5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
5.6 Propulsores de novos conhecimentos e de crescimento profissional
A experiência é, para os autores escolhidos no arcabouço teórico deste trabalho, um fator fundamental para os processos de aprendizagem. Todos, sem exceção, falam de seu papel e de sua importância, pois ela pode ser considerada a principal propulsora de novos conhecimentos e de desenvolvimento. Contudo durante a realização da pesquisa de campo foi possível identificar outros fatores que contribuem para que as experiências acumuladas possam se transformar em novos conhecimentos e em novas experiências. Estes fatores estão descritos no Quadro 16, o qual tem a finalidade de introduzir os elementos entendidos neste trabalho como propulsores de novo conhecimento e geradores de novos Mestres.
A presença dos fatores descritos no Quadro 16 é um fator determinante nos processos de aprendizagem e de desenvolvimento dentro das atividades fabris do setor pesquisado. A centralidade dos geradores é fundamental para compreender tanto os processos de formação inicial quanto para identificar as experiências de aprendizagem vivenciadas pelos operários até que atinjam o nível de supervisão de turnos.
P ar ti ci pa nt
e Propulsor e presente na fala do participante
Curiosidade Interesse Vontade Esforço
AJ - 1 X AJ - 2 X X AJ - 3 X X OP - 1 X X X OP - 2 X X X X OP - 3 X X X OP - 4 X X OPT1 - 1 X X OPT1 - 2 X X X OPT1 - 3 X X X X OPT2 - 1 X X X OPT2 - 2 X X X X CHEFT-1 X X X CHEFT-2 X X X X MESTRE X X X X
Quadro 16: Propulsores de novos conhecimentos e de desenvolvimento profissional Fonte: Dado de entrevista.
A curiosidade, o interesse, a vontade e o esforço estão presentes nas falas de quase todos os participantes como sendo a matéria-prima que possibilita tanto a aprendizagem quanto o crescimento dos profissionais ao longo de seu desenvolvimento funcional no setor pesquisado. Estes fatores estão ligados às atividades diárias e às posturas adotadas pelos participantes tanto nos momentos de ensino quanto nos momentos de aprendizagem. Para eles é preciso ser curioso e atento as novas situações, aos problemas emergentes e às rotinas do departamento. Ao aprendiz cabe a disponibilidade de estar em estado de prontidão para aprender, a empresa cabe a tarefa de colocar suas estratégias a serviço dos operários para que eles possam dar continuidade a seu desenvolvimento.
Os propulsores descritos no Quadro 16 estão presentes entre os participantes sempre quando eles falam de como foi o processo de aprendizagem de suas atividades. A respeito da curiosidade e do interesse o participante MESTRE, compartilha que quando da aprendizagem de um novo processo:
[...] isso aí vai muito da curiosidade da gente. Então você tem que estar procurando sempre as coisas nova que vai entrando, você vai ter que ir buscando pra aprender também.
Também o participante CHEFT-2, falando de seu desenvolvimento de ajudante a chefe de turno, aponta a curiosidade e o interesse como fatores fundamentais:
Que o PD1 é aquele que opera, o operador é aquele que opera só máquina. Depois tudo novo que entrava, eu tinha curiosidade, eu exigia que eu fosse pra aquilo, porque eu queria aprender mais coisas. E foi assim que eu fui. Quando passaram de operador, por exemplo, precisava de teste, eu queria, eu pedia pra fazer os testes. Eu falava assim: “-Olha, eu queria fazer o teste pra PD1.” Ia lá, fazia os testes, os caras vinham, fazia as prova comigo e eu mostrava na prova que eu era capaz. E assim, quando eu achava que eu tava preparado, eu pedia. De operador, de ajudante até o PD3, sempre eu pedi. Sempre eu pedi a chance. Claro, eu queria fazer prova, eu queria fazer teste pra isso. Já de operador pra encarregado, eu não pedi. [risos] Eles acharam que eu era capaz.
O interesse e a busca pela oportunidade de crescimento estão evidentes na fala de CHEFT-2. Para ele, um dos principais determinantes de seu crescimento foi a sua postura proativa em demonstrar sua capacidade e em buscar as oportunidades emergentes.
Em outro trecho de seu depoimento, CHEFT-2 novamente destaca a centralidade da experiência e da ajuda dos demais como propulsora de seu desenvolvimento:
Olha, a gente sempre teve muito treinamento. O pessoal tinha o treinamento pra explicar. E por curiosidade, você tem o documento na máquina, e você tem que ter a curiosidade de ler e entender aquilo lá. Quando você, quando tinha um documento e falava assim: “-Ah, não entendi o que é isso.” Eu ia lá e perguntava pro encarregado. Quando, às vezes o encarregado também, não sabia responder tudo, descia um diretor ou descia alguém e falava assim: “-Ó.”. O pessoal da qualidade chegava e eu falava assim: “-Ô, o que significa isso aqui?” Eles me explicava, sempre... O pessoal da qualidade também na época dava muita força pra gente. Nessa parte de você entender o que é um desenho, o que é uma instrução [...]
