2. AS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO – TICS E A
2.3 As TICs: Novas capacidades e forma de privação
Diante da discussão sobre emergência das novas Tecnologias de Informação e Comunicação – TICs e das modificações ocasionadas pela sua expansão cria-se uma nova forma de desigualdade social: a desigualdade digital, ou como é denominada por alguns autores, “exclusão digital” (Silveira 2001; Warschauer 2006). Nessa perspectiva, neste tópico será construída uma correlação da problemática inclusão/exclusão/desigualdade digital com os principais conceitos de Amartya Sen (1993; 2000). Destacando que na contemporaneidade a sociedade exige novas capacidades dos indivíduos, em se tratando do quadro atual, pode ser citado como exemplo o letramento digital, como uma nova exigência para atingir efetivações e não sofrer uma privação que nesse caso pode ser denominada de exclusão digital.
Segundo o Sen, existe uma combinação de fatores para que o indivíduo amplie seu desenvolvimento, se tornando agente da sua liberdade, com a harmonia de fatores como
capacidade, efetivação e eliminação das privações que possibilitam a liberdade e o desenvolvimento. O esquema abaixo demonstra os principais conceitos de Sen que serão
discutidos a seguir.
FIGURA I – ESQUEMA DOSPRINCIPAIS CONCEITOS (SEN, 1993/2000)
(Fonte: Arquivo próprio)
Sen possui uma visão de desenvolvimento que vai além de fatores econômicos. Logo, o teórico defende que a liberdade e o bem-estar individual seriam as ferramentas para o desenvolvimento como liberdade e expansão das capacidades. No esquema demonstrado acima, Temos alguns dos principais conceitos abordados por pelo autor. No que se referem aos conceitos, as capacidades são o conjunto de “atividades” e “modos de ser”, esses
Efetivação
capacidade Privação
conjuntos se tornam efetivações, que estão relacionadas a conquistas, a qualidade de vida. Ao ser privado de escolhas e a conquistas pessoais, os indivíduos sofrem uma privação.
Nessa perspectiva, quando determinadas parcelas da sociedade não têm acesso aos aparatos tecnológicos, ou possuem acesso de forma parcial, existe uma nova forma de privação: a privação digital. De acordo com o exposto, com a privação digital, os indivíduos não podem desenvolver as capacidades exigidas na sociedade em rede, que prima pela conexão, e acesso a aparatos tecnológicos digitais e tecnologias da informação e comunicação. Desse modo, tem uma privação e uma ausência de capacidade.
Nessa perspectiva, cada sociedade, historicamente localizada, exige dos seus indivíduos formas distintas do que Amartya Sen conceitua de capacidade. As sociedades historicamente instituem um conjunto de formas de ser e normas, que exigem dos indivíduos a adequação do modus operandi de determinadas estruturas sociais. Nas sociedades tradicionais os modos de ser e as exigências eram próprias da estrutura social da época, pois os indivíduos deveriam possuir determinadas habilidades que eram características singulares do meio em que estavam inseridos. Nesse sentido, cada período histórico terá diferentes tipos de capacidades a serem exigidas dos seus membros. Nesse sentido,
A ‘capacidade’ de uma pessoa consiste nas combinações alternativas de funcionamento cuja realização factível para ela. Portanto, a capacidade é um tipo de liberdade: a liberdade substantiva de realizar combinações alternativas de funcionamentos (ou, menos formalmente expresso, a liberdade para ter estilos de vida diversos) (2000, p. 95).
Combinações alternativas de funcionamento significam concretamente o acesso prévio dos indivíduos às ferramentas que possibilitam a distinção e os capitais econômicos e sociais, ou seja, o não acesso a essas oportunidades de inserção que possibilitam obter os bens e o reconhecimento prometidos como a realização social por cada sociedade. Assim, os indivíduos que podem combinar como alternativa de funcionamento, como por exemplo, a escolaridade superior, formação profissional qualificada, com acesso as informações e saúde. Nesse sentido, o indivíduo exercita sua liberdade, ao contrário daqueles que estão privados do acesso aos exemplos citados anteriormente. Segundo Sen, podem ser citados como exemplo de capacidade,
Ser capaz de sobreviver é apenas uma capacidade entre outras (embora seja sem dúvida uma capacitação básica), outras comparações podem ser feitas com base em informações sobre saúde, morbidade, etc. A capacidade de ler e escrever também é muito importante, e as taxas de analfabetismo são muitas
vezes escandalosamente mais altas entre as mulheres em diversas partes do mundo (1993, p. 324).
