5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
5.8 O “jeitinho, o macete e a gambiarra” como estratégias de aprendizagem
5.8.2 O aprendizado dos “jeitinhos, macetes e gambiarras”
O aprendizado destas estratégias acontece a partir do contato estabelecido entre os profissionais no ambiente fabril. Muitas vezes está ligada à observação, outras vezes à elaboração de estratégias a partir da reflexão e da experiência acumulada ao longo do tempo.
Falando sobre sua aprendizagem, AJ-1 conta que:
Eu descobri olhando. Porque eu fui em outra máquina, de um operador mais antigo e olhei assim: “-Ó, tem uma etiqueta lá. Pra que é aquilo?”, “-Não, não é porque a
lateral da fita tá acabando dobrando demais. Então você tem que, acaba deixando lá.”
AJ-2 conta que o dia-a-dia ensina:
Mais no dia-a-dia mesmo, que isso aí não tem em nenhum documento isso aí. O mais seria no dia-a-dia assim, às vezes você tá passando ali, tem um bico de ar ali:
“-Pô, fulano, pra que serve esse bico de ar?”, “-Ah, tal, pra dar o fluxo de material desse lado que tá mais grosso e esse lado tá mais fino.” Coloca um bico de ar ali às
vezes, se a fita é um pouco mais grossa, ela dá um pouco de rebarba, seria a borréia que eles falam. Fica em cima da fita, às vezes se ela passar, escapar aquela borréi ali, ela vai quebrar a fita. Se coloca um bico de ar, só um pouquinho, fraquinho, soprando, a rebarba sai, ela vai sair do lado, ela não vai ter que ir em cima da fita pra passar e chegar na banheira. Que a banheira ali é que dá o formato pra fita. Então é feito pra passar só a fita mesmo, se passar alguma irregularidade maior do que taria ali, vai quebrar a fita.
Para o participante OP-3, cada um trabalha com suas idéias para elaborar “engenhocas”:
Cada um trabalha a sua cabeça, da maneira mais possível. Eu já vi muita coisa assim, que o cara, esses [trecho inaudível] tá furado, ta vazando, o cara vai lá, torce um pedacinho de papelão, enfia lá dentro lá e tampa o buraco. Que tipo assim, cada um pensa de uma maneira. Aí eu acho que vem de nós mesmos. É do próprio funcionário mesmo. A gente que acaba elaborando engenhoca doida, as gambiarras aí. [...] É, então, a gente tipo assim, igual eu falo assim, às vezes eu fui, tipo puxar uma fita lá, aí tá faltando ar, não dá muita pressão lá pra pintar a fita, não dá muita pressão legal, você fala: “-Pô, se não dá pressão, aí eu vou ter que inventar uma
pressão.” Aí você olha lá, calcula mais ou menos a distância, você olha o
buraquinho que tem assim pro rolete, se eu enfiar uma madeira ali e travar ele, ele vai ficar bem pressionado pra cima, ele não vai ficar balançando, não vai faltar aquele... Você vai lá e faz um teste, você põe alguma coisa pra ver, faz um teste, deu
certo. Aí depois você vai lá corta uma outra madeirinha mais perfeita, deixa bonitinha, acerta, coloca no lugar lá e aí vai embora.
Compartilhar as estratégias adotadas com os companheiros de trabalho, é para o participantes OP-3 uma forma de contribuir para o trabalho em conjunto:
Aí o que acontece. Se você não gosta de uma pessoa e não trabalha assim, em conjunto, se o cara tá tendo aquele problema, você fala assim: “-Se vira. Dá os seus
pulo aí, se mexe.” Mas como a gente sempre trabalha, sempre em conjunto que você
sempre tá na máquina quando a pessoa vier trabalhar com você, já há algum tempo, então sempre falar pra você: “-Olha, eu botei um arzinho lá não sei aonde lá. Olha,
eu fiz um furinho não sei aonde ali.” Aí começava a ir.
Para o participante OPT2-2, a experiências e o pensar rápido contribuem para a elaboração de soluções para os problemas emergentes:
Ah, experiência. Experiência rápida, pensar rápido também. É você falar assim: “-
Quem pensa muito não casa. Quem casa não pensa.” Então no mesmo caso a
pessoa tem que ser, ser rápido, pensar rápido. Então se ficar parado, não adianta você ficar duas hora pensando: “-Será que eu faço isso ou não faço? Se eu fazer vai
dar certo ou não vai?” Melhor ele fazer logo e ver o resultado logo, do que ficar
uma hora ali, aí chega alguém lá e vai lá: “-Eu perdi uma hora de máquina e chega
o cara e...” É errado? É. Só que daí ele documenta lá, fala assim: “-Ó, vou fazer uma ordem de manutenção aqui, vou produzir esse pedido.” Eles vão programar
uma melhor hora que tenha a manutenção pra estar fazendo. É o mais viável e o mais correto. Agora quando chega, eu tô falando assim, do meu ponto de vista, tem que pensar rápido na solução. Por que um toquinho de madeira, um biquinho de ar? Porque tem que raciocinar rápido e falar assim: “-Olha, né?” Porque que o cara coloca um bico de ar, pra jogar a medida da espessura pra um lado e pro outro. Então tem que jogar um pouco pra cá pra [palavra inaudível]. Isso aí como que passa? Aí. Como que o cara descobriu? Um cara viu, o outro já viu rapidinho.
Na fala do participante CHEFT1 aparece a tentativa como uma forma de chegar aos “jeitinhos, macetes e gambiarras”:
É a tentativa, Sérgio. Vai tentando de tudo, vai mexendo, vai tentando de tudo. [...] Então são coisinhas que a gente vai mexendo, não é aquele macete só, é fazer aquilo e vai dar tal resultado. Então a gente vai mexendo aos pouquinho pra ir vendo o resultado daquilo que você fez. Então é um, não pode ter um macete X que vai resolver o problema X. Eu penso assim, é ir tentando, vai mexendo um pouquinho aqui, vai mexendo.
Aí, vamos supor, aquele dia deu certo, vou tentar hoje de novo: “-Opa, mexi naquele
dia, o mesmo lugar, vou fazer aquilo lá que deu certo.” Então aquilo lá vai entrar na
sua cabeça, aquele dia deu certo, vai. Então você sabe que quando entrar aquele artigo de novo, eu vou, já vou deixar aquele dispositivo pronto pra pôr ali, que vai dar certo. Então eu acho que é isso que o pessoal fala, é um, macete é aquela solução rápida, que você tenta pôr em prática pra resolver um problema. É uma coisa que não tá documentada, mas que é um meio que você consegue solucionar uma falha numa fita ou num perfil.
O participante CHEFT2 a experiência é um fator determinante no desenvolvimento de estratégias que dêem conta de solucionar problemas emergentes:
Eu acho que surge mais assim com a experiência. Porque se eu chegar e pegar um ajudante e falar assim: “-Ó, meu, coloca essa máquina pra rodar.” Ele vai [trecho inaudível] pra sair lá. Pegar a fita, colocar, ligar as águas, tudo, mas aí não vai chegar no sentido. Por quê? Ele não tem aquele macete que o operador tem, que eu tenho. E então vem do o tempo, com a experiência isso é, só a experiência, porque... Lógico que tem uma parte técnica da [Empresa] também que ensina, passa pra gente isso ai. Tanto que assim, já veio cara, técnico ajustar a ferramenta, que ele usa já esse macete na hora de [palavra inaudível] uma ferramenta. Que ele sabe que não funciona sem aquelas gambiarrinhas da gente.
Na Foto 14 é possível perceber uma gambiarra adotada como estratégia de solução de um problema de empenamento.
Foto 14: Ilustração de estratégia de solução de problemas.
O jeitinho, a gambiarra e o macete estão profundamente ligados a aprendizagem experiencial descrita por Kolb (1984) e a epistemologia da prática/reflexão-na-ação descrita por Schön (2007).
O desenvolvimento destas estratégias somente é possível por meio de um processo que tem início a partir das observações e das experiências concretas vividas no ambiente fabril. As experiências concretas de aprendizagem compartilhadas na atividade produtiva impulsionam a
reflexão e novas observações dos processos já com um olhar investigativo, não mais de principiante. Os processos passam a ser observados e comparados com o objetivo de identificar que possíveis diferenças e estratégias podem ser adotadas para a resolução de situações nas quais o aprendizado não dá conta de solucionar.
A conceituação dos processos passa a ser algo do domínio dos operadores, eles passam a mentalmente realizar seqüencias e a desenvolver possíveis saídas para situações ainda não enfrentadas. A partir desta conceituação abstrata, novas experimentações são postas em prática com o objetivo de encontrar saídas e soluções que dêem conta das atividades diárias de produção. Estas seqüências podem ser observadas na elaboração das estratégias de “jeitinho,
macetes e gambiarras” adotadas pelos participantes desta pesquisa.
Kolb (1984) quando propõe o ciclo de aprendizagem experiencial fala da aprendizagem como sendo um processo de criação de conhecimento a partir da transformação das experiências, esta transformação pode ser notada, em muitos momentos, nas falas dos participantes desta pesquisa, porém tem seu ápice na descrição das estratégias descritas nesta seção. Elas estão profundamente ligadas à capacidade do indivíduo de refletir e elaborar estratégias capazes de dar conta de novas elaborações, muitas delas conceituais, de possíveis soluções para os momentos quando as normas e procedimentos do departamento estudado não dão conta de solucionar problemas nos processos de produção.
A reflexão-na-ação ou a epistemologia da prática, descritas por Schön (2007), tornam possíveis as elaborações desenvolvidas pelos participantes da pesquisa. Para o autor, nesta perspectiva os aprendizes desenvolvem uma capacidade de reconhecer as situações nas quais é possível fazer uma aplicação rotineira das regras e dos procedimentos existentes a situações problemáticas específicas, contudo aprendem a ir além desta reprodução de regras e seqüências, eles são capazes de reconhecer casos de diagnósticos problemáticos nos quais é preciso buscar alternativas imediatas, novas regras e formas de realizar suas tarefas a partir de suas elaborações e reflexões.