento em saúde mental. Ainda em relação às relações afetivas desenvolvidas no ambiente antimanicomial, Anastácia afirma que:
A rede26, ela tem uma coisa peculiar, que os oficineiros, os gerentes, os psicólogos, todo mundo da rede tem um trato especial com o usuário, ele tem um tato, ele tem um jeito de tratar o usuário que não choque, entendeu? É carinhoso, sabe?
O carinho, que aparece também na fala de Aline, é uma expressão de emocionalidade que abriga o caráter afetivo que poderíamos considerar como importante fator de autoconfiança. Assim, tanto Aline, quanto Anastácia enfatizam as relações afetivas positivas construídas no ambiente social antimanicomial (seja a rede de saúde mental, seja o movimento antimanicomial). Porém, Aline contrapõe as vivências afetivas desenvolvidas dentro do grupo, que seriam positivas em relação às vivências afetivas com outros grupos sociais com os quais convive. Já Anastácia percebe de maneira diferente e observa que a sociedade no geral tem começado a, pelo menos, observar mudanças em relação aos lugares ocupados pelas pessoas com sofrimento mental na cidade, sendo espaços de maior dignidade.