O participante OP-3 também enfatiza o papel da curiosidade e de seu interesse em executar as tarefas diárias:
Então é o que acontece quando você entra você quer mostrar serviço, a pessoa sempre é curioso. E eu sempre dei uma de curioso. “-Você tem que fazer uma
coisa.” Eu fazia uma coisa e além daquela coisa que fazia, pedia pra mim fazer
mais. Eu sempre... Às vezes o operador fala assim pra mim: “-Ah, tem que fazer
isso.” Eu falava assim: “-Então deixa que eu faço.” Em vez de ele fazer e eu ver ele
fazer, eu queria fazer, pra ver se eu aprendia. Então eu fui curioso, eu fui me dedicando, eu fui se esforçando. Até que o encarregado percebeu que dava, ele deu confiança pra mim, que eu podia, além daquilo que ele tava fazendo.
Para o participante OP-1 a curiosidade e o prestar atenção nos acontecimentos são fundamentais a aprendizagem e para seu desenvolvimento:
O que mais contribuiu? É a Curiosidade. Porque é assim, eu sou uma pessoa, tipo que nem eu vejo hoje, entram as pessoas aí na empresa, a pessoa só quer saber daquilo, aí é só embalar rolo e coloca na caixa. Eu não, eu já fazia assim, eu embalava rolo e ficava prestando atenção no que tava acontecendo na minha máquina e na outra do lado. Aí quando acontecia algum problema, eu ia tentar arrumar, ia tentar fazer, entendeu? Aí não conseguia, chamava um pra ajudar. É o
interesse. Eu ia bastante, olhava, curiosidade. Quando a minha máquina tava rodando alguma coisa fácil, eu ia na outra máquina e ficava de olho.
AJ-2 indica a mesma direção:
Eu sempre fui uma pessoa muito curiosa, tinha os documentos ali, às vezes quando dava um tempinho, eu olhava o que tinha que fazer. Às vezes ele falava: “-É tal
medida.” Aí eu procurava que estação ir. Às vezes sem ele mandar, eu olhava e ia
fazendo o que tinha que fazer. Tem uma pasta de documento assim, sobre a extrusão, que é a área que eu trabalho.
Sempre que dava uma folguinha, às vezes até na hora de janta eu pegava essa pasta, lia um pouco. Ele fala pra gente que é bom ler e tal, pra ter conhecimento sobre tudo aquilo que você tá fazendo. Geralmente a pessoa que trabalha com você, que o seu superior no caso, acho que superior à minha pessoa, seria um operador. No caso, na época foi o “Ciclano”... E ensinando e sempre falava o que era bom, o que era ruim, o que eu tinha que fazer, que nunca eu deveria mandar um produto ruim. Sempre com cuidado pra não sair fora das norma, da estaca que tem no documento. Fui aprendendo, sempre curioso com o que ele fazia. Quando, sempre que ele ia fazer uma coisa diferente, eu acompanhava pra ver como é que ele ia fazer, ele me falava que resultado que ia dar aquilo. Aí fui, fui aprendendo, fazendo tudo que ele pedia pra fazer.
A prontidão para aprender é apontada por Knowles (1980; 1990; 2005) como sendo um fator que surge a partir do momento que as pessoas sentem a necessidade de aprender para que elas passem a lidar de forma mais satisfatória com as atividades e tarefas do mundo-real. Também o papel da aprendizagem é visto como um processo de desenvolvimento que contribui para que se atinja o potencial máximo dentro de uma atividade, sendo que o desejo de se tornar capaz de aplicar os conhecimentos e as habilidades adquiridas são vistos como uma maneira de atuar mais efetivamente nos processos em que está envolvido.
Também Illeris (2003) fala que adultos não são inclinados e não se submetem a aprendizagens as quais eles não tenham interesse ou àquelas que não são significativas ou ainda, que não tenham importância segundo seus critérios. Quando os participantes mencionam a questão do interesse e da curiosidade eles dão elementos que corroboram os pressupostos apontados tanto por Knowles (1980; 1990; 2005) quanto por Illeris (2003).
Estes quatro fatores que emergiram no campo, atrelados às estratégias de formação adotadas pela empresa são tidos neste trabalho como os propulsores de novos conhecimentos e de crescimento profissional. Sendo que cada uma das experiências vividas no ambiente fabril que proporcionaram o desenvolvimento funcional dos operários não teriam ocorrido sem que estes propulsores estivessem presentes.
A próxima seção tem como foco descrever os geradores de um ambiente colaborativo e conseqüentemente trazer a tona questões relacionadas à geração de novos mestres dentro da atividade desenvolvida no departamento de extrusão da empresa pesquisada.