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5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

5.4 Crescimento profissional na empresa atual

5.4.2 As trocas de experiências no ambiente fabril

Os participantes contam as suas experiências de aprendizagem e falam sobre as trocas de conhecimento realizadas no ambiente fabril.

O participante MESTRE compartilha a sua experiência de aprendizagem:

Aprendi com o rapaz que me ensinou, eu não sei o nome, ele explicava como que tinha que fazer a limpeza, que tinha vários tipos de material. Conhecer a qualidade de qual material, o que era PP, o que era ABS, o que era PVC. Tudo isso aí ele foi ensinando e a gente foi aprendendo a conhecer os código do material e tudo. [...] Eu tinha que ser bem dedicado àquele serviço que tava fazendo.

É possível perceber na fala de MESTRE que existe uma preocupação pelo ensino dos tipos de materiais utilizados, sobre os códigos utilizados para o registro das atividades produtivas e ressalta a importância em ser “bem dedicado” em relação à atividade desenvolvida.

Do mesmo modo, CHEFT2, compartilha suas experiências e ressalta o primeiro impacto causado no momento em que foi exposto ao ambiente fabril pela primeira vez:

Lembro da imagem assim, quando o cara veio e me levou pras máquina, eu falei: “-

Meu Deus, o que é isso?” Nunca tinha visto nada igual à máquina, aquela linha de

vinte e tantos metros de comprimento, eu falei: “-Meu Deus, que é isso?” Então aquela imagem eu tenho ela bem guardada, eu falei: “-Meu, eu não sei nem por

onde começar aqui. Não sei nem onde começa e nem onde termina a máquina.” Aí

o cara chegou na máquina junto com o operador e o cara foi me ensinando.

A primeira coisa que eu fiz foi era uma peça que fazia pra geladeira chamada avental. O cara me entregou uma serra, serrinha de serrar ferro e falou: “-Você tem

que quando bater naquele pedaço de coisa lá, você serrar.” Foi o meu primeiro

serviço serrar aquela peça. Aí fiquei acho que uns três dia direto só serrando aquelas peças. Depois o cara foi me levando de, mudando de máquina, sempre ajudante. Abastecia máquina, que na época era tudo manual também, você pegava o material,

colocava no saco, colocava na máquina, colocava na estufa, embalava a peça, tudo manual.

É possível perceber também na fala de CHEFT2 que o acompanhamento do profissional mais experiente é fundamental para que o aprendiz possa desenvolver as suas atividades. Assim, no momento em que executar alguma atividade errada, o mais experiente estará por perto para orientar a maneira correta de se executar a atividade:

Toda vez que ia começar alguma coisa, eu sempre tava do lado do operador e o operador sempre falava: “-Ó, aqui faz isso, faz aquilo. Aqui serve pra calibrar

isso.” Aí o cara ia me ensinar a embalar. Aí ele me ensinava, ficava uma hora só me

ensinando como tinha que embalar a peça. Como tinha que misturar o material. E aí depois eu ia sozinho, eu ia fazer e ele ficava olhando. Que era pra ter certeza se eu tava fazendo certo. E aí foi me ensinando depois desmontar a máquina, quando eu podia pegar com luva, onde eu deveria pegar com luva, onde eu poderia pegar sem. E eu fui, tudo que o operador ia fazer, eu tava sempre do lado, olhando.

Para AJ-1, o início é marcado pelo sentimento de que os processos são muito difíceis em função da quantidade de informação contida nas atividades, porém compartilha que teve sorte por ter iniciado com um operador que além de explicar “tudo certinho” tinha também muita paciência com ele e lhe explicava e mostrava o que deveria ser feito:

Olha, no começo, começa assim é explicado, tudo, foi explicado tudo certo como se embala, como que arruma tudo. No começo você sente bastante dificuldade, porque é muita informação, mas eu ainda tive sorte com, com o operador que eu comecei a trabalhar. E explica bem, teve paciência comigo. Me explicou tudo certinho, foi bom. Ele primeiro mostrava tudo o básico, ele não explicava tudo, ele explicava o básico de: “-Ó, você presta atenção no que eu tô fazendo. Eu vou te explicar, mas

vai olhando. Que depois quem vai acabar fazendo é você.” Mas aí só o mínimo pra

você poder aprender, ele fazia e eu olhava. Seria assim, como ele ia explicando.

O participante OPT1-3, conta como foi o início de seu processo de aprendizagem:

Eu comecei na produção. Aí cheguei lá pra conhecer o pessoal, me apresentaram, o [CHETT2] me acompanhou da portaria até o setor, me apresentou pro “Beltrano”. Eu nunca tinha visto os rolos lá rebobinando, nem imaginava o que era, explicaram pra mim. Aí na época tinha, era rolo, hoje em dia é rolo de trezentos metros. Tipo, aí o Davi explicando o processo, como é que funcionava, ele falou: “-Ó.” “-OPT1-3 é

o seguinte, na hora que acender aquela lâmpada ali, vai parar o rolo, vai faltar poucos metros. Aí na hora que a lâmpada apagar, você corta o rolo, tira a amostra, coloca outro bobinador, liga, aciona e tal.”

Aí eu com a tesoura na mão, acendeu a lâmpada, já cortei, o rolo caiu tudo porque na hora que acende tem um tempo assim pra parar, pra você mandar para a outra bobinadora.