Segundo Sen, as capacidades são efetivações que os indivíduos, membros de uma sociedade conseguem alcançar enquanto existência de exigências sociais. Cada sociedade estabelece através de seu imaginário social, normas, leis, regras, quanto às atividades, as efetivações, e os “modos de ser”, que são objetivos a serem alcançados na vida social. Ainda segundo o autor, “os elementos constitutivos da vida são vistos como combinações de várias efetivações (1993, p. 316)”. Sen destaca que as capacidades são,
[...] combinações de efetivações (atividades e modos de ser) que uma pessoa consegue alcançar. Isso envolve uma certa concepção de vida com uma combinação de várias “atividades e modos de ser”. A capacidade reflete a liberdade pessoal de escolher entre vários modos de viver (1993, p. 316).
Esses “modos de ser” são condicionados e em boa parte determinados pelas escolhas que a própria sociedade oferece. Quanto maior apropriação de capacidades socialmente relevantes pelos indivíduos maior a liberdade usufruída pelos mesmos. Por outro lado, quanto maior a privação em relação às capacidades socialmente exigidas, menor a liberdade e mais restritos os modos de vida destes indivíduos.
Em conformidade com o autor, a capacidade potencializa e permite a liberdade pessoal de escolha entre vários “modos de ser”, mas para que isso aconteça os indivíduos precisam alcançar a condição de agente em suas vidas. A condição de agente dar-se quando os indivíduos têm as capacidades exigidas pelo mundo social. Cada vez que os indivíduos têm acrescido ou aprimorado uma capacidade (por exemplo, ler e escrever, qualificação profissional, acesso a políticas públicas de saúde, educação, moradia, dentre outras) tem uma
efetivação em sua vida e, portanto, ampliado as combinações possíveis para escolher modos
de vida. Nesse sentido, as políticas públicas quando alcançam efetividade em seus objetivos promovem efetivações nas vidas dos indivíduos. Segundo Sen,
Pode-se listar desde efetivações elementares como evitar a morbidade ou a mortalidade precoce, alimentar-se adequadamente, realizar movimentos usuais, etc, até muitas efetivações complexas tais como desenvolver o autorrespeito, tomar parte da vida da comunidade e apresentar-se em público sem se envergonhar (1993, p. 316).
De acordo com o exposto, as capacidades são exigências sociais, já as efetivações são algo que é necessário alcançar para realizar os funcionamentos sociais, que são
combinações das capacidades. As efetivações podem ser exemplificadas, uma alimentação adequada, participar da comunidade, falar em público, mas, no entanto, não é possível haver efetivação com a privação de liberdade, pois, sem ela, os indivíduos não alcançam a condição de agente. O desenvolvimento acontece no momento em que o indivíduo como agente no processo de expansão das suas capacidades consegue ser livre, tendo em vista ser possível vislumbrar suas próprias escolhas e que não haja nenhum tipo de privação.
Uma privação é a ausência e/ou falta de acesso às capacidades exigidas socialmente dos indivíduos para usufruir dos modos de vida presentes na sociedade. Assim quem não tiver acesso à escolaridade, alimentação, saúde, desenvoltura para falar em público, acesso às tecnologias de informação e comunicação, dentre outros, têm importantes privações nas sociedades ocidentais contemporâneas. Ao se falar em privação delineia-se um processo que vai além de fatores econômicos, um exemplo seria o crescimento do PNB (Produto Nacional Bruto), mas, nesse sentido não seria suficiente, visto que o indivíduo necessita de “liberdades
substantivas” que só se tornam possíveis quando se tenta sanar as privações existentes, como
por exemplo, serviços de educação e saúde, liberdade de participação em escolhas políticas e nas decisões públicas. Na perspectiva de Sen o fator econômico não seria o bastante para se falar em desenvolvimento.
Com a concepção de desenvolvimento como expansão das capacidades e da liberdade dos indivíduos, Sen (2000) supera a concepção tradicional de desenvolvimento e amplia sua conceituação indo além do fator econômico e da noção de sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável. Segundo o autor, o desenvolvimento, não se restringe apenas ao crescimento econômico e a industrialização, por mais que o mesmo não descarte essa possibilidade, há de se considerar outros fatores que são preponderantes nesse processo. Ainda segundo Sen, o indivíduo só poderá alcançar o desenvolvimento com a superação das privações.
Na perspectiva seniana, a liberdade é uma perspectiva norteadora do processo de desenvolvimento, sendo um dos seus principais objetivos, meio e fim. Para Sen, as liberdades são divididas em: Liberdades substantivas, as que representam os fins que se deseja atingir, podendo serem descritas como a liberdade de participação política, a oportunidade de receber educação básica e/ou assistência médica, possibilidade de evitar a desnutrição, doenças, morte prematura, além da capacidade de ser alfabetizado, de participar de decisões políticas, e ter liberdade e expressão. Já as Liberdades instrumentais, são meios necessários para se atingir os fins, são os instrumentos necessários para alcançar efetivações. Sen as divide em
oportunidades econômicas, liberdades políticas, facilidades sociais, garantias de transparência e segurança protetora. Segue um esquema do que Sen destaca como liberdades instrumentais:
FIGURA II – LIBERDADES INSTRUMENTAIS (SEN, 1993/2000)
(Fonte: Arquivo próprio)
Ao elencar os cinco tipos de liberdades instrumentais, Sen descreve-as como
liberdades políticas a liberdade de expressão, eleições livres; já no que tange as facilidades econômicas é no que concerne a participação no comércio e na produção; as oportunidades sociais são o acesso a serviços como educação e saúde, que consequentemente possibilitam a
participação econômica; quanto a garantias de transparência é no que cabe a necessidade de transparências das infomações, clareza e sinceridade como forma de impossibilitar corrupções; e segurança protetora corresponde a segurança social, como forma de evitar a miséria, a fome e até mesmo a morte.
Segundo Sen (2000), as liberdades são os meios e os fins primordiais para o desenvolvimento e a combinação das liberdades possibilitam o desenvolvimento das capacidades exigidas socialmente. Segundo Sen, “O desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas de exercer ponderadamente sua condição de agente” (2000, p.10). A privação na perspectiva de Amartya
Liberdade política facilidades econômicas oportunidades sociais garantias de trasparência segurança protetora
Cada um desses tipos distintos de direitos e oportunidades ajuda a promovera capacidade geral
de uma pessoa. Eles podem ainda atuar complementando-se
Sen está no impedimento da expansão das capacidades refletindo-se na liberdade de escolha de um modo de vida.
Nessa perspectiva “[...] o desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam”. Levando em consideração o exposto, Sen considera a liberdade como um fator primordial no desenvolvimento social e individual. Nessa perspectiva, além de liberdades instrumentais e substantivas, a liberdade também necessita de processo determinador que são “disposições sociais e econômicas (por exemplo, os serviços de educação e saúde) e os direitos civis (por exemplo, a liberdade de participar de discussões e averiguações públicas)” (2000, p. 17). No que concerne ao desenvolvimento,
O desenvolvimento requer que se removam as principais fontes de privação de liberdade: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas e destituição social sistemática, negligência dos serviços públicos e intolerância ou interferência excessiva de Estados repressivos. A despeito de aumento sem precedentes na opulência global, o mundo atual nega liberdades elementares a um grande número de pessoas - talvez até mesmo à maioria (2000, p. 19).
O desenvolvimento na perspectiva de Sen (2000; 1993) se dá no sentido de qualidade de vida dos indivíduos, não se restringindo apenas ao crescimento econômico e acesso a bens materiais, mas como uma combinação de fatores que incluem a participação do estado, no que se refere ao bem-estar social, passando pela elaboração e efetivação de políticas públicas. Com a combinação de fatores os indivíduos conseguiriam alcançar efetivações e consequentemente o desenvolvimento e liberdade. Nesse sentido, Sen destaca que,
[...] a privação de liberdade econômica, na forma de pobreza extrema, pode tornar a pessoa uma presa indefesa na violação de outros tipos de liberdade. [...] A privação de liberdade econômica pode gerar privação de liberdade social, assim como a privação de liberdade social ou política pode, da mesma forma, gerar a privação de liberdade econômica (2000, p. 23).
Levando em consideração tais perspectivas seria um processo cíclico, já que a privação se dá em fatores econômicos como também sociais, sendo que um fator pode acarretar o outro. Trazendo para a problemática da desigualdade digital, não ter acesso às TICs é uma forma de privação digital que impossibilita ao indivíduo as efetivações que pode ser definido, nesse caso, com o letramento digital, necessárias para desenvolver suas
Como foi apresentado anteriormente, o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação permitem a expansão das capacidades econômicas, acesso ao mercado de trabalho, e o não acesso causa um novo tipo de privação de acesso a informações e serviços. No entanto, pode acontecer de o individuo ter acesso às TICs, mesmo que de forma limitada, e em contrapartida haver outro tipo privação, como por exemplo, a privação de escolaridade. Nessa condição, ocorrerá um prejuízo na potencialização da capacidade de acesso. Ou seja, se o indivíduo possui acesso aos aparatos tecnológicos, mas não teve a efetivação de sua escolaridade, há uma privação parcial, visto que, mesmo com acesso às TICs, o indivíduo possui dificuldades de manusear e usufruir das suas ferramentas de forma efetiva. Nesse caso, é necessário uma combinação de fatores para que as pessoas possam desenvolver sua condição de agente e chegar ao desenvolvimento como liberdade.
Segundo o autor, seria um conjunto de aspectos determinantes que englobam o processo do desenvolvimento humano, que evolve aspectos econômicos, mas também subjetivos no que concerne em liberdades políticas, educação, poder de escolha. Quando as pessoas não possuem os elementos básicos necessários para a subsistência tornam-se impedidas quanto ao acesso a outros elementos, pois, segundo o autor, a liberdade é uma combinação de várias capacidades.
Nesse caso, “as políticas públicas visando o aumento das capacidades humanas e das liberdades substanciais em geral podem funcionar por meio da promoção dessas liberdades distintas e inter-relacionadas” (2000, p. 25). Nesse sentido, o ProInfo seria uma tentativa de eliminar esses aspectos privativos agindo com enfoque na área educacional, que segundo Sen, são liberdades substantivas para o desenvolvimentos da condição de agentes.
Entre efetivações e capacidades, a ênfase recai na importância de se dispor de liberdade de escolher um tipo de vida e não outro [...] Contudo, a capacidade de exercer a liberdade pode depender diretamente, em grande medida, da educação recebida, e, assim sendo, o desenvolvimento do setor da educação pode ter uma conexão funcional com o enfoque da capacidade (SEN, 2000, p. 325).
De acordo com Sen, a educação como liberdade substantiva é um dos aspectos relevantes para o desenvolvimento individual, pelos quais os agentes podem escolher e ter uma visão crítica, tendo liberdade para optar por estilos de vida diferenciados. Assim, a educação seria um fator essencial para a construção individual e social de cada agente na vivencia de suas escolhas, possibilitando o desenvolvimento de suas capacidades. Está vivenciando algum tipo de privação amplia as desigualdades sociais existentes,
Por exemplo, as dificuldades que alguns grupos de pessoas enfrentam para ‘participar da vida em comunidade’ podem ser cruciais para qualquer estudo de ‘exclusão social’. A necessidade de participar da vida de uma comunidade pode induzir demandas por equipamentos modernos (SEN, 2000, p.112).
Com o advento das TICs, uma parte significativa da participação na vida social e comunitária dar-se através das redes sociais, e nesse sentido, a privação do acesso e manuseio das TICs dificultam a participação nesses canais de interação social. As sociedades contemporâneas exigem dos seus membros um conjunto de capacidades, entre as quais estão o letramento, qualificação profissional, saúde, educação, moradia, dentre outros aspectos. Com a crescente importância da utilização de aparatos tecnológicos, e a adesão às redes sociais e aplicativos de mensagens, surge mais uma variável que demonstra que a privação do acesso às TICs se constitui na sociedade contemporânea como uma nova exigência social.
Portanto, com o advento das TICs uma nova capacidade passa a ser exigida dos indivíduos para alcançar a qualidade de vida. É necessário, que os indivíduos promovam na sua vida essa efetivação, ou seja, o acesso, o domínio das novas tecnologias. Segundo Sen, “uma efetivação é uma conquista de uma pessoa: é o que ela consegue fazer ou ser e qualquer dessas efetivações reflete, por assim dizer, uma parte do estado da pessoa” (1993, p. 316).
Nesse contexto de exigência de uma nova capacidade, cria-se, por outro lado, uma nova privação, que pode ser denominada de privação digital. Onde o indivíduo está excluído digitalmente, possibilitando a falta de efetivação das exigências sociais, e não possuindo a titulação de letramento digital. Nesse sentido, um indivíduo privado de escolaridade, qualificação profissional e contemporaneamente do letramento digital sofre um tipo de
privação social. No que se refere ao processo de conexão e acesso aos novos aparatos
tecnológicos, não estar conectado consiste em uma nova forma de exclusão social, impossibilitando o desenvolvimento e a expansão das capacidades.