O participante OPT1-3, continuando a contar sobre seus primeiros momentos de aprendizagem, fala do nervosismo e da importância do acompanhamento e da postura dos profissionais mais experientes em relação a situações quando erros acontecem:

Eu já fiquei nervoso. Ele falou: “-Ó, pode ficar sossegado. Você tá começando

agora.” Então ele reconheceu, ele já tem muito mais experiência do que eu, porque

eu tava começando. Aí, tipo, a empresa é isso, você tem que saber reconhecer, você já tem um conhecimento, a pessoa não tem. Pra você estar onde você tá, você passou por aquilo também. Então você tem que reconhecer o erro da pessoa. E até hoje assim, eu continuo sendo assim o que eu sou mesmo, entendeu? O pessoal entra e tal, eu procuro explicar o correto, de repente eu não sei, a gente pergunta. Procura o superior e conversa e assim que funciona o serviço, entendeu?

A busca pela informação e a importância do reconhecimento de que os profissionais menos experientes cometem erros no início do processo de aprendizagem exerce um papel de fundamental importância no desenvolvimento dos operários. Cabe aos operários mais experientes a serenidade e a lembrança de que eles também foram aprendizes da mesma atividade e que em seu momento também cometeram erros, inevitáveis no processo de aprendizagem. Esta consciência fica clara na fala de OPT1-3 quando ele diz que passou pelo mesmo processo e que agora, como operador experiente, a ele cabe “reconhecer o erro da

pessoa” e explicar a maneira correta de proceder, repetindo as mesmas formas de ensino que

possibilitaram a sua aprendizagem.

Também AJ-3 descreve a importância da integração inicial no primeiro contato com o ambiente fabril:

Eu cheguei na portaria e o encarregado era o [CHEFT1], ele veio, me pegou e levou lá dentro. Aí eu acho que na época o [MESTRE] tava à noite, geralmente quando começa é o [MESTRE] que mostra a fábrica. Aí ele que me mostrou, levou, mostrou as máquina pra mim, aí eu fiquei assim, porque eu nunca tinha trabalhado. Aí ele me mostrou a fábrica, nos primeiros dia e eu ficava só olhando, sem saber o que fazer. Aos poucos aí o pessoal foi falando: “-Tem que fazer isso, fazer aquilo.”

AJ-3 também fala da importância das orientações recebidas durante o processo de aprendizagem e das instruções recebidas nos momentos em que erros são cometidos:

[...] Aí eu ficava só olhando e assim, querendo aprender, mas só esperando alguém falar o que eu tinha pra fazer. Geralmente quando você começa, você fica com alguém, junto com alguém. Então a pessoa que você fica, ela vai falando o que você tem que fazer e quando você faz alguma coisa errada ela chega e fala também.“-

Você tem que fazer isso e isso.” Dá instruções. A gente só observa [...]. Eu trabalhei

acho que com três pessoas eu acho, eu trabalhei com o OPT2-2. O OPT2-2 era um que falava muito, sabe, se você fazia certo ele falava, se fazia errado ele falava, depois comentava como é que você tava: “-Ah, você tá muito bem. Continua assim

A mesma importância dada aos momentos nos quais erros são cometidos é dada para momentos nos quais o aprendiz recebe o feedback positivo em relação ao seu desenvolvimento. Esta importância pode ser percebida na fala de AJ-3.

É possível perceber a partir das falas dos participantes que os processos de aprendizagem, interação e as relações estabelecidas no ambiente fabril não sofreram grandes alterações ao longo dos anos. Quando se analisa a fala do participante MESTRE e do participante AJ-1, o primeiro com vinte e cinco anos e o segundo com um ano e quatro meses de vínculo com a empresa, nota-se que a aprendizagem sempre inicia a partir do contato com profissionais mais experientes, os quais se responsabilizam pelo ensino das atividades aos novos trabalhadores. Esta forma de ensinar tem como ponto de partida as práticas diárias concretas do departamento de extrusão, a aprendizagem neste contexto é entendida como sendo fruto da integração entre os novos participantes e os participantes mais experientes nas trocas de informação em situações diárias de trabalho (ELKJAER, 2004).

O crescimento profissional dos participantes, até o ponto em que se encontram atualmente, segue um fluxo que passa pela aprendizagem das atividades fabris no dia-a-dia de trabalho, a partir das constantes trocas de conhecimentos e informações adquiridas com a prática e com o compartilhamento de informações entre os trabalhadores. Os erros cometidos durante o início dos processos de desenvolvimento aparecem como uma importante fonte de aprendizagens, eles servem para que o aprendiz possa diferenciar uma tarefa bem feita e correta com uma realizada fora dos padrões existentes no departamento de extrusão. A atitude dos operadores mais experientes no momento quando erros são cometidos parece, a partir dos depoimentos, estar orientada para aquela que busca fazer do erro um importante momento e ferramenta de orientação para o ensino da maneira correta de atuação.

As aprendizagens individuais são colocadas a serviço não só da empresa como também daqueles profissionais menos experientes, os quais ainda estão em processo de aprendizagem da atividade operacional. A interação e as trocas de informação e de conhecimento permeam todo o processo de desenvolvimento dos operadores. É possível perceber ao longo dos depoimentos, quando analisados em sua totalidade, que esta forma de atuação parece estar implícita na forma de atuação dos operários em todos os níveis do processo de desenvolvimento, as trocas, independentes da função exercida na atividade fabril, acompanham os operários ao longo de seu desenvolvimento estando presente tanto na fala dos ajudantes quantos dos profissionais mais experientes, dos chefes e do mestre de extrusão.

5.4.3 A observação e a importância das avaliações e acompanhamentos dos